Existem alguns artistas que só poderiam ter nascido em São Paulo. Pode ser o trânsito caótico, o clima sufocante, a falta de perspectiva, a distância da praia, o pensamento recorrente de estar perdendo tempo em um lugar quando coisas interessantes acontecem em outro ou o senso de incapacidade diante do gigantismo de tudo que existe na maior cidade do país. Talvez seja tudo isso que faz com que um grupo de amigos resolva se juntar para fazer um som. Uma música que os agrade, pouco importa público, mercado, break even, o escambau.
Somente em São Paulo nasceria uma banda como o Violeta de Outono. Um grupo que bebe aos gargalos no rock progressivo, mas suas canções são curtas. Gostam de improvisos e prezam a técnica, mas posam de power trio e capricham em distorções. Esse é o Violeta, que conquistou uma aura cult no circuito musical brasileiro e até hoje nenhum artista semelhante apareceu no país.
A grande esperteza do Violeta de Outono foi justamente filtrar todas essas influências da sua maneira - do jeito brasileiro. Os caras sempre ouviram música estrangeira, mas perceberam que não fazia sentido somente repetir o que era feito lá fora. Pegaram o prog, a new wave, o pós-punk, a psicodelia, o hard rock e o então emergente estilo dark (sedimentado em bandas como Cure e Echo & The Bunnymen) e moldaram tudo ao seu jeito, cantando sempre em português.
Claudio Souza, Fabio Golfetti e Angelo Pastorello escaparam da repetição e por isso colocaram no mercado, pelo menos, um disco clássico: o homônimo, de 1987.
A capa não diz muito sobre o grupo, mas explica o som. O clima etéreo, uma sensação de melancolia. Um friozinho de outono. "Outono" que abre o disco, com um refrão triste, que diz "Canto do extremo do mundo / Espero em silêncio profundo". Está em nossos corações o frio do outono.
O sucesso do álbum também era a melancolia. O contraponto que sempre caracterizou o Violeta. Sob um riff de guitarra poderoso ouve-se "Silêncio em mim / Espelhos planos / Saídas falsas, vôo, solidão / Só esperando / Vagando em seu olhar / Tudo é deserto, estranho lugar / Você sabe que não temos tempo / Dia eterno, noite escura adentro".
Tudo no disco é movido pela paixão e pelos delírios do vocalista, guitarrista, compositor e produtor Fabio Golfetti. Uma paixão que manteve sempre fiel um séquito respeitável de fãs no Brasil - com maior destaque para São Paulo. Talvez seja essa paixão (ou delírio) que fez com que eles recusassem colocar "Outono" na abertura de uma novela global e se arriscarem a passar pela prova das paradas de sucesso populares. Temiam não agradar o grande público e, ao mesmo tempo, trair as expectativas da sempre conservadora opinião do underground. Como não se sabe o amanhã, fincaram pé no mito, que também é totalmente merecido. Esse primeiro disco do Violeta é tão bom até hoje e mantém a sua sonoridade única de forma intacta. Intacta como a presença no rol de melhores covers dos Beatles já feita em qualquer língua. O disco fecha com "Tomorrow never knows", um resumo de tudo que o Violeta teve de melhor: ousadia, criatividade e paixão pela música.
Alexandre Petillo é jornalista. Acabou de editar o livro Noite passada um disco salvou minha vida (Geração Editorial), em que 65 músicos e jornalistas falam sobre seus discos favoritos. Trabalhou no Notícias Populares, no Agora SP e criou a revista Zero. É colunista do jornal Diário da Manhã (GO) e colaborador da Folha, do Estado de S. Paulo e de diversas publicações brasileiras, como a Bravo! e a Outracoisa.
terça-feira, 23 de junho de 2009
Os 10 melhores discos de Rock-Brasil Anos 80
por Bruno Cavalcanti
Se os dez melhores discos do mês passado causou muita confusão por aqui, desta vez parti para uma vertente mais séria do rock nacional, incluíndo os grandes nomes que fizeram a cabeça de uma geração (e, na falta de qualidade de hoje em dia, continua fazendo a cabeça de mais uma de tabela!) e outros que ainda não fizeram, mas pela qualidade, um dia ainda irão fazer...
Diga-se a verdade: grande parte dos melhores discos são de Brasília, e muito se deve ao fato de terem sido, em sua maioria, apadrinhados pela EMI-Odeon, que já tinha anos de conhecimento do assunto (em solo estrangeiro), enquanto as outras gravadoras, principalmente as nacionais, se complicavam para entender o tipo de som que "surgia" por aqui, sem saber exatamente como lançar.
Não inclui aqui gente como Raul Seixas, já que nos anos 80 ele já era um mito, e seus melhores trabalhos datam da década anterior. Também deixei de lado o Lobão, pois está na lista anterior. Também evitei discos genuinamente punks, pois já fiz uma lista exatamente com esse tema. E por aí vai...
E, finalmente, qual o critério que usei na minha seleção? Na edição passada selecionei os dez discos nacionais que te fazem levantar da cadeira, arrastar o sofã, e se descabelar na sala. Já desta vez, são os discos que te levam de volta à cadeira, e te fazem escutar as músicas com atenção.
Com vocês, os 10 melhores discos de rock-Brasil anos 80 (dos que te botam pra pensar...):
Legião Urbana Legião Urbana (1985)
Que melhor forma de se começar uma lista do que com eles? Renato Russo, o melhor vocalista de toda a música brasileira, porém, com um time de músicos ordinários, e todo mundo influenciado por Joy Division, The Smiths e The Cure. O primeiro disco, que iria se chamar "O Futuro Do País" e deveria conter a faixa "Que país é esse?" (limada pela censura da própria gravadora), é um apanhado de sucessos, e foi o grande abre-alas do rock candango. As letras sobre os anseios da juventude definiria a banda como porta-voz da adolescência, alcunha que sempre irritou Renato. Muitos críticos colocariam o cantor no top dos gênios da MPB, o que não significa muito coisa...
Titãs Cabeça Dinossauro (1986)
(A ShowBizz colocou este como o maior disco de rock nacional de todos os tempos. Aí já é demais!) A banda começou com o nome Titãs do Iê-Iê-Iê, gravou dois discos de pop new wave sem tanta inspiração, e, quando tudo indicava que o conjunto estava fadado ao fracasso, lança um disco espetacular! Uma mistura única de punk rock e hard rock, que, aliada à refinada poesia concretista de Arnaldo Antunes, caracterizaria o Titãs como uma das mais originais bandas de rock do país (nos anos 80, claro, quando Arnaldo Antunes ainda estava da banda!) Aqui estão grandes clássicos como "AA UU", "Igreja", "Polícia", "Estado violência", "Bichos escrotos", e a inigualável "Porrada".
Camisa de Venus Batalhões de Estranhos (1985)
Aqui, em seu segundo disco, a maior banda de rock do país flertaria com a new wave, lançando um disco genial. A banda alcançaria as rádios com o atentado às feministas "Eu não matei Joana D'arc" e o hit do malaco injuriado "Hoje". "Cidade fantasma" é um típico ska inglês, e "Batalhões de estranhos" é a trilha sonora ideal para o livro Farenheit 451, de Ray Bradbury. O grito de guerra "Bota pra fudê!" ecoaria pelos quatro cantos do país, e a banda alcançaria sucesso sem precisar fazer playbacks em programas da tevê. Depois deste disco, a banda lançaria o primeiro disco ao vivo do Brasil, o "Viva!", um divisor-das-águas no conceito de censura fonográfica no país.
Plebe Rude O Concreto já Rachou (1985)
O melhor disco da Plebe Rude, com um nível que a banda nunca conseguiria atingir em seus trabalhos decadentes posteriores (salvo, talvez, "Nunca fomos tão brasileiros", de 1987). Com letras excelentes ("Proteção" e "Minha renda") e temas obscuros ("Sexo e karatê" - que muitos dizem se tratar de "Sexo e cocaína" - e "Seu jogo"), este disco foi uma dádiva aos jovens rebeldes de meados dos anos 80 e à EMI, que ganhou uma fortuna em cima dos caras em função de cláusulas de contrato! Deveria ser o único disco da banda, que renderia ao grupo o estigma de mito do rock nacional. Mas não, Philippe Seabra & cia. continuariam por anos, plagiando cada vez mais o Killing Joke...
Ira! Mudança de Comportamento (1985)
Edgard Scandurra foi figura das mais importantes do rock paulista. Formou o Ultraje à Rigor!, tocou no Smack, e fez grande parte das músicas das Mercenárias. Além disso, é um dos grandes guitarristas do país. Nasi também não ficou pra trás, lançando a primeira coletânea de rap do país, nos anos 80. A banda copiou o primeirão do The Jam na cara dura neste disco, e copiaria a carreira-solo de Paul Weller com o Style Council nos discos seguintes. Mas eles foram felizes, principalmente porque se transformaram na grande sensação de mod rock do país. Apesar que a música "Pobre paulista", contra a emigração de nordestinos para sampa, queimou o filme dos caras...
Legião Urbana Dois (1986)
O segundo disco do Legião Urbana deveria se chamar "Mitologia e Intuição" e seria duplo, com as músicas "Mitologia e intuição", "Faroeste caboclo", "Tédio", "Conexão amazônica", "Química", "O Grande inverno da Rússia" e "Juízo final". Mas a EMI achava que ainda não era hora e limou 50% do trabalho dos caras. A capa, o nome e a arte interna perderam o sentido sem a faixa-título, e em última hora montaram uma arte ordinária que resultou no "Dois". No ano seguinte, lançariam "Que País É Esse?", sendo que metade do disco seria composto por essas músicas, além da faixa-título que havia sido censurada do primeiro trabalho da banda. É, coisas de terceiro-mundo...
Patife Band Corredor Polonês (1987)
Umas das coisas mais esquisitas que surgiu nos anos 80. Uma mistura entre samba, funk, jazz, hard rock, punk, num andamento nervoso e ágil, com letras paranóicas e psicóticas. Toda essa insanidade não é por nada, pois a banda tinha em seu front o músico Paulo Barnabé, irmão do tresloucado e famoso Arrigo Barnabé. Ele pegou o experimentalismo "dodecafônico" do irmão mais velho e embalou num formato mais... pop! Não há destaques, pois cada música é melhor que a outra, de tão bizarras que são! Só pra se ter uma idéia da morbidez, "Tô tenso" foi regravada pelo Ratos de Porão, e "Vida de Operário", pelo Pato Fu! Enfim, essencial e obrigatório...
