sexta-feira, 7 de agosto de 2009

Hiroshima, o maior crime de guerra do mundo


Em agosto o mundo relembra com muito pesar os 64 anos do maior crime de guerra já desferido contra a humanidade. O holocausto nuclear contra as cidades japonesas de Hiroshima e Nagasaki. Crime do qual jamais seus culpados foram sequer acusados, muito pelo contrário, foram saudados como heróis em todo o mundo simplesmente por terem vencido a guerra e movido uma propaganda capaz de fazer o mundo inteiro se esquecer do horror nuclear.

Mas muitos ainda não se esqueceram do verdadeiro culpado dessa verdadeira história de horror, a maior nação terrorista de todo o planeta, os Estados Unidos da América, e provoca o leitor a conhecer um pouco mais sobre o que a grande mídia mundial insiste em fazer-nos esquecer. Os crimes de Hiroshima e Nagasaki. Aqui você verá um pouco do que realmente ocorreu e que pode ser facilmente comprovado por documentos públicos estadunidenses considerados ultra-secretos e que foram recentemente abertos à população.

150 mil civis inocentes são condenados à morte por Harry Truman. Primeira e única nação do mundo a jogar bombas atômicas sobre civis

Em Agosto de 1945 os Estados Unidos da América entraram para a história mundial por ser a primeira e única nação a despejar o terror atômico sobre enormes populações de civis. Com a II guerra mundial praticamente acabada e sem ter podido justificar o gasto de 2.6 bilhões de dólares no Projeto Manhattan (projeto de construção da bomba atômica), Harry Truman busca oportunidades para jogar uma, ou quem sabe até mais, de suas bombas envenenadas sobre cidades inimigas e demonstrar ao mundo o tamanho do poder que os Estados Unidos detinham na mão. O povo estadunidense já estava sendo “envenenado” há muito tempo por sua mídia tendenciosa que os fazia crer que a bomba atômica daria fim a uma guerra e salvaria vidas, já que seus filhos voltariam da guerra. De acordo com Peter Scowen, autor do Livro Negro dos Estados Unidos, “para os estadunidenses, a detonação das bombas em Hiroshima e Nagasaki foram ações militares realizadas contra uma nação despótica que só podia culpar a si mesmo pelo sofrimento de seu povo. (...) Havia até um fervor religioso no desempenho estadunidense, pelo menos na cabeça de Truman: “... Agradecemos a Deus por [a bomba] ter vindo a nós ao invés de nossos inimigos; e oramos para que Ele nos guie para usa-la a Sua maneira e com Seus propósitos...” . Pior que isso, só mesmo uma reveladora pesquisa que mostra o desejo dos estadunidenses em substituir um genocídio por outro. Ainda de acordo com Scowen, “...Uma pesquisa do Gallup feita em dezembro de 1944 revelou que 13% dos estadunidenses eram a favor da eliminação do povo japonês por meio do genocídio...”

Infelizmente para os planos de Truman, a Alemanha havia assinado rendição incondicional em Maio de 1945 logo após o suicídio de Adolf Hitler. A Itália já havia se rendido anteriormente quando da prisão e assassinato de Mussolini. Naquele momento só restara o Japão. Ao ver-se sem muitas alternativas para concretizar seus planos, Truman se apega na última oportunidade que lhe apareceu ao alegar a não rendição incondicional do Japão, que insistia em manter seu reverenciado imperador. Grandes estrategistas de guerra desaconselharam o presidente a utilizar as armas atômicas, propondo como alternativa um grande bloqueio marítimo, aliado à entrada da Rússia na frente do Pacífico e mais os bombardeios focados em alvos militares. De acordo com esses especialistas, essas manobras seriam suficientes para acabar com a guerra até Julho de 1945. Mesmo assim, Truman simplesmente ignorou-os e, utilizando o mote da não rendição incondicional, decidiu o destino de duas cidades e centenas de milhares de vidas humanas.

Alvos escolhidos: Hiroshima e Nagasaki
O plano original previa ataques com bombas atômicas a quatro cidades japonesas. O comitê de alvos do projeto Manhattan decidira atacar Hiroshima, pois segundo as minutas das reuniões desse comitê, em razão de seu tamanho e planta, “... grande parte da cidade seria extensamente danificada...”, Nagasaki e Kyoto, pois, ainda de acordo com essas minutas, Kyoto “...era um centro intelectual do Japão e seu povo é mais capaz de avaliar o significado de uma arma assim...” 1

Assim, no fatídico dia 06 de Agosto de 1945, movidos além de tudo por um sentimento indissimulável de vingança pelo ataque japonês à base militar de Pearl Harbor, aviões estadunidenses se aproximaram do primeiro alvo a sofrer os horrores das armas nucleares. Hiroshima, a então sétima maior cidade japonesa, com 350 mil habitantes, foi atacada por Little Boy, que até o fim do ano de 1945, decretou a morte de aproximadamente 150 mil japoneses, dos quais apenas 20 mil eram militares. Não satisfeitos com tamanha atrocidade e apenas três dias depois do primeiro ataque, como se fosse possível preparar uma declaração total de rendição incondicional em três dias, os estadunidenses atacaram a segunda cidade-alvo no dia 09 de agosto. Nagasaki e seus 175 mil habitantes foram a vítima de Fat Man, segunda e mais poderosa bomba, que vitimou aproximadamente 70 mil seres humanos na contabilidade macabra feita em dezembro de 1945.

Os efeitos nefastos de Little Boy e Fat Man
Se analisarmos brevemente o número de vítimas de little boy e fat man, 40% da população original das cidades de Hiroshima e Nagasaki morreram na contagem feita em dezembro de 1945. Estes números ainda não refletem a realidade do verdadeiro montante de vítimas das bombas, uma vez que milhares de outras pessoas morreram posteriormente em decorrência dos nocivos efeitos da radiação. Em uma comparação meramente ilustrativa, é como se nos ataques de 11 de Setembro, ao invés de terem morrido três mil pessoas, aproximadamente quatro milhões de nova-iorquinos tivessem perdido sua vida no World Trade Center. E isso não é tudo, pois os efeitos da bomba não são apenas a morte e a destruição imediatas. Até hoje continuam morrendo pessoas vítimas de câncer herdado geneticamente de seus pais e avós, além de ser possível encontrarmos ainda hoje, milhares de pessoas com deformações físicas, câncer congênito, problemas de esterilidade e outras doenças decorrentes da liberação radioativa sobre essas cidades em 1945.

De acordo com estudos realizados nos escombros das cidades, praticamente todas as pessoas que estavam até 1 km do centro da explosão foram mortas instantaneamente (86%). As bombas explodiram nos centros das cidades e pulverizaram escolas, escritórios, prisões, lares, igrejas e hospitais. No centro do ataque, tudo virou pó, não havia cadáveres. Mais longe do ponto zero havia corpos espalhados por toda parte, inclusive de bebês e crianças. De acordo com Peter Scowen, “Yosuke Yamahata foi enviado pelo exército japonês para fotografar Nagasaki no dia seguinte ao bombardeio. Suas fotos mostram uma cidade completamente aplainada, homogeneamente alisada. (...) Ele tirou fotos de uma mãe morrendo de envenenamento radioativo e amamentando seu bebê, também à morte; fotos de fileiras de cadáveres, pais tentando, inutilmente, cuidar das queimaduras no corpinho de seus filhos. Yamahata morreu de câncer em 1966, com 48 anos”. As vítimas da radiação apresentam febre e hemorragias arroxeadas na pele, depois surge a gangrena e o cabelo cai. Esta morte dolorosa, tão parecida com o envenenamento por gás mostarda na tortura lenta que provoca, não era coisa na qual os estadunidenses desejariam que o público se concentrasse após o lançamento das bombas, afinal, os Estados Unidos da América haviam assinado tratados em 1889 e 1907 que baniam o uso de “armas envenenadas” na guerra. Pior que isso, os Estados Unidos haviam concordado com uma resolução de 1938 da Liga das Nações que tornava ilegal o bombardeio intencional a civis. Ou seja, com os ataques de Hiroshima e Nagasaki, os Estados Unidos simplesmente ignorou todos os tratados que haviam assinado até então.

