sexta-feira, 17 de julho de 2009

PRIMÓRDIOS DO PUNK EM FORTALEZA


O SHOW E A MOITA

No início dos anos 80 poucos eram os clubes que disponibilizavam seus espaços para eventos diferentes, além do tradicional forró na capital alencarina. Coincidentemente estava a todo vapor o movimento Punk de Fortaleza e um de seus maiores pólos era a Jurema,(bairro da cidade de Caucaia na região metropolitana). Nesse bairro existia um clube denominado América, muito conhecido por suas festas de forró, new wave e várias vertentes do rock, onde reinavam: Ramones, Sham 69, Sex Pistols etc. Outro fato pitoresco eram as constantes perfurações por armas brancas que ocorriam entre os frequentadores.
O América era um prato cheio para as bandas punks e seus festivais. Com muita insistência os organizadores do movimento conseguiram convencer o dono do clube a cede-lo para um show de várias bandas: Xerox Suburbana, RepressãoX, Estado Mórbido, Zoeira, Profetas do Lixo(as bandas dá época). Tudo pronto, tudo acertado para um sábado á noite cuja a real data fugiu dos arquivos. Todos sabem que o melhor do show é o todo:o antes , durante e depois. E esse não seria diferente.
O show estava programado para as 23hs e a Xerox Suburbana iria abri-lo(nessa época a mesma tinha Alex-Baixo e Vocal, Laércio( Xerox)-Bateria-Vocal e discurso e Tidô na guitarra). Pontualmente as 19hs já estavam todos lá. A empolgação era geral, os donos de bares adoraram(quase acabaram com o estoque de cachaça) e as idas e vindas para urinar longe dos bares e do clube era frequente.Lá pelas 22:30 o Xerox sentiu falta do Alex e saiu a perguntar á todos onde ele se encontrava, pois a mais de duas horas que o mesmo não era visto juntamente com alguns companheiros e adeptos que simplesmente sumiram. O estigma que sempre perseguia e persegue o movimento Punk é :”inresponsabilidade “, fato este que descordo plenamente quando quem está a frente são pessoas como: Laércio ou Xerox(o segundo nome era mais falado), Amarildo, Argemiro, Jorge(atual baterista da Banda Voluntários). De encontro ao que foi citado, o Xerox a todo vapor fez um verdadeiro limpa, arrastão ou rodão como costumávamos denominar as pessoas que procuram outras, mesmo sabendo da odisseia a ser enfrentada. Mas ele não procurava em vão, pois tinha conhecimento dos hábitos e da personalidade não só do Alex, como também, dos que estavam sumidos e dos presentes.
Como que surgindo do nada lá pelas 23:45hs(a essa altura a Xerox Suburbana seria a última a tocar “foi o que anunciaram”), aparecem dois rapazes com as devidas alcunhas:Grillo e Lesado. Ambos vinham de encontro ao local de maior aglomeração fora do clube , e lógico dariam de cara com o Xerox. E foi o que aconteceu! Seguiu-se então um jogo de perguntas e respostas ."- Ei vocês dois cadê o Alex? Re: Alex? Entre olharam-se e tiveram uma crise de riso que passou dos dez minutos. Nosso Laércio ficou olhando, um pouco pasmo, mas nem tanto impressionado e foi logo soltando: Cadê ele? Seus alienados! Re: "-Sei lá! Foi essa a resposta". E tome risos(se fosse outro que perguntasse assim o pau tinha cantado , isso não resta dúvida). De repente surge o Magoo rindo a toa como se tivesse tirando onda(Magoo era o baixista do Estado Mórbido na época e tinha acabado de tocar). E foi logo dizendo: E aí Xerox? Falta pouco! Já estão no ponto? Não vou nem colocar aqui a resposta. Mas como o Laércio sabia onde estava pisando e muito bem, começou a investigar Lesado e Grillo. Ofereceu para eles uma cerveja, tal foi a sua admiração ou contestação que os mesmos só deram um gole e cuspiram o resto, alegando que a garganta estava cheia demais e não descia nada. Após essa observação iniciou-se uma negociação:"- Conta logo o que está acontecendo! Disse o Xerox". Foi aí então que o Lesado abriu a mala: “-Xerox sabe como é né? Eu gosto de plantar umas plantas bonitas e hoje de tardezinha lá em casa o Alex e o Grillo me disseram que uma lá acalmava os nervos. Qual? Re: O Grillo disse que era Saia Branca(Datura Mentel L.) e resolvemos fazer um chá e tu conhece o Alex, enquanto a gente tomamos uma xícara ele tomou o que restou no bule. E cadê ele? Re; Ta com umas duas horas que ele disse que ia dá uma cagada. Aonde? Re: Numa moita lá perto do trilho. PQP retrucou o Xerox, negrada vamos lá e é agora ! E assim o fizeram. Para encontrar a tal moita foi um trabalho tão grande que ainda hoje as pernas de quem foi atrás sente cólicas. Finalmente a encontraram, e lá estava o Alex de cócoras, um toleto abaixo das nádegas e as calças arreadas e olhando para cima e se esquivando pra todos os lados e gritando:Estamos sendo atacados! Salve-se quem puder! O armagedom chegou! Xerox então respondeu:"- quem devia ta aqui era a polícia com a equipe do Mira e Lopes(Hospital Psiquiátrico de Fortaleza). E foi logo dizendo:"- Sai daí ! Re: Meu Deus não acredito! Vocês estão salvos! O alvo principal somos nós os Punks! E tome risadas dos demais e injuriação do Xerox , mais ainda por notar que na dita moita tinha mais três juntos com o Alex contando a mesma história(deve ter pego um bom pedaço da planta da casa do lesado e feito outro chá). O Laércio saiu em disparada rumo ao América e esculhambou “determinadas atitudes” e fez o show somente com o Tidô. E o Alex? Bem o Alex ficou lá com os demais se esquivando dos bombardeiros até o dia amanhecer.