Capital Inicial Capital Inicial (1986)
Esse disco vendeu horrores no ano em que foi lançado, levando até o Disco de Ouro - apesar de que as músicas que emplacaram nas rádios foram justamente as de Renato Russo, feitas com os irmão Flávio e Fê Lemos ("Música urbana" e "Fátima"). As músicas compostas por Dinho Ouro Preto são as mais irrelevantes do disco. Os destaques ficam para "Psicopata", "Veraneio Vascaína" e, principalmente, para a profunda "Tudo Mal". Dinho saiu da banda no meio dos anos 90, gravou um disco solo inútil em 95, e retornou ao grupo em 98. Ele realmente cantava muito bem, mas com o tempo sua voz acabou, e a prova definitiva está no cd Acústico MTV da banda, de 2000.
Inocentes Pânico em SP (1986)
...e então os punks dos Inocentes gravaram um disco pela grandiosa Warner... E daí?!? O que importa nesse momento é que eles conseguiram lançar um bom disco em mini-Lp (formato tão em voga nos anos 80!) Não é pra menos, pois foi produzido por quem entende de música - Branco Mello e Pena Schmidt. A despeito da capa mais horrível que se tem notícia, o som é excelente, e o disco contém as melhores viradas de bateria do punk nacional! Este é o segundo disco da banda, e o mais perto que conseguiram chegar de um bom disco. Os grandes momentos ficam por conta de "Ele disse não" e "Pânico em SP". Faltou só "Desequilíbrio" para se tornar o disco definitivo da banda.
Fellini O Adeus de Felini (1985)
Fellini é aquele tipo de banda que todo mundo já ouviu falar, mas ninguém escutou. Eles sempre foram bem-vindos junto a crítica especializada, mas nunca venderam nada! Eles gravariam ainda três discos até encerrar suas atividades, em 1990, e depois retornarem, alguns anos depois. Esse primeiro disco é o mais criativo de todos, já que o veneno letárgico da banda estava sendo disseminado pela primeira vez. Depois, as coisas foram perdendo a graça, e a banda fez bem em acabar (e porque voltou?) As letras do disco são muito estranhas, e as músicas mais ainda: mistureba seminal entre rock e MPB, em temas rápidos e curtos. Original, realmente, mas pra poucos ouvidos...
Se os dez melhores discos do mês passado causou muita confusão por aqui, desta vez parti para uma vertente mais séria do rock nacional, incluíndo os grandes nomes que fizeram a cabeça de uma geração (e, na falta de qualidade de hoje em dia, continua fazendo a cabeça de mais uma de tabela!) e outros que ainda não fizeram, mas pela qualidade, um dia ainda irão fazer...
Diga-se a verdade: grande parte dos melhores discos são de Brasília, e muito se deve ao fato de terem sido, em sua maioria, apadrinhados pela EMI-Odeon, que já tinha anos de conhecimento do assunto (em solo estrangeiro), enquanto as outras gravadoras, principalmente as nacionais, se complicavam para entender o tipo de som que "surgia" por aqui, sem saber exatamente como lançar.
Não inclui aqui gente como Raul Seixas, já que nos anos 80 ele já era um mito, e seus melhores trabalhos datam da década anterior. Também deixei de lado o Lobão, pois está na lista anterior. Também evitei discos genuinamente punks, pois já fiz uma lista exatamente com esse tema. E por aí vai...
E, finalmente, qual o critério que usei na minha seleção? Na edição passada selecionei os dez discos nacionais que te fazem levantar da cadeira, arrastar o sofã, e se descabelar na sala. Já desta vez, são os discos que te levam de volta à cadeira, e te fazem escutar as músicas com atenção.
Com vocês, os 10 melhores discos de rock-Brasil anos 80 (dos que te botam pra pensar...):
Legião Urbana Legião Urbana (1985)
Que melhor forma de se começar uma lista do que com eles? Renato Russo, o melhor vocalista de toda a música brasileira, porém, com um time de músicos ordinários, e todo mundo influenciado por Joy Division, The Smiths e The Cure. O primeiro disco, que iria se chamar "O Futuro Do País" e deveria conter a faixa "Que país é esse?" (limada pela censura da própria gravadora), é um apanhado de sucessos, e foi o grande abre-alas do rock candango. As letras sobre os anseios da juventude definiria a banda como porta-voz da adolescência, alcunha que sempre irritou Renato. Muitos críticos colocariam o cantor no top dos gênios da MPB, o que não significa muito coisa...
Titãs Cabeça Dinossauro (1986)
(A ShowBizz colocou este como o maior disco de rock nacional de todos os tempos. Aí já é demais!) A banda começou com o nome Titãs do Iê-Iê-Iê, gravou dois discos de pop new wave sem tanta inspiração, e, quando tudo indicava que o conjunto estava fadado ao fracasso, lança um disco espetacular! Uma mistura única de punk rock e hard rock, que, aliada à refinada poesia concretista de Arnaldo Antunes, caracterizaria o Titãs como uma das mais originais bandas de rock do país (nos anos 80, claro, quando Arnaldo Antunes ainda estava da banda!) Aqui estão grandes clássicos como "AA UU", "Igreja", "Polícia", "Estado violência", "Bichos escrotos", e a inigualável "Porrada".
Camisa de Venus Batalhões de Estranhos (1985)
Aqui, em seu segundo disco, a maior banda de rock do país flertaria com a new wave, lançando um disco genial. A banda alcançaria as rádios com o atentado às feministas "Eu não matei Joana D'arc" e o hit do malaco injuriado "Hoje". "Cidade fantasma" é um típico ska inglês, e "Batalhões de estranhos" é a trilha sonora ideal para o livro Farenheit 451, de Ray Bradbury. O grito de guerra "Bota pra fudê!" ecoaria pelos quatro cantos do país, e a banda alcançaria sucesso sem precisar fazer playbacks em programas da tevê. Depois deste disco, a banda lançaria o primeiro disco ao vivo do Brasil, o "Viva!", um divisor-das-águas no conceito de censura fonográfica no país.
Plebe Rude O Concreto já Rachou (1985)
O melhor disco da Plebe Rude, com um nível que a banda nunca conseguiria atingir em seus trabalhos decadentes posteriores (salvo, talvez, "Nunca fomos tão brasileiros", de 1987). Com letras excelentes ("Proteção" e "Minha renda") e temas obscuros ("Sexo e karatê" - que muitos dizem se tratar de "Sexo e cocaína" - e "Seu jogo"), este disco foi uma dádiva aos jovens rebeldes de meados dos anos 80 e à EMI, que ganhou uma fortuna em cima dos caras em função de cláusulas de contrato! Deveria ser o único disco da banda, que renderia ao grupo o estigma de mito do rock nacional. Mas não, Philippe Seabra & cia. continuariam por anos, plagiando cada vez mais o Killing Joke...
Ira! Mudança de Comportamento (1985)
Edgard Scandurra foi figura das mais importantes do rock paulista. Formou o Ultraje à Rigor!, tocou no Smack, e fez grande parte das músicas das Mercenárias. Além disso, é um dos grandes guitarristas do país. Nasi também não ficou pra trás, lançando a primeira coletânea de rap do país, nos anos 80. A banda copiou o primeirão do The Jam na cara dura neste disco, e copiaria a carreira-solo de Paul Weller com o Style Council nos discos seguintes. Mas eles foram felizes, principalmente porque se transformaram na grande sensação de mod rock do país. Apesar que a música "Pobre paulista", contra a emigração de nordestinos para sampa, queimou o filme dos caras...
Legião Urbana Dois (1986)
O segundo disco do Legião Urbana deveria se chamar "Mitologia e Intuição" e seria duplo, com as músicas "Mitologia e intuição", "Faroeste caboclo", "Tédio", "Conexão amazônica", "Química", "O Grande inverno da Rússia" e "Juízo final". Mas a EMI achava que ainda não era hora e limou 50% do trabalho dos caras. A capa, o nome e a arte interna perderam o sentido sem a faixa-título, e em última hora montaram uma arte ordinária que resultou no "Dois". No ano seguinte, lançariam "Que País É Esse?", sendo que metade do disco seria composto por essas músicas, além da faixa-título que havia sido censurada do primeiro trabalho da banda. É, coisas de terceiro-mundo...
Patife Band Corredor Polonês (1987)
Umas das coisas mais esquisitas que surgiu nos anos 80. Uma mistura entre samba, funk, jazz, hard rock, punk, num andamento nervoso e ágil, com letras paranóicas e psicóticas. Toda essa insanidade não é por nada, pois a banda tinha em seu front o músico Paulo Barnabé, irmão do tresloucado e famoso Arrigo Barnabé. Ele pegou o experimentalismo "dodecafônico" do irmão mais velho e embalou num formato mais... pop! Não há destaques, pois cada música é melhor que a outra, de tão bizarras que são! Só pra se ter uma idéia da morbidez, "Tô tenso" foi regravada pelo Ratos de Porão, e "Vida de Operário", pelo Pato Fu! Enfim, essencial e obrigatório...
Capital Inicial Capital Inicial (1986)
Esse disco vendeu horrores no ano em que foi lançado, levando até o Disco de Ouro - apesar de que as músicas que emplacaram nas rádios foram justamente as de Renato Russo, feitas com os irmão Flávio e Fê Lemos ("Música urbana" e "Fátima"). As músicas compostas por Dinho Ouro Preto são as mais irrelevantes do disco. Os destaques ficam para "Psicopata", "Veraneio Vascaína" e, principalmente, para a profunda "Tudo Mal". Dinho saiu da banda no meio dos anos 90, gravou um disco solo inútil em 95, e retornou ao grupo em 98. Ele realmente cantava muito bem, mas com o tempo sua voz acabou, e a prova definitiva está no cd Acústico MTV da banda, de 2000.
Inocentes Pânico em SP (1986)
...e então os punks dos Inocentes gravaram um disco pela grandiosa Warner... E daí?!? O que importa nesse momento é que eles conseguiram lançar um bom disco em mini-Lp (formato tão em voga nos anos 80!) Não é pra menos, pois foi produzido por quem entende de música - Branco Mello e Pena Schmidt. A despeito da capa mais horrível que se tem notícia, o som é excelente, e o disco contém as melhores viradas de bateria do punk nacional! Este é o segundo disco da banda, e o mais perto que conseguiram chegar de um bom disco. Os grandes momentos ficam por conta de "Ele disse não" e "Pânico em SP". Faltou só "Desequilíbrio" para se tornar o disco definitivo da banda.
Fellini O Adeus de Felini (1985)
Fellini é aquele tipo de banda que todo mundo já ouviu falar, mas ninguém escutou. Eles sempre foram bem-vindos junto a crítica especializada, mas nunca venderam nada! Eles gravariam ainda três discos até encerrar suas atividades, em 1990, e depois retornarem, alguns anos depois. Esse primeiro disco é o mais criativo de todos, já que o veneno letárgico da banda estava sendo disseminado pela primeira vez. Depois, as coisas foram perdendo a graça, e a banda fez bem em acabar (e porque voltou?) As letras do disco são muito estranhas, e as músicas mais ainda: mistureba seminal entre rock e MPB, em temas rápidos e curtos. Original, realmente, mas pra poucos ouvidos...
segunda-feira, 22 de junho de 2009
O Rock nos Anos 80
Talvez não haja período na história do rock que tenha sido tão execrado pela crítica musical quanto os anos 80.