Os verdadeiros motivos por trás do bombardeio
Os verdadeiros objetivos por trás dos bombardeios de Hiroshima e Nagasaki ficaram obscuros durante muito tempo. Na época foi alegada a resistência dos japoneses em aceitar rendição incondicional, já que os Estados Unidos exigia a deposição do imperador japonês e eles não aceitavam essa condição. Dwight Eisenhower, general americano que futuramente se tornaria presidente, disse que “O Japão estava buscando alguma forma de render-se com uma perda mínima de aparência (...) não era necessário golpeá-lo com aquela coisa” 2. Com a recente liberação de documentos e diários antes considerados ultra-secretos, hoje já se pode concluir documentalmente que o principal objetivo por trás dos ataques a Hiroshima e Nagasaki foi a necessidade de enviar uma mensagem clara à União Soviética, que vinha se expandindo pelo leste europeu (Polônia, Romênia, Hungria), de que os Estados Unidos tinham em mãos uma arma poderosa e que não hesitariam em utilizá-la caso fosse necessário. Ainda de acordo com Peter Scowen, “... já em 1944 os americanos haviam considerado a arma um trunfo em suas relações com Stalin e Truman acreditava que uma exibição pública da capacidade da bomba iria tornar a URSS mais manejável na Europa...”. Quanto a motivação do ataque, o próprio governo estadunidense acaba por se contradizer na hipótese de que teria sido a não rendição incondicional do Japão. No dia 10 de agosto, apenas um dia após a explosão de Nagasaki, o Japão entrega sua rendição assinada e os Estados Unidos abandonam a idéia da rendição incondicional alegando que se o imperador continuasse no poder isso permitiria uma ocupação mais ordeira pelas tropas estadunidenses.

Ironicamente, ao contrário do que desejavam os estadunidenses liderados por Harry Truman, a demonstração pública do poder da bomba atômica fez os líderes de todas as nações tremerem, mas, ao invés de ficarem sentados esperando que os Estados Unidos deixasse seu poder nuclear nas mãos da ONU, todos queriam ter tal poder nas mãos, especialmente a União Soviética que, liderada por Josef Stálin, deu início a Guerra Fria e a corrida armamentista nuclear, que só iria arrefecer praticamente 45 anos após os bombardeios, com o fim da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas sob a liderança de Mikail Gorbatchev.

Notas:
1 - Citado por Peter Scowen em O Livro Negro dos Estados Unidos, p. 49
2 - Citado por Peter Scowen em O Livro Negro dos Estados Unidos, p. 51

Leia também:
• A bomba atômica e a era do suicídio globalizado - Flávio Calazans

Livros relacionados ou citados no artigo:

• O Livro Negro dos Estados Unidos - PETER SCOWEN
• LIFTON, Robert Jay e MITCHELL, Greg, Hiroshima in America: A Half Century of Denial, Nova York: Avon Books, 1995.
• Revista História Viva, Ed. Duetto - Ano 2, Número 20, Junho de 2005, Pg.24

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

Os Mistérios de Otzi


Otzi, também conhecido como Homem do Gelo, está sendo chamado de "A múmia assassina". O restos mortais congelados foram descobertos em 19 de setembro de 1991, por um turista alemão, Helmut Simon, na fronteira montanhosa entre Itália e Àustria, Alpes

Otzi, também conhecido como Homem do Gelo, está sendo chamado de "A múmia assassina". O restos mortais congelados foram descobertos em 19 de setembro de 1991, por um turista alemão, Helmut Simon, na fronteira montanhosa entre Itália e Àustria, Alpes do Tirol, na região chamada Vale de Otzi (ou Oetzi), que emprestou o nome à múmia.
A notícia sensacional ocupou manchetes de todo o mundo: o achado tinha cinco mil e trezentos anos de idade e estava em inigualável estado de conservação, tanto o corpo quanto os objetos com ele encontrados, como vestuário e utensílios. Cientistas de todo mundo mobilizaram-se para extrair do cadáver o máximo de informações sobre a vida do homem primitivo da Europa Neolítica.
Os primeiros exames começaram a revelar enigmas intrigantes: as roupas apresentaram manchas de sangue cujo DNA mostrou pertencerem a quatro indivíduos. Além disso, o crânio, submetido a raio X, mostrou fragmentos de pontas de flechas. Concluiu-se que Otzi teve morte violenta, por agressão. Ele morreu aos 46 anos, superando a média de vida de seus contemporâneos. Possuía tatuagens numerosas e intrincadas sugerindo que o Homem do Gelo poderia ser um shaman.
A análise dos objetos encontrados produziu resultados estranhos: as flechas que Otzi portava têm sete mil anos; o machado, dois mil anos e a pele do gorro que usava, nos Alpes, pertence a um tipo de caprino que viveu na China, hoje extinto. Estes fatos tornam-se inexplicáveis diante dos estudos sobre a "geografia da vida" de Otzi. Em 11 de novembro de 2003, o site da BBC online publicava:

Resgate de Otzi, em 1991
"Cientistas identificaram o provável local de nascimento de Otzi, o famoso homem do gelo. O antigo caçador provavelmente passou sua infância no local em que hoje é a vila de Feldthurns, no Tirol do sul, região de fala alemã no norte da Itália. As evidências sugerem que as viagens que ele fez durante sua vida ficaram restritas a 60 km de distância ao sudeste de onde seu corpo foi encontrado.
A múmia congelada de 5.300 anos foi descoberta após o derretimento de uma geleira na fronteira montanhosa entre a Itália e a Áustria em 1991. Desde então, cientistas têm feito estudos detalhados de como ele viveu e morreu. A última pesquisa, publicada na revista Science, observou átomos isotópicos encontrados nos dentes e nos ossos do homem de gelo. Eles foram comparados com exemplares de solo e água de uma vasta região dos Alpes. Minerais da dieta alimentar são depositados no corpo em tempos diferentes - nos dentes, por exemplo, durante a infância, e nos ossos, durante a vida adulta. Isso permitiu com que pesquisadores na Austrália, nos Estados Unidos e na Suíça deduzissem onde Otzi viveu em diferentes fases de sua vida.
O grupo acredita que seus movimentos ficaram restritos a alguns vales em uma distância de 60 km a sudeste de onde o corpo foi encontrado. Ele nunca se movimentou ao norte desse ponto e provavelmente cresceu no vale de Eisack, no sul da região do Tirol. Diversos sítios arqueológicos na área delimitada e ao redor da região foram identificados.
Os cientistas acreditam que Feldthurns é a mais provável região onde o homem do gelo passou sua infância. Um pouco mais tarde, ele foi para o norte, para as montanhas de Vinschgau, antes de viajar para o vale de Otiz, onde morreu, aos 46 anos.
Segundo Alexander Halliday, do Departamento de Ciências da Terra de Zurique, "essa é a primeira vez que alguém faz um estudo detalhado da migração de um ser-humano no passado". Parece que ele viveu a maior parte de sua vida em um vale diferente de onde ele nasceu", acrescentou.