Kleber Aurélio é Farmacêutico, Escritor, Músico e ex-integrante das bandas Santa Inocência, Xerox Suburbana e Conflito Mundial.

quinta-feira, 16 de julho de 2009

PRIMÓRDIOS DO PUNK EM FORTALEZA


GRILLÚS SUB

Doutor não é a primeira vez que essa talentosa relíquia do rock
brasileiro sai na mídia não.

Certa vez os integrantes da mesma e mais uns companheiros em um
número aproximado dos quinze, vinham de uma festa lá no Monte Castelo. Como
é de costume dos mesmos o horário era um tanto quanto imprópio para um
cidadão perambular pelas ruas de uma cidade em uma madrugada de quarta
feira. Até aí tudo bem, mas como também era de se esperar, pois os
transeuntes estavam em plena Avenida Bezerra de Menezes, um carro cuja marca
era uma veraneio ou camburão se assim preferir conduzido pela briosa Polícia
Militar do Ceará resolveu acompanhar e observar calmamente aquilo que
estavam a olhos vistos(reconheço que não é toda madrugada que observam-se
tal cena). Como toda ação tem uma reação um dos passantes olhou de lado e
foi logo soltando o seu sentimento contido:" O que é seus ......,
seus......, olha...... e por aí vai). Imediatamente os militares pararam o
referido carro e após uma "boa conversa", colocaram no vão destinado aos
merecedores dessa regalia os que puderam dominar e pegar.(Mesmo contra a
vontade dos futuros caronas)
Após um breve passeio de captura aos que se opuseram a participar
dessa empreitada sem lougrar êxito, conduziram os capturados ao 10DP,
localizado no bairro Antonio Bezerra.
Tudo estava encaminhando para uma simples permanência noturna e uma
futura faxina no distrito e posteriormente uma soltura quase no anonimato,
pois no boletim estava:Desacato a Autoridade, Embriagez e Desordem, Atentado
Violento ao Pudor(alguém devia está urinando ou defecando na avenida) e
ausência de documentos. Mas como todo repórter é bem informado e tem seus
informantes, um deles achou interessante fazer uma ligação telefônica ao
Radialista Eli Aguiar do então progama radiofônico"Patrulha Policial".
Como era de costume logo após acordar e posteriormente almoçar, liguei
o rádio e sintonizei na AM do Povo para fazer a cesta. Qual foi a minha
surpresa ao ouvir as declarações do conceitudado radialista:" Vixe! Negada
aqui tá uma catinga danada, arre égua desencosta dessa parede macho véi!
Quediabo de cabelo é esse? É moicano!(respondeu um tanto quanto furioso o
entrevistado) e teu nome? Bicudo! E o teu? Grillo e o teu? Magoo! e o teu?
Sibite!E a princesa? Flor! Égua negada, como é que vocês aguentam uma
catinga dessa! Ô Comissário, vocês ainda não mandaram desgotar a fossa não?
Arre égua! An? Como É? Que diabo é isso negrada vocês num toma bain não? E
essas roupas macho véi? Andou bringano com a muié com a sogra perto? Que
rumação é essa? Nós Semo é Pank gritou um bem longe". Aí então pra
aproveitar a ocasião, um sabido apareceu, era o lesado(suponho que suas
proteínas plasmáticas ainda estavam liberando algumas substâncias parecidas
com a seretonina e o mesmo ainda estava sob o efeito farmacológico de um
desses congêneres)Foi logo dizendo : Abaixo a repressão! e o Eli respondia
só se o teto cair em cima de vocês!, Aqui Ninguém é vagabundo não, aqui tem
uma banda! Pronto, o radialista disse o que? Tem e é a Grillu´Sub. Rapaz
porque é que vocês não disseram logo, pega logo esse microfone, êita
catinga, nan!
Rapaz, pegaram o microfone e cada um fez seu discurso e cantaram a
música: Mundo Podre.