Apedrejamento tão grande só é possível encontrar nos arquivos de revistas e jornais, no tópico referente à corrente denominada "rock progressivo".
Entretanto, um olhar mais acurado para esse período, que nasceu da efervescência punk, mostrará mais que uma década de decadência, anos de fermentação. Como se diz por aí: "a época da muda".
Os anos 80 foram responsáveis pelo surgimento de grupos como: Smiths, R.E.M e U2. Armados de guitarra, baixo e bateria, esses grupos resgataram um pouco do puro rock.
O mínimo que se falou daqueles tempos não tão distantes, foi que o "espírito yuppie padrão" havia varrido o rock’n’roll da face da Terra. Definitivamente, a vitalidade primal do rock, consegue enfrentar (com vantagem) tendências tão díspares como o rap, hip-hop, tecno-pop, acid, industrial noise, e outras baseadas nos avanços tecnológicos e na parafernália high-tech, que envolve a produção musical atualmente.
Além disso, os anos 80 trouxeram à tona uma outra faceta: a explosão visceral do thrash metal como símbolo da violência, que grassa em todo o planeta. O barulho ensurdecedor e a velocidade supersônica, feito metáfora da vida atual, expandiu ao limite do impossível a brutalidade desencadeada por grupos como: Iron Maiden, Motorhead e Venom. Nesse contexto, o aparecimento de bandas como Metallica, Slayer, Megadeth e Anthrax, para ficar apenas no "Big Four", foi o germe do que viria a seguir nos anos 90.
Como se vê, apesar de certo descaso por parte dos críticos, não foi tão ruim assim.
Ana Flávia Miziara e Marcelo Costa
Apedrejamento tão grande só é possível encontrar nos arquivos de revistas e jornais, no tópico referente à corrente denominada "rock progressivo".
Entretanto, um olhar mais acurado para esse período, que nasceu da efervescência punk, mostrará mais que uma década de decadência, anos de fermentação. Como se diz por aí: "a época da muda".
Os anos 80 foram responsáveis pelo surgimento de grupos como: Smiths, R.E.M e U2. Armados de guitarra, baixo e bateria, esses grupos resgataram um pouco do puro rock.
O mínimo que se falou daqueles tempos não tão distantes, foi que o "espírito yuppie padrão" havia varrido o rock’n’roll da face da Terra. Definitivamente, a vitalidade primal do rock, consegue enfrentar (com vantagem) tendências tão díspares como o rap, hip-hop, tecno-pop, acid, industrial noise, e outras baseadas nos avanços tecnológicos e na parafernália high-tech, que envolve a produção musical atualmente.
Além disso, os anos 80 trouxeram à tona uma outra faceta: a explosão visceral do thrash metal como símbolo da violência, que grassa em todo o planeta. O barulho ensurdecedor e a velocidade supersônica, feito metáfora da vida atual, expandiu ao limite do impossível a brutalidade desencadeada por grupos como: Iron Maiden, Motorhead e Venom. Nesse contexto, o aparecimento de bandas como Metallica, Slayer, Megadeth e Anthrax, para ficar apenas no "Big Four", foi o germe do que viria a seguir nos anos 90.
Como se vê, apesar de certo descaso por parte dos críticos, não foi tão ruim assim.
Ana Flávia Miziara e Marcelo Costa
I Terror SP - Festival de Cinema Fantástico
O escritor americano Stephen King é um dos autores de horror mais adaptados para o cinema. Uma dessas transposições sempre aparece entre os cinco maiores clássicos do gênero: "O Iluminado", estrelado por Jack Nicholson. É com a experiência de grande manipulador de emoções que ele afirma: "Quando sentamos nas primeiras filas do cinema para ver um filme de horror, estamos desafiando o pesadelo."
MISTURAS O filme sueco "Deixe ela Entrar" (acima) cruza vampirismo e drama. Produção francesa, "Éden Log" tem um lado de ficção científica
Outro mestre do gênero, Alfred Hitchcock, ia mais longe. Dizia com seu humor britânico: "O que eu faço é filantropia. Dou às pessoas o que elas querem. E elas adoram ser aterrorizadas, pagam para ter prazer com o medo." São duas explicações possíveis para a popularidade de filmes de vampiros, monstros, mortos-vivos, fantasmas, espíritos e ameaças de todas as espécies.
Desde que o cinema começou a se aventurar no reino do medo e do sobrenatural, no início do século passado, tem sido assim. E isso explica por que, de todos os gêneros do cinema, o terror é o que mais tem festivais no mundo. A partir da quinta-feira 25 São Paulo também vai contar com o seu. Nesse dia será aberto o I Terror SP - Festival de Cinema Fantástico, que acontece nas salas do Reserva Cultural.
Com duração de uma semana, o SP Terror começa pequeno, mas ambicioso. Entre as atrações, a grande maioria inédita, estão títulos como o americano "Halloween - o Início", de Rob Zombie, refilmagem do clássico de John Carpenter sobre um psicopata encarcerado por matar familiares no Dia das Bruxas. Ele foge da prisão para ir ao encontro da irmã sobrevivente .
Outra produção aguardada vem do clima gelado da Suécia. Trata-se de "Deixe ela Entrar", de Tomas Alfredson, que acompanha a trajetória de um garoto atormentado pelos colegas de escola. Ele encontra apoio numa menina de comportamento estranho, um tipo recorrente nessas produções. Esse filme está se tornando um fenômeno de causar calafrios: foi premiado em 28 festivais, entre eles o de Sitges, na Espanha, e o de Amsterdã, na Holanda, o terceiro mais antigo do mundo, criado em 1986.
SUSPENSE O longametragem "Humanos" mostra uma expedição perdida nos Alpes
Foi como frequentadora desses eventos que a produtora cultural Betina Goldman, dona da distribuidora One Eyed Films, sediada em Londres, teve a ideia de criar o SP Terror. Representante no Exterior dos filmes de Zé do Caixão, ela conhece bem o apelo de mostras parecidas:
"A maior parte dessa produção estava indo direto para DVD, mas sempre acreditei que existe público para ela. O público é formado por jovens informatizados e urbanos e engloba tribos diferentes como metaleiros, góticos e emos." Como os fãs, o horror também não é homogêneo. O gênero ganhou força com o expressionismo alemão, cujos diretores eram obcecados por monstros - de vampiros como Nosferatu a criaturas como Golem, ser moldado de argila por um rabino.
Depois evoluiu para as vertentes psicológicas ("Psicose"), demoníacas ("O exorcista") ou apocalípticas ("Invasores de Corpos"). Mais recentemente incluiu as metamorfoses corporais de David Cronenberg, ou o mundo do invisível de M. Night Shyamalan. Segundo Betina, o festival tentou englobar esse leque: "Vamos ter até o horror político, representado pelo filme espanhol 'Os Aparecidos', e a comédia de horror com a produção argentina '36 Passos', de Adrian Bogliano". E claro, o terror brasileiro, que tenta a todo custo se livrar da pecha de ser mesmo um horror.
MISTURAS O filme sueco "Deixe ela Entrar" (acima) cruza vampirismo e drama. Produção francesa, "Éden Log" tem um lado de ficção científica
Outro mestre do gênero, Alfred Hitchcock, ia mais longe. Dizia com seu humor britânico: "O que eu faço é filantropia. Dou às pessoas o que elas querem. E elas adoram ser aterrorizadas, pagam para ter prazer com o medo." São duas explicações possíveis para a popularidade de filmes de vampiros, monstros, mortos-vivos, fantasmas, espíritos e ameaças de todas as espécies.
Desde que o cinema começou a se aventurar no reino do medo e do sobrenatural, no início do século passado, tem sido assim. E isso explica por que, de todos os gêneros do cinema, o terror é o que mais tem festivais no mundo. A partir da quinta-feira 25 São Paulo também vai contar com o seu. Nesse dia será aberto o I Terror SP - Festival de Cinema Fantástico, que acontece nas salas do Reserva Cultural.
Com duração de uma semana, o SP Terror começa pequeno, mas ambicioso. Entre as atrações, a grande maioria inédita, estão títulos como o americano "Halloween - o Início", de Rob Zombie, refilmagem do clássico de John Carpenter sobre um psicopata encarcerado por matar familiares no Dia das Bruxas. Ele foge da prisão para ir ao encontro da irmã sobrevivente .
Outra produção aguardada vem do clima gelado da Suécia. Trata-se de "Deixe ela Entrar", de Tomas Alfredson, que acompanha a trajetória de um garoto atormentado pelos colegas de escola. Ele encontra apoio numa menina de comportamento estranho, um tipo recorrente nessas produções. Esse filme está se tornando um fenômeno de causar calafrios: foi premiado em 28 festivais, entre eles o de Sitges, na Espanha, e o de Amsterdã, na Holanda, o terceiro mais antigo do mundo, criado em 1986.
SUSPENSE O longametragem "Humanos" mostra uma expedição perdida nos Alpes
Foi como frequentadora desses eventos que a produtora cultural Betina Goldman, dona da distribuidora One Eyed Films, sediada em Londres, teve a ideia de criar o SP Terror. Representante no Exterior dos filmes de Zé do Caixão, ela conhece bem o apelo de mostras parecidas:
"A maior parte dessa produção estava indo direto para DVD, mas sempre acreditei que existe público para ela. O público é formado por jovens informatizados e urbanos e engloba tribos diferentes como metaleiros, góticos e emos." Como os fãs, o horror também não é homogêneo. O gênero ganhou força com o expressionismo alemão, cujos diretores eram obcecados por monstros - de vampiros como Nosferatu a criaturas como Golem, ser moldado de argila por um rabino.
Depois evoluiu para as vertentes psicológicas ("Psicose"), demoníacas ("O exorcista") ou apocalípticas ("Invasores de Corpos"). Mais recentemente incluiu as metamorfoses corporais de David Cronenberg, ou o mundo do invisível de M. Night Shyamalan. Segundo Betina, o festival tentou englobar esse leque: "Vamos ter até o horror político, representado pelo filme espanhol 'Os Aparecidos', e a comédia de horror com a produção argentina '36 Passos', de Adrian Bogliano". E claro, o terror brasileiro, que tenta a todo custo se livrar da pecha de ser mesmo um horror.
sábado, 20 de junho de 2009
Nevermind: O disco que mudou a música
Nevermind foi o disco certo na hora certa. Todos os álbuns clássicos que moldaram o jovem fã de rock Kurt Cobain, como Never Mind the Bollocks, dos Sex Pistols, Led Zepellin II e Back in Black do AC/DC, tinham por característica trazer um hit atrás do outro. Por isso, Kurt não se imaginava guardando boas músicas para espalhar ao longo de seus futuros discos. Ele sabia que tinha nas mãos hits para os próximos 15 anos e bastava que usasse dois por álbum para manter o sucesso. Mas não foi assim que aprendeu. Despejou tudo de uma só vez e Nevermind se tornou um mito.