Machado e Gorro ede Otzi: Museo Archeologico dell'Alto Adige, Bolzano (Italia)
A pesquisa revela que o homem do gelo passou sua infância nos vales ao sul dos Alpes, antes de migrar para o norte, já na vida adulta. Uma outra opção aventada é a de que o homem do gelo passou seus verões nas montanhas e os invernos nos vales.Esse é um padrão de migração que começou no período neolítico e ainda está em prática até os dias de hoje." [IN http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/
story/2003/11/031031_icemancl.shtml]

As limitações físico-espaciais das andanças de Oetzi, tornam muito enigmáticas as características dos objetos com ele encontrados. Partindo do pressuposto de foi um shaman, há teóricos que já cogitam a possibilidade de Oetzi ser um antigo sacerdote pagão, pertencente a algum culto desconhecido e dotado de habilidades sobrenaturais que lhe permitiram viajar no tempo. Admitindo essa hipótese como verdadeira, a todas estas estranhezas, somam-se fatos sugestivos de que a múmia pode estar "enfeitiçada", ou amaldiçoada.
Tal como no caso de das múmias egípcias, em especial à de Tucancamon, Otzi, se era um místico poderoso, tratou de "fechar o corpo" com algum tipo de praga vingadora capaz de aniquilar qualquer um que lhe toque o cadáver. Essas maldições eram comuns entre os místicos da antiguidade mais remota. Fatos subseqüentes à descoberta do corpo permitem considerar que a maldição de Otzi está em atividade causando a morte daqueles que têm lidado com os restos mortais.
A primeira vítima foi o próprio descobridor, Helmut Simon. Ele havia recebido cem mil dólares como prêmio pela descoberta. Radiante, resolveu voltar ao Vale. O tempo estava claro, tudo parecia bem, porém, subitamente, Helmult viu-se envolto em uma imprevista tempestade de neve. Ele morreu congelado. Foi encontrado caído na mesma posição em que Otzi foi descoberto. O chefe da equipe de resgate que localizou Helmut também morreu: ataque cardíaco, uma hora antes do alemão ser enterrado.
Doutor Rainer Henn, que conduziu a perícia no corpo de Otzi, foi o terceiro, vítima fatal de um acidente com seu automóvel quando se dirigia a uma conferência científica dedicada à descoberta do Homem do Gelo. O quarto amaldiçoado foi o montanhista profissional Kurt Fritz, que organizou uma expedição ao "sítio do shaman". Lá chegando, de helicóptero, estando em uma área que ele conhecia perfeitamente, foi surpreendido por uma avalanche e sucumbiu sob a camada de neve. Outro montanhista que o acompanhava, escapou.
O jornalista austríaco, Rainer Heozel, lançou um documentário sobre Otzi: morreu em dois anos vencido por um tumor no cérebro. Konrad Spindler, chefe de um grupo de estudos sobre a múmia na Universidade de Innsbruck e que sabia dos rumores sobre a maldição, morreu aos 66 anos com uma esclerose incontrolável. Mais recentemente, foi a vez de Tom Loy, 63 anos, especialista que estudava o DNA de Otzi, morreu na Austrália de causa desconhecida.
O fenômeno da maldição de Otzi é semelhante ao caso da maldição da múmia de Tutancamon. Em fevereiro de 1923, uma antiga tumba foi aberta no Vale dos Reis, em Luxor, Egito. Os cientistas encontraram o corpo mumificado do jovem faraó e sua máscara mortuária, feita de ouro.
Algum tempo depois da descoberta, o chefe da equipe arqueológica, Lord Carnarvon morreu vitimado por uma moléstia extremamente dolorosa transmitida por mosquito; na época, porém, muitos acreditaram que a causa mortis verdadeira era "a maldição do faraó". Testemunhas acrescentaram que pouco depois da morte de Carnarvon, seu cachorro começou a uivar e gemer morrendo em seguida; a causa é desconhecida. Logo havia rumores de que a maldição era extensiva a todos os membros da equipe arqueológica. Vinte e cinco pessoas, todos europeus, trabalharam no sítio arqueológico; onze jamais entraram nas tumbas.
O pesquisador Mark Nelson, da Universidade Monash da Austrália, decidiu investigar o que aconteceu com os 14 membros daquela expedição que estiveram expostos à suposta maldição. Apurou que haviam morrido bem antes que os outros mas que, entretanto, nada de extraordinário havia nas mortes, satisfatoriamente explicadas. Mark Nelson concluiu que a maldição de Tutancamon era apenas uma superstição.
Entretanto, nem todos pensam assim e fatos, no mínimo coincidências demais, reforçam a teoria da maldição. Além da morte de Lord Carnarvon, há registros de outras mortes com histórico suspeito. No site Egito Online, o seguinte relato, intitulado "A Maldição do Faraó caiu sobre quem profanou sua tumba", informa sobre estas mortes:
"Com manchetes como essa [A Maldição do Faraó caiu sobre quem profanou sua tumba], os jornais da década de 20 vendiam milhares de exemplares, explorando o que parecia ser uma maldição do faraó Tutancâmon. O tesouro seria maldito, e o fantasma do faraó perseguia implacavelmente os responsáveis pela profanação de sua tumba.
A primeira vítima da maldição do faraó seria o próprio Lorde Carnarvon, que morreu em 5 de abril de 1923, no Egito, poucos meses depois da descoberta da tumba. Vitimado por uma infecção, provocada por uma picada de inseto ocorrida quando visitava o túmulo. Morreu em delírio, gritando o nome de Tutancâmon, no momento exato que um black-out inexplicável atingiu a cidade. Pouco tempo depois, seu irmão, o Coronel Aubrey Herbert também morre, e depois, a enfermeira que cuidava de Lorde Carnarvon.
Começava aí, um rastro de morte e terror que se estendia para muito além das areias do Egito: Arthur C. Mace, do Metropolitam
Museum of Art de Nova York; George Benédite, do Louvre de Paris; Richard Bedell, filho de Lorde Westbury. Todos haviam entrado na tumba e encontrado a morte.
A lista continua: Professor Douglas E. Derry; O Doutor Saleh Bey Hamdi, que haviam feito os exames da múmia; Archibald Douglas Reed, que havia feito os Raios-X. Alguns não aguentaram esperar pelo fantasma vingativo do faraó, o egiptólogo Evelyne White, enforcou-se, deixando a mensagem "Pesava sobre mim uma maldição à qual não tenho mais remédio que submeter-me".
Os jornais especulavam, no final, toda a história da descoberta da tumba de Tutancâmon estava repleta de sinais, profetizando as mortes dos profanadores: um dos trabalhadores disse ao escavar o túmulo de Tut-Ankh-Âmon: "Essa gente encontrará ouro e morte"; quando entraram na tumba, na 2ª porta, um aviso de três mil anos: "A morte esmagará com seus golpes a todo aquele que perturbe o sono do faraó".
Um pássaro, que pertencia a Carter, foi morto por uma Naja, e os trabalhadores começaram a ver nesse fato, um sinal que estavam amaldiçoados. Mas, e Howard Carter? Viveu até os 66 anos e, dizem, sua vida nunca mais foi à mesma. Perseguido pela má sorte, nunca mais teve coragem para procurar outros tesouros.
Uma boa coisa acabou acontecendo por causa da suposta maldição, diversos contrabandistas e colecionadores de peças egípcias, devolviam ou doavam aos museus suas coleções, com medo da maldição que se alastrava.
Muito da maldição é só história; se contesta a veracidade do aviso na porta do túmulo, por exemplo. A verdade é que o irmão de Lorde Carnarvon morreu de velhice, e que algumas vítimas do faraó já estavam muito doentes antes da descoberta da tumba. O pânico se alastrou, bastava trabalhar em um museu e morrer para o nome ser automaticamente relacionado com a maldição. Hoje, alguns sustentam a tese da existência de fungos na tumba, lacrada por três mil anos e sem ventilação; ou de algum veneno espalhado pelos antigos sarcedotes nos objetos."