Mundo Podre com Corrupção
Mundo Podre é só alienação
Mundo Podre
Mundo Podre!
Mundo Podre!
Mundo Podre!

Mundo podre não tem vaga não
Chega dessa enganação
Mundo Podre!
Mundo Podre!

Aí o Eli disse, Delegado pelo amor de Deus solte esses artistas, agora
com esse bafo eu já perdir meu microfone e essa delegacia vai demorá um mês
pra essa catinga sair, arre égua!
Aí disseram : Você é a voz do Sistema!
E o Eli (que não é besta) foi logo dizendo , não aqui é Radio AM do Povo que
apresentou com Exclusividade a Melhor Banda dessa cela, como é mermo o nome
da Banda?Grill´us Sub. Grill´us Sub!
Todo mundo aqui curtindo e prevaricando no cochão de mola cimento. Arre
égua!


Kleber Aurélio é Farmacêutico, Escritor, Músico, Compositor e profundo conhecedor da Cena Punk de Fortaleza/CE em seus tempos áureos.

NAVIOS ABSTRATOS UMA LENDA DA POESIA CEARENSE




Posto aqui os originais do Livro Navios Abstratos, do longícuo 1987, de autoria dos poetas Newton Silva e Gladimir Sales. A obra, sob intensa influência dos bardos portugueses é uma tentativa de ingressar no mercado, à época em que não havia computadores e as facilidades que os diagramadores hoje tem. Newton Silva executou a obra no braço, com caneta nankin, num tamanho A4 e reproduzida em xerox. Se alguém aí ainda tem alguma cópia da raridade, favor entrar em contato. Eu, por mim, tenho o precioso original e não vendo nem troco nem dou.

quarta-feira, 15 de julho de 2009

LANÇAMENTO VIRTUAL DO MEU NOVO LIVRO PESADELO PRIMITIVO POESIAS REUNIDAS 1987-1990


Acompanhe aqui a partir de hoje o lançamento virtual do meu novo livro Pesadelo Primitivo - Poesias Reunidas 1987-1990. As poesias anteriores estão nas postagens anteriores a esta.


21.CONFLITOS

Milhares de palavras
Jogadas ao vento
Milhões de bobagens
Atiradas em vão.

Tantas idéias
Na dança do meu pensamento
Ficaram em mistério
Durante algum tempo.

E você nem sentiu o perdão
Dado pelos deuses da aflição
Você nem previu a solidão
Em vez de dizer sim disse não.

Andando sozinho eu sigo calado
Kerouac sem destino sonhando acordado
Meio perdido, não sei qual o lado errado
Um estranho no ninho, não sei se há um culpado.

Culpado por tudo
Que houve até aqui
Pedindo desculpas
Por estar entre nós.

Talvez seja tarde
Pra reagir
Às loucuras e medos
De estarmos a sós.

Criei conflitos
E espero enfrentar
Já ouvimos os gritos
Já podemos gritar!

20. CERTEZA DA RAZÃO

Andei revendo meus passos
Andei bebendo de novo
Mas já voltei do espaço
Já me lembrei do seu rosto chorando.

Envelheci meu retrato
Agora eu sei foi por pouco
O que ficou da minha terra em transe
Já se perdeu no meu mundo maluco.