Conquistou críticos quarentões que já tinham ouvido de tudo e jovens espinhentos de 14 anos, que viam nas canções uma válvula de escape para a rebeldia que pedia para ser libertada. Smells Like Teen Spirit virou o hino dessa geração. E Nevermind continua ganhando o topo de listas de melhores discos de todos os tempos. Come as you are, Lithium, Drain you, Polly, Something in the Way e todas as outras permanecem atuais, apesar de seus quase 20 anos. O rock se dividiu entre antes e depois de Nevermind.
E uma música, em especial, foi o ponto de partida da revolução. Smells Like Teen Spirit não nasceu por acaso. Kurt tinha a pretensão de escrever o maior hit pop de todos os tempos. Tocou o riff de quatro acordes e o baixista Krist Novoselic o considerou ridículo. Mesmo assim, o líder do Nirvana fez com que a banda tocasse o embrião da música durante uma hora. Para a melodia, seguiu a fórmula que o grupo usou em vários clássicos da breve carreira: o início calmo, os instrumentos numa crescente e o refrão rasgado e explosivo – um clichê batido, mas eficiente.
Conquistou críticos quarentões que já tinham ouvido de tudo e jovens espinhentos de 14 anos, que viam nas canções uma válvula de escape para a rebeldia que pedia para ser libertada. Smells Like Teen Spirit virou o hino dessa geração. E Nevermind continua ganhando o topo de listas de melhores discos de todos os tempos. Come as you are, Lithium, Drain you, Polly, Something in the Way e todas as outras permanecem atuais, apesar de seus quase 20 anos. O rock se dividiu entre antes e depois de Nevermind.
E uma música, em especial, foi o ponto de partida da revolução. Smells Like Teen Spirit não nasceu por acaso. Kurt tinha a pretensão de escrever o maior hit pop de todos os tempos. Tocou o riff de quatro acordes e o baixista Krist Novoselic o considerou ridículo. Mesmo assim, o líder do Nirvana fez com que a banda tocasse o embrião da música durante uma hora. Para a melodia, seguiu a fórmula que o grupo usou em vários clássicos da breve carreira: o início calmo, os instrumentos numa crescente e o refrão rasgado e explosivo – um clichê batido, mas eficiente.
O último mito do Rock
Um gênio atormentado e um viciado que não consegue suportar a pressão. As faces se encontram diante do espelho e percebem que o rosto é o mesmo. A vida não faz mais sentido. Ele já fez o que devia e já não acredita mais naquilo. É melhor queimar de uma vez do que desaparecer aos poucos. Essa última frase é de Neil Young, que a imortalizou nos versos de Hey, Hey, My, My. Mas foi na carta de suicídio de Kurt Cobain que ela fez mais sentido.
Há 15 anos morria o último mito do rock. O líder do Nirvana, a banda que com um disco mudou a música para sempre, preferiu uma bala na cabeça aos 27 anos do que a ilusão de viver sem mais ter convicção sobre o que estava fazendo. Kurt Donald Cobain nasceu em fevereiro de 1967 no Estado americano de Washington. Foi em Seattle que ganhou a dimensão que nunca buscou, mas teve a partir do momento que mostrou seu trabalho ao mundo. O vocalista, guitarrista e compositor é o responsável por uma das obras-primas da música, o divisor de águas Nevermind, de 1991.
Depois desse disco o underground passou a ganhar atenção e a maneira como o rock era visto mudou. Drogado, impulsivo, avesso a regras, Cobain não foi o que se chama de um bom exemplo. Mesmo assim, deixou um legado tão grande quanto poderia imaginar quando tocou os primeiro acordes de Smells Like Teen Spirit à guitarra. Elevado à condição de ídolo maior, de gênio, salvador, não resistiu muito tempo – ou não quis resistir.
Até hoje ainda há fãs que não acreditam que o que ocorreu naquele 5 de abril de 1994 tenha sido suicídio. As suspeitas recaem sobre a viúva, Courtney Love. Considerada por muitos uma espécie de “Yono Ono do grunge”, a cantora é apontada, entre outras coisas, como a responsável pelo recrudescimento do consumo de drogas ingeridas por Kurt, pelo distanciamento dele com os amigos e, logicamente, também pelo fim da banda.
Anos antes de morrer, Kurt definiu seu início e fim, sua vida e obra, em uma frase: “Punk é liberdade musical. É dizer, fazer e tocar o que você quer. E nirvana significa liberdade do sofrimento, da dor e do mundo exterior”. O jovem músico, que dizia se entupir de heroína para mascarar as dores crônicas de estômago que o faziam cuspir sangue no palco, buscava o nirvana. O Magazine traz um pouco da conturbada existência de Kurt Cobain para explicar o mito. Depois dele, não surgiu outro assim.
Há 15 anos morria o último mito do rock. O líder do Nirvana, a banda que com um disco mudou a música para sempre, preferiu uma bala na cabeça aos 27 anos do que a ilusão de viver sem mais ter convicção sobre o que estava fazendo. Kurt Donald Cobain nasceu em fevereiro de 1967 no Estado americano de Washington. Foi em Seattle que ganhou a dimensão que nunca buscou, mas teve a partir do momento que mostrou seu trabalho ao mundo. O vocalista, guitarrista e compositor é o responsável por uma das obras-primas da música, o divisor de águas Nevermind, de 1991.
Depois desse disco o underground passou a ganhar atenção e a maneira como o rock era visto mudou. Drogado, impulsivo, avesso a regras, Cobain não foi o que se chama de um bom exemplo. Mesmo assim, deixou um legado tão grande quanto poderia imaginar quando tocou os primeiro acordes de Smells Like Teen Spirit à guitarra. Elevado à condição de ídolo maior, de gênio, salvador, não resistiu muito tempo – ou não quis resistir.
Até hoje ainda há fãs que não acreditam que o que ocorreu naquele 5 de abril de 1994 tenha sido suicídio. As suspeitas recaem sobre a viúva, Courtney Love. Considerada por muitos uma espécie de “Yono Ono do grunge”, a cantora é apontada, entre outras coisas, como a responsável pelo recrudescimento do consumo de drogas ingeridas por Kurt, pelo distanciamento dele com os amigos e, logicamente, também pelo fim da banda.
Anos antes de morrer, Kurt definiu seu início e fim, sua vida e obra, em uma frase: “Punk é liberdade musical. É dizer, fazer e tocar o que você quer. E nirvana significa liberdade do sofrimento, da dor e do mundo exterior”. O jovem músico, que dizia se entupir de heroína para mascarar as dores crônicas de estômago que o faziam cuspir sangue no palco, buscava o nirvana. O Magazine traz um pouco da conturbada existência de Kurt Cobain para explicar o mito. Depois dele, não surgiu outro assim.
Mensagem da Mãe Maria
Amados filhos,
No amor incondicional, a Luz se faz presente para que todos os reinos busquem, através da devoção, a chama maior da misericórdia. Nesses momentos de transformações, onde a ancoragem da energia da chama gêmea traz a luz crística da devoção, que possais preencher vossos corpos em amor incondicional e verdade, certeza de reequilíbrio e paz, harmonia e co-criação para que todos os reinos possam ser o resplandecer energético da verdade e possam assim conceber as forças máximas do reequilíbrio para que a paz planetária seja uma realidade rapidamente em todos vós.
Visualizeis o planeta Terra transpassado em uma grande rosa rubi/dourada para que todos os reinos em consciência possam atingir a chama da devoção e possam se abrir para este momento único, no arauto de uma única manifestação, na força que se ergue diante da maestria, na iluminação das forças dos patamares máximos da bem-aventurança para que todos co-criem uma nova realidade dimensional através da luz da glória excelsa de Deus-Pai-Mãe sobre a Terra.
Visualizeis em vossos corações físicos uma grande rosa rubi/dourada que se expande, se expande, se expande cada vez mais tornando-se maior que vossos corpos tridimensionais para que possais reverenciar vossos poder e a vossa onipotência, a vossa luz e a vossa bem-aventurança, o vosso equilíbrio e a conclamação de vossos ideais para que todos os seres retornem e possam assim continuarem concebendo as forças máximas de iluminação e paz através da consciência unificada.
A chama da alma gêmea está acessa há éons e mais uma vez retorna na energia maior da irradiação que traz a sintonia do poder único do amor incondicional e da liberdade para que todos os seres, na chama da intuição, possam atrair o potencial energético, a força que conclama, a irradiação que complementa a plenitude para que todos manifestem a força da abundância e do poder através da luz crística e da responsabilidade em servir a chama da própria alma.
Todos os seres na Terra vieram para que pudessem continuar sendo concebidos pela Luz maior do Altíssimo. Através da Onipresença da chama de Deus-Pai-Mãe, a força de Alfa e Ômega se manifesta através do dia-a-dia. Hoje a humanidade ouve a voz interna e busca através da lei da intuição o autoperdão, a misericórdia e a devoção, a chama da vida e a força que se faz presente para que todos se ergam através do direcionamento na energia maior do poder através da luz crística universal.
Amados filhos, que possais conclamar todas as forças elementais da natureza, todas as chamas maiores de consciência, todas as forças da vida, para que todos os reinos reorganizem suas vidas e possam buscar - através da consciência unificada - o discernimento, a luz e possam qualificar o momentum onde todos deverão atingir assim a maestria na força da esfera maior do amor incondicional e da liberdade plena.
Visualizeis vossos lares transpassados em uma grande rosa rubi-dourada e que todos os reinos encarnados readministrem o poder e possam ativar a consciência maior através da luz.
Amor e Luz,
Eu Sou Vossa Maria, Vossa Mãe.
No amor incondicional, a Luz se faz presente para que todos os reinos busquem, através da devoção, a chama maior da misericórdia. Nesses momentos de transformações, onde a ancoragem da energia da chama gêmea traz a luz crística da devoção, que possais preencher vossos corpos em amor incondicional e verdade, certeza de reequilíbrio e paz, harmonia e co-criação para que todos os reinos possam ser o resplandecer energético da verdade e possam assim conceber as forças máximas do reequilíbrio para que a paz planetária seja uma realidade rapidamente em todos vós.
