quarta-feira, 15 de outubro de 2008

POESIAS INÉDITAS DE NELSON SILVA


TEMPO VELHO
O tempo velho está passando
Carcomido, lança um libelo
Contra o arrebol do novo acontecimento.

O tempo velho
Unge um mar de mistério
Faz-se perpétuo
Embora não viceje em mais do que um inverno
Na fúria pulsante do advento.

Ademais, o que é o tempo
Esse velho senhor
Sentado em seu templo
Invisível no ar
Sábio em seu intento:
Levar flores às pradarias
Neve e ranger de portas aos conventos
Sem grandes constrangimentos.

Que horror infligiu, sutil,
Em outras eras, às primaveras
E ao remanso das tardes quentes.

Poderia ser calmaria
Tornou-se porém, valente.

O tempo velho se esquiva
E viva o velho tempo.


Nelson Silva

terça-feira, 14 de outubro de 2008

NO CALDEIRÃO DA IDOLATRIA


Não fareis para vós outros ídolos, nem vos levantareis imagem de escultura nem coluna, nem poreis pedra com figuras na vossa terra, para vos inclinardes a ela; porque eu sou o SENHOR, vosso Deus" (Levítico 26.1).


Enquanto estacionávamos nosso carro ao lado do hotel, na cidade do Juazeiro do Norte, observávamos que apesar das fortes chuvas de janeiro que tinham caído nos últimos dias, o céu azul-anil com nuvens brancas não tardou em reaparecer no Cariri cearense. Após o check-in, subimos para o primeiro andar e, ainda no corredor, caminhando em direção ao nosso apartamento, pude avistá-la ao longe, branquinha, lá no topo da Serra do Horto: era a estátua do renomado padre cuja vida estudei nas últimas quarenta madrugadas. Esse homem foi o motivo de minha esposa e eu termos viajado 615 quilômetros, do Recife até o Juazeiro do Norte, onde passamos quatro dias pesquisando junto aos seus romeiros e investigando in loco um pouco mais sobre a vida desse "santo padre do Juazeiro".
Esse sacerdote católico era de baixa estatura, pele clara, olhos azuis, acompanhado sempre de seu cajado, usava uma batina preta e um chapéu redondo da mesma cor. "Foi detentor de um fortíssimo carisma, sobre as massas populares".[1]
Quem é esse homem-ídolo? Ninguém menos do que o padre Cícero Romão Batista (1844-1934), mais conhecido por estas paragens como o "Meu Padrinho Padre Cícero", carinhosamente chamado de Padim Ciço, uma das pessoas que mais marcaram a história e a vida do povo nordestino.
Juazeiro do Norte: Santuário da Idolatria ao Padre Cícero
"Viveu menino pobre às margens do rio salgadinho, cresceu na ribanceira o homem santo de Cristo. Seu nome percorre veredas no sertão pernambucano, Alagoas, Paraíba, Sergipe e Bahia. O Ceará exalta o nome do seu filho mais querido. No altar dos santos divinos é um deus-menino jamais esquecido. E quem é ele? E quem é ele? É o padre Cícero Romão, do Juazeiro do Norte, meu padim, sua bênção!". (Trecho da canção "Deus Menino", Chico Silva).
Localizada a cerca de 540 quilômetros ao sul de Fortaleza, Juazeiro do Norte é a segunda maior cidade do Ceará, com cerca de 250 mil habitantes. Sustenta-se do turismo religioso que atrai centenas de milhares de fiéis do "santificado" Padre Cícero. Durante algumas épocas festivas, a cidade chega a receber dois milhões de romeiros, vindos de todo o Brasil, e alguns do exterior, só para ver, fazer um pedido ou adorar esse mito nordestino.
Na residência que foi do Padim Ciço, hoje transformada em Museu Padre Cícero, nossa guia turística contou-nos que o pároco costumava relatar para seus amigos mais íntimos que a cidade do Juazeiro do Norte era santa e enfeitiçada. Dizia que, caso houvesse uma guerra, um manto cobriria toda a cidade, deixando-a invisível aos olhos dos inimigos que nunca conseguiriam atacá-la. Pensei: Puxa, essa coisa de manto deixando objetos e pessoas invisíveis é típico da série Harry Potter.
Diariamente, igrejas, monumentos, praças, procissões, novenas, peregrinações e missas louvam, agradam e idolatram o "Meu Padim Padre Ciço."
Apesar da Igreja Católica não considerar o Padre Cícero Romão Batista um santo, ela não censura os milhões de devotos que o consideram um santo homem de Deus. Baseado nas missas que assisti, posso afirmar que a Igreja Católica em Juazeiro não apenas apóia, mas incentiva os romeiros a venerarem o Padrinho. Qualquer político que ousar dizer que o Padre Cícero não é santo, dificilmente será bem votado na região do Cariri.
As romarias ao Padre Cícero são vantajosas para todos. A Igreja Católica, os empresários, os políticos e todos os setores da sociedade juazeirense são beneficiados pelo grande fluxo de dinheiro trazido pelos consumidores desse sacerdote que literalmente abarrotam as ruas e praças dessa cidade.
A imagem do Padim Ciço é reverenciada e está à venda em cada esquina, seja em suvenires, fotografias, chaveiros, chapéus, esteiras, chinelos, jarros, pôsteres, cerâmicas, talhas, bolsas, broches e muitas outras bugigangas. O artesanato é uma das principais atividades do Juazeiro e também gira em torno do Padre Cícero. Encontra-se imagens do padre em miniaturas e até em tamanho natural. Elas estão em pé ao lado das portas de entrada de centenas de residências e de muitas lojas, sem mencionar as de cera no Museu Vivo.
Até os telefones públicos têm um formato de um cajado com um chapéu redondo preto. Certa noite, durante o jantar, um dos gerentes do hotel nos revelou que naquele estabelecimento havia sessenta funcionários fixos e quase trinta porcento deles tinham como seu primeiro nome Cícero ou Cícera.
Em Juazeiro do Norte até os telefones públicos lembram o seu "santo padre".
O Padre Cícero está presente em cada recôndito desta cidade, semelhante a O Grande Irmão, do clássico 1984, de George Orwell, a observar todos os habitantes.
Também vimos algumas estátuas do Padrinho Ciço espalhadas pela cidade: no alto da Serra do Horto há uma monumental, toda em concreto, de 25 metros de altura, sendo 17 metros de estátua e 8 metros de pedestal. Na então Praça Almirante Alexandrino de Alencar, hoje Praça Padre Cícero, na região central da cidade, há uma em bronze em tamanho natural (inaugurada pelo próprio Padre Cícero em 1925).[2] Na frente da Igreja de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, onde o pároco está sepultado, há mais uma protegida por uma caixa de alvenaria com vidro na frente. No jardim diante do edifício Balcão SEBRAE há mais outra em tamanho natural...
Estátua do Padre Cícero em bronze, na Praça Padre Cícero. No quesito de monumento à sua própria pessoa, o Padre Cícero é o Saparmurad Niazov do Cariri.
No quesito de quantidade de monumentos a uma só pessoa, Juazeiro do Norte é a Ashgabat* brasileira e o Padre Cícero Romão Batista é o Saparmurad Niazov do Cariri. E no quesito de devoção cega ao seu líder espiritual, Juazeiro do Norte é a Teerã nordestina.
Vendo a cidade entregue à idolatria, pudemos sentir um pouquinho do incômodo que o apóstolo Paulo sentiu ao visitar Atenas (Atos 17.16).
As Romarias ao Juazeiro do Norte
"Do mundo inteiro vão pro Juazeiro milhares de romeiros fazer sua oração. Vão pulsar em fé e ajoelhar aos pés do Padre Cícero Romão. [...] Meu Padim Ciço, meu Padim Ciço, somos romeiros pedindo a sua bênção. Meu Padim Ciço, meu Padim Ciço, somos romeiros sofredores do sertão". (Trecho da canção "A Bênção do Padre Cícero", J. Farias e Banda e do poeta compositor João Caetano).
São várias as romarias feitas a essa "Meca" nordestina durante o ano, porém o maior fluxo de romeiros concentra-se nos meses de fevereiro, setembro e novembro. A grande leva de romeiros chega a Juazeiro de ônibus ou de caminhão pau-de-arara. Os miseráveis vêm a pé mesmo, pelas estradas esburacadas, engolindo poeira e sendo escaldados pelo sol quente do sertão. Durante as romarias, os fiéis alugam "ranchos", que são pequenos quartos com banheiro em que cabem duas pequenas camas.
Uma parte de uma das "salas de promessas". Devotos deixam objetos como gratidão ao Padrinho por bênçãos alcançadas.
A quase totalidade dos romeiros e dos juazeirenses é composta de um povo pobre e economicamente sofrido, mas que acredita que dias melhores virão e, baseado nessa esperança, continua vivendo. Esperam um milagre do Padrinho. Muitos deixam tudo o que lhes resta aos pés do Padre Cícero. "A Casa dos Milagres", ao lado da Igreja do Perpétuo Socorro, e as "Salas das Promessas" no Museu Padre Cícero são alguns dos pontos turísticos da cidade. Lá observei vários objetos e centenas de retratos deixados pelos devotos como agradecimento por supostas bênçãos alcançadas através do Padre Cícero Romão.
Muitos foram ao Juazeiro e decidiram nunca mais retornar para suas casas. Vivem hoje amontoados em barracos nas periferias dessa cidade, mas felizes por estarem próximos do seu "santo padre". Muitos humildes retornam para seus lares famintos. Dentro de suas geladeiras quebradas encontram-se caçarolas vazias, sobre os fogões a lenha apenas panelas de feijão requentado, e seus filhos estão desnutridos. Mas no próximo semestre retornarão ao Juazeiro. São esses fiéis ingênuos que alimentam e enchem os bolsos daqueles que promovem a "indústria" de Padre Cícero.
A Romaria a Nossa Senhora das Candeias
"Bendita e louvada seja a luz que mais alumeia. Valei-me meu Padrinho Ciço e a Mãe de Deus das Candeias. [...] os romeiros vão chegando e é noite de lua cheia". (Trecho da canção "Bendita e Louvada Seja", Clemilda).
Estivemos em Juazeiro durante as festividades e a romaria de Nossa Senhora das Candeias (também conhecida como Nossa Senhora da Purificação).
Uma mulher coloca temporariamente seu chapéu na cabeça de uma estátua do Padre Cícero. A outra coloca flores na mão da estátua.
A tradição judaica ensina que o filho varão deveria ser levado ao templo quarenta dias após o seu nascimento. Já a mãe, por ser considerada impura após o parto, tinha de passar por uma cerimônia de purificação. Nas procissões católicas, o povo leva candeias ou luzeiros ou velas acesas para supostamente iluminar esse trajeto de Maria levando Jesus ao templo.
Na verdade, essa história de candeias acompanhando a procissão tem sua origem na mitologia romana, mas foi incorporada à celebração da Purificação de Maria pelo Papa Gelásio I (que foi papa de 492 a 496).
A mitologia romana relata que Proserpina, filha de Ceres, foi raptada por Plutão para ser sua companheira no império dos mortos (inferno). O povo romano da Antigüidade recordava essa cena levando luzeiros para supostamente acompanhar o sofrimento da Mãe Ceres até às portas do inferno.
O dia de Nossa Senhora das Candeias é apenas mais uma festividade pagã adotada pela Igreja Católica Romana. Outros chamados "dias santos" para os católicos também têm origens pagãs, a saber: "o dia de todos os santos" e o de "finados", entre outros. Mas isso é uma outra história. Voltemos ao Padre Cícero, do Juazeiro.
Em se tratando do Juazeiro do Norte, independente do santo ou da santa conduzidos no andor, o grande homenageado acaba sempre sendo o "Meu Padim Padre Ciço".
Aos Pés da Estátua no Alto do Horto
"Olha lá, no Alto do Horto! Ele está vivo, Padim não está morto! Olha lá, no Alto do Horto! Ele está vivo, Padim não está morto! Viva meu Padim, Viva meu Padim, Ciço Romão". (Trecho da canção "Viva Meu Padim", Luiz Gonzaga).
Enquanto nos aproximávamos do início da ladeira do Horto, notamos que no cume da montanha pequenos raios surgiam com certa freqüência próximos à estátua mais famosa do Padre Cícero (no Brasil, apenas a do Cristo Redentor, no Rio de Janeiro, e a do Frei Damião, em Guarabira, Paraíba, são mais altas do que ela).
"Que coisa estranha! E nem está chovendo!", comentei com minha esposa.
O autor subindo a Serra do Horto. Ao fundo a maior estátua do Padre Cícero.
Ao chegarmos ao estacionamento do topo, fomos rapidamente cercados por vendedores de fogos. Observamos que o que pensávamos ser raios, eram na verdade fogos:
– "O senhor tem de soltar seis fogos antes de fazer seu pedido ao santo e mais seis quando estiver indo embora", falou-me um entusiasmado vendedor enquanto nos mostrava alguns rojões de fogos.
– "Não obrigado", disse rapidamente.
– "Se o senhor desejar ou se tiver medo, pode comprar e eu solto os fogos pelo senhor. No momento dos estouros dos fogos o senhor pensa nos seus pedidos", disse-me um outro solícito vendedor.
– "Não precisa. Não quero. Muito obrigado", repliquei enquanto subia a rampa de acesso à estátua.
Algumas pessoas trajavam batinas pretas semelhantes às do Padre Cícero. Perguntei a uma delas se fazia parte de algum movimento eclesiástico ou de alguma seita. Ela me olhou estranhamente e disse que estava apenas pagando promessa.
Muitas barracas vendendo vários suvenires estavam nos dois lados da rampa que ia lotando de romeiros à medida que progredíamos. Em muitas delas eram vendidos CDs e fitas cassetes piratas com músicas de romarias e benditos, além de blusas e artesanato. O som alto das músicas, os gritos dos vendedores, o cheiro forte de frituras e rapaduras permeavam a rampa e davam um toque bem regional.
Aos pés da estátua do Padre Cícero. Fiéis dando três voltinhas ao redor do cajado da estátua.
Subimos os degraus e nos posicionamos aos pés da estátua que estava lotada de romeiros. Pessoas demonstravam sua devoção: algumas senhoras se esfregavam com as costas na parte inferior da estátua pedindo que o Padim curasse suas dores lombares. Outras suspendiam seus bebês em direção à estátua e os forçavam para que a beijassem. Muitos escreviam seus nomes na estátua enquanto choravam. Alguns rezavam ou cantavam cânticos de louvores ao Padrinho. Entre o cajado e a batina do Padre há um espaço que dá para passar uma pessoa de cada vez. O romeiro emocionado dá três voltas em torno do cajado enquanto faz seu pedido (havia uma fila enorme esperando para realizar esse ritual).
Imaginei Moisés retornando do Monte Sinai com as tábuas dos Dez Mandamentos e vendo o povo adorando um bezerro de ouro. Aquela multidão em Juazeiro e aquele povo de Israel no deserto estavam tão próximos de Deus e simultaneamente tão longe dEle. Tinham a Luz ao seu alcance, mas optaram por rituais das trevas.
Ali, aos pés da estátua não me contive e chorei discretamente para que ninguém percebesse. Enquanto isso, alguns metros adiante, havia um palanque armado onde um sacerdote católico com chapéu de palha (para se identificar melhor com os romeiros) fazia algumas colocações absurdas comparando o Padre Ciço com Jesus Cristo.
Dei a volta por trás do palanque e adentrei o Museu Vivo onde existem algumas imagens do Padim em cera, em tamanho natural, retratando cenas do seu cotidiano.
Uma sala dentro do Museu Vivo me chamou mais a atenção. Lá havia aproximadamente oito filtros de barro, com alturas que variavam de um metro a um metro e meio, e várias canecas de alumínio penduradas em um fio no teto. Muitos romeiros acreditam que a água é milagrosa e, sem qualquer receio de contrair alguma doença, pegam as canecas, enchem-nas com água do filtro, bebem e se banham com roupa e tudo. Alguns, mais criteriosos passam água nas regiões do corpo que necessitam de cura. Ao meu lado, um senhor idoso e de aparência bem humilde derramou um pouco d’água dentro da calça enquanto murmurava baixinho: "É minha próstata, Padim! É minha próstata, Padim!" Falei para ele que quando retornasse para sua cidade deveria se consultar com um bom urologista. Ele apenas me olhou abusado.