E toda vez que eu olho nos olhos
Vem a certeza da razão que encontrei.

Fiquei trancado no quarto
Fiquei olhando pros posters
E as paredes falaram
E me refizeram de louco.

E quantos dias passaram
E que notícias chegaram
Do outro lado da noite
Ouvimos passos e rock n´ roll.

E toda vez que eu olho pra fora
Ainda resta a estória pra contar pra vocês
Pra cantar outra vez...

19. ÃNTES DE NÓS

Se agora estou sozinho
E ando sem caminho
O que resta hoje
Faz parte de você.

Já não faz sentido
Buscar os tempos idos
E ver que os nossos gritos
Jamais foram ouvidos.

Só agora compreendo
O que já ficou pra trás
Tudo aquilo que me lembro
E que já não volta mais.

Nem agora eu te entendo
Quanto mais ãntes de nós
Vivendo e aprendendo
Sobre o brilho de mil sóis.

Veja como é tarde
E como arde te dizer amor
Me assusta a verdade
E a cidade com esse céu sem cor.

Veja como é cedo
E me dá medo te dizer amor
Me assusta o pesadelo e os velhos erros
Cometidos sem rancor...

18. DEPOIS DESSA NOITE

O mundo é coberto de fantasmas do passado
De pessoas nobres e plebeus purificados
À procura de seu Deus assassinado
Com a ternura de um jovem soldado.

Se alguém esquece que a vida é passageira
Quando o dia amanhece numa vã segunda-feira
É preciso muito mais pra entender o outro lado
Os castigos pelos quais você já deve ter passado.

Os rumos no deserto são incertos e errados
Friamente está perto o que estava anunciado
O frio do sol nascente e os segredos de estado
O brio dos inocentes e o sangue frio dos culpados.

É tão claro e evidente quanto um grito sufocado
A dor de tanta gente e o odor inesperado
A cor dos poluentes e o amor amordaçado
O terror que franze o cenho e o Sendero iluminado.

Não não se assuste
Com a juventude que eu herdei
Meus passos podem ser curtos
Mas meus espaços não dependem de leis.

Não não me julgue
E nem pergunte o que eu não sei
As luzes são refúgios imperfeitos eu pensei
Que pudesse te dizer mas eu chorei
E escurece cada vez mais outra vez.

E depois
Depois dessa noite
Acharemos a noite sem fim
Acharemos a noite
Sem final feliz.

17. A FLOR URBANA DO JARDIM DA IDADE DA PEDRA

A rebeldia é um sintoma
A fantasia é no cinema
Cidadania que ainda ronda
A pré-história do problema.

Lei desumana que me doma
Deus e o diabo o dilema
Devo dizer que ainda ama
Aquele que não viu a cena.

Quem é que entende
E só depende e se defende
Como se não ouvisse
E quando quisesse chamar
Mesmo que eu te traísse
Com certeza poderia voltar?

A violência e flor urbana
No jardim da idade da pedra
Desceu do céu como uma bomba
Bandos de fiéis em pé de guerra.

A burguesia que te zomba
A tirania tiro e queda
Na busca do prazer o perigo em coma
São os três lados da moeda.

Quem se surpreende
Quando aprende e compreende
Como se descobrisse
Além do que pudesse explicar
Como se possuísse a seus pés
O mistério estelar.

16. URBANOS

Vou levar comigo as lembranças
Vou partir sozinho sem entender
Verdes anos ventos de mudança
Me levaram longe de você.

Quanto tempo espera quem alcança
Quase nunca eu pude te dizer
Que algo estava errado nessa dança
Demoramos tanto pra aprender.

Sempre que apagava a luz do quarto
Já era noite alta e eu também
Sabia estar a mais do que dois passos
Desde quando nossos olhos já não vem.

Mesmo que você sinta saudades
Tente entender o que passou
Precisamos crer criamos grades
Entre nós e entretanto o que ficou?

Mas agora nessa hora
Onde mora o perigo
E eu nem sei em qual estação
Vou seguindo sem saber...

Nós somos tão vulneráveis
Que não temos mais medo da morte
Porque apesar de tudo ainda nasce
O desejo de contar com a sorte.

Somos urbanos e frágeis
Seres humanos que fogem
E pelos cantos se esquecem
À flor da idade e tão jovens...