Visualizeis o planeta Terra transpassado em uma grande rosa rubi/dourada para que todos os reinos em consciência possam atingir a chama da devoção e possam se abrir para este momento único, no arauto de uma única manifestação, na força que se ergue diante da maestria, na iluminação das forças dos patamares máximos da bem-aventurança para que todos co-criem uma nova realidade dimensional através da luz da glória excelsa de Deus-Pai-Mãe sobre a Terra.
Visualizeis em vossos corações físicos uma grande rosa rubi/dourada que se expande, se expande, se expande cada vez mais tornando-se maior que vossos corpos tridimensionais para que possais reverenciar vossos poder e a vossa onipotência, a vossa luz e a vossa bem-aventurança, o vosso equilíbrio e a conclamação de vossos ideais para que todos os seres retornem e possam assim continuarem concebendo as forças máximas de iluminação e paz através da consciência unificada.
A chama da alma gêmea está acessa há éons e mais uma vez retorna na energia maior da irradiação que traz a sintonia do poder único do amor incondicional e da liberdade para que todos os seres, na chama da intuição, possam atrair o potencial energético, a força que conclama, a irradiação que complementa a plenitude para que todos manifestem a força da abundância e do poder através da luz crística e da responsabilidade em servir a chama da própria alma.
Todos os seres na Terra vieram para que pudessem continuar sendo concebidos pela Luz maior do Altíssimo. Através da Onipresença da chama de Deus-Pai-Mãe, a força de Alfa e Ômega se manifesta através do dia-a-dia. Hoje a humanidade ouve a voz interna e busca através da lei da intuição o autoperdão, a misericórdia e a devoção, a chama da vida e a força que se faz presente para que todos se ergam através do direcionamento na energia maior do poder através da luz crística universal.
Amados filhos, que possais conclamar todas as forças elementais da natureza, todas as chamas maiores de consciência, todas as forças da vida, para que todos os reinos reorganizem suas vidas e possam buscar - através da consciência unificada - o discernimento, a luz e possam qualificar o momentum onde todos deverão atingir assim a maestria na força da esfera maior do amor incondicional e da liberdade plena.
Visualizeis vossos lares transpassados em uma grande rosa rubi-dourada e que todos os reinos encarnados readministrem o poder e possam ativar a consciência maior através da luz.
Amor e Luz,
Eu Sou Vossa Maria, Vossa Mãe.
sexta-feira, 12 de junho de 2009
Paixão bilionária
Consultoria avalia impacto da Copa de 2014 no PIB brasileiro
Evento também se mostra grande em proporções econômicas, gerando lucros e desenvolvimento interno
SÃO PAULO - "Mais que um evento esportivo, a Copa do Mundo é um evento econômico", esta foi a frase utilizada pelos economistas da Pezco PesquisaConsultoria para abrir seu relatório que revela, em números, as vantagens de sediar um evento de tamanha dimensão.
Não é por acaso que a cada quatro anos vemos uma lista de países se candidatando para serem sede da próxima Copa do Mundo. Mais do que poder ter os melhores jogadores atuando em campos nacionais, o evento proporciona ao país-sede uma oportunidade de realização de lucros associada ao desenvolvimento interno. Sendo assim, em que o Brasil deverá sair ganhando na Copa de 2014?
Segundo os economistas, existem dois vieses para responder a esta questão, ambos são utilizados para se ter uma ideia do PIB (Produto Interno Bruto) que é gerado em um evento de grandes dimensões como a Copa.
Lado bom e ruim do evento
A primeira forma, mais otimista, pode ser calculada através da multiplicação dos valores esperados para o número de visitantes, da permanência de cada um em cada local e do seu gasto médio. Fazendo este cálculo seria possível chegar ao montante que equivale ao impacto econômico direto no País, entretanto, há também que se fazer uma avaliação dos impactos indiretos, usando procedimentos relativamente mais complexos, como a matriz de insumo-produto, ou métodos de equilíbrio geral computável.
Mesmo sendo uma conta que demonstra resultados muito próximos à realidade, os economistas ressaltam que devem ser considerados também os benefícios intangíveis, de mensuração mais complicada. Logo, também há uma outra possibilidade de se chegar aos números, que considera os fatos de forma retrospectiva, permitindo uma avaliação mais realista, portanto, um tanto mais pessimista frente ao viés anterior.
Nesta forma, deve-se avaliar minuciosamente detalhes do fluxo de dinheiro que chega ao País com o evento. Por exemplo, parte dos recursos gastos na Copa é deslocada de outros setores econômicos ou beneficiam outras nações, como no caso de licenças e importações.
Números
Falando em números, os economistas calcularam os valores baseados nos dois cenários, o mais otimista e o mais pessimista, e chegaram a duas cifras pouco diferentes, porém, bastante expressivas.
No primeiro cenário, considerando a multiplicação dos valores e quantidades estimados, obteve-se o montante de R$ 373,69 bilhões para o PIB mensal de julho de 2014. Para o ano, a estimativa chega a R$ 4,605 trilhões.
No segundo, por sua vez, a cifra alcançou os R$ 347,01 bilhões para julho e R$ 4,277 trilhões para 2014, levando-se em conta a análise detalhada dos impactos indiretos na economia brasileira.
A consultoria destaca ainda que o cálculo dos pesos sazonais que embasou a projeção do PIB mensal de julho de 2014 foi realizado no software SAS, pelo pesquisador Mario Antonio Margarido.
Como gastar?
Segundo a Pezco, os resultados tendem a ser menos espetaculares quando calculados de acordo com a segunda forma de análise. Isso indicaria que muitas vezes, o otimismo inicial acaba não sendo traduzido nos resultados esperados. Sendo assim, os benefícios que um evento como a Copa do Mundo podem trazer ao Brasil são inúmeros, mas caberá ao País saber como utilizar corretamente as cifras bilionárias que serão geradas em 2014.
"Por isto, é preciso encarar com realismo os benefícios da Copa, para que estes não sepercam em projetos superestimados. Desta forma, o Brasil poderá ganhar muito coma Copa. Restará torcer, apaixonadamente, para que, além disto, o Brasil tambémganhe a Copa. Em casa.", concluíram os economistas.
InfoMoney
11 junho 2009
Evento também se mostra grande em proporções econômicas, gerando lucros e desenvolvimento interno
SÃO PAULO - "Mais que um evento esportivo, a Copa do Mundo é um evento econômico", esta foi a frase utilizada pelos economistas da Pezco PesquisaConsultoria para abrir seu relatório que revela, em números, as vantagens de sediar um evento de tamanha dimensão.
Não é por acaso que a cada quatro anos vemos uma lista de países se candidatando para serem sede da próxima Copa do Mundo. Mais do que poder ter os melhores jogadores atuando em campos nacionais, o evento proporciona ao país-sede uma oportunidade de realização de lucros associada ao desenvolvimento interno. Sendo assim, em que o Brasil deverá sair ganhando na Copa de 2014?
Segundo os economistas, existem dois vieses para responder a esta questão, ambos são utilizados para se ter uma ideia do PIB (Produto Interno Bruto) que é gerado em um evento de grandes dimensões como a Copa.
Lado bom e ruim do evento
A primeira forma, mais otimista, pode ser calculada através da multiplicação dos valores esperados para o número de visitantes, da permanência de cada um em cada local e do seu gasto médio. Fazendo este cálculo seria possível chegar ao montante que equivale ao impacto econômico direto no País, entretanto, há também que se fazer uma avaliação dos impactos indiretos, usando procedimentos relativamente mais complexos, como a matriz de insumo-produto, ou métodos de equilíbrio geral computável.
Mesmo sendo uma conta que demonstra resultados muito próximos à realidade, os economistas ressaltam que devem ser considerados também os benefícios intangíveis, de mensuração mais complicada. Logo, também há uma outra possibilidade de se chegar aos números, que considera os fatos de forma retrospectiva, permitindo uma avaliação mais realista, portanto, um tanto mais pessimista frente ao viés anterior.
Nesta forma, deve-se avaliar minuciosamente detalhes do fluxo de dinheiro que chega ao País com o evento. Por exemplo, parte dos recursos gastos na Copa é deslocada de outros setores econômicos ou beneficiam outras nações, como no caso de licenças e importações.
Números
Falando em números, os economistas calcularam os valores baseados nos dois cenários, o mais otimista e o mais pessimista, e chegaram a duas cifras pouco diferentes, porém, bastante expressivas.
No primeiro cenário, considerando a multiplicação dos valores e quantidades estimados, obteve-se o montante de R$ 373,69 bilhões para o PIB mensal de julho de 2014. Para o ano, a estimativa chega a R$ 4,605 trilhões.
No segundo, por sua vez, a cifra alcançou os R$ 347,01 bilhões para julho e R$ 4,277 trilhões para 2014, levando-se em conta a análise detalhada dos impactos indiretos na economia brasileira.
A consultoria destaca ainda que o cálculo dos pesos sazonais que embasou a projeção do PIB mensal de julho de 2014 foi realizado no software SAS, pelo pesquisador Mario Antonio Margarido.
Como gastar?
Segundo a Pezco, os resultados tendem a ser menos espetaculares quando calculados de acordo com a segunda forma de análise. Isso indicaria que muitas vezes, o otimismo inicial acaba não sendo traduzido nos resultados esperados. Sendo assim, os benefícios que um evento como a Copa do Mundo podem trazer ao Brasil são inúmeros, mas caberá ao País saber como utilizar corretamente as cifras bilionárias que serão geradas em 2014.
"Por isto, é preciso encarar com realismo os benefícios da Copa, para que estes não sepercam em projetos superestimados. Desta forma, o Brasil poderá ganhar muito coma Copa. Restará torcer, apaixonadamente, para que, além disto, o Brasil tambémganhe a Copa. Em casa.", concluíram os economistas.
InfoMoney
11 junho 2009
terça-feira, 9 de junho de 2009
UMA CRÔNICA EMOCIONANTE DE ELIANE BRUM
Na segunda-feira, 1° de junho, peguei um táxi para me levar à redação da ÉPOCA, em São Paulo. Eu vou cedo, para fazer a última revisão no texto desta coluna, antes de enviar para a equipe de ÉPOCA online botar no ar. Depois, participo da reunião de pauta das 10h, onde são tomadas as primeiras decisões sobre a próxima edição da revista. O taxista estava nervoso. “Você viu o que aconteceu? Um avião desapareceu”. Foi assim que eu soube da tragédia do Air France. O motorista precisava compartilhar seu horror com alguém. Relatou-me todos os detalhes que ouvira pelo rádio até chegar ao prédio da Editora Globo. Meia-hora de trânsito paulistano depois, eu sabia que mais de duas centenas de pessoas haviam sumido em algum momento depois das 23h15 do domingo, 31/5. Para além disso, só havia incerteza.
Logo depois da minha chegada à redação, o diretor de ÉPOCA, Helio Gurovitz, me alcançou. “Você vai para o Rio”. Eu pedi uns minutos para terminar a coluna, levantei e fui. De avião, claro. Na hora, é sempre um misto de excitação e de medo, pelo menos para mim. Excitação porque eu sou, como diz minha família, um “bicho repórter”. Eu sofro se não estou onde as coisas estão acontecendo. E medo porque eu sabia que teria de entrar em contato com uma dor sem nome. Cheguei à sucursal do Rio no início da tarde e comecei a localizar os parentes das vítimas, junto com outros quatro colegas. Como você fala com alguém que acabou de saber que o corpo da pessoa que mais amava possivelmente está em algum lugar do oceano Atlântico?
Tarde da noite, no hotel, meu marido me ligou. “Como você está?”. Eu disse: “Estou bem. Acho que depois de 20 anos de reportagem já consigo lidar melhor com isso”. É incrível como a gente, por mais que se esforce, se conhece menos do que gostaria. Na semana que passou eu estava particularmente muito iludida comigo mesma. Naquela noite dormi mal. Tive pesadelos, depois insônia. Uma rotina que se repetiu pelas noites seguintes. Só agora, uma semana depois, acordo da primeira noite sem sonhos ruins.
Peguei um táxi para me levar à sucursal logo cedo, na terça-feira. O Rio de Janeiro continuava lindo, as pessoas caminhavam ao sol, sem ligar para o vento de junho. Na minha cabeça, ecoava sem parar a frase de Joan Didion, uma brilhante jornalista americana: "A vida se transforma rapidamente, a vida muda num instante, você senta para jantar e a vida que você conhecia acaba de repente". Joan a escreveu no livro “O Ano do Pensamento Mágico” (Nova Fronteira, 2006), em que elabora, com uma grande reportagem, o luto pela perda repentina de seu marido, vítima de um acidente coronariano fulminante.
Eu tinha um longo caminho até a sucursal. O trânsito do Rio não chega perto do caos de São Paulo, mas ainda assim é difícil. Concentrei-me em pensar no que eu estava sentindo, em entender aquela noite de sonhos ruins, em me entender naquele dia que começava. Por que eu, que tanto me interessava pela tragédia humana, rejeitava tanto aquela cobertura (para além da dificuldade óbvia, claro)? Porque é um vazio, concluí. Ainda que o piloto possa ter errado ou o avião ter algum problema mecânico, não há desejo ali. No assassinato, alguém quis matar, ainda que por um segundo. Na guerra, há intenção. Nas mortes desejadas por alguém há drama humano. Há cobiça, há inveja, há maldade, há até – ou principalmente – paixão. Mas na queda de um avião, se ela não for causada por uma bomba, não. Pelo menos era o que eu acreditava nesse ponto de minhas divagações.
Tragédias como essa comovem tanto as pessoas todas, mesmo as que não tiveram nenhuma perda, mesmo as que nunca voaram, porque esse tipo de fatalidade nos coloca em contato com aquilo que mais tememos: a certeza de que pouco controlamos o nosso destino. É provável que quase todos os passageiros do voo 447 estivessem perfeitamente saudáveis, nem remotamente ameaçados por uma doença. Apesar de toda a empáfia, de conseguirmos até mesmo cortar os céus com asas de metal, a verdade é que toda a certeza de controle não passa de ilusão. Nossa vida muda em um segundo, para o bem e para o mal, sem que pouco ou nada possamos fazer para evitar.
Saiba mais
* »Leia as colunas anteriores de Eliane Brum
Suspeito que a impossibilidade de controlar o que realmente importa, como a nossa vida, é o que mais tememos em nossa época, toda ela supostamente dominada por uma parafernália eletrônica que nos parece tão precisa, tão poderosa, tão segura. Tão nossa. Descubro então, antes de chegar à Cinelândia, no centro do Rio, que esse talvez seja o maior de todos os dramas humanos.
Catástrofes como a do voo 447 confrontam-nos de imediato com nossa verdade mais profunda: não controlamos quase nada do que é essencial, menos ainda a morte. E sobre isso há pouco a dizer. Ninguém desejou a morte de 228 pessoas que carregavam seus sonhos para Paris. Aconteceu. É esse o vazio com que temos de lidar. A culpa não é do outro, como nos assassinatos que mobilizam a opinião pública. Não há um psicopata tão supostamente diferente de nós que podemos acreditar que estamos a salvo de toda loucura. Não há leis nem cadeia para isso. Não há como evitar por completo falhas e erros. Ainda que a causa seja um erro humano ou uma falha mecânica, isso sempre poderá um dia acontecer. Não há como prever ou escapar totalmente das tempestades da vida. E é esse o tipo de calamidade que mais nos evoca a tragédia maior, aquela com a qual já nascemos, que é a certeza da inevitabilidade da morte.
No caso do voo 447 não podemos nos iludir de que não seremos afetados, de que o drama está longe de nós – ou mais perto do outro. Não. Essa é a fatalidade que pertence à verdade essencial da vida de cada homem, de cada mulher. Não há controle. A vida muda rápido, a vida muda num instante, você senta na poltrona de um avião para uma viagem que você planejou nos mínimos detalhes e a vida que você conhecia acaba de repente.
Pensando tudo isso que agora escrevo, comecei a chorar no banco de trás do táxi. Não um choro convulso, mas lágrimas lentas e intermitentes. Eu sofria pela perda de todas as óperas que o maestro Sílvio Barbato não comporia, pelas frases musicais que jamais seriam criadas; pelas descobertas que o cientista Octavio Augusto Ceva Antunes deixaria de fazer numa área tão importante como a dos medicamentos contra o HIV; pelo que Deise Possamai jamais saberia sobre si mesma, porque a viagem que fazia à Itália em busca de suas raízes nunca seria completada; pelos amigos que Adriana Van Sluijs, que nasceu para ser amiga de alguém, não teria. Percebi naquele instante, enquanto olhava para o mar do Rio de Janeiro, o quanto o mundo acabara de ficar mais pobre por todas as vidas que deixaram de existir de repente.
E pelo menos umas duas lágrimas abriram um rastro na camada de protetor solar que cobria meu rosto, por todas as possibilidades perdidas por aqueles que tiveram o curso da vida alterado, ainda que indiretamente, pela queda do avião da Air France. Como o rumo da existência havia mudado de forma abrupta. Até mesmo para mim. Pensei na semana que eu tinha planejado com tantos detalhes. Que consequências teria essa mudança de curso na minha vida, a longo prazo? Que acontecimentos em cadeia foram suspensos e que outra série foi acionada porque eu estaria no Rio e não em São Paulo, fazendo isso e não aquilo? Eu nunca saberia, já que não há como saber o que poderia ter sido. Mal podemos ter a pretensão de saber o que é.
Quando cheguei à sucursal, liguei para o amigo de um dos passageiros do voo 447. Perguntei a ele se achava que uma das filhas gostaria de falar sobre o pai para o perfil que eu estava fazendo. Ele disse: “Não vou perguntar isso a elas, eu tenho de ser sensível. Sei que vocês, jornalistas, não têm sensibilidade nessa hora”. Minha garganta arranhou. Por ela emergiu uma resposta malcriada, mas tive a sensatez de prendê-la ainda no esôfago. “Nós, repórteres”, como as pessoas gostam de dizer, convivemos com as certezas alheias a nosso respeito. As pessoas parecem sempre saber quem somos e o que sentimos: ou seja, somos seres sedentos de sangue, sem nenhuma espécie de limite, prontos a desrespeitar a dor de alguém para dar uma notícia sensacionalista. É verdade que alguns são assim mesmo. Mas também é verdade que a maioria dos jornalistas que conheço não tem nada a ver com esse perfil. Naquele momento, minha colega Martha Mendonça enchia os olhos de lágrimas ao desligar o telefone depois de tentar falar com a mãe de uma vítima. Escreveu um post no blog Mulher 7X7: “Jornalista não pode chorar?”
Contar a história das tragédias faz com que nós, jornalistas, entremos em contato com uma frequência não desejada com aquilo que a maioria tenta esquecer para conseguir tocar a vida. Nos meus primeiros 11 anos de reportagem, trabalhei no jornal Zero Hora, de Porto Alegre. Lá, eu era conhecida como uma repórter competente para “contar histórias humanas”. Isso fazia com que sempre fosse escolhida para cobrir todo o tipo de drama, de assassinatos a acidentes. Num ano, a RBS, grupo ao qual pertence o jornal, fez uma campanha para reduzir os acidentes de trânsito. Foi determinado então que todos os choques com vítimas fatais virassem notícia no jornal. Todos.
Era eu a primeira a ser escalada. Minha missão era contar quem eram aquelas pessoas cuja vida acabara de se interrompida, quais eram seus sonhos suspensos num átimo, além de todos os detalhes das circunstâncias que as levaram até ali. Lembro que à meia-noite de um domingo eu me vi numa estrada, a 200 quilômetros de Porto Alegre, diante dos corpos carbonizados de quatro crianças no banco traseiro de um carro. Comecei a perceber o óbvio: cada pessoa, rica ou pobre, velha ou jovem, preta ou branca, era movida por um sonho, todas elas estavam indo fazer alguma coisa quando morreram de repente, todas tinham alguma circunstância que poderia ter evitado que estivessem naquele carro, naquele quilômetro, naquele exato instante. E que todos os pequenos detalhes do cotidiano que, em circunstâncias normais sequer são registrados na memória, ganham sentido e relevância na fatalidade. Alguns até mesmo se revestem de premonição.
Logo comecei a detectar todos esses detalhes e fluxos de acontecimentos na minha própria vida. Cada acontecimento trivial tinha potencial de profecia. Se eu perdia um ônibus, eu já imaginava o lide (como é chamado o primeiro parágrafo de uma matéria): “Eliane Brum correu para pegar o ônibus tal, mas as portas se fecharam diante do seu rosto. Ela ainda gritou para o motorista, mas ele seguiu. Um passageiro tentou fazê-lo parar, mas...” É claro que o ônibus seguinte explodiu. Ou, ao contrário, era esse que tinha explodido. As circunstâncias que levaram à morte poderiam ser as mesmas que levaram a escapar da morte. “Eliane Brum correu para pegar o ônibus tal, mas as portas e fecharam diante do seu rosto. Ela ainda gritou para o motorista, mas ele seguiu. Ela xingou mentalmente sua mãe, que havia telefonado na hora em que ela abria a porta de casa para sair. Mas, não fosse o telefonema, ela hoje estaria morta...”.
Ou seja. Sempre pode ser qualquer coisa. E foi isso que começou a me apavorar. Eu cobria um acidente por semana. No mínimo. Fiquei tão aterrorizada com a total falta de controle sobre o destino, o meu e o de todos os outros, que passei a narrar mentalmente reportagens sobre a minha vida. Ou morte. Tudo o que eu fazia – ou deixava de fazer – soava como premonição. No segundo seguinte, a depender de alguma decisão prosaica, eu poderia estar morta ou escapar da morte. Mas como saber? Era um mergulho radical demais na essência da matéria da vida. Porque é exatamente assim: num segundo podemos estar mortos ou escapar da tragédia, e isso é determinado por uma decisão circunstancial, banal. Como mostraram todas as reportagens com aqueles que embarcaram no voo 447 – e com aqueles que “quase” embarcaram.
Mas pensar o tempo todo que podemos estar mortos daqui a um segundo nos impede de viver. Não lembro como lidei com isso para não ficar totalmente paranóica. Revivi essas lembranças agora, ao narrar as histórias dos passageiros do avião. Me surpreendi, no voo de volta, escrevendo mentalmente um lide. Nele, a repórter que cobrira a tragédia do Air France morrera na queda do avião que a levava de volta para casa. Em seguida lembrei que o mesmo imponderável que poderia me levar à morte repentina já havia me levado ao encontro de um grande amor. O mesmo imponderável foi o que determinou a combinação genética que fez de mim o que sou. É feita da mesma matéria a tragédia e o grande encontro, o melhor e o pior, o começo e o fim da vida. Exausta, acabei dormindo.
Tempos atrás vivi a pior turbulência que passei a bordo de um avião, do tipo que a bagagem despenca na nossa cabeça e as pessoas gritam. Rapidamente fiz um balanço da minha trajetória. Pensei: “Eu não quero morrer agora. Mas vivi intensamente a minha vida até aqui”. E eu sentia isso profundamente, nos ossos.
Quando a turbulência passou, mas ainda assim o avião não pôde descer porque os ventos eram muito fortes, e tivemos de voltar porque o combustível poderia ser insuficiente, peguei um pedaço de papel e escrevi para a minha família: “Não se preocupem. Eu vivi intensamente a minha vida. Vivam as suas vidas e sejam felizes, porque eu fui”. Eu queria libertá-los da minha perda trágica, mas também queria me libertar para a morte sem tragédia. Guardei esse pedaço de papel junto com os documentos, na esperança de que fossem encontrados. Mas o avião conseguiu abastecer, os ventos cessaram e eu cheguei em casa pronta para mais vida, outras reportagens, novos medos.
Agora, no instante em que escrevo, cruza pela minha cabeça o pensamento: “E se essa coluna for premonitória?”. Mas logo essa ideia vai embora, levada pelo cheiro absurdamente delicioso do cordeiro que o João prepara na cozinha para o almoço de domingo, receita secreta e imbatível que alegra prosaicamente nossas vidas.
Espero que, se deu tempo para pensar em algo ao perceber a iminência da morte, cada um dos passageiros do voo 447 tenha lembrado de que viveu intensamente a sua vida. E que essa certeza possa tornar não mais fácil, mas menos pesado, o luto de quem os amava.
Só consegui contar suas histórias porque percebi que era disso que se tratava: a memória de uma vida que valeu a pena, seja por pequenos ou grandes feitos, tanto faz. O que escrevemos ao contar a trajetória dos passageiros do voo 447 não foi uma narrativa de morte, mas de vida. É só a vida que pode dar algum conforto na morte, é só a vida que dá sentido à morte. E é só isso que torna possível ser repórter e fazer bem o nosso trabalho diante de uma dor impossível de alcançar por palavras.
Diante da consciência da falta de controle sobre nosso destino, só nos resta viver bem a nossa vida enquanto ela existir. E isso não é pouco.
ELIANE BRUM Direto para o Mensageiro da Realidade
ebrum@edglobo.com.br
Repórter especial de ÉPOCA, integra a equipe da revista desde 2000. Ganhou mais de 40 prêmios nacionais e internacionais de Jornalismo. É autora de A Vida Que Ninguém Vê (Arquipélago Editorial, Prêmio Jabuti 2007) e O Olho da Rua (Globo)
Logo depois da minha chegada à redação, o diretor de ÉPOCA, Helio Gurovitz, me alcançou. “Você vai para o Rio”. Eu pedi uns minutos para terminar a coluna, levantei e fui. De avião, claro. Na hora, é sempre um misto de excitação e de medo, pelo menos para mim. Excitação porque eu sou, como diz minha família, um “bicho repórter”. Eu sofro se não estou onde as coisas estão acontecendo. E medo porque eu sabia que teria de entrar em contato com uma dor sem nome. Cheguei à sucursal do Rio no início da tarde e comecei a localizar os parentes das vítimas, junto com outros quatro colegas. Como você fala com alguém que acabou de saber que o corpo da pessoa que mais amava possivelmente está em algum lugar do oceano Atlântico?
Tarde da noite, no hotel, meu marido me ligou. “Como você está?”. Eu disse: “Estou bem. Acho que depois de 20 anos de reportagem já consigo lidar melhor com isso”. É incrível como a gente, por mais que se esforce, se conhece menos do que gostaria. Na semana que passou eu estava particularmente muito iludida comigo mesma. Naquela noite dormi mal. Tive pesadelos, depois insônia. Uma rotina que se repetiu pelas noites seguintes. Só agora, uma semana depois, acordo da primeira noite sem sonhos ruins.
Peguei um táxi para me levar à sucursal logo cedo, na terça-feira. O Rio de Janeiro continuava lindo, as pessoas caminhavam ao sol, sem ligar para o vento de junho. Na minha cabeça, ecoava sem parar a frase de Joan Didion, uma brilhante jornalista americana: "A vida se transforma rapidamente, a vida muda num instante, você senta para jantar e a vida que você conhecia acaba de repente". Joan a escreveu no livro “O Ano do Pensamento Mágico” (Nova Fronteira, 2006), em que elabora, com uma grande reportagem, o luto pela perda repentina de seu marido, vítima de um acidente coronariano fulminante.
Eu tinha um longo caminho até a sucursal. O trânsito do Rio não chega perto do caos de São Paulo, mas ainda assim é difícil. Concentrei-me em pensar no que eu estava sentindo, em entender aquela noite de sonhos ruins, em me entender naquele dia que começava. Por que eu, que tanto me interessava pela tragédia humana, rejeitava tanto aquela cobertura (para além da dificuldade óbvia, claro)? Porque é um vazio, concluí. Ainda que o piloto possa ter errado ou o avião ter algum problema mecânico, não há desejo ali. No assassinato, alguém quis matar, ainda que por um segundo. Na guerra, há intenção. Nas mortes desejadas por alguém há drama humano. Há cobiça, há inveja, há maldade, há até – ou principalmente – paixão. Mas na queda de um avião, se ela não for causada por uma bomba, não. Pelo menos era o que eu acreditava nesse ponto de minhas divagações.
Tragédias como essa comovem tanto as pessoas todas, mesmo as que não tiveram nenhuma perda, mesmo as que nunca voaram, porque esse tipo de fatalidade nos coloca em contato com aquilo que mais tememos: a certeza de que pouco controlamos o nosso destino. É provável que quase todos os passageiros do voo 447 estivessem perfeitamente saudáveis, nem remotamente ameaçados por uma doença. Apesar de toda a empáfia, de conseguirmos até mesmo cortar os céus com asas de metal, a verdade é que toda a certeza de controle não passa de ilusão. Nossa vida muda em um segundo, para o bem e para o mal, sem que pouco ou nada possamos fazer para evitar.
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* »Leia as colunas anteriores de Eliane Brum
Suspeito que a impossibilidade de controlar o que realmente importa, como a nossa vida, é o que mais tememos em nossa época, toda ela supostamente dominada por uma parafernália eletrônica que nos parece tão precisa, tão poderosa, tão segura. Tão nossa. Descubro então, antes de chegar à Cinelândia, no centro do Rio, que esse talvez seja o maior de todos os dramas humanos.
Catástrofes como a do voo 447 confrontam-nos de imediato com nossa verdade mais profunda: não controlamos quase nada do que é essencial, menos ainda a morte. E sobre isso há pouco a dizer. Ninguém desejou a morte de 228 pessoas que carregavam seus sonhos para Paris. Aconteceu. É esse o vazio com que temos de lidar. A culpa não é do outro, como nos assassinatos que mobilizam a opinião pública. Não há um psicopata tão supostamente diferente de nós que podemos acreditar que estamos a salvo de toda loucura. Não há leis nem cadeia para isso. Não há como evitar por completo falhas e erros. Ainda que a causa seja um erro humano ou uma falha mecânica, isso sempre poderá um dia acontecer. Não há como prever ou escapar totalmente das tempestades da vida. E é esse o tipo de calamidade que mais nos evoca a tragédia maior, aquela com a qual já nascemos, que é a certeza da inevitabilidade da morte.
No caso do voo 447 não podemos nos iludir de que não seremos afetados, de que o drama está longe de nós – ou mais perto do outro. Não. Essa é a fatalidade que pertence à verdade essencial da vida de cada homem, de cada mulher. Não há controle. A vida muda rápido, a vida muda num instante, você senta na poltrona de um avião para uma viagem que você planejou nos mínimos detalhes e a vida que você conhecia acaba de repente.
Pensando tudo isso que agora escrevo, comecei a chorar no banco de trás do táxi. Não um choro convulso, mas lágrimas lentas e intermitentes. Eu sofria pela perda de todas as óperas que o maestro Sílvio Barbato não comporia, pelas frases musicais que jamais seriam criadas; pelas descobertas que o cientista Octavio Augusto Ceva Antunes deixaria de fazer numa área tão importante como a dos medicamentos contra o HIV; pelo que Deise Possamai jamais saberia sobre si mesma, porque a viagem que fazia à Itália em busca de suas raízes nunca seria completada; pelos amigos que Adriana Van Sluijs, que nasceu para ser amiga de alguém, não teria. Percebi naquele instante, enquanto olhava para o mar do Rio de Janeiro, o quanto o mundo acabara de ficar mais pobre por todas as vidas que deixaram de existir de repente.
E pelo menos umas duas lágrimas abriram um rastro na camada de protetor solar que cobria meu rosto, por todas as possibilidades perdidas por aqueles que tiveram o curso da vida alterado, ainda que indiretamente, pela queda do avião da Air France. Como o rumo da existência havia mudado de forma abrupta. Até mesmo para mim. Pensei na semana que eu tinha planejado com tantos detalhes. Que consequências teria essa mudança de curso na minha vida, a longo prazo? Que acontecimentos em cadeia foram suspensos e que outra série foi acionada porque eu estaria no Rio e não em São Paulo, fazendo isso e não aquilo? Eu nunca saberia, já que não há como saber o que poderia ter sido. Mal podemos ter a pretensão de saber o que é.