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

Psicanálise e Literatura: A Interpretação




Os estudos das relações entre Psicanálise e Literatura, Psicanálise e Semiótica estão, cada vez mais, na ordem do dia. Essas relações passam, necessariamente, pelo enfoque psicanalítico do texto do paciente e pelo enfoque literário ou/e semiótico do texto artístico, em geral, e mais especificamente, do texto literário, pois também a Psicanálise trabalha com o Verbal. Via interpretação.

A interpretação de textos artísticos e literários foi uma das atividades de análise, exercida por Freud.

Freud declarou que embora não fosse um conhecedor de arte, mas um leigo, no assunto, contudo as obras de arte sempre exerceram sobre ele um efeito poderoso, sobretudo a literatura e a escultura e, menos freqüentemente, a pintura. Passava longo tempo contemplando-as, tentando apreendê-las à sua maneira e explicar-se a razão de seu efeito sobre si mesmo e sobre outras pessoas.

Sua dificuldade maior era com a música, pois a inclinação racionalista ou analítica de sua mente insurgia-se contra o fato de emocionar-se sem poder explicar o motivo de tal comoção. Segundo Freud, as maiores criações de arte são incompreensíveis e constituem verdadeiros enigmas. Esse estado de "perplexidade intelectual" pode ser uma condição necessária para a fruição da obra de arte.

Freud, inconformado com essa falta de explicação, dirige sua análise então, para a intenção do artista, não para compreendê-la intelectualmente. Expressa na obra, essa intenção deve despertar em nós a mesma "constelação mental" que no artista produziu o ímpeto de criar.

Assim, a intenção do artista concretizada na obra, no texto, poderia ser compreendida e comunicada em palavras, como todos os outros fenômenos da vida mental.

Daí, segundo Freud, ser impossível compreender uma obra de arte, sem aplicar-lhe a Psicanálise, isto é, interpretá-la, descobrir-lhe o significado e o conteúdo. (Freud, 1992: 497).

Freud declara não ser atraído pelas qualidades formais e técnicas da arte, embora essas tenham mais valor para o artista.

Interessa-lhe saber de que fontes o artista - esse estranho ser - retira seu material e desperta em nós emoções que desconhecíamos. Somos também incapazes, por mais explicações que encontremos, de tornar-nos poetas ou escritores.

Freud levanta a hipótese de procurar, na infância, os traços da atividade imaginativa do artista. Encontra-os na atividade favorita e mais intensa da criança, que são os jogos e o brinquedo.

Ao brincar, toda criança comporta-se como um artista, cria um mundo novo, ajustando em forma nova os elementos de seu próprio mundo .

A antítese do brincar é o real.

O poeta faz o mesmo que a criança ao brincar: cria um mundo de fantasia, leva-o a sério, investe nele grande quantidade de emoção - catexia - e distingue-o muito bem da realidade.

Ao crescerem, diz Freud, as pessoas param de brincar e perdem o prazer da infância.

Mas não renunciam a ele. Trocam-no por outro, pelo fantasiar. Criam devaneios, difíceis de observar, porque os adultos se envergonham de suas fantasias e as ocultam, por serem infantis e, muitas vezes, por serem proibidas.

Conhecemos essas fantasias, porque muitas pessoas, vítimas de doenças nervosas, são obrigadas a revelar a um médico seus devaneios, para serem curadas. A Psicanálise é a melhor fonte de conhecimento das fantasias dos adultos, realizações de desejos reprimidos ( Freud, 1992: 423).

Assim, a ênfase que Freud coloca na infância, ao analisar uma obra de arte como a de Leonardo Da Vinci, por exemplo, deriva da suposição de que a obra literária como o devaneio é um substituto do brincar infantil (Freud, 1992 : 426).

Porque a obra de arte produz em nós prazer, quando o relato direto das fantasias de uma pessoa nos causa indiferença ou até repulsa?

A "ars poética" ou a técnica do escritor ou do poeta - sempre inexplicável para nós - é que nos leva a superar essas barreiras. Ou porque o escritor nos suborna com o prazer puramente formal ou estético que suaviza ou disfarça o caráter egocêntrico de seus devaneios ou porque o escritor nos proporciona um prazer semelhante ao seu, ao devanear: nos deleitamos com nossas próprias fantasias e nos liberamos de tensões (Freud, 1992: 426-7).

Essas idéias levaram Freud a endereçar sua pesquisa psiquiátrica a alguns grandes nomes da História da Arte e da Literatura, fazendo o que ele chamou a "psicografia do artista criador".

Declarou acreditar que "não existe ninguém tão grande que venha a ser desonrado simplesmente por estar sujeito às leis que regem, igualmente, as atividades normais e as patológicas"(Freud, 1992: 428).

Em seu ensaio "O poeta e a fantasia"(1908), que vamos citando, Freud focalizou a relação entre o brinquedo infantil e as fantasias criativas.

Na verdade o título inglês do ensaio "Creative Writers and Day - Dreaming" orientou a tradução brasileira da Ed. Imago "Escritores criativos e devaneios". Mas a palavra Dichter, do título alemão, refere-se tanto a romancistas como a dramaturgos e poetas.

Esse Ensaio é a maior contribuição de Freud para a compreensão da Psicologia da criação artística. Esta é, aliás, a opinião de Peter Gay, na breve introdução que lhe faz.

Freud também interpretou obras de Leonardo Da Vinci, Michelangelo, Dostoievski, Goethe, Shakespeare, Jensen, Hoffmann etc..

O primeiro estudo publicado, sobre obra literária em 1907, foi "Delírios e Sonhos na Gradiva de Jensen".

"Uma recordação infantil de Leonardo Da Vinci", de 1910, é uma biografia psicanalítica.

As considerações que Freud tece sobre a homossexualidade de Leonardo, como um tipo particular de escolha de objeto, como diz Peter Gay em seus comentários, guardam ainda hoje grande interesse (Freud, 1992: 427).

A Psicanálise descreve a psicografia de uma personalidade para compreender complexos e metamorfoses, leis da vida psicológica humana de pessoas célebres para ilustrar a teoria freudiana sobre o Inconsciente.

A Psicanálise não pretende explicar a criação artística, pois para Freud, o poeta é uma espécie de feiticeiro, guiado pela inspiração. As pulsões que levam um artista a criar seriam as mesmas que levam outras pessoas à neurose.