15. A PERDA

O começo do começo
O regresso já bem tarde
Por um momento eu esqueço
O remorso então me arde.

O retorno a esse berço
Revisito a puberdade
Me escondo no espelho
Me olhando na verdade.

Eu me perco do seu cerco
E a falta traz saudade
Escureço e me guarneço
Me protejo dos seus lábios.

Cai uma chuva química
Há delírio quando eu falo
Regurgito as tuas cinzas
Dou um grito e me calo.

Um animal semi-morto
Arrependido não se esquece
Um rito tribal e louco
O perturba e o adormece.

A raiva e a paixão
A dor e o prazer
Se reencontram onde estão
Se embriagam sem querer.

Tantos sorrisos
Numa noite cálida
Risos indecisos
Cheios de lágrimas.

Desejos banidos
Pelos telefonemas
Dos rostos apodrecidos
Lembranças apenas.

O que os loucos pensam de mim
A minha obsessão é doentia e sem fim
Por você.
O que você pensa de mim
Se o seu rosto era só ilusão
A noite dança por ti
Amanhece e sem razão
Olha o clarão!

Sobre um pedestal bem alto
Me escondi e me contento
Sobre um pedestal bem alto
Já perdi muito tempo.

15. MENINOS DA PAZ

Eu sei que nada é perfeito
Nem deuses nem super-heróis
No céu diante da guerra
Ainda nasce o sol.

Mais uma vez
Mais uma voz
Novamente somos nós
Os mesmos de sempre
Os meninos da paz.

Não sei se são os mesmos gritos
Daqueles que nunca mais
O mistério ainda sobrevive
Ao inverno que congela o cais.

Desconhecido frio demais
Adormecido e solitário.

Infelizmente
Há tempos atrás
A dor que sentes
O vento ainda traz.

Em homenagem aos milhares de soldados japoneses de 12 a 16 anos que
morreram em honra ao Imperador na Batalha do Pacífico na II Guerra
Mundial.

14. ANJA

Anja você anda sozinha
Mas não vive sem ninguém
Esperando em cada esquina
A morte que ainda não vem.

Anja você tem problemas
Iguais aos de sua mãe
Acordada toda noite
A angústia lhe cai bem.

Anja você ta sem grana
Mas não sabe a dor que tem
Anja já foi encontrada
E ouvi dizer que não vai bem.

Anja é só uma criança
Que não dá notícias suas
Anja é só uma lembrança
De quem viu a face pura.

Anja é só uma herança
Deixada pela traição
Como se fosse vingança
Como se fosse paixão.

Anja hoje eu vi o seu rosto
Mas não sei o que eu senti
Uma carta veio de longe
E eu quase não abri.

Comentários tão curtos
Me disseram que tudo
É tão triste e escuro.

Solitários e sujos
Os caminhos do mundo
Te cortaram os pulsos.

LANÇAMENTO VIRTUAL DO MEU NOVO LIVRO PESADELO PRIMITIVO POESIAS REUNIDAS 1987-1990


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13.RETRATO FALADO

Eu nunca falei mesmo pra ninguém
Eu nunca fui mesmo de ninguém
Eu já pensei em parar pra pensar em tudo.

É que sempre me dá uma falsa sensação
De cair numa cilada pelas própria mãos
De madrugada assistir à Sessão Coruja.

É esse meu jeito é assim que eu sou
De qualquer jeito eu só quis ser só
E os sonhos da gente tem um rosto tão legal.

Ainda tem o meu tempo tão transgressor
E o que eu entendo é que o pior passou
E eu já nem lembro quando foi que começou.

Também não importa tudo que perdi
Tudo que eu quis ser quando eu cresci
Porque pra você eu não dono do meu nariz.

E se todos os dias terminaram assim
Com a melancolia dentro do jardim
Eu não seia mais do que sou e fim.

Eu já passei
Por fases difíceis demais.

LANÇAMENTO VIRTUAL DO MEU NOVO LIVRO PESADELO PRIMITIVO POESIAS REUNIDAS 1987-1990


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12.NEUROSE URBANA

Cidades enfumaçadas
Pelas chaminés das fábricas
Neurose urbana
Os cafés nas calçadas.
O barulho dos automóveis
Os mendigos nas esquinas
Loucura e solidão.
Nas bancas de jornais
Explodem as notícias
Os cartões postais
E a fúria homicida.
Lutas desiguais
Travadas na injustiça
As cores dos sinais
E os motoristas.
Cidades ameaçadas
Pelas milhões de lágrimas
Ponte metálica
Fronte fantasma.
Avenidas iluminadas
Barra pesada tudo em cima
Angústia e aflição.
Na sujeira das tristes vias
Antecipam-se as carícias
Os policiais e a santa missa.
As favelas e o cais
Perdem-se de vista
As janelas dos hospitais
E as praças coloridas...

Do final do mundo
Avistamos a cidade
Em um segundo
Acontece a eternidade.
Do sono profundo
Desperta a claridade
Os parques, as indústrias
E os estados de calamidade.

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11.SANGUE E PROMESSAS

Daqui do inferno
Vejo o distante prédio
De concreto e ódio
Da hipocrisia de outros.

Enormes torres de ferro
Saindo em direção ao céu
Grades de erros
Na consciência dos réus.

Cidades
Grandes nações de aflição
Que alcançam o poder dos deuses
Em torres de alta tensão.

Há um quê de alta tensão
Todos estão fartos desta e daquela maldita prisão.
Todos pensam que tudo está
Mas o último round da luta não vem.

Todos pensam em romper
Com a mentira e com a verdade
Com tão poucas armas
Contam os vencidos.

Se deparam com a realidade
E vence sua fidelidade
E mais um dia começa
E o sangue é a sua promessa.

Sua batalha nunca mais terá fim
Do alto de edifícios inacabados
Guindates alados, monstros parados
Gigantes calados...

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10. AROMA ANTIGO

Grande noite
Contemplas a vida
Como natureza morta.

Bela noiva vestida de negro
Sorriso grego egresso do gesso
De uma deusa órfã.

Dentro de si correm gritos
Segredos dos guetos
Becos sem fim e rios de medo

Toca o clarim de um pã
-devaneio
mostra o caminho do amanhã
que já veio!...


9. ESPÍRITO-QUE-CHORA

Meu espírito chora
Sente vontade de ter
O inatingível e a glória
Nunca é capaz de saber

Onde estão os horizontes azedos
Que eu escolhi esquecer
Pra onde vão os ventos uivantes
Caminho nos levam a perder...

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8. MY GENERATION II

Essa geração que cresce
Fumando maconha
E adormece
Numa noite de insônia.
Tem ou não tem culpa
De carregar essa cuca
Carregada de fumaça
Arruaça e sentimento de culpa.

Essa geração que cresce
E quase nunca lê jornal
Não espera que se desespere
Só porque um dia se sentiu muito mal.

Perseguidos pela mão de Deus
dizem que são todos ateus
Ao menor sinal de perigo
Talvez lembrem da face de Cristo.

Jogados no mundo
Sem nenhuma missão
Quais os segredos dessa geração
Mudando esse mundo
Moldados ou não...

Fazem parte do futuro
Que não é nada perto do presente
Que cresce indiferente de tudo
Que cresce indiferente do Nada.

Fazem parte do futuro
Vegetando como loucos
Fazem sexo no escuro
Abortando como poucos.

E isso não é tudo
Se não bastasse a tirania
A aventura da idade
Fazer tudo aquilo que eu queria.

Essa geração que cresce
E ainda não encontrou a solução
Pros problemas que aparecem
E pros anos que virão...

Nota do Autor: O título é uma clara alusão a uma singular obra do grupo The Who

LANÇAMENTO VIRTUAL DO MEU NOVO LIVRO PESADELO PRIMITIVO



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7.IDÍLIO

O que é a vida então
O que são sinas, sorte
O que tem na mão
Na imaginação cega.

Ninguém enxerga não
Quando nega o pão
E quando atira a pedra
Quando faz a guerra
Pela paz na Terra.

No que a Bíblia prega
Nas profecias
Nas tortas linhas escritas certas
Inquietas.

Entre dois caminhos
Há um pra seguir
Existem exílios fora daqui.
Nesse meu idílio
ainda estão por vir
Todos os trilhos
por quero ir.

O que é a vida então

Quando á razão
Sem ruína e sangue.

Na escuridão
Na luz fraca do candeeiro
Na imensidão
Nas esquinas
desse tempo passageiro
cinzas num cinzeiro.

Fotografias
Imagens frias
preconceitos
Crimes perfeitos.