Minha esposa estava ficando bastante enauseada com tudo que viu, ouviu e cheirou. Por isso, resolvemos descer o morro e retornamos à cidade.
O Padre Cícero e o Milagre do Juazeiro
"Meu Padim Cícero, do Juazeiro, tão milagreiro, sou romeiro do sertão. Meu Padim Cícero, do Juazeiro, tão milagreiro, a minha grande devoção". (Trecho da canção "Canção de Fé", José Idelfino).
Mas, qual foi o fato que transformou um simples pároco de um pequeno povoado do interior do Nordeste em uma celebridade internacional? O "milagre" que transformou esse padre, natural do Crato, em um dos brasileiros mais biografados e comentados, aconteceu quando o mesmo tinha 45 anos.
Havia uma beata juazeirense, analfabeta e costureira de profissão, chamada Maria Madalena do Espírito Santo de Araújo,[3] mas conhecida como Maria de Araújo. "Foi acometida de meningite infantil (espasmo), sofria de ataques de epilepsia, e levava uma vida de jejum, oração e trabalho humilde. Havendo bem cedo perdido os pais, foi morar ainda menina, na casa do Padre Cícero".[4]
Em uma manhã de março de 1889, quando o Padre Cícero Romão Batista pôs a hóstia na sua boca, Maria de Araújo teve um transe tão intenso que sangrou a língua e a hóstia ficou avermelhada de sangue. Esse fato se repetiu outras vezes no período de dois anos e a população local começou a espalhar a notícia de que se tratava do "derramamento do sangue de Jesus", portanto, de um milagre.
O próprio Padre Cícero comentou acerca do que ocorreu naquele dia:
"Quando dei à beata Maria de Araújo a Sagrada Forma, logo que a depositei na boca, imediatamente transformou-se em porção de sangue, que uma parte engoliu, servindo-lhe de comunhão, e outra correu pela toalha, caindo algum no chão; eu não esperava e, vexado para continuar com as confissões interrompidas que eram muitas ainda, não prestei atenção e por isso não apreendi o fato na ocasião em que se deu; porém, depois que depositei a âmbula no sacrário e vou descendo, ela vem entender-se comigo, cheia de aflição e vexame de morte, trazendo a toalha dobrada, para que não vissem, e levantava a mão esquerda, onde nas costas havia caído um pouco e corria um fio pelo braço, e ela com temor de tocar com a outra mão naquele sangue, como certa de que era a mesma hóstia, conservava um certo equilíbrio para não gotejar sangue no chão".[5]
Dentro do Museu Vivo, as estátuas em cera do Padre Cícero e da beata Maria de Araújo.
Na verdade, a beata pode ter mordido consciente ou inconscientemente a língua ou a mucosa oral e provocado o sangramento. Ou, quem sabe, ter tido uma crise convulsiva (bem provável, uma vez que tinha epilepsia) e mordido a língua? Ou uma discreta hemorragia digestiva?
É prudente deixar registrado que em outras cidades nordestinas, envolvendo personagens diferentes dos do Juazeiro, aconteceram fatos semelhantes onde a hóstia se transformou em sangue.[6] Graças a Deus, esses outros padres não tornaram-se também milagreiros e nem objetos de adoração.
Fico meditando... todo o Novo Testamento insiste em afirmar que Jesus Cristo ofereceu o Seu corpo como sacrifício e derramou o Seu sangue remissor apenas uma vez e para sempre (veja Hebreus, capítulos 9 e 10). Essa história de "vários derramamentos do sangue de Jesus Cristo" através da beata Maria de Araújo está diametralmente oposta às Escrituras Sagradas. Ou os devotos do Padre Cícero estão enganados, ou a Bíblia está errada.
Bem, o fato é que o reboliço foi tanto que o pequeno povoado transformou-se em lugar de romaria.
O bispo cearense Dom Joaquim José Vieira e até o Papa Leão XIII, em Roma, tiveram de investigar o fenômeno do Juazeiro. O Padrinho chegou a ser recebido pelo papa no Vaticano. Outros padres foram enviados ao Juazeiro e entregaram a hóstia a Maria de Araújo e nada de anormal ocorreu. O bispo cearense e o papa não reconheceram o milagre e o Padre Cícero Romão foi punido com uma suspensão.
Assim, o Padim Ciço tornou-se um santo milagreiro. Apesar de proibido de celebrar missas, sua residência passou a ser freqüentada por romeiros e por várias autoridades.
Aproveitando-se do seu prestígio, aliou-se aos grandes fazendeiros cearenses e, apoiado por eles, tornou-se prefeito do Juazeiro em 1911 e, posteriormente, vice-presidente do Ceará.
As Atuações Ambíguas do Padre Cícero Romão
"Foi a ele que muitas vezes, Lampião se ajoelhou, aos seus pés contou histórias, pediu perdão e chorou. Bendito seja o romeiro que na fé e na oração, exalta o santo padroeiro no samba, no coco, no xote e no baião". (Trecho da canção "Deus Menino", Chico Silva).
a) Amizade Com o Coronelismo
O Padim Ciço realizou boas ações para a população menos favorecida. Organizou mutirões e conseguiu construir pequenos postos de saúde, escolas e orfanatos, além de reformar e construir algumas igrejas católicas.
Por outro lado, ele era amigo do peito de vários latifundiários da região, conhecidos como "os coronéis". Esses senhores ilustres eram opressores dos pobres, marginalizavam os sertanejos, excluindo-os do direito à saúde, aos alimentos e até à vida. Pasme, o Padim Ciço pertencia a essa espécie de liga de coronéis do Ceará e a defendia . O Padim chegou a estimular seus devotos a serem mão-de-obra barata na construção de açudes e na colheita de algodão nas terras da família Acioly, a mais poderosa do Ceará.[7]
O "coronelismo" era a política exercida pelos latifundiários com prestígio político local, que tinham notável poder, mandavam na região e nos seus eleitores, que eram tratados como gado. Suas zonas eleitorais eram conhecidas como "currais eleitorais" e ai do eleitor que ousasse votar contra o candidato do "coronel".
Quando Hermes da Fonseca, então presidente da República, enviou interventores ao Ceará e depôs as oligarquias repressoras lideradas por esses coronéis, o Padre Cícero ficou irado.
Rapidamente o clero católico promoveu e assinou o chamado "pacto dos coronéis" com dezessete dos principais chefes políticos da região do Cariri, objetivando assegurar a permanência da família Acioly no governo cearense. E mais: esses fazendeiros armaram centenas de sertanejos e os enviaram à capital, porém foram detidos pelas forças federais. Esse episódio ficou conhecido na história como a "Revolta do Juazeiro".
O Padim Ciço só aquietou-se quando a velha oligarquia da família Acioly foi restabelecida ao poder. O Padre Cícero Romão foi, sem dúvida, um exemplo de fidelidade às oligarquias poderosas do Ceará.
b) Negociata com Lampião
Enquanto o Padim Ciço destacava-se no Ceará com sua influência político-religiosa, o cangaceiro Lampião e seu bando amedrontavam os poderosos dos sertões nordestinos.
O sertanejo pernambucano Virgulino Ferreira da Silva (1897-1938), vulgo Lampião, era também um personagem controvertido. Para muitos, era visto como um bandido que incendiava vilarejos, torturava, estuprava e matava pessoas. Para outros, era um justiceiro que tirava dos ricos para doar aos flagelados da seca. Em 1931, o jornal The New York Times chegou a chamá-lo de Robin Hood do sertão.
O "Rei do Cangaço" era devoto do Padre Cícero, do Juazeiro, e às vezes usava uma foto desse sacerdote no seu peito. A religiosidade de Lampião era alicerçada nas orações de corpo-fechado, nos santos da Igreja Católica e no Padre Cícero. No livro, Lampião, o Rei dos Cangaceiros, Chandler relata "que a vida da mulher de um policial de Jatobá, em Pernambuco, foi salva quando um velho pegou um retrato do padre do Juazeiro e o colocou entre a faca soerguida de Lampião e o seio da mulher. Lampião levava sempre consigo seus livrinhos de orações, guardava santinhos em sua carteira de dinheiro, e pregava retratos do Padre Cícero em sua roupa".[8] Isso mostra o respeito e a devoção que Lampião nutria por esse padre.
Em companhia do seu bando, Lampião costumava recitar algumas orações para, supostamente, fechar o corpo. O escritor Piragibe de Lucena, no seu livro Lampião, Lendas e Fatos, descreve algumas dessas orações. Leia um pequeno trecho de uma delas e analise a importância do Padre Cícero na vida desse cangaceiro:
"Justo juiz de Nazaré, filho da Virgem Maria, que em Belém fostes nascido entre as idolatrias. Eu vos peço senhor, pelo vosso sexto dia, e pelo amor do meu padrinho Pe. Cícero que meu corpo não seja preso, nem ferido, nem morto, nem nas mãos da justiça em volta.
Pax tecum, pax tecum, pax tecum. Cristo assim disse: aos seus inimigos, se vierem para prender-me terão olhos, não me verão, terão ouvidos, não me ouvirão. Com as armas de São Jorge, serei armado. Com a espada de Abraão, serei coberto. Com o leite da Virgem Maria, serei borrifado.
Na arca de Noé, serei arrecadado. Com a chave de São Pedro serei fechado, onde não me possam vê, nem ferir, nem matar, nem sangue do meu corpo tirar. [...]"[9]
O Padre Cícero articulou para que o cangaceiro Lampião recebesse a patente de capitão dos Batalhões Patrióticos.
Por volta de 1926, Padre Ciço já era mais político do que religioso, sendo anti-comunista de carteirinha. Aproveitando a fidelidade do bandoleiro à sua pessoa, o pároco juntou-se com seus amigos fazendeiros e doaram armas e munição para o cangaceiro e seu bando atacarem "o revoltoso" Luiz Carlos Prestes e sua famosa "Coluna". Padim Ciço também articulou para que o agrônomo Pedro de Albuquerque Uchôa, que era inspetor agrícola do Ministério da Agricultura, entregasse a Lampião a patente de Capitão das Forças Patrióticas.[10],[11] Lampião não atacou a "Coluna Prestes", preferiu manter suas erranças pela caatinga. Dizem que essa foi a única vez que Lampião desobedeceu ao "santo" Padre do Juazeiro. Uma coisa é certa: Lampião ostentou com muito orgulho o título de Capitão enquanto viveu.
O curioso é que (dizem que a pedido do próprio Padim Ciço) Lampião nunca atacou os coiteiros ricos, os fazendeiros safados e os políticos corruptos do Ceará. Isso é que é amizade fiel!
Apesar da amizade do Padim Ciço com o coronelismo cearense e suas negociatas com Lampião estarem registradas em vários livros, biografias, documentários, teses e filmes, existem alguns devotos do Padrinho que negam que isso tenha acontecido. Movidos mais pela emoção do que pela razão, declaram que essas atuações ambíguas do Padre Cícero não passam de calúnias.
Convenhamos: sob o ponto de vista mundano, isso é que é saber viver! O Padim Ciço vivia de mãos dadas com Satanás e pretendia morrer nos braços de Jesus! Como se diz por estas bandas sertanejas: Eita Cabra esperto!
Padim Padre Ciço: Um Ídolo do Lar
"[...] não vos desvieis de seguir o Senhor, mas servi ao Senhor de todo o vosso coração. Não vos desvieis; pois seguiríeis coisas vãs, que nada aproveitam e tampouco vos podem livrar, porque vaidade são" (1 Samuel 12.20-21).
Ser contra a idolatria é uma unanimidade não apenas entre as igrejas cristãs genuínas, mas também ao longo de toda a Bíblia Sagrada. Todas as denominações tradicionalmente evangélicas são contra a idolatria. O judaísmo também não suporta a idolatria. Já o catolicismo prega a não-adoração a ídolos e imagens, mas na prática o que se vê é um descompasso entre o que se faz e o que se fala. Infelizmente, não é preciso ir ao Juazeiro do Norte para se constatar que a igreja do papado é verdadeiramente idólatra.
Fiéis cantam e choram ao redor de uma das camas usadas pelo Padim Ciço.
O Padim Ciço, do Juazeiro do Norte, é um ídolo nos lares de milhões de católicos. Em algumas casas, ele está presente no móvel da sala-de-estar, na penteadeira do quarto, na parede do corredor e em cima do refrigerador da cozinha. Para sermos mais honestos, o Padim Ciço, o "Santo Antônio", o "São Jorge", a "Ave Maria" e o Frei Damião (veja o artigo Misericórdia! Querem Canonizar o Frei Damião) são parte do imenso esquadrão de supostas divindades católicas presentes em milhões de residências brasileiras.
"Ídolos do lar" são coisas antigas e são mencionados logo no primeiro livro da Bíblia (Gênesis 31.19 e 30). Eles eram de vários tamanhos e alguns deles, quando colocados deitados na cama e cobertos por um manto, passavam por uma pessoa dormindo (1 Samuel 19.13). A esses ídolos, chamados em hebraico de terafins, confiava-se a guarda das casas e dos bens.
Acreditar que um "ídolo do lar" possa proteger sua família é muita presunção. Veja a história do rei Saul:
Feitiçaria e idolatria foram as gotas d’água para que Deus rejeitasse o rei Saul. O profeta Samuel sentenciou ao monarca: "Porque a rebelião é como o pecado de feitiçaria, e a obstinação é como a idolatria e culto a ídolos do lar. Visto que rejeitaste a palavra do SENHOR, ele também te rejeitou a ti, para que não sejas rei" (1 Samuel 15.23). Na Edição Revista e Corrigida, lê-se o nome "porfia", no lugar de "obstinação". Na Bíblia de Jerusalém (católica), "presunção" substitui "obstinação". Parafraseando esse texto, diria: a obstinação, a porfia, o orgulho, a presunção, a teima, a cabeça-dura é como a idolatria e o culto a ídolos do lar. A idolatria está incluída entre as obras da carne e não no fruto do Espírito (Gálatas 5.20).
No Velho Testamento, o primeiro e o segundo mandamentos são um "não" à idolatria (Êxodo 20.3-6). E mais: o idólatra deveria ser morto (Deuteronômio 17.1-7). Já no Novo Testamento, a punição é a morte eterna: "Quanto, porém, [...] aos idólatras [...] a parte que lhes cabe será no lago que arde com fogo e enxofre, a saber, a segunda morte" (Apocalipse 21.8). Entre aqueles que ficarão fora da Cidade Celestial estão os idólatras (Apocalipse 22.15).
Sem dúvida, ao nos despedirmos do Juazeiro do Norte, vendo a cidade se distanciando pelo retrovisor, pudemos entender que a idolatria é uma cegueira espiritual, mas sobretudo uma tentação bastante sedutora. A Bíblia nos alerta a resistir ao Diabo, mas também a fugir dessa tentação: "Portanto, meus amados, fugi da idolatria" (1 Coríntios 10.14).
Padre Cícero Romão Batista (1844-1934). Um dos ídolos dos lares católicos nordestinos.
Concluímos nossa visita ao Cariri cearense com os olhos marejados e uma mistura de sentimentos paradoxais: tristeza e alegria. A insatisfação é a imagem dos milhões de católicos que ainda precisam ser alcançados pela única Verdade, Jesus Cristo. A satisfação é que vimos templos de algumas denominações evangélicas nessa cidade. Esses irmãos em Cristo são como sal em uma terra espiritualmente insossa: levam a única Luz do mundo a um povo submerso nas trevas espirituais.
Irmãos, assimilemos o mesmo consolo e a mesma recomendação contida no final da Primeira Epístola de João: "Também sabemos que o Filho de Deus é vindo e nos tem dado entendimento para reconhecermos o verdadeiro; e estamos no verdadeiro, em seu Filho, Jesus Cristo. Este é o verdadeiro Deus e a vida eterna. Filhinhos, guardai-vos dos ídolos" (1 João 5.20-21).


Roberto Menescal fala dos 50 anos de Bossa Nova









Nós éramos um grupo de jovens que procurava uma identidade musical, pois o que se tocava no Brasil no final dos anos 60, apesar de ser uma música bonita, bem feita, não era em absoluto uma realidade de uma geração mais solta, mais alegre, mais ligada à natureza do que a geração anterior que curtia a noite, as boates, os amores sofridos e cuja música refletia essas situações de seu dia-a-dia.Ouvíamos e tocávamos sambas-canções que diziam: "Sei que falam de mim, sei que zombam de mim, ó Deus, como sou infeliz", ou "Se eu morresse amanhã de manhã, não faria falta a ninguém", ou "Garçom apague essa luz que eu quero ficar sozinho, garçom me deixe comigo que a mágoa que eu tenho é só minha".Imaginem nós, com 20 anos de idade, cantando todo esse sofrimento!Passamos então a criar um outro universo mais leve e mais otimista na maioria das vezes, como: "Era uma vez um lobo mau que resolveu jantar alguém", ou "Se todos fossem iguais a você, que maravilha viver", ou "Dia de luz, festa de sol, e um barquinho a deslizar no macio azul do mar". Todas essas mensagens vinham acompanhadas de uma música que era uma fusão de tudo que ouvíamos, como samba-canção, samba, bolero, jazz e muito musical norte-americano que passava sempre nos cinemas Metro. Essa fusão de melodias e harmonias veio embalada por uma batida que ficou famosa como "a batida da Bossa Nova" que todo mundo queria aprender, aliás, todo "O Mundo".Nossa música, que sofreu essas influências que enumerei, viria, pouco mais tarde, a influenciar compositores, músicos e arranjadores do mundo inteiro.Para mim, música é isso, uma coisa em eterna transformação, mutante e recebendo influências (boas) de todos os lados, pois se ela tentar se manter totalmente fiel às suas origens, tenderá a se extingüir, dando lugar a outras formas. A Bossa Nova está aí há 50 anos com sua forte personalidade, mas com novas harmonias, melodias mais arrojadas, e até a célebre batida da Bossa Nova hoje tem uma série de variações.Poucos anos atrás, ou seja, no final do século passado, na Europa e Japão, principalmente, começou um movimento de uma música mais dançante, ligado à Bossa Nova, fazendo uma fusão com a música eletrônica e DJs. Com isto, compositores vários da Bossa, como Joyce, Marcos Valle, Jobim, etc., tiveram suas músicas regravadas e lançadas nessa nova onda, fazendo com que milhões de jovens saíssem dançando e cantando canções compostas há mais de 40 anos, como se fossem feitas para eles hoje em dia. Claro que tem muita coisa ruim sendo feita para aproveitar essa "onda", mas também tem muita coisa legal.Bebel Gilberto, filha de Miúcha e João Gilberto, fez sucesso mundial com sua Nova Bossa, Marcos Valle e Joyce têm feito shows pelo mundo inteiro com suas Bossas revalorizadas, eu mesmo participei de algumas viagens com o grupo Bossa Cuca Nova fazendo shows em festivais com público de mais de 200 mil pessoas, coisa que a Bossa Nova tradicional nunca poderia ter alcançando com a intimidade de sua música.Hoje podemos ter uma convivência pacífica entre a Bossa tradicional e a atual e acho isso super benéfico para as duas formas.Não tínhamos a menor noção de que nossa música, nascida no final dos anos de 1950, continuasse com o vigor que tem hoje, 50 anos depois...E se a deixarmos caminhar por aí se juntando às boas coisas que forem aparecendo, garanto que ela chegará a mais 50 anos. Quem sabe a gente ainda verá isso acontecer!

Texto gentilmente cedido pelo autor, originalmente publicado no Livro-agenda 2008 ― 50 anos de Bossa Nova.Roberto Menescal

Rio de Janeiro, 24/12/2007

segunda-feira, 13 de outubro de 2008

CENTENÁRIO DE CARTOLA


Angenor de Oliveira, assim com "n" mesmo, nasceu no bairro do Catete, no Rio, fruto de uma família de classe média baixa. Sebastião Joaquim de Oliveira e Aída Gomes de Oliveira tinham sete filhos para sustentar, e Angenor era o quarto deles. Aos 11 anos teve seu primeiro contato com o morro - por problemas financeiros a família se mudou para a favela da Mangueira. Angenor adorava carnaval e futebol - torcia fervorosamente pelo Fluminense. Essa poderia ser a vida de qualquer cidadão comum, mas, nesse caso, é a história de Cartola, o primeiro grande compositor de samba carioca, que completaria 100 anos neste sábado (11).
Ao contrário do que muitos pensam, o samba de Cartola nasceu no asfalto. Desde criança já escrevia poesias, mesmo tendo estudado apenas até o primário. Cartola jamais conseguiu se integrar ao mercado de trabalho, e passou sua vida trabalhando em bicos, como pintor de paredes, lavador de carros e vigia de prédio.
A imagem do sambista malandro tem origem curiosa: o chapéu não foi incorporado à imagem de Cartola somente por charme. Quando o artista, que sempre foi muito vaidoso, ainda era desconhecido, trabalhava como pedreiro e se irritava com a presença do cimento em seus cabelos. Por isso passou a usar sempre o adereço e ganhou o apelido famoso de seus amigos.
No início da carreira, Cartola vendia sambas, muitos em parceria com o até então também desconhecido, Noel Rosa. O primeiro samba da parceria, "Que infeliz sorte" (1927), arrematou trezentos contos de réis e foi gravado pelo cantor de sucesso da época, Francisco Alves.
Uma carreira de altos e baixos
A trajetória artística de Cartola foi marcada por épocas de glória e ostracismo. Ao mesmo tempo em que o sambista lançou seu disco "Cartola", em 1974, e sua fama atingiu o auge, também terminou seus dias pobre, morando em uma casa doada pela prefeitura. Os altos e baixos foram normalmente determinados por fatores pessoais, como desilusões amorosas ou brigas com a escola de samba que ele ajudou a fundar em 1928: A Estação Primeira de Mangueira.
A escola foi criada em uma reunião de amigos. Além de Cartola, estavam também figuras que se tornariam lendárias no samba, como Heitor dos Prazeres, o mano Heitor; Pedro Caim, o Pedro Paquetá; e Marcelino José Claudino, o Massu. Cartola era diretor de harmonia e um dos compositores dos sambas escola.
O amor, uma inspiração
Como é possível perceber nas letras de Cartola, o sambista era romântico. O grande amor de sua vida foi Dona Zica, posteriormente mais conhecida como Dona Zica da Mangueira, figura ilustre na escola de samba. Foi ao lado dela que Cartola compôs alguns de seus sambas mais conhecidos, como o homônimo "As Rosas Não Falam", e "Nós Dois", que conta a trajetória dos dois ao altar: "Nada mais nos interessa/ Sejamos indiferentes/ Só nós dois, apenas dois/ Eternamente", escreveu o sambista.
Cartola morreu aos 72 anos, em 30 de outubro de 1980, por culpa de um câncer. Nas palavras do também sambista da Mangueira, Nelson Sargento, "Cartola não morreu, foi um sonho que a gente teve".

sábado, 11 de outubro de 2008

20 Anos do Show que mudou o rock brasileiro


Uma semana após um desagradável incidente no show em São Paulo onde, durante a primeira música "Que País É Este", Marcelo Bonfá foi atingido por uma garrafa, a Legião estava de volta a Brasília para uma única apresentação. O clima, a princípio, era de festa. Os luminosos do ginásio exibiam "GDF - Governo do Distrito Federal - Bem Vindos de volta a Brasília Jovens do Legião Urbana".
O show começa, por recomendações, com atraso (vide adiante) com cumprimentos de Renato seguida da canção título do 3° álbum da banda. O show prossegue em clima até amigável, com Renato bem humorado fazendo brincadeiras com a platéia.
Durante a quarta música, "Conexão Amazônica", uma canção anti-drogas, Renato relata o que aconteceu com alguns garotos viciados em drogas que formavam o Clube Da Criança Junkie. No saldo, relata: "-Um morreu, dois pararam, três passaram no vestibular e se casaram. Mas teve um que não morreu. Ele ficou assim ó (estiliza um esquizofrênico)". Neste momento, um suposto doente mental fura o cerco da segurança e agarra Renato pelo pescoço como se quisesse estrangulá-lo. Renato tenta livrar-se dele a golpes de microfone.
O show e a música prosseguem num clima sombrio. Durante o solo de "Ainda É Cedo", Renato se irrita com um segurança que estava agredindo uma pessoa da platéia: "Para agora, solta ele! Tu levas um microfone na cabeça meu irmão. Sacanagem, tem que segurar numa boa, eu vi dando mão na cara.". Já nestas alturas, Renato, bastante irritado, reclama: "É por isso que gente só volta aqui de ano e meio em ano e meio. Não dá pra se divertir!".

A música continua com as tradicionais músicas incidentais até uma bomba estourar no palco. Renato dá outra bronca na platéia, corta três músicas e pede cumplicidade: "Vocês então que falem pra quem está atacando coisa. Se o cara estiver do teu lado, dá esporro. Eu não tenho nada a ver com isso."
Após "Será", a banda deixa o palco antes do planejado (e antes que alguém se machucasse). Começa o caos: a platéia lança mais bombas, garrafas, coquetéis molotov, começa um grande quebra-quebra pelo estádio. Resultado: 385 atendimentos médicos e um processo movido pelo governo do Distrito Federal.

As Músicas: (na sequência)
Que País É Este
Eu Sei
Quase Sem Querer
Conexão Amazônica
O Reggae
A Dança
Daniel Na Cova Dos Leões
Ainda É Cedo
Faroeste Caboclo
Tempo Perdido
(???)
Será


Noite de Som e FúriaCorreio Braziliense (14-06-1997)
A Volta da Legião Urbana à Brasília para o lançamento do disco Que País É Este: 1978/1987 foi planejada meticulosamente durante cinco meses. Mas falhas no esquema de segurança contribuíram para o surgimento de tumultos antes, durante e depois da apresentação da banda.
A idéia surgiu durante uma festa estranha , "um reveillon meio maluco", segundo o anfitrião, o empresário e produtor de shows Fernando Artigas. Em um apartamento na 312 sul , no primeiro dia de 1988, Artigas e Renato Russo decidiram repetir a parceria que tinha possibilitado a realização do, até então, maior da Legião Urbana em sua cidade, no ginásio de esportes, em dezembro de 1986.
"Eu quero fazer muito, mas no ginásio não dá, é pequeno", disse Artigas, ciente da popularidade vertiginosa que a banda brasiliense experimentava depois do lançamento do terceiro disco: Que País É Este: 1978/1987. "Então vamos para o estádio (Mané Garrincha), definiu Renato que fez uma exigência: Esse vai ser o show da minha vida, por isso quero que embrulhe pra presente, que nem Bon Jovi", comparou o vocalista, referindo-se à mega estrutura das apresentações da banda americana.
Não era uma empreitada fácil. O último show da Legião na capital, para lançar o segundo disco (Dois), foi atribulado.
Houve superlotação no ginásio Nilson Nelson e muitas pessoas se machucaram ao pular da arquibancada para a pista. Além disso a excursão de lançamento do Que País É Este estava lotando ginásios pelo Brasil, mas ainda não havia sido levada a um estádio de futebol. "Era uma empreitada difícil. Eu temia um show no estádio " , reconhece Rafael Borges, empresário da banda desde setembro de 1987.
Por causa dos laços- afetivos e profissionais- anteriores, a produção do show foi entregue à empresa brasiliense Agora Eles, de Fernando Artigas e dos irmãos Rodrigo e Marcelo Amaral. Mesmo com a resistência de Rafael. " Eu teria optado em fazer com produtores mais experientes, como a WTR, com quem tínhamos trabalhado antes. Mas os próprios legionários pediram para eu dar atenção especial à proposta do pessoal de Brasília, que estava muito entusiasmado", lembra o empresário.
O "pessoal de Brasília" estava tão entusiasmado que contratou 500 seguranças particulares- o maior contingente já contratado para um único evento realizado na cidade. Também fez questão de fazer seguidas reuniões com representantes do poder público e outras entidades- Secretaria de Segurança Pública , Defer (administrador do estádio ), Defesa Civil, Cruz Vermelha e etc. Tudo para garantir a segurança do público. Tanta preparação não evitou que fossem cometidos erros primários. Como a altura do palco, por exemplo, apenas 2m10 separavam o tablado de madeira do gramado do estádio. "Foi um pedido do Renato que não queria ficar distante do público", argumenta Artigas. "Se foi pedido não passou pelo escritório, não era pra ficar 30 metros acima, mas tinha que ser proporcional ao estádio e não podia interferir na comunicação do artista com o público", rebate Rafael que fez inspeção rápida no palco e o achou um pouco vulnerável".
Na passagem de som o clima não era muito tranqüilo. Renato Russo reencontrou artigas e comentou:" Realmente o estádio está embrulhado para presente, mas tenho medo que possa virar Gimme Shelter", numa referência à música dos Stones que diz: "(...) uma tempestade ameaça minha vida". O clima ruim se dissipou quando os amigos saíram do estádio. Os dois , mais a irmã de Renato (Carmem Tereza) e uma amiga em comum jantaram no Piantella em clima de comemoração antecipada do que o vocalista chamava de " o show dos meus sonhos". "Ele estava superfeliz", garante Artigas.
No Sábado, dia 18 de junho, a banda passou quase o dia inteiro no hotel Saint Paul. Enquanto isso o clima começava a pesar, ônibus chegavam com os vidros quebrados . Longas e desorganizadas filas formavam-se em frente ao estádio. Na tentativa atrabalhoada de organizar a confusão, a polícia agiu com energia dentro e fora do estádio. Cães e cavalos foram usados para intimidar o público, estimado em 50 mil pessoas.
O tumulto na entrada obrigou os produtores a pedirem que a Legião atrasasse o início de sua apresentação, marcada para às 21:30- não havia banda de abertura . " Em dezembro de 86, o show começou impreterivelmente na hora e o pessoal estourou as catracas do ginásio. Foi por uma questão de segurança que atrasamos", justifica o empresário. O atraso de quase uma hora irritou a banda e o público, já incomodado com a ação enérgica da polícia e dos seguranças. Mesmo que Renato tenha começado o show perguntando se todos estavam ali para se divertir, já estava aceso o estopim para os tumultos ocorridos durante os inesquecíveis 58 minutos de som e fúria.

Por que a Legião parou ?
Dado Villa-Lobos sentiu um nó na garganta ao passar pelo estádio Mané Garrincha, em Setembro de 1997. Convidado pelos Paralamas do Sucesso para um show no ginásio Nilson Nelson, nove anos depois da última apresentação da Legião Urbana em Brasília, o guitarrista voltou à cidade apreensivo, sem saber o que poderia acontecer.
À tarde ele ficou andando perto do estádio , relembrando o tumultuado show de junho de 1988. À noite, no palco, foi recebido pela platéia como nos bons tempos, com gritos de "É Legião! É Legião!". Saiu emocionado, com a alma lavada." - Foi a redenção.
Marcelo Bonfá sentiu o mesmo no Tributo a Renato Russo, realizado no dia 2 de Dezembro de 1996. "Foi muito legal, muito positivo", diz o baterista. "Mas nunca tive problema nenhum com a cidade . Foi em Brasília que tudo aconteceu . Foi uma fase ótima, mágica, que não volta mais. A gente só não tocou mais em Brasília porque não tocava em lugar nenhum", garante.
Meio desligado, Bonfá lembra pouco do show do Mané Garrincha. Lembra do rapaz que grudou no pescoço do Renato, dos gritos antes do show ("É Legião! É Legião!), do clima de festa, de euforia. "Queríamos fazer uma festa, estávamos muito empolgados, mas a coisa se desvirtuou".
"Era um show intenso e quando é assim anda mais rápido", comenta o baterista. Com uma música atrás da outra, sem respirar, você pode tocar mais de uma hora que as pessoas acham que foi 15 minutos. Ali quatro horas não seriam suficientes".
O baterista ficou mais chateado porque as pessoas não entenderam o que havia acontecido. " Até meus pais falaram: 'Pô vocês não podiam Ter feito isso!'. Ninguém entendeu. A gente não quis voltar porque disseram que estavam quebrando tudo."
"As coisas estavam fora de controle", afirma Dado Villa-Lobos. "O palco era daqueles de encaixe seria mais fácil passar por baixo do que pular. E essa grade estava passando de mão em mão... os ônibus já chegaram depredados, as pessoas chegaram com esse estímulo, com essa energia. Ficou insustentável. Faltou estrutura dos organizadores. O palco era baixo e a segurança falha, não esperavam tanta gente". Segundo Renato Russo em entrevista ao Correio Dois em junho de 1996, " era tanta gente que parecia que estava vazio" . Para Marcelo Bonfá, era tanta gente que a vontade de tocar já não era a mesma. "Sabe quando passa a hora do almoço e você não tem vontade de comer ?", diz o baterista. " Foi assim, tinha gente demais".
E foi nesse show que Dado Villa-Lobos se viu numa " grande banda de rock". " Foi nesse dia que materializei, pela primeira vez, que as coisas tinham mudado", diz o guitarrista. " No começo a Legião Urbana era só uma forma de expressão artística, musical, e a partir desse dia virou 'carreira'. Descobri que, finalmente éramos uma grande banda de rock, que supostamente se presta a isso também".

Tristeza no dia seguinte
Mutismo absoluto. Foi essa a atitude tomada por Renato Russo desde o momento em que deixou o estádio Mané Garrincha até a hora em que deixou o apartamento da família , na SQS 303, no final da tarde de Domingo, seguindo para o Aeroporto Internacional , onde embarcou para o Rio.
Com a irmã Carmem Tereza Manfredini só conversou o necessário, assim como com as amigas Ana Paula Camarinha e Cíntia Paixão. Abriu exceção apenas para Celso Araújo, à época, repórter do Correio Brasiliense, para quem deu entrevista.
"Saímos juntos do estádio e o Júnior manteve-se calado, mas era visível sua tristeza. Ao chegar tomou banho, relaxou e foi dormir na cama dos nossos pais que estavam passando uma temporada no Rio". Contou Carmem.
A irmã lembra que Renato não fez qualquer comentário, mesmo depois de tomar conhecimento das pichações feitas em paredes de prédios da quadra. " Ele ficou arrasado, mas não se manifestou e nós preferimos respeitar o silêncio dele".
"Isso (as pichações) marcou demais, tocou muito o Renato, principalmente porque ele gostava muito de Brasília, nunca deixava passar em branco um ataque à cidade", confirma o empresário da banda, Rafael Borges.
Carmem revela que além das pichações, aconteceram vários telefonemas, "de pessoas que faziam ameaças".
Certamente foi por isso que Fernado Artigas, um dos produtores do show, convocou o judoca Murilão Azevedo, amigo de Renato desde a época do movimento punk, ao apartamento.
Murilão afirmou que chegou à 303 sul Domingo pela manhã, acompanhando o vocalista ao aeroporto. "na garagem descobrimos uma garota debaixo do carro que levaria Renato ao aeroporto. A menina queria um autógrafo. Ao chegar ao aeroporto fomos direto para a sala Vip, onde Renato evitou contato com qualquer pessoa.
Quando se encontrou com a mãe Maria do Carmo, no Rio, Renato falou de sua decepção e tristeza por não ter conseguido fazer o "show dos seus sonhos". Ela acredita que se o vocalista não tivesse morrido, a Legião voltaria a fazer show em Brasília. "Para todo mundo, o Júnior dizia que a Legião não tocaria mais na cidade. Tempos depois, porém, conversando comigo, o pai, e a Carmem deixava em aberto essa possibilidade". É o que acha também Rafael Borges: " muito tempo depois, ele me olhou com um ar meio maroto e perguntou: "e se a gente voltasse a Brasília ?".

A Imprensa
Os jornalistas falso-moralistas de plantão tiveram esses episódios como uma benção para suas matérias. Na época, a cantora e compositora Araci de Almeida havia falecido. Não faltaram comentários de radialistas do tipo "Nosso país perde uma grande artista enquanto nossos jovens são levados pela violência do grupo Legião Urbana".
Poucos foram as matérias que mostraram o que realmente ocorreu. Foi um prato cheio para abafar fatos como a violência no futebol e os recentes episódios violentos ocorridos durante o Show da Xuxa em 30 de junho de 1988 e no show dos Menudos. Destruir a imagem foi a solução encontrada para abalar o prestígio de uma banda que pôs em cheque a máquina, as instituições e o governo. Afinal, "rock é isso mesmo" como, até hoje, alguns dizem.
Em entrevista ao Fantástico, uma semana depois do ocorrido, Renato responde ao repórter:
"Eu acredito que existe uma maldade muito grande por parte de certas pessoas do público que saem de casa com bombas e entram no estádio com bombas pra atacar no artista. Tudo que fizemos foi nos defender e colocar a nossa opinião. Nós sempre colocamos o que nós pensamos. Subiram nas minhas costas tentaram me estrangular "-Renato, você vai morrer". Foi horrível, gente. Vocês não imaginam o efeito psicológico de uma bomba no palco, você fica olhando pra aquele negócio brilhando sabendo que aquele troço vai explodir. As pessoas já saíram de casa pensando em agressão. Nós apenas colocamos a nossa opinião e eu não desminto nada do que eu falei."
Naquela semana, a Legião se apresentou em Belo Horizonte, Rio de Janeiro e, por fim, no extinto Projeto SP em São Paulo. Ambos, sem nenhuma ocorrência violenta.

Legio Urban page

O Altamont brasileiro


Nem parece, mas já fazem 20 anos que Brasília viveu seu dia de Altamont.Para quem não conhece a história, o Festival de Altamont reuniu, em 1969, bandas seminais como Jefferson Airplane, The Flying Burrito Brothers e os Rolling Stones. E foi no show do grupo de Mick Jagger que a confusão rolou: durante uma briga, os motoqueiros Hell’s Angels, que cuidavam da segurança, espancaram um fã até a morte.Em Brasília, em 1988, o tumulto não chegou a esse extremo. Mas também não ficou muito longe. E as conseqüências foram semelhantes.O cenário era a Capital Federal, estádio Mané Garrincha. E a banda era a Legião Urbana, comandada pelo redentor Renato Russo e seus três apóstolos. Juntos, lideravam uma turba de 50 mil pessoas. 50 mil fanáticos. 50 mil dispostos a dar o sangue pelo salvador. E foi o que acabou acontecendo.Analisada em perspectiva histórica, dá pra dizer que essa noite mudou a trajetória do mais famoso grupo de rock brasileiro em todos os tempos. E eu estava lá.Faroeste CabocloTinha 14 anos. Era o primeiro show de rock que assistia na vida. A Legião Urbana era amada na cidade mais ou menos como os Beatles em Liverpool. Todo mundo foi ao Mané Garrincha. Todo mundo mesmo. Os 50 mil presentes compraram ingressos, ou não, e lotavam o gramado, as cadeiras e as arquibancadas do estádio.Foi uma noite tensa. A polícia montada avançava com os cavalos sobre as transamazônicas filas que se formavam do lado de fora. A cidade estava extasiada. Ninguém queria perder a volta do ídolo, um ano e meio depois. O caos era tão grande que tiveram a brilhante idéia de liberar as roletas. Quem tinha ingresso entrava. Quem não tinha entrava também.A aparição da banda no palco pareceu a volta do messias. E, de certa forma, era mesmo. A multidão gritava enlouquecidamente, e o show começou, triunfal, com Que País é Esse?, música de mesmo nome do recém-lançado disco, que até então já tinha vendido mais de 400 mil cópias. O que aconteceu naquela noite muita gente ainda se lembra: bombinhas explodiram no palco, um louco agarrou Renato Russo no meio de Conexão Amazônica, brigas por toda parte, o cantor xingou a platéia, a platéia xingou o cantor. Um clima de quase guerra civil. A banda saiu do palco depois de 50 minutos de apresentação. O público, indignado, iniciou um quebra-quebra. Eu estava nas arquibancadas. E dava para ver a multidão correndo de um lado para o outro no gramado do estádio. A polícia, claro, não conseguiu controlar a catarse coletiva. No dia seguinte, prometi pra mim mesmo que ficaria 10 anos sem ouvir as músicas deles. Fiquei uma semana. E a Legião nunca mais tocou em Brasília. Geração Coca-ColaAntes da Legião Urbana, nenhuma banda da cidade tinha conseguido projeção nacional. Outras vieram depois. Mas a diferença é que o quarteto tinha Renato Russo, um professor de inglês que gostava de Bob Dylan, Beatles, Stones e Sex Pistols. Naqueles anos, ninguém mais estava a fim de ouvir Absyntho, Metrô, Sempre Livre e outros grupos que, felizmente, apareceram e desapareceram na década de oitenta. Era hora de escutar músicas que contavam o que acontecia no dia-a-dia da gente. Renato sabia o que dizia. E sabia o que o seu público queria que ele dissesse. Suas letras iam da desilusão amorosa entoada em Ainda é Cedo à revolta em ver a pátria sem rumo, gritada em Que País É Este?.Ele tinha a poesia dos trovadores. Foi o maior letrista do rock brasileiro em todos os tempos, mas com alma punk. Quando parava pra falar, todos ouviam. Por isso mesmo falava o que queria. Uma mistura explosiva do poeta francês Baudelaire com Sid Vicious, o polêmico baixista dos Pistols. Será? Naquela noite de 18 de junho de 1988, isso tudo veio à tona. A idolatria pela Legião e especialmente pelo vocalista estavam no auge. A expectativa era muito grande, tanto do público quanto do grupo. A banda prometia revolta e energia em suas músicas e foi isso que levou 50 mil pessoas ao estádio. Quando as coisas começaram a dar errado, ficou impossível controlar os ânimos. Assim como a tragédia de Altamont marcou a transição dos sonhadores anos 60 para a barra pesada dos anos 70, o show do Mané Garrincha foi também um divisor de águas na carreira do grupo e na história da cidade. A partir daquele momento, o quarteto passou a evitar longas turnês e deixou de lado o discurso político. As letras tornaram-se mais introspectivas. Brasília nunca mais juntou tanta gente em uma apresentação de uma só banda e a segurança da platéia passou a ser levada mais a sério nos shows (ou você acha que 700 policiais e seguranças dariam conta da multidão?). Renato Russo também deixou de lado o discurso messiânico. Não queria mais mudar o mundo. Passou a querer apenas cantar suas próprias aflições e angústias. Naquela noite Brasília perdeu um punk. E muito da inocência também.

sexta-feira, 10 de outubro de 2008

O real e o horrendo na literatura infantil


As histórias, todos o sabem, são os primeiros contatos das crianças com a vida. Através delas, a inteligência infantil transpõe os limites do ambiente doméstico e apreende as noções iniciais sobre a sociedade humana, com as inúmeras diferenciações que comporta, as atrações que oferece, os deveres que impõe, as decepções que traz, e o jogo complicado das paixões nos altos e baixos desta grande luta que é a existência. “Militia est vita hominis super terram” [A vida do homem sobre a terra é uma luta], diz a Sagrada Escritura (Job 7,1). “Militia”, sim, em que uns lutam por seus interesses pessoais, legítimos ou ilegítimos, e outros lutam contra o mundo, contra o demônio, contra a carne, para a maior glória de Deus.
Daí haver importância essencial, para uma civilização católica, em proporcionar às crianças uma literatura profundamente e sadiamente religiosa. Não falamos apenas do curso de Catecismo e História Sagrada, que deve ser o centro de tudo, mas de histórias que fossem como que o comentário, o prolongamento, a aplicação do que a Religião ensina.
Isto, em termos de boa doutrina, é o normal. Quanto é evidente, porém, que a caudal da literatura infantil moderna está longe disto!
Desejando tratar hoje da literatura infantil nesta seção, que não é de crítica literária, fazemo-lo analisando algumas destas ilustrações.
Antes de tudo, uma composição de Walt Disney. É a Cinderela, que vai com seu Príncipe rumo ao castelo encantado. É o maravilhoso na literatura infantil.
Haveria restrições a fazer. Em princípio, o que se oferece à criança deve tender a amadurecê-la, sob pena de não ser inteiramente sadio. Alguma coisa no cocheiro, no lacaio, na estrutura do morro e dos edifícios dá idéia de coisa feita não só para crianças, mas por crianças. E isto se nota, embora menos claramente, nos outros elementos da cena.
Mas, feita esta reserva, como não elogiar o gosto, a delicadeza, a variedade desta composição? O maravilhoso, indispensável nos horizontes infantis como meio de apurar o senso artístico, elevar o espírito, abrir o descortinio, estimular sadiamente a imaginação, está aqui expresso com um tato e um gosto notáveis.
* * *
Passemos agora do maravilhoso para uma representação da vida quotidiana, com seus aspectos calmos, caseiros, simpáticos — outro elemento essencial nos horizontes da literatura infantil, para despertar a atração, o interesse pela realidade e pela virtude.
Aqui está uma conhecida ilustração do Juca e Chico. No alto do telhado, os dois meninos das “sete travessuras” estão “pescando” as galinhas da Viúva Chaves. Junto ao fogão, ladra assustado o fiel cãozinho. Os “dois meninos malcriados, esses dois endiabrados” que “põem toda a gente maluca”, representam com real expressão a traquinagem tão freqüente na vida caseira. Traquinagem tratada aliás, no livro, não sem uma exemplar severidade: “lede esta história e vereis a sorte dos dois”. Exceção feita dos traquinas — e talvez nem isto —, tudo evoca a atmosfera feliz, calma, modicamente farta, da vida doméstica popular. Louçania de alma, temperança, largueza, bem-estar sensato na própria mediania, tudo aí se exprime.
Vem depois a literatura malfazeja. Apresentamos um entre mil. Murros, tiros, assaltos, agressões, vibração exagerada, narração melodramática, corre-corre, sangue, morte, “super-homens” que manipulam raios — toda uma sinistra e ridícula contextura de inverossimilhanças, de crueldades, de grosseiros artifícios de sensacionalismo.
Com isso não se forma um homem, e muito menos um cristão. O produto próprio desta literatura é o neobárbaro...
Catolicismo nº 40 — abril 1954, Excertos da seção Ambientes, Costumes, Civilizações
Nota da Redação: Se na década de 50, comentando uma cena de história em quadrinhos da época, o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira previu que o “produto próprio” de tal “literatura é o neobárbaro”, pode-se imaginar o juízo muito mais severo que ele faria das aventuras de Harry Potter! Esta literatura é própria a criar na alma infantil e juvenil uma conaturalidade com algo muito pior que a barbárie: o monstruoso, o horrendo e, por fim, o diabólico e infernal.
Deturpação do instinto religioso e do conceito de realidade
Miguel Beccar Varella
A saga de Harry Potter destina-se sobretudo a um público infantil pré-adolescente. É a idade em que as crianças começam a descobrir o mundo fora do círculo familiar, a idade da introdução à vida em sociedade, quando encontram os primeiros amigos. Também sua religiosidade começa a descobrir na Igreja Católica uma sociedade perfeita que leva a Deus. O idealismo generoso destes anos aspira a transformar o mundo numa antecâmara do céu, como diziam os medievais.
Porém, ao mesmo tempo em que estas almas se abrem às realidades sociais, com aspirações de heroísmo e de santidade, elas são ainda muito imaturas, e as influências que recebem do novo mundo, no qual começam a entrar, freqüentemente são decisivas na sua formação.
A literatura do gênero Harry Potter mostra um mundo povoado de demônios e de homens perversos, escravos do mal. Esse mundo está em contínuo contato com o mundo dos trouxas, no qual vivem os meninos normais.
Isso provoca, de modo mais ou menos fatal, uma sensação de impotência ante tais forças superiores. Por outro lado, os meninos bruxos — seres superiores, como Harry Potter e seus amigos — conhecem feitiços, fórmulas mágicas, fetiches de todo tipo para conjurar o perigo.
Ao longo das incontáveis páginas dos livros de Harry Potter, vai-se criando no subconsciente do leitor pré-adolescente um estado de medo e ao mesmo tempo de fascinação. Um instalar-se no horror. O jovem leitor descobre um mundo de bruxos e de demônios que penetra a toda hora na banalidade de sua vida quotidiana, a qual é bem semelhante à do desprezível trouxa.
E a grande e triste novidade na obra sobre Harry Potter é que se trata não apenas de uma agressão à imaginação infantil (como o são desde há anos os gibis, com toda espécie de monstros), mas também à inteligência conceptual, que começa precisamente a despertar nessa idade. Daí a tão comentada, — e erradamente elogiada — novidade de tratar-se de um longuíssimo texto, sem figuras, que apela diretamente à inteligência.
Uma das características mais graves da sociedade atual é a ausência crescente de uma formação religiosa da infância. Começam a manifestar preocupação sobre isso até mesmo alguns membros da Hierarquia eclesiástica em diversos países. Fala-se cada vez mais de uma volta ao paganismo.
Porém, por mais carente de formação religiosa que uma alma possa estar, não se apaga nela o instinto natural que as faz voltarem-se para Deus. O paganismo não é ausência de religião, mas sim ausência da verdadeira Religião. E na presença do demoníaco e do preternatural, é próprio da psicologia imatura das crianças retroceder a uma atitude de fatalismo pagão, ante forças superiores que não consegue dominar.


Plinio Corrêa de Oliveira

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

POR DENTRO DA SKULL AND BONES



Prescot Bush, um respeitável cidadão estadunidense, foi pai e avô de dois presidentes de seu grande e poderoso país. Dizem as más línguas, que o incrível patriarca Bush aprontou uma molecagem das grandes em sua mocidade, quando freqüentava a gloriosa Yale (berço acadêmico de significativa parte da elite estadunidense): o velho Bush simplesmente profanou o túmulo do legendário líder indígena Jerônimo e saqueou os seus restos mortais como uma espécie de prêmio ou troféu macabro para uma misteriosa irmandade universitária que atua em Yale, a Skull and Bones ("Crânio e Ossos"). Seus famosos descendentes, o filho George e neto George Walker, também integraram a seleta Skull and Bones, que "escolhe" apenas 15 membros a cada ano desde os idos de 1830. Os membros da macabra irmandade, que funciona num antigo edifício escuro e sem janelas no campus de Yale, tradicionalmente mostraram-se como destacados elementos na sociedade estadunidense.A exemplo dos herdeiros de Prescot Bush, alguns presidentes dos EUA foram membros da Skull and Bones e outros tantos influentes políticos do país também se reuniram naquele prédio sombrio. Metade da equipe do primeiro escalão do Governo Bush é formada por "bonesmen" (como são vulgarmente chamados os membros da SKull and Bones). Muitos dos chefes de grandes corporações e importantes formadores de opinião também são bonesmen - há um total de 800 deles vivos e em atuação nos EUA, mas normalmente estão em posições privilegiadas e destacadas, comandando ou influenciando a vida de uma multidão que vai além das fronteiras dos EUA e ainda respondendo por uma incalculável soma de dólares. Na Skull and Bones deve-se celebrar alguma espécie de pacto com o poder e o sucesso nas misteriosas seções e reuniões que se realizam em sua sede, considerando o notável desempenho de seus membros. A escolha dos 15 felizardos anuais deve seguir, portanto, uma criteriosa atenção, levando-se em conta o fato de que eles serão importantes líderes a viver segundo o lema da entidade - "Por Deus, pela Pátria e por Yale".O retumbante papel dos bonesmen na sociedade estadunidense e sua atuação como líderes até fez com que se suscitassem as inevitáveis "teorias da conspiração" que colocaram a entidade no centro de alguma espécie de comando pelo controle do mundo, pois eles acabam comandando o planeta de alguma forma. Independente das teorias conspiratórias, é natural considerar que a elite que comanda a nação mais poderosa do mundo acaba, por tabela, comandando também o mundo. Esta é uma relação lógica. Se nos falta a mística de alguma Skull and Bones ou se já não temos os poderosos maçons que tomavam conta do Império no século XIX e nem mesmo a decaída Escola Superior de Guerra que nutria de malícia a elite política brasileira nos idos da Ditadura Militar, não temos razão para lamentar, afinal, possuímos no Brasil um grupo que nos comanda. Ainda que tenhamos presidentes operários, os plutocratas de plantão estarão vigilantes e ativos. Embora pouco numerosa, em termos absolutos ou mesmo relativos, a elite pátria é mais ou menos coesa em torno de seus grandes interesses, irmanada politicamente e sempre disponível para conduzir nossos miseráveis destinos. Portanto, se temos uma "bancada ruralista" e não temos uma reforma agrária não há porque lamentar a ausência de coisa parecida com a Skull and Bones. Se o ritmo e a intensidade dos lucros de banqueiros oscilam em patamares muito além de qualquer projeção a respeito do crescimento das possibilidades de emprego ou de ganho no poder aquisitivo para a população que paga os juros bancários, não há necessidade simbólica de bonesmen brasileiros. Se o tráfego de helicópteros que transportam milionários sobre a quatrocentona São Paulo é tido como natural, se as velhas (e bota velhice nisso!) oligarquias políticas que dominam a política nordestina continua ilesa, então não teremos razão para invejar os mandatários de Yale.

Em New Haven, cidade estadunidense localizada no estado de Connecticut, funciona um dos mais respeitáveis centros universitários do mundo, a famosa Yale University. Instituições de ensino como Yale tradicionalmente respondem pela formação universitária da elite dos EUA e não há de ser estranho para ninguém a evidência de que muitos dos egressos da universidade acabem constituindo-se como notáveis figurões das ciências, da política ou também das artes de fazer dinheiro, afinal, além da altíssima e qualificada formação obtida, um diploma emitido por Yale confere status, respeitabilidade e até poder ao seu felizardo contemplado. Além de suas qualidades acadêmicas, em Yale ronda um mistério em torno de uma enigmática instituição estudantil. A irmandade acadêmica Skull and Bones é mais que um grupo de afiliação estudantil, trata-se de uma verdadeira ordem secreta cuja atuação suscita especulações das mais diversas e alimenta uma mística que vai muito além do campus, atingindo patamares tão amplos quanto insólitos a exemplo das maquinações pela ação do governo dos EUA sobre o Golfo Pérsico. O fato é que os integrantes efetivos e afetivos da Skull & Bones, os bonesmen, atuam de maneira a alimentar a mística e a preocupar os especuladores e propagadores das teorias de conspiração.A Skull & Bones é um bastião da elite estadunidense, reduto da tradição cultural e política da fração protestante branca e anglo-saxã (a velha identificação conhecida formalmente nos EUA como WASP - White Anglo Saxon Protestant). Sua reputação é muito mais significativa que das demais agremiações secretas que funcionam em Yale (Scroll & Key, Book & Snake, Wolf's Head, Eliahu e Berzelius), todas, contudo, seletas ordens elitistas que recrutam para os seus quadros os indivíduos mais promissores da universidade. Em termos competitivos, provavelmente, a única entidade de Yale capaz de impor uma concorrência à Skull & Bones é a Scroll & Key, e, em termos atuais, ambas possuem, respectivamente, identificações predominantes ao Partido Republicano e ao Partido Democrata, reproduzindo a polarização entre conservadores e liberais. Harvard e Princeton, que formam juntamente com Yale o grupo de elite das instituições superiores dos EUA, também possuem suas influentes ordens secretas, contudo, nenhuma delas possui tamanha atuação efetiva pelos subterrâneos e superfície da política estadunidense. Desde sua fundação, em função da alta seletividade da Skull & Bones, que recruta anualmente apenas 15 membros, cerca de 2.500 bonesmen tiveram o privilégio de ostentar tal identificação e hoje em dia há em torno de 600 deles vivos, mas em geral ocupando importantes posições. Tradicionalmente não eram admitidos na ordem membros que não preenchessem os requisitos elementares prescritos pela composição daquilo que se compreende como critérios para a identificação da classificação social elitista da facção WASP da sociedade estadunidense, mas os ventos liberais e a política da inclusão forçaram a admissão de judeus, negros e também de descendentes de estrangeiros bárbaros, afinal, já há bonesmen de ascendência chinesa. Este é um sinal de modernidade que é enriquecido pela mais recente iniciativa de admitir a afiliação de homossexuais. Mas, apesar destas concessões liberais, a Skull & Bones mantém critérios seletivos quanto ao universo de candidatos a prováveis irmãos de ordem. Um requisito inicial é a própria educação secundária, pois há preferência por candidatos egressos de tradicionais e prestigiosas High Schools que atendem exatamente a jovens abastados. Além do mais, a seleção leva em consideração a vivência aventureira do candidato. Pretendentes que já ousaram a enfrentar selvas africanas, intempéries sul-americanas, desertos e riscos eminentes no Oriente conquistam valiosos pontos nesta fase de pretensão à filiação. Os candidatos são criteriosa e severamente avaliados pelos membros sênior da ordem e submetidos a testes e entrevistas que buscam aferir as potencialidades e capacidade integrativa dos candidatos ao corolário e ideário da Skull & Bones. Especula-se que a Skull & Bones inspira-se na tradição maçônica européia (altamente influente no Brasil do Século XIX). Sua cerimônia de iniciação é marcada por uma simbologia mórbida, mas curiosa. Os iniciantes, despidos, deitam-se num caixão que é carregada pelo salão da sede da irmandade. Eles reverenciam a insígnia da ordem (um crânio sobre dois ossos cruzados acima da inscrição "322", alusiva ao ano de 322 a.C., ano em que a deusa Eulogia apareceu no céu após a morte de um orador grego. A crença diz que ela retornaria em 1832) e depois saem do ataúde mortuário como sinal de que estão marcando seu renascimento para um novo mundo iluminado, guardando, cada um, em um local específico, um osso entalhado com o nome dos novos iniciados. O ato cerimonial de iniciação é cercado por gestos e atos simbólicos que inspiram controvérsias e polêmicas - dizem que o velho Prescot Bush, pai do ex-presidente George Bush e avô do atual presidente dos EUA, George W. Bush, todos eles bonesmen, usurpou o túmulo do legendário herói indígena Jerônimo para roubar seus ossos, que teriam servido para um dos rituais da ordem secreta. Dizem mais que as controvertidas histórias sobre os rituais da ordem são também alimentadas pelos próprios integrantes do grupo para manter o mistério a respeito das atividades ritualísticas desenvolvidas na cripta da Skull & Bones no campus de Yale. Rituais à parte, o fato é que os bonesmen assumem o compromisso de seguir determinados princípios como a dedicação ao engrandecimento da nação conforme o receituário prescrito pelo treinamento ideológico prestado pela ordem. Mas eles lançam mão de certos artifícios retórico-discursivos nos quais são instruídos e hábeis para exercer suas atribuições segundo os ideais da Skull & Bones. É este o caso do emprego deliberado da discrição quase enigmática quanto a exposição de seus intentos e a ambigüidade normalmente presente nas peças retóricas expressas pelos irmãos de Yale. Mas engana-se quem imaginar que estas características retóricas são defeitos no processo de construção e apresentação dos pensamentos e atos elaborados por estes hábeis praticantes, pois os bonesmen são habituados a praticar seus métodos de discrição e ambigüidade como instrumentos de exercício do controle e domínio (fundamento que chamam de "wielding"). Aquilo que um bonesmen fala é marcado por noções subliminares que normalmente não ficam claras para um interlocutor desavisado.O processo didático da construção de um bonesmen é sutil e decisivo. Nos tempos de academia, um bom integrante da Skull & Bones precisa exercer atividades desportivas com finalidades relativas ao exercício das habilidades de liderança, pois um bonesmen é, antes de tudo, um líder. Não há de se estranhar que dois dos esportes populares nos EUA, o baseball e a sua versão de futebol inspirada no rugby inglês são experimentos desportivos engendrados por bonesmen. Em esportes coletivos o processo de aprendizagem das competências dos irmãos de Yale é bastante exercido. O bonesmen Gorge Bush pai, embora não tenha sido um habilidoso jogador de baseball, foi capitão da equipe universitária de Yale. Guiar equipes e comandar vitórias é uma habilidade comum aos esportes coletivos, mas também é uma capacidade fundamental em uma espécie mais drástica de competição: a guerra. Nos ensinamentos difundidos no processo de formação da Skull & Bones admite-se que embora as idéias tenham a capacidade de transformar verdadeiramente a história, quase sempre a guerra acaba sendo empregada para realizar este fim. A Skull & Bones difunde um código de postura, conduta e filosofia que bem representam o senso puramente WASP do segmento elitista dos EUA. Mas este código não é universal, ao contrário, é segmentado exatamente porque é elitista. Quando comparamos códigos, o que vemos na Skull & Bones é bem distinto daquilo que se percebe, por exemplo, nas normas de conduta do código samurai do Bushido japonês, que valoriza a honra entre os guerreiros contendedores e preconizou uma visão eminentemente ética e moral do mundo. O código Skull & Bones preconiza a noção de que aquilo que não representa é algo simplesmente inferior, isto é, a própria relação à excludente identificação do segmento da elite que representa (uma elite dentro da identificação WASP) por si já determina a diferença entre os dois códigos.A visão Skull & Bones na política estadunidense é de notável influência, já que muitos de seus integrantes tomaram parte da vida pública do país desde os idos dos fins do século XIX. Esta visão típica dos bonesmen sobre a condução dos EUA não é assunto que deixe de merecer ser notado, sobretudo, quando mais um de seus pares ocupa a presidência do país, após uma reeleição disputada contra um adversário que também ostenta a condição de irmão da ordem de Yale (assim como Goerge W. Bush, o democrata John Kerry também foi forjado nas fileiras da Skull & Bones). Este aspecto político ocupará a abordagem da seqüência do presente artigo, quando a relação entre a ordem Skull & Bones e a Casa Branca vier a ser discutida e especulada.

Paulo Alexandre Filho

Professor da rede pública estadual em Pernambuco

quarta-feira, 8 de outubro de 2008

Quem é McCain?


Eleito, pela primeira vez, para o Senado em 1986, John McCain tem mandato até 2010.
Nasceu a 29 de Agosto de 1936 na base aérea de Colo Solo na zona controlada pelos Estados Unidos do Canal do Panamá. Reside, actualmente, em Phoenix e é casado com Cindy Hensley.
O Senador do Arizona é o que de mais próximo a um herói nacional se pode encontrar no cenário político norte-americano. Filho e neto de oficiais da Marinha, foi um piloto condecorado, abatido no Vietname, passando cinco anos nas prisões comunistas do regime de Hanoi. Regressado aos Estados Unidos em Março de 1973, a sua última função na Marinha foi a de assegurar as boas relações entre esta e o Senado dos EUA. Em 1980, retira-se para o Arizona, Estado-natal da sua esposa. Em 1982, concorre para um lugar em aberto na Câmara de Representantes. Atacado como um outsider respondeu “The longest place I ever lived in was Hanoi”. Venceu e, em 1986 concorreu ao Senado, vencendo facilmente.
Nos seus primeiros anos no Senado, McCain manteve-se discreto. O seu primeiro assunto foi o que se pode considerar a sua especialidade: o Vietname. Com o democrata John Kerry incentivou a criação de um comité para investigar eventuais prisioneiros de guerra que continuassem detidos no Vietname. Não encontraram provas. Incentivou, também com o democrata Kerry, o restabelecimento de relações diplomáticas com Hanoi e o fim do embargo comercial. No Comité de Serviços Armados insistiu num aumento da despesa com a defesa e defendeu que todas as intervenções militares deviam ser destinadas a obter a vitória. Criticou a administração Clinton por não usar toda a força necessária na questão do Kosovo.
O outro comité onde John McCain se empenhou foi o Comércio. O seu impulso levou-o a optar por soluções que conduzissem à desregulação. Defende que os membros do Congresso, tal como os militares, devem servir apenas o interesse nacional. Não aprecia o que considera gastos que se destinam exclusivamente a ganhar votos, desta forma tentou impedir iniciativas que fossem nessa direcção.
O assunto com que mais se identifica prende-se com o regulamento do financiamento às campanhas. Viu-se incluído num escândalo em que ficou conhecido como um dos cinco senadores Keating, investigado por se encontrar com lobbyists da Charles Keating’s Arizona savings and loan. Mais tarde, foi absolvido, chegando-se à conclusão de que o seu nome apenas tinha sido usado para tornar o escândalo bipartidário. Fruto deste envolvimento, começou a desenvolver trabalho com o Democrata Russ Feingold. Em 1998, apresentaram uma série de propostas no sentido de limitar as contribuições aos partidos. Foi rejeitado. Em Setembro de 1999, McCain e Feingold tentaram de novo, mas sem sucesso. Não obstante, McCain não deixou de continuar a considerar que o sistema era propenso à corrupção.
O seu trabalho na tentativa do sistema de financiamento e as credenciais do Vietname providenciaram justas aspirações à sua corrida pela nomeação republicana em 2000. Evitou a exposição mediática no Iowa e apostou tudo em New Hampshire, utilizando o já famoso “Straight Talk Express” sob o lema “I’ll never tell you a lie”, apostou nos temas concernentes às questões de defesa e política externa. No entanto, não obteve muitos apoios. Apenas os Senadores Jon Kyl, Chuck Hagel, Fred Thompson e Mike DeWine demonstraram o seu apoio. Venceu as primárias de New Hampshire por uns impressionantes 49% - 31%.
Seguidamente, a campanha tornou-se mais dura e subiu de tom. Começou a ser atacado por grande parte dos republicanos. As suas aspirações para a reforma do financiamento eleitoral e o facto de ser contra os cortes nos impostos propostos na campanha por Bush por serem benéficos apenas para os “ricos” levou-o a ganhar apoios nos independentes mas a perder a base de apoio republicana que era, na essência, o que estava em jogo. Os ataques aos religiosos fervorosos, ainda que sarcásticos, também em nada ajudaram. Perdeu a eleição na Carolina do Sul. Sendo-lhe favoráveis os Estados do Arizona e Michigan. Na Super Terça-Feira, perdeu os decisivos Estados: Nova Iorque, Ohio e Califórnia. Desistiu da sua campanha a 9 de Março. Rejeitou a vice-presidência ou ter qualquer lugar na administração Bush.
A derrota na corrida para a nomeação presidencial deu-lhe força para ainda mais iniciativas legislativas. A sua prioridade foi a reforma do financiamento das campanhas. Para obter os apoios dos congressistas, começou por apoiá-los nas suas próprias campanhas. Com os apoios de individualidades como Fred Thompson, McCain e Feingold conseguiram fazer passar a sua legislação, apesar de esta sofrer algumas emendas. De realçar ainda, foi o conflito que manteve com a administração Bush, por esta não querer indicar o Democrata Tom Daschle para um lugar na Federal Election Comission.
Após alinhar com os Democratas em vários projectos de lei, chegou a ser apontado por jornais como o The Washington Monthly e o The New Republic, como um forte candidato à nomeação presidencial do Partido Democrata. Rejeitou tudo, e acabou por alinhar com George W. Bush e a maioria dos Republicanos em várias propostas.
Apoiou decisivamente os esforços de Bush na guerra ao terrorismo depois do 11 de Setembro; e, em Dezembro de 2001, foi um dos dez membros do Congresso a afirmar que o Iraque deveria ser o próximo alvo. Chamou a atenção para a prioridade que se deveria dar à segurança aérea. Pediu a criação de uma comissão para investigar as falhas no sistema de informação antes do 11 de Setembro.
Em 2002, McCain voltou a ser nomeado presidente do comité de Comércio. Juntamente com Joseph Lieberman, seu apoiante nesta campanha presidencial, começou a trabalhar um projecto de lei para reduzir as emissões de dióxido de carbono. Continuou a intentar iniciativas legislativas no sentido de alargar o exército e as tropas estacionadas no Iraque. Em Dezembro de 2004, retirou a confiança ao Secretário da Defesa Rumsfeld. Opôs-se à emenda constitucional que tencionava banir o casamento entre indivíduos do mesmo sexo.
Na campanha presidencial de 2004, após a nomeação do candidato democrata John Kerry, começaram a surgir boatos no sentido de sugerir de que John McCain concorreria como vice-presidente ao lado de Kerry. Depressa McCain rejeitou os boatos. Desta forma, em Junho de 2004, McCain apareceu ao lado de Bush a prestar-lhe o seu endorsement com o seguinte comentário sobre o agora cessante presidente: “He has been tested and has risen to the most important challenge of our time, and I salute him.“
Sobre a imigração McCain diz que o reforço das fronteiras não funcionará sozinho, opondo-se ao corte dos benefícios sociais para imigrantes ilegais, argumentando que iria atrasar uma solução. John McCain trabalhou ainda com Bush nas suas reformas na Segurança Social e mudanças nos impostos.
O Senador do Arizona tem óbvias vantagens como candidato presidencial republicano mas, no entanto, também algumas limitações. Em vários assuntos, alinha com a base conservadora do Partido Republicano, mas não gosta de os enfatizar; o seu apelo aos independentes e democratas é maior do que o de Bush e a sua popularidade na imprensa é muito maior. Mas isto pode mudar, assim que McCain alcance a nomeação. A sua idade avançada, por exemplo, não joga a seu favor, sendo que ele é apenas um ano mais novo do que Reagan quando venceu a sua segunda eleição presidencial. Mas, para rebater este argumento, McCain costuma aparecer em vários eventos com a sua mãe, Roberta McCain, de 96 anos de idade.


Direto do Observatório do Instituto Transatlântico Democrático sobre as eleições Presidenciais Norte-Americanas de 2008

Obama, um inventor de si mesmo


Seus pais e avós fugiram de qualquer identidade cultural. Então o candidato democrata teve de criar a sua própria
Em março, quando os primeiros sermões raivosos do homem que foi seu pastor por tantos anos começaram a aparecer na televisão, Barack Obama se pôs perante as câmeras para fazer aquele que é hoje considerado o discurso mais importante desta campanha. O discurso sobre raça foi proferido com veemência e elegância durante quase 40 minutos. Obama é o candidato dos discursos, das palavras bem colocadas, entonação perfeita e carisma ímpar. Conseguiu transformar um discurso político de 40 minutos no campeão de audiência do YouTube por uma semana.Para alguns analistas, aí está a marca do demagogo: palavras bonitas que conquistam o eleitorado pelo coração. Mas quem presta atenção nas palavras percebe que o estilo não é o de falar aquilo que o público quer ouvir. “Quando brancos sabem que um afro-americano conseguiu uma vaga na universidade por causa de uma injustiça cometida em gerações passadas, quando brancos são acusados de racismo por conta de seus medos concretos da criminalidade urbana, é natural que surja ressentimento”, disse a seus eleitores negros naquele discurso. Para falar das feridas criadas pela questão racial nos EUA, não desculpou ninguém. Esse tipo de desafio a quem o ouve é comum em Obama.Para um grupo de exilados cubanos em Miami, no último dia 23, Obama relatou que planejava reativar os canais de diplomacia com o governo de Raúl Castro, cogitando até o fim do embargo em troca da liberação de prisioneiros políticos. “Sei que não é o que vocês querem ouvir.” A um grupo de plantadores de milho no interior de seu Estado, disse que como senador poderia até lutar pelo subsídio que os protege, mas isso não adiantaria por muito tempo. “O problema é que o etanol brasileiro é muito mais barato que o nosso”, explicou. “Vocês terão que encontrar opções mais eficientes.”No mundo que Barack Obama vê e descreve há desafios para todos. Essa sua visão nasce de sua história pessoal - uma história que começa com fugas.Seu avô paterno foi criado no interior do Quênia durante o Império Britânico. Viveu entre a estrutura tribal de sua pequena comunidade e o desejo de ser ocidental, descreve Obama em seu primeiro livro, A Origem dos meus Sonhos. Abandonou as roupas coloridas da tradição e vestiu a dos europeus. Serviu como cozinheiro em um navio da Marinha britânica durante a 2ª Guerra. Seu filho Barack Hussein Obama Sr, pai do candidato, foi mais longe: descobriu-se ateu, abandonou o islamismo de seu clã e mudou-se para o Havaí, onde conheceu uma moça branca com quem casou. Formou-se em economia por Harvard. Divorciou-se. De volta a seu país, serviu na alta hierarquia do governo sem jamais conseguir modernizar a estrutura social do Quênia como queria. Alcoólatra, sofreu de problemas de circulação que lhe custaram uma das pernas antes de sua morte prematura, em 1982, aos 46 anos.Também o avô materno de Obama buscava algum tipo de transformação íntima. Natural do Kansas, seguiu o sonho americano de uma nova vida em direção ao Oeste. Veterano da 2ª Guerra, pingou de emprego em emprego com mulher e filha, primeiro no Texas, depois Califórnia, Estado de Washington e, finalmente, Havaí. Sua filha, Ann Dunham, manteve essa busca por uma reinvenção pessoal. O primeiro marido foi um queniano, pai de Obama, que a abandonou. O segundo era da Indonésia, para onde Ann se mudou com o filho Barack muito menino. Separada novamente, Ann morreu de câncer, aos 52 anos.Criança, Obama viveu com a mãe na Indonésia, estudando numa escola internacional católica, depois numa islâmica. Ann não ligava para religião. Mas aí, com 13 anos, Obama quis estabilidade: adolescente, foi morar com os avós no Havaí. Para os colegas americanos, era, como se descreveria anos depois, “um menino magrelo com o nome engraçado”. Em seu livro, descreveu um envolvimento autodestrutivo com drogas - maconha, depois cocaína. À imprensa, os amigos do tempo disseram que Obama fumou, cheirou, mas não foi nada sério. Bom aluno, ganhou uma bolsa para a Universidade Colúmbia, em Nova York, onde estudou ciência política e relações internacionais. E, quando foi procurar emprego, escolheu um de assistente social em Chicago, no lado sul da cidade, conhecido pela influente comunidade negra.Aos 22 anos, Barack Hussein Obama sentia-se um fruto de famílias em fuga que rejeitavam o passado. A seus olhos, nem os pais nem os avós foram felizes. E lá estava ele, um rapaz negro criado por brancos, chegando a um lugar novo. De volta ao Meio Oeste que seu avô abandonara, ele buscaria uma raiz, uma tradição. E duas pessoas o apresentaram a ela.O primeiro foi Jeremiah Wright, pastor da Trinity United Church of Christ. Wright o ensinou sobre ser negro nos EUA, ofereceu uma base religiosa, apresentou Obama à comunidade e o influenciou na maneira de falar em público. A segunda pessoa foi sua mulher, Michelle. Com ela e os sogros, ele conheceu a vida de uma típica família estável da classe média negra. Já era este seu mundo quando se formou em direito, em 91, pela Universidade Harvard, considerada a melhor do mundo.Quando, anos mais tarde, condenou a Guerra do Iraque, ele argumentaria com base nas conclusões que tirou da vida. Seus pais tentaram se reinventar abandonando as tradições e, no processo, perderam a própria identidade. A tradição é o que dá liga à sociedade. Perante a mudança, a tradição sempre resiste. Mudança, na história, vem a passos lentos. Para ele, há ingenuidade no ideal do sonho americano de que idéias, por si, causam grandes mudanças. Idéias não bastam. Barack Obama, como o descreveu Larissa MacFarquhar num perfil para a revista The New Yorker, “é profundamente conservador”. Democracia não seria simplesmente imposta num país onde ela jamais existira.Obama é conservador na maneira de ver o mundo e a sociedade, mas um político que segue fielmente a tradição social da esquerda americana. Eleito em 1996 para o Senado Estadual de Illinois, propôs 233 leis sobre saúde pública (incluindo a tentativa de implantar um sistema universal, que foi rejeitado), 125 dedicando recursos para assistência social e 112 tratando de criminalidade, como programas de reintegração à sociedade, o alívio de penas para certos crimes e maior controle na venda de armas. Nas 823 leis que apresentou, mais da metade se inclui nesses três grupos.No Senado dos EUA, onde atua desde 2005, se mostrou protecionista - vem de um Estado agrícola - e favorável a facilitar a vida dos imigrantes, mesmo os ilegais. É a favor do aborto, mas não rejeita de todo a pena de morte, que considera justa para os casos mais brutais, que choquem a sociedade. Votou a favor de planos de educação sexual e distribuição de contraceptivos para adolescentes, quer um projeto agressivo para cortar a emissão de carbono e deseja retirar as forças americanas do Iraque para investir na luta contra a Al-Qaeda no Afeganistão e Paquistão.A campanha presidencial apenas começou. Não foi sem dor que ele renegou seu pastor, quase uma figura paterna, há um mês. Seu adversário republicano, John McCain, o atacará em sua disposição de negociar com ditadores, explorará sua pouca experiência em política exterior e tentará mostrar que, hábil com as palavras, Obama seduz sem substância. Também deve apresentá-lo como um radical da política negra. A proximidade com o pastor Wright torna a insinuação crível. A amizade com o casal Bernardine Dohrn e William Ayers, terroristas de esquerda nos anos 60, reforça a tese. Não bastasse, ainda há o fantasma de Tony Rezko, um de seus primeiros financiadores políticos, condenado em maio por corrupção.A campanha presidencial de Obama é conduzida por um ex-repórter da editoria de política do jornal The Chicago Tribune, David Axelrod. Ele pretende driblar a discussão contando e recontando a história pessoal do candidato. Ao New York Times, explicou que “a história de Barack é a personificação de sua mensagem para o país, a de que com tenacidade podemos vencer as barreiras que nos dividem”. A candidatura, segundo Axelrod, é essencialmente uma aposta de que, mesmo lentamente, a história caminha para a frente e os EUA são, sim, capazes de eleger um presidente negro.É só com sutileza que Obama trará a questão racial para a campanha. Tão logo ficou claro que seria o candidato, McCain o convidou para uma série de debates informais, ao vivo, perante grupos de eleitores em todo o país, como haviam combinado de fazer, em 1963, John Kennedy e Barry Goldwater. Obama disse que gostou da idéia, mas sugeriu que seguissem o modelo estabelecido, antes da Guerra Civil, por Abraham Lincoln e Stephen Douglas. Na verdade, são modelos iguais. Mas Lincoln foi o libertador dos escravos nos EUA. E um político de Illinois. Obama sublinha a idéia de ser sucessor natural do velho presidente.

Pedro Doria (O Estado de São Paulo)