sábado, 11 de julho de 2009

The Man In The Moon??


No dia 4 de outubro de 1957, os russos puseram em órbita o primeiro satélite da Terra fabricado pelo homem: o Sputnik. O único som que se ouviu vindo do espaço foi um "bip". Mas, um "bip" que provocou entusiasmo em todos os homens e que foi retransmitido por todas as rádios do planeta.

Em 12 de abril de 1961, os soviéticos lavraram novo tento. Yuri Gagarin tornou-se o primeiro homem a viajar em órbita em torno do planeta. A viagem durou pouco mais de uma hora. E Gagarin transformou-se em herói nacional.

No mesmo ano, 1961, o presidente John Kennedy, dos Estados Unidos, declarou que em dez anos um americano pousaria na Lua. "We choose to go to the moon in this decade and do the other things, not because they are easy but because they are hard", disse o presidente na ocasião.

Oito anos se passaram e a viagem à Lua iniciou-se numa quarta ensolarada no dia 16 de julho de 1969, às 9:32 da manhã, no complexo 39 da plataforma de lançamento A, no Kennedy Space Center, Flórida, EUA, com o lançamento da Apolo XI.

Quatro dias mais tarde, em 20 de julho de 1969, exatamente às 23 horas, 56 minutos e 20 segundos de Brasília, o astronauta americano Neil Armstrong, 38 anos, entrava para a história como o primeiro homem a pisar na Lua e avistar a Terra de lá. A bordo da nave Apolo XI, ele, Edwin Aldrin, conhecido como "Buzz" (zumbido) e Michael Collins cumpriram a missão de alunissar (aterrisar na Lua) após levantarem vôo em 16 de julho.

Como comandante da Apolo XI, Armstrong pilotou o módulo lunar com Aldrin, enquanto Collins permaneceu no outro módulo em órbita lunar. Por quase duras horas e meia, os dois coletaram amostras do solo, fizeram experimentos e tiraram fotografias.

O mundo inteiro permaneceu em alerta naquele dia. Nada menos que 850 jornalistas de 55 países registraram o acontecimento. E estima-se que cerca de 1,2 bilhão de pessoas testemunhavam via satélite a alunissagem, considerada impossível tempos atrás. Muitos, inclusive, ainda duvidam de que tal fato tenha realmente acontecido, mesmo com tantas outras missões tripuladas que se lançaram no espaço, após Armstrong ter colocado seu pé esquerdo, coberto pela bota azul, no chão fino e poroso do solo lunar.

Os astronautas voltaram à Terra no dia 24 de julho de 1969, chegando com 30 segundos de atraso, e foram recebidos como heróis. Desde então, os satélites têm revolucionado os sistemas de comunicação e há naves não tripuladas viajando para além dos limites do sistema solar.

Curiosidades

- O primeiro passo na Lua foi dado com um pé tamanho 41. Este era o número da bota azul do astronauta Neil Armstrong, então com 38 anos. O passo foi dado com o pé esquerdo;

- Neil Armstrong e Edwin "Buzz" Aldrin, o segundo astronauta a pisar na Lua, fincaram ali uma bandeira metálica dos Estados Unidos e colocaram uma placa junto à perna do módulo lunar, assinada pelos astronautas e pelo presidente americano Richard Nixon: "Aqui os homens do planeta Terra puseram pela primeira vez os pés na Lua. Julho de 1969 d.C. Viemos em paz em nome de toda a humanidade";

- Ao descer em solo lunar, Eldwin Aldrin sentiu uma enorme vontade de fazer xixi. E fez: dentro do traje, reforçado com 21 camadas de tecido, havia uma bolsa para coleta do líquido;

- Durante as 2 horas e 10 minutos que permaneceram no mar da Tranqüilidade, a planície escolhida para a alunissagem, os astronautas instalaram um sismógrafo, um refletor de raios laser, uma antena de comunicação, um painel aluminizado (para escudo de radiação solar) e uma câmara de TV. Recolheram 27 amostras de pedras e poeira;

- Cinco outras missões tripuladas à Lua foram realizadas com sucesso pelos americanos. Os soviéticos nunca repetiram essa façanha. Depois dos pioneiros, outros 10 homens pisariam no solo lunar:

Novembro de 1969
Charles Conrad e Alan Bean (Apolo XII)

Fevereiro de 1971
Edgar Mitchell e Alan Shepard (Apolo XIV)
Alan tinha 47 anos na época. Detém o recorde de ter sido o homem mais velho a pisar na Lua.