Quando cheguei à sucursal, liguei para o amigo de um dos passageiros do voo 447. Perguntei a ele se achava que uma das filhas gostaria de falar sobre o pai para o perfil que eu estava fazendo. Ele disse: “Não vou perguntar isso a elas, eu tenho de ser sensível. Sei que vocês, jornalistas, não têm sensibilidade nessa hora”. Minha garganta arranhou. Por ela emergiu uma resposta malcriada, mas tive a sensatez de prendê-la ainda no esôfago. “Nós, repórteres”, como as pessoas gostam de dizer, convivemos com as certezas alheias a nosso respeito. As pessoas parecem sempre saber quem somos e o que sentimos: ou seja, somos seres sedentos de sangue, sem nenhuma espécie de limite, prontos a desrespeitar a dor de alguém para dar uma notícia sensacionalista. É verdade que alguns são assim mesmo. Mas também é verdade que a maioria dos jornalistas que conheço não tem nada a ver com esse perfil. Naquele momento, minha colega Martha Mendonça enchia os olhos de lágrimas ao desligar o telefone depois de tentar falar com a mãe de uma vítima. Escreveu um post no blog Mulher 7X7: “Jornalista não pode chorar?”
Contar a história das tragédias faz com que nós, jornalistas, entremos em contato com uma frequência não desejada com aquilo que a maioria tenta esquecer para conseguir tocar a vida. Nos meus primeiros 11 anos de reportagem, trabalhei no jornal Zero Hora, de Porto Alegre. Lá, eu era conhecida como uma repórter competente para “contar histórias humanas”. Isso fazia com que sempre fosse escolhida para cobrir todo o tipo de drama, de assassinatos a acidentes. Num ano, a RBS, grupo ao qual pertence o jornal, fez uma campanha para reduzir os acidentes de trânsito. Foi determinado então que todos os choques com vítimas fatais virassem notícia no jornal. Todos.
Era eu a primeira a ser escalada. Minha missão era contar quem eram aquelas pessoas cuja vida acabara de se interrompida, quais eram seus sonhos suspensos num átimo, além de todos os detalhes das circunstâncias que as levaram até ali. Lembro que à meia-noite de um domingo eu me vi numa estrada, a 200 quilômetros de Porto Alegre, diante dos corpos carbonizados de quatro crianças no banco traseiro de um carro. Comecei a perceber o óbvio: cada pessoa, rica ou pobre, velha ou jovem, preta ou branca, era movida por um sonho, todas elas estavam indo fazer alguma coisa quando morreram de repente, todas tinham alguma circunstância que poderia ter evitado que estivessem naquele carro, naquele quilômetro, naquele exato instante. E que todos os pequenos detalhes do cotidiano que, em circunstâncias normais sequer são registrados na memória, ganham sentido e relevância na fatalidade. Alguns até mesmo se revestem de premonição.
Logo comecei a detectar todos esses detalhes e fluxos de acontecimentos na minha própria vida. Cada acontecimento trivial tinha potencial de profecia. Se eu perdia um ônibus, eu já imaginava o lide (como é chamado o primeiro parágrafo de uma matéria): “Eliane Brum correu para pegar o ônibus tal, mas as portas se fecharam diante do seu rosto. Ela ainda gritou para o motorista, mas ele seguiu. Um passageiro tentou fazê-lo parar, mas...” É claro que o ônibus seguinte explodiu. Ou, ao contrário, era esse que tinha explodido. As circunstâncias que levaram à morte poderiam ser as mesmas que levaram a escapar da morte. “Eliane Brum correu para pegar o ônibus tal, mas as portas e fecharam diante do seu rosto. Ela ainda gritou para o motorista, mas ele seguiu. Ela xingou mentalmente sua mãe, que havia telefonado na hora em que ela abria a porta de casa para sair. Mas, não fosse o telefonema, ela hoje estaria morta...”.
Ou seja. Sempre pode ser qualquer coisa. E foi isso que começou a me apavorar. Eu cobria um acidente por semana. No mínimo. Fiquei tão aterrorizada com a total falta de controle sobre o destino, o meu e o de todos os outros, que passei a narrar mentalmente reportagens sobre a minha vida. Ou morte. Tudo o que eu fazia – ou deixava de fazer – soava como premonição. No segundo seguinte, a depender de alguma decisão prosaica, eu poderia estar morta ou escapar da morte. Mas como saber? Era um mergulho radical demais na essência da matéria da vida. Porque é exatamente assim: num segundo podemos estar mortos ou escapar da tragédia, e isso é determinado por uma decisão circunstancial, banal. Como mostraram todas as reportagens com aqueles que embarcaram no voo 447 – e com aqueles que “quase” embarcaram.
Mas pensar o tempo todo que podemos estar mortos daqui a um segundo nos impede de viver. Não lembro como lidei com isso para não ficar totalmente paranóica. Revivi essas lembranças agora, ao narrar as histórias dos passageiros do avião. Me surpreendi, no voo de volta, escrevendo mentalmente um lide. Nele, a repórter que cobrira a tragédia do Air France morrera na queda do avião que a levava de volta para casa. Em seguida lembrei que o mesmo imponderável que poderia me levar à morte repentina já havia me levado ao encontro de um grande amor. O mesmo imponderável foi o que determinou a combinação genética que fez de mim o que sou. É feita da mesma matéria a tragédia e o grande encontro, o melhor e o pior, o começo e o fim da vida. Exausta, acabei dormindo.
Tempos atrás vivi a pior turbulência que passei a bordo de um avião, do tipo que a bagagem despenca na nossa cabeça e as pessoas gritam. Rapidamente fiz um balanço da minha trajetória. Pensei: “Eu não quero morrer agora. Mas vivi intensamente a minha vida até aqui”. E eu sentia isso profundamente, nos ossos.
Quando a turbulência passou, mas ainda assim o avião não pôde descer porque os ventos eram muito fortes, e tivemos de voltar porque o combustível poderia ser insuficiente, peguei um pedaço de papel e escrevi para a minha família: “Não se preocupem. Eu vivi intensamente a minha vida. Vivam as suas vidas e sejam felizes, porque eu fui”. Eu queria libertá-los da minha perda trágica, mas também queria me libertar para a morte sem tragédia. Guardei esse pedaço de papel junto com os documentos, na esperança de que fossem encontrados. Mas o avião conseguiu abastecer, os ventos cessaram e eu cheguei em casa pronta para mais vida, outras reportagens, novos medos.
Agora, no instante em que escrevo, cruza pela minha cabeça o pensamento: “E se essa coluna for premonitória?”. Mas logo essa ideia vai embora, levada pelo cheiro absurdamente delicioso do cordeiro que o João prepara na cozinha para o almoço de domingo, receita secreta e imbatível que alegra prosaicamente nossas vidas.
Espero que, se deu tempo para pensar em algo ao perceber a iminência da morte, cada um dos passageiros do voo 447 tenha lembrado de que viveu intensamente a sua vida. E que essa certeza possa tornar não mais fácil, mas menos pesado, o luto de quem os amava.
Só consegui contar suas histórias porque percebi que era disso que se tratava: a memória de uma vida que valeu a pena, seja por pequenos ou grandes feitos, tanto faz. O que escrevemos ao contar a trajetória dos passageiros do voo 447 não foi uma narrativa de morte, mas de vida. É só a vida que pode dar algum conforto na morte, é só a vida que dá sentido à morte. E é só isso que torna possível ser repórter e fazer bem o nosso trabalho diante de uma dor impossível de alcançar por palavras.
Diante da consciência da falta de controle sobre nosso destino, só nos resta viver bem a nossa vida enquanto ela existir. E isso não é pouco.
ELIANE BRUM Direto para o Mensageiro da Realidade
ebrum@edglobo.com.br
Repórter especial de ÉPOCA, integra a equipe da revista desde 2000. Ganhou mais de 40 prêmios nacionais e internacionais de Jornalismo. É autora de A Vida Que Ninguém Vê (Arquipélago Editorial, Prêmio Jabuti 2007) e O Olho da Rua (Globo)
O DIA DOS NAMORADOS
Juliana Politti nos mandou mais um presente para festejar o Dia dos Namorados: Beatles.
Em muitas partes do mundo o dia dos namorados é chamado Dia de São Valentim, em referência a um santo católico excluído pela Igreja em 1969 por conta de controvérsias em torno da sua existência. Transformada em lenda, a história de Valentim conta a saga de um bispo romano que desobedeceu a ordem do imperador Claúdio II. O soberano proibiu a realização de casamentos, acreditando que, desta forma, consegueriria arregimentar um legião de soldados que, sem laços familiares ou afetivos, formariam um poderoso e destemido exército. O bispo Valentim continuou celebrando casamentos em segredo. Uma vez descoberto, foi preso e condenado à morte. Nos seus anos de prisão, recebeu homenagens de jovens que diziam ainda acreditar no amor e se apaixonou pela filha do carcereiro, uma jovem cega. São Valetim foi decapitado em 270 d.C, mas sua história, a despeito da falta de registros confiáveis, resistiu ao tempo e foi uma das primeiras a inspirar a manutenção da concepção do amor romântico no Ocidente. Livros, filmes, peças teatrais e obras de arte de variadas espécies fomentaram o imaginário coletivo em torno dessa idéia. Nem os “garotos de Liverpool” resistiram. “And I Love Her” foi escrita por Paulo McCartney em 1964.
Paulo Moreira Leite, da revista Época direto para o Mensageiro da Realidade
Em muitas partes do mundo o dia dos namorados é chamado Dia de São Valentim, em referência a um santo católico excluído pela Igreja em 1969 por conta de controvérsias em torno da sua existência. Transformada em lenda, a história de Valentim conta a saga de um bispo romano que desobedeceu a ordem do imperador Claúdio II. O soberano proibiu a realização de casamentos, acreditando que, desta forma, consegueriria arregimentar um legião de soldados que, sem laços familiares ou afetivos, formariam um poderoso e destemido exército. O bispo Valentim continuou celebrando casamentos em segredo. Uma vez descoberto, foi preso e condenado à morte. Nos seus anos de prisão, recebeu homenagens de jovens que diziam ainda acreditar no amor e se apaixonou pela filha do carcereiro, uma jovem cega. São Valetim foi decapitado em 270 d.C, mas sua história, a despeito da falta de registros confiáveis, resistiu ao tempo e foi uma das primeiras a inspirar a manutenção da concepção do amor romântico no Ocidente. Livros, filmes, peças teatrais e obras de arte de variadas espécies fomentaram o imaginário coletivo em torno dessa idéia. Nem os “garotos de Liverpool” resistiram. “And I Love Her” foi escrita por Paulo McCartney em 1964.
Paulo Moreira Leite, da revista Época direto para o Mensageiro da Realidade
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