Porém, o artista exprime suas fantasias, torna-as aceitáveis e até prazerosas a outros, realizando os desejos próprios e os alheios.

Embora, o ensaio de Freud sobre "O Moisés de Michelangelo" seja, segundo Dante Moreira Leite, a melhor introdução sobre a maneira freuadiana de interpretar a obra de arte, por tratar-se de uma obra de escultura, não vamos enfocá-la (Leite, 1987: 117).

Vamos deter-nos em obras especificamente literárias. Por exemplo: "Uma lembrança infantil de Goethe" em Poesia e Verdade.

Segundo Freud, Goethe começou a redigir sua biografia aos 60 anos. Narra ele a cena das louças, cena de sua primeira infância. Goethe, com ciúmes de seus irmãos, incentivado pelos vizinhos, joga as louças recém-compradas pela janela, como faria "o filho único", desfazendo-se de seus irmãos.

Freud atribui grande valor às recordações da primeira infância. Um fato que escapa ao esquecimento não pode ser insignificante. Devemos suspeitar que o que foi conservado na memória é também parte importante dos acontecimentos daquela época da vida. Ou já tinha importância naquelas circunstâncias ou adquiriu-a mais tarde, sob a influência de situações posteriores. A fim de reconhecer sua relevância é necessário certo trabalho de interpretação. Na elaboração psicanalítica de uma biografia, muitas vezes, se consegue esclarecer o significado das primeiras recordações infantis. A recordação que se descreve primeiro é sempre a mais importante, a que encerra em si a chave dos compartimentos secretos da vida anímica daquela pessoa.

Mesmo levando em conta que o prazer de Goethe menino fosse causado pelo barulho das louças quebradas, jogar "pela janela" constituí parte importantíssima do ato mágico e de seu sentido oculto. A nova criança deve ser jogada "fora de casa", e, sendo possível, pela janela, que é por onde veio.

Eis o que escreve Goethe:

"Fui um filho de sorte; o destino conservou-me com vida, não obstante ter eu nascido aparentemente morto. Mas eliminou a meu irmão de modo que não precisei repartir, com ele, o amor da mãe" (apud Speyer, 1963: 44).
Goethe encabeçou sua biografia com estas palavras: "a raiz da minha força foi a minha posição privilegiada em relação à mãe" (apud Speyer, 1963: 45).

Freud se serve da análise de um texto literário para confirmar suas teorias, e, neste caso particular, o complexo de Édipo.

Analisa também o tema do parricídio na vida e na obra de Dostoievski, sublinhando o complexo de castração e o sentimento de culpa, processos derivados do complexo de Édipo.

Com o assassinato do pai, a realidade cumpriu os desejos reprimidos de Dostoievski, que passou a punir-se mais violentamente por meio dos ataques de epilepsia.

O ataque epilético é precedido por um instante de máxima felicidade, fixado talvez no sentimento de triunfo.

Semelhante sensação de triunfo e de pesar, encontramo-la retratada na obra de Dostoievski, Os irmãos Karamazoff, depois do assassinato do pai.

A condenação de Dostoievski pelo Czar (o paizinho) como delinqüente político, apesar de injusta, foi aceita pelo escritor, como substituição do castigo de que seu pecado contra seu verdadeiro pai o tinha tornado merecedor.

No romance, Dostoievski cria uma situação semelhante à sua própria: os filhos desejam matar o pai, e este é morto pelo irmão a quem Dostoievski atribui a epilepsia, como se quisesse confessar que o epilético, que havia nele, era um parricida (Freud, 1992: 203-23).

O fato de pesquisas recentes terem descoberto que o assassinato do pai de Dostoievski é duvidoso não tem grande importância. As psicobiografias não pretendem reconstruir a verdadeira infância do artista, mas descobrir que fantasias as obras de arte manifestam.

Ao analisar Os irmãos Karamazoff, por exemplo, Freud descreve a cisão da personalidade de Dostoievski nas várias personagens do romance como no estudo sobre Leonardo descreveu a escolha do objeto narcísico e certa forma de narcisismo.

Em "O tema dos três escrínios", "descreve a relação com os três aspectos maternos: a mãe que dá amor, que se torna uma parceira e que traz a morte. Sugere que a escolha do terceiro escrínio, o de chumbo, que faz Antônio em "O mercador de Veneza", representa a escolha da morte. De modo semelhante, interpreta Cordélia, em "Rei Lear", como símbolo da morte, e a reconciliação de Lear com Cordélia, a reconciliação com a morte". (Segal, 1993: 86).

Freud diz a respeito de suas próprias interpretações de obras de ficção:

"Como, aliás, todo o sintoma neurótico, e como o próprio sonho são possíveis de super-interpretação(1), que mesmo lhes é indispensável para serem exaustivamente compreendidos, assim também qualquer legítima criação poética terá nascido de mais de um motivo, de mais de um estímulo na alma do poeta, e possibilitará mais de uma interpretação. Eu aqui tentei interpretar apenas a camada mais profunda do que se passa na alma do poeta-criador" (Speyer, 1963: 52).
Em outra oportunidade diz a respeito de Shakespeare:

"Consideremos a obra-prima de Shakespeare, Hamlet, peça hoje com mais de três séculos. Tenho acompanhado de perto a literatura psicanalítica e aceito sua pretensão de que somente depois de ter tido o material da tragédia remontado pela psicanálise ao tema edipiano é que o mistério de seu efeito foi por fim explicado. Mas antes que isso fosse feito, que volumes de esforços interpretativos diferentes e contraditórios, que variedade de opiniões sobre o caráter do herói e as intenções do dramaturgo". (Freud, 1992: 497).
Foram feitas muitas críticas a Freud quanto à sua pretensão de atribuir uma única significação verdadeira e mais profunda para a obra de arte de um poeta ou artista criador: a encontrada pela análise psicanalítica. É inegável porém a contribuição da Psicanálise à arte, em geral, e à literatura, em especial, e da Arte à Psicanálise.

A Psicanálise tem tudo a ver com a palavra.

Embora tenha sido Lacan quem reexaminou todo o campo da linguagem, em Psicanálise, centrando-o no conceito de significante - tirado da lingüistica saussuriana - a partir de Breuer e Freud já se destaca o traço da "verbalização", na análise psicanalítica.

No caso de Anna O ., ela curou-se não só pela "tomada de consciência" de seu trauma, mas por ter finalmente falado o que nunca havia dito antes. Foi uma cura pela palavra, como a chamou Anna O .: "talking cure". Curou-se porque conseguiu dizer o nojo que sentiu, ao ver o cão beber água no copo.

As formações do Inconsciente são reguladas pela linguagem. "O Inconsciente é estruturado como linguagem", dirá Lacan. É o que acontece no sonho, cuja interpretação é chamada a via régia da Psicanálise. Texto complexo, sua leitura exige uma atenção particular do analista. É também o caso do chiste que engana a censura, dando a entender o que é proibido, como demonstra Freud em seu artigo: "Os chistes e sua relação com o Inconsciente"(1905). (Freud, 1992: V. VIII).

É o caso dos lapsos de linguagem, dos atos falhos que aludem a um desejo, expressando-o pela metáfora ou pela metonímia.

Aliás, para Lacan, é porque fala que o sujeito se pergunta "Quem sou eu?" e se engaja na busca do ser. Assim, Lacan designa o ser humano como "falasser", porque o ser é um efeito da linguagem.

A Linguagem é importante para o ser humano, na infância, antes mesmo da intenção de significar. O significante não é apenas um efeito de sentido. O "Homem dos ratos", analisado por Freud, é tomado pelo desejo de emagrecer. "Gordo" em alemão é "dick" e Dick é o nome de um rival, de quem o Homem dos ratos queria se desfazer. Matar Dick é o mesmo que "dick" = emagrecer.

O sintoma substitui o que não foi dito. O sintoma, no caso, é o "significante"de um significado, inacessível ao sujeito.

O "Homem dos lobos", também analisado por Freud, é um exemplo conhecido e esclarecedor. Aparece, no tratamento, sempre o mesmo símbolo representado pela letra V ou o cinco romano V. Às cinco da tarde o paciente tinha crises depressivas, em sua infância. Essa também era a hora de uma cena primitiva: ele vira os pais mantendo relação sexual. Teve também conflitos com diversas pessoas, cujo nome começava com V ou W. em sonhos; simbolizando a castração, são arrancadas as asas de uma vespa (Wespe) que ele diz espe ou SP. O V invertido à representa as orelhas dos lobos.

Assim, talvez se devesse fazer referência mais à poética que à lingüística, quando se trata de interpretação. O analista deve estar atento às diversas conotações do significante. A estrutura da linguagem não se esgota na dimensão horizontal: sintaxe e articulação de sintagmas. Mas se torna mais complexa com as figuras ou tropos: metáfora - uma palavra substitui outra - ou metonímia - conexão de uma palavra com outra. Assim se criam novas significações.

Metáfora e metonímia podem ser aproximadas dos processos oníricos: condensação e deslocamento.

O texto literário e o texto do paciente exigem interpretação. Existe sempre um sentido manifesto e um sentido latente, que o analista faz surgir. Esta foi uma das principais contribuições de Freud ao conhecimento do sujeito humano.

Também , no caso dos sonhos, se interpreta o sonho manifesto, para que se revele o sentido latente, escondido freqüentemente sob seus aspectos absurdos e incoerentes, levando sempre em conta as associações do sonhador.

A interpretação jamais deve privilegiar um sentido em detrimento de outros possíveis, devido a cadeias associativas diferentes.

A polissemia caracteriza a linguagem. A poesia, por exemplo, faz ressoar muitos sentidos.

Assim também, o analista evita que suas intervenções sejam entendidas como unívocas. Mas, baseado nas palavras mestras que orientam a história do paciente, o analista faz valer o caráter polissêmico das palavras.

A interpretação apresenta ao paciente novas significações, como acontece na interpretação de um texto literário. O crítico ou analista de uma obra literária jamais afirma que sua leitura é a verdadeira, e muito menos, a única possível.

As aproximações que nos ocorrem a respeito de interpretação psicanalítica e interpretação literária nos fazem lembrar da paródia e da paráfrase.

Geralmente se entende paródia no sentido de burla ou zombaria.

Tomamos paródia no seu sentido etimológico de "canto paralelo". A paródia, neste sentido, é um texto-segundo, que se constrói sobre um texto-primeiro, que lhe serve de suporte. Existe, portanto, a paródia séria, sobre um texto, que o artista admira e respeita e com o qual dialoga, uma espécie de intertexto.

Teçamos algumas considerações apoiadas nas observações de Affonso Romano de Sant'Anna.

A paródia é modernidade. Embora não seja recente, intensificou-se o seu uso.

A paródia se define como um jogo de textos e este aspecto é que nos interessa, no momento. Um jogo de textos em que os dois planos aparecem deslocados. Emprega-se a fala de um outro, no caso da Psicanálise, do Inconsciente. A segunda voz, depois de se ter alojado na outra fala, obriga-a a decifrar-se.

A paráfrase não acentua esse aspecto de deslocamento. Ela traduz. Colhendo um conhecido exemplo literário, segundo Sant 'Anna:

Texto original: Gonçalves Dias:

Minha terra tem palmeiras
Onde canta o sabiá
As aves que aqui gorjeiam
Não gorjeiam como lá
Paráfrase - Carlos Drummond de Andrade - "Europa, França e Bahia"

Meus olhos brasileiros se fecham saudosos
Minha boca procura a "Canção do Exílio"
Como era mesmo a "Canção do Exílio?"
Eu tão esquecido da minha terra...
Ai terra que tem palmeiras onde canta o sabiá!
Paródia - Oswald de Andrade - "Canto de regresso à Pátria"

Minha terra tem palmares
onde gorjeia o mar
os passarinhos daqui
não cantam como os de lá.
Na paráfrase de Drummond, o deslocamento é mínimo e ele usa uma técnica de citação ou transcrição. No texto de Oswald, o distanciamento é grande e ocorre um processo de inversão de sentido.

A paródia está do lado do novo, do diferente; a paráfrase, do lado do idêntico, do semelhante. A paródia contesta. A paráfrase é conservadora.

Na paráfrase alguém está abrindo mão de sua voz para deixar falar a voz do outro. Na paródia, busca-se a fala recalcada do outro.

A paráfrase é um discurso sem voz, pois está falando o que o outro já disse. Não há a tensão entre os dois jogadores. A paródia é uma disputa aberta de sentido, um choque de interpretação.

Pode-se também explorar a relação que existe entre paródia e representação. A representação na literatura está ligada ao drama e ao teatro; mas, na psicanálise, representação é re-apresentação.

A re-apresentação psicanalítica é a emergência de algo que ficou recalcado e agora volta à tona. É como o que ocorre no sonho. O sonho nos re-apresenta algum desejo não realizado no dia-a-dia. O sonho nos possibilita desrecalcar e liberar nossas tensões. O texto paródico faz uma re-apresentação do discurso. A paráfrase é uma espécie de espelho. A paródia é uma lente que exagera os detalhes de tal modo que pode converter uma parte num elemento dominante. Ela procura decifrar o enigma da Linguagem, busca a diferença e autonomia. (Sant'Anna, 1988: cap. 5 e 6).

Em certos casos, no contexto psicanalítico, o doente sofre de uma afasia sensorial e não pode pronunciar a palavra; permanece na paráfrase enquanto repetição, e não encontra o sinônimo.

Lembremos a afirmação de Heidegger: "A linguagem é a casa do ser" e, portanto, as patologias da linguagem são sintomáticas das patologias do ser e estas sempre se manifestam na linguagem.

Olga de Sá

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

A Queda de Wosley


Essa é uma história da corte de Henrique VIII, narrada por Shakespeare, semelhante a uma história que está ocorrendo no Brasil no presente momento. É a história da queda do cardeal Wolsey, prestigiadíssimo primeiro-ministro de Henrique VIII e seu dileto amigo.
Wolsey montou uma estrutura de poder gigantesca que escapa ao controle do rei e dos outros ministros. O longo período de exercício do cargo o tornou uma pessoa que misturou os seus negócios com os do próprio Estado, chegando mesmo a cunhar moedas com sua própria efígie.
Wolsey está roubando o erário inglês, e muito. Fato que é do conhecimento do duque de Norfolk, um de seus adversários, que trabalha para levar esses crimes ao conhecimento do Rei. Para ele: “ Wolsey está atolado na desgraça e não pode mais levantar-se”.
E as conversas eivadas de verdade chegam aos ouvidos de Henrique VIII, o homem das seis esposas, o mesmo que mandou matar Thomas More, seu ex-primeiro-ministro, por motivos bem menores que esses. E assim se pronuncia Henrique VIII: “Que montes de riquezas acumulou em proveito próprio e que gastos parecem correr através de suas mãos a qualquer hora! Em nome de que lucro pode ele acumular tudo isto?... Será meus lordes que vistes o cardeal”?
Norfolk responde ao rei, fazendo um brilhante relato: “Meu Senhor, estávamos aqui a observá-lo. Uma estranha comoção parece existir em seu cérebro. Morde os lábios e estremece: pára, de repente, fixa os olhos no chão, depois coloca o dedo na testa: de repente passa a andar com passos largos, depois, pára, novamente, bate violentamente no peito e, daí a pouco, levanta os olhos para a lua. Nós o vimos colocar-se nas mais estranhas posturas.” Shakespeare nos presenteia aqui com o comportamento de um homem muito apreensivo, de um corrupto pego em pleno vôo. E é o próprio rei que nos informa dos crimes de Wolsey: “Não é de surpreender: um motim existe em seu espírito. Hoje de manhã enviou-nos alguns papéis de Estado que eu lhe havia pedido. Por minha fé, encontrei inadvertidamente um inventário contendo as diversas baixelas de prata, seu tesouro, tapetes e móveis de sua casa, o qual ascende, segundo meus cálculos, a uma cifra tão alta que vai muito além das posses de um súdito”. Pronto, os abusos de Wolsey foram descobertos!
A cova está cavada, ciente de seus crimes só resta a Wolsey se despedir do poder: “Adeus! Um longo adeus a toda minha grandeza!... quando acha que atingiu a plena maturidade de sua grandeza, a geada queima a sua raiz e então ele cai, como eu. Eu me aventurei por um mar de glória a uma distância em que perdi o pé; meu orgulho, cheio de vento, acabou arrebentando debaixo de mim e agora ele me abandona, esgotado e envelhecido pelo trabalho, a mercê de uma torrente impetuosa que vai devorar-me para sempre. E quando cai, cai como Lúcifer, desesperado e para sempre.” Devemos acrescentar: e que vá para o inferno!
Situações iguais a esta de Wolsey que ocorreram na Inglaterra do século XVI, estão se repetindo no Brasil nesse momento.Wolsey nós sabemos quem é, falta achar o intérprete de Henrique VIII! Que, aliás, o Brasil todo sabe quem é!

Theófilo Silva é Presidente da Sociedade Shakespeare de Brasília e colaborador da Rádio do Moreno

quarta-feira, 29 de julho de 2009

Microsoft e Yahoo fecham acordo para fazer frente à Google



Depois de mais de um ano de negociações, Microsoft e Yahoo acordaram hoje uma parceria no negócio dos motores de busca e publicidade 'online', numa tentativa de enfrentar a hegemonia da Google.

O acordo, que foi hoje anunciado em comunicado pelas duas empresas, vai prolongar-se por um período de 10 anos e põe um ponto final a mais de um ano de conversações.

De acordo com os termos da parceria, a Yahoo vai usar o novo motor de busca da Microsoft, o Bing, nos seus 'sites'. Por seu turno, a Yahoo vai ter a responsabilidade de angariar anúncios publicitários associados à pesquisa das duas empresas, que vão partilhar as receitas.

A Microsoft também poderá integrar a tecnologia de pesquisa do Yahoo no seu próprio motor de busca.

Mais de um ano depois de não ter aceite a OPA da Microsoft, a Yahoo espera que esta parceria contribua com 500 milhões de euros para o lucro anual da empresa e permita poupar 200 milhões de custos.

Juntas, as duas empresas detêm cerca de 28% da totalidade do mercado de buscas na internet norte-americano. Só a Google detém 65%, de acordo com os dados de Junho da consultora ComScore.

As acções das duas empresas reagiram de formas diferentes a este anúncio. Enquanto os títulos da Yahoo desciam 7% em Nova Iorque, as acções da Microsoft avançavam 2% para 23,89 dólares

Morte de Jackson marcou dia mais triste na internet, diz estudo




REUTERS


NOVA YORK - É possível dizer o quanto estamos felizes? Sim, de acordo com cientistas americanos que inventaram uma maneira de medir a felicidade de milhões de blogueiros e descobriram que a morte de Michael Jackson foi um dos dias mais tristes, enquanto a eleição dos Estados Unidos foi o dia mais feliz em quatro anos.

Peter Dodds e Chris Danforth, um matemático e um cientista do Centro Avançado de Computação na Universidade de Vermont, criaram um 'sensor' para monitorar 2,3 milhões de blogs e reunir frases que começassem com 'eu sinto' ou 'estou sentindo'. Cada frase recebia, então, uma pontuação de felicidade desde 1 ponto até 9, dependendo de um sistema de pontos fixados a 1.034 palavras. Por exemplo, 'vitorioso' marca 8,87 pontos, 'paraíso' 8,72, e 'suicídio', 1,25.

Eles disseram que esse 'medidor de felicidade' mostrou que o dia da eleição norte-americana, em novembro do ano passado, foi o dia mais feliz em quatro anos com um pico na palavra 'orgulhoso', enquanto o dia da morte do 'Rei do Pop' foi o mais triste.

- A proliferação da assinatura pessoal online, como a dos blogs, nos dá a oportunidade de medir os níveis emocionais em tempo real - disseram em um artigo intitulado 'Medindo a felicidade de expressões escritas em grande escala: músicas, blogs e presidentes'.

O estudo dos cientistas, divulgado esta semana no Journal of Happiness Studies, envolveu a reunião de cerca de 10 milhões de frases.

- Nosso método é apenas aplicável a textos de grande escala, como os que estão disponíveis na internet. Qualquer frase solta não poderia mostrar muito. Há muita variabilidade em expressões individuais - disse Dodds.

Os cientistas disseram ainda que os autores dos blogs tendem a ser mais jovens e mais educados do que a média, e representam amplamente a população norte-americana.

Além disso, os autores também escrevem em um ambiente neutro, onde se sentem confortáveis, ao contrário de outras pesquisas de felicidade, em que os participantes são colocados no foco da atenção.

- Eles pensam que estão se comunicando com amigos, mas (desde que os blogs são públicos), estão lendo sobre os ombros dos outros - afirmou Danforth.

Os pesquisadores disseram que seus resultados também contradizem dados recentes da ciência social que sugere que as pessoas sentem basicamente o mesmo em todas as etapas de sua vida.

O novo método indica que os adolescentes jovens são mais infelizes com um uso desproporcional de palavras como 'doente', 'ódio', 'estúpido', 'deprimido', 'entediado', 'solitário', 'louco' e 'gordo'. E então, as pessoas se sentem mais felizes até chegar à velhice, quando a felicidade diminui.

Mas os cientistas disseram que era impossível saber exatamente o que ocorre na cabeça das pessoas.

- Nosso estudo é uma exploração de dados. Não é sobre o desenvolvimento de uma teoria - acrescentou.

segunda-feira, 27 de julho de 2009

O SOFRIMENTO FAZ O CARA CRESCER...

quinta-feira, 23 de julho de 2009

“Celebration”



Nessa última empreitada da rainha do pop, Madonna, pela a gravadora Warner, já que ela assinou contrato com a Live Nation, os executivos, juntamente com ela, resolveram chamar seus fãs para celebrarem seus sucessos.


O CD e DVD incluirá duas novas canções que foram gravadas recentemente em Nova York e grande parte de seus maiores sucessos. O primeiro single, “Celebration”, foi produzido pela cantora e o DJ Paul Oakenfold e já chegará às rádios a partir do próximo dia 3 de agosto.
O vídeo clipe da faixa foi filmado essa semana em Milão, Itália e teve direção de Madonna e Jonas Akerlund, responsável pelo premiadíssimo vídeo de “Ray of Light”, de 1998. Diversos remixes de “Celebration” foram distribuídos para estarem nas pistas de dança a partir de 24 julho.
A maior surpresa do novo material se materializou na imagem escolhida para a capa. A criação da obra de arte foi do artista ‘pop’ de rua Mr. Brainwash, que é bastante conhecido pelas suas artes com diversos ícones do mundo.


Do Blog Mundo Pop

quarta-feira, 22 de julho de 2009

Mais cinco casos da Nova Gripe são confirmados no Ceará



Todos os 19 casos do Estado estão em Fortaleza

Mais cinco casos de Influenza A (H1N1) foram confirmados no Ceará pela Secretaria de Saúde do Estado (Sesa). As novas pessoas infectadas são de Fortaleza e viajaram recentemente, mantendo contato com doentes no exterior.

Com o anúncio, sobem de 14 para 19 os casos da Nova Gripe no Ceará. A Sesa também confirmou que 13 pessoas estão sendo monitoradas com suspeita da nova doença.

Treinamentos e dúvidas
Um treinamento de diagnóstico e tratamento dos casos da nova doença está sendo realizado em Sobral nesta terça-feira (21). Outro treinamento acontecerá em Fortaleza na próxima quarta (22), com agentes de saúde de Aracati, Baturité, Canindé, Maracanaú e Quixadá.

A Secretaria Municipal de Saúde de Fortaleza disponibilizou um disque tira-dúvidas sobre a doença, através do telefone 0800-280.08.08.

Do Portal Jangadeiro para o Mensageiro da Realidade.
A charge é de Newton Silva - http://www.newtonsilva.org/

terça-feira, 21 de julho de 2009

Histórias de Walt Disney


O gênio da animação era fanático por trabalho, resgatava a infância em seus filmes e acabou alcoólatra no fim da vida


Inventor do moderno cinema de animação, o magnata Walt Disney (1901-1966) era tão popular nos EUA que chegava a ser reconhecido nas ruas até por crianças - nada mais justo, aliás, porque foi para elas que ele dedicou o seu talento e a sua vida. Um dia, numa festa, um garoto tomou coragem e se dirigiu ao "tio Walt". Não queria um autógrafo, queria mesmo é que ele lhe desenhasse a sua maior criação, o ratinho Mickey, cujo nascimento nos anos 1920 foi o pontapé inicial do maior império de entretenimento do mundo.

Com a desenvoltura habitual, Disney passou a caneta e o papel para o seu empregado, o animador Ub Iwerks (quem na verdade deu vida a Mickey) e ordenou que ele esboçasse o bichinho. Depois Disney o assinaria e daria para o menino, testemunha da cena constrangedora. "Desenhe o seu próprio Mickey", teria dito o artista, dando as costas para o chefe. Essa passagem está descrita na biografia Walt Disney: o triunfo da imaginação americana (Novo Século, 944 págs., R$ 89,90), de Neal Gabler, que não economiza em detalhes no retrato de uma personalidade sob a qual ainda pairam muitos mistérios e controvérsias.


TRECHO DO LIVRO

"Walt adorava bancar o maquinista. Ele punha um boné e uma camisa quadriculada, sentava no carro de trás da locomotiva e acendia a máquina. Os convidados eram invariavelmente chamados para dar uma volta no trem, uma lista que incluía a cantora Dinah Shore e até Salvador Dalí"



Disney não foi o criador de Mickey e Iwerks até ameaçou processá-lo. Que Disney era anticomunista é um fato sabido e ele nunca fez questão de ocultar. Em 1947, testemunhou perante o Comitê de Atividades Anti-Americanas, acusando de esquerdista a Liga de Mulheres Eleitoras. Pelo fato de ter recebido em seu estúdio a cineasta nazista Leni Riefenstahl e ter colocado um lobo judeu em Os três porquinhos, ainda hoje se discute se ele foi também antissemita.

Outra dúvida: ele realmente poderia ser considerado o autor de clássicos como Branca de Neve e os sete anões e Fantasia, já que apenas supervisionava sua fábrica de animações? Afora essas e outras lacunas a respeito de sua vida, Disney manipulou muito a sua própria história. A biografia de Gabler leva uma certa vantagem sobre outras existentes porque ele passou sete anos pesquisando nos próprios arquivos dos Estúdios Disney. Leu de tudo: de memorandos a cartõespostais. O que revela do homem que, segundo o renomado crítico de arte Robert Hughes, antecipou em anos a pop art já é suficiente para se mergulhar em sua caudalosa narrativa.


TALENTO PRECOCE:Na infância, Disney fugia de casa para brincar de teatro com um amigo. Tome-se, por exemplo, a infância do pequeno Walt, passada entre Kansas City e a minúscula cidade de Marceline, que ele não cansava de citar como fonte de sua prodigiosa imaginação. Esses anos teriam sido paradisíacos, não fosse um porém: seu pai era um carrasco. Movido pelas ideias socialistas (o que explicaria, mais tarde, a posição conservadora do filho rebelde), Elias Disney apostava em negócios que nunca davam certo.

Em Kansas City, decidiu investir na entrega de jornais. Mas quem tinha de acordar às três da manhã para sair de casa em casa jogando os matutinos era o pequeno Walt. No inverno, a atividade tornavase um suplício, já que o menino tinha de depositar o jornal em cada varanda e não apenas atirá-lo da rua. Algumas vezes, encontrava no canto um brinquedo abandonado: deixava os jornais de lado e esquecia do tempo se divertindo.No Natal, ganhou não um trenzinho, mas um par de botas com biqueira de metal para enfrentar as invernadas: "Não tinha uma hora em que pudesse brincar."

O hábito do trabalho precoce fez dele um workaholic. "O estúdio era o sexo. Os orgasmos estavam todos lá", disse Ward Kimball, um de seus conhecidos desenhistas. Na época de Branca de Neve, quando ele varava dias, noites e fins de semana no trabalho, sua mulher, Lillian, quase pediu o divórcio. "Ninguém jamais pagará um centavo para ver um filme de anões", praguejava. Ela se enganou, claro. Mais tarde, cansado dos filmes, Disney buscou a realização em empreendimentos como a Disneylândia e em hobbies extravagantes, como a construção de uma estrada de ferro em miniatura em sua nova casa.

"Comprei para mim um presente de Natal, algo que quis durante toda a minha vida - um trem elétrico", escreveu. Ao final da vida, doente de câncer e alcoólatra, aquele que sempre foi acusado de ter infantilizado a cultura americana costumava se lembrar da infância, segundo os mais próximos, com um "suspiro lamentoso". A imagem que vem à mente é a do personagem de Cidadão Kane e seu trenó, Rosebud. Orson Welles, é sabido, inspirouse em outro magnata, William Randolf Hearst, para fazer sua radiografia do "self made man" americano. Mas bem poderia ter se mirado em Disney.

Ivan Claudio, de Istoé Independente direto para o Mensageiro da Realidade.