Agosto de 1971
David Scott e James Irwin (Apolo XV)
James foi o primeiro dos 12 homens a falecer, em 1991, vítima de uma crise cardíaca. Tinha 61 anos.

Abril de 1972
Charles Duke e John Young (Apolo XVI)

Dezembro de 1972
Eugene Cernan e Harrison Schmitt (Apolo XVII)
Bateram o recorde de permanência na superfície da Lua: 75 horas.

sexta-feira, 10 de julho de 2009

A teoria do caos


Caos é uma palavra subjetiva. Um quarto de uma adolescente pode ser caótico para a empregada doméstica que tenta arrumá-lo, mas certamente não é para o jovem. Se perguntarmos por qualquer item ele certamente saberá onde se encontra. Uma estante organizada por autor é caótica para quem está acostumado a organizar seus livros por assunto.

Embora muitos autores considerem que toda ciência é uma tentativa de colocar ordem na natureza, a primeira corrente científica a se preocupar com o caos foi a cibernética. Autores cibernéticos, como Norbert Weiner, chamaram caos de entropia e estudaram suas características.

Filha da cibernética e da teoria da informação, a teoria do caos surgiu na década de 60 com as elaborações do matemático Benoit Mandelbrot a respeito do tempo metereológico, mas ganhou destaque no início dos anos 80 com um grupo de alunos da Universidade de Santa Helena (EUA) que se auto-denominaram coletivo de Sistemas Dinâmicos.

Os trabalhos de Mandelbrolt e dos jovens estudantes começava nos limites da ciência clássica, que era extremamente influenciada pela invenção do relógio. O relógio simbolizou, para muitos autores, a ordem do universo. Seus movimentos são totalmente previsíveis. Para saber como funciona um relógio, basta desmonta-lo e compreender como suas peças se encaixam. Da mesma forma, para compreender a natureza, bastava desmontá-la, descobrir como funcionam suas partes e tudo se revelaria com espantoso determinismo.

Essa visão de mundo ganhou uma metáfora no Demônio de Laplace. O cientista francês propôs que, se uma consciência soubesse todos os dados de todas as partículas do universo e fosse capaz de fazer os cálculos necessários, teria condições de prever o seu funcionamento com perfeição. O Demônio Laplaciano teria diante de si o passado, o presente e o futuro.

No campo das ciências humanas, essa forma de pensamento foi a base da sociologia. Se alguém entendesse como funciona a sociedade, com as pessoas se relacionam entre si para formar uma comunidade, seria perfeitamente possível prever o andamento dessa sociedade.

Para demonstrar a crença na determinação, característica da ciência clássica, podemos imaginar o transito de uma cidade. Imaginemos que o departamento de transito saiba todas as informações sobre o transito: o mapa da cidade, o tempo de todos os semáforos, a média de velocidade de cada carro, a origem e o destino de todos os carro, o tempo de partida... Diante de todos esses dados e, com um computador potente o bastante, seria possível prever todas as situações possíveis e manter o transito perfeitamente ordenado, sem engarrafamentos.

A situação pode funcionar na teoria, mas na prática isso não ocorre. Um único motorista que se distrai olhando para uma garota na calçada pode provocar uma acidente, que provocará outro acidente, que provocará outro acidente... e no final teremos um engarrafamento monstruoso.

A maioria dos sistemas não pode ser determinado em decorrência da chamada dependência sensível das condições iniciais, ou efeito borboleta.

A expressão efeito borboleta é usada para denominar um fenômeno no qual uma borboleta, batendo suas asas na muralha da China, pode provocar uma tempestade em Nova York. Parece brincadeira, mas não é. Fenômenos em que um pequeno fator provoca grandes transformações são mais comuns do que se pensa.

No campo da economia, por exemplo, teóricos do caos têm estudado a importância de boatos nas bolsas de valores.

Os jornais têm anunciado casos de pessoas que, em decorrência de um pequeno atraso na hora de sair de casa, perderam o ônibus, o que levou a um atraso no metrô e, no final não conseguiram pegar o avião, e o avião caiu. Um segundo de atraso foi a diferença entre a vida e a morte para essas pessoas.

Em termos filosóficos, a Teoria do Caos nos dá uma interessante perspectiva a respeito do destino. O destino existe? Essa questão tem inquietado pensadores desde a origem da humanidade. A ciência clássica, com seu determinismo, dava abertura para a aceitação do destino. O demônio de Laplace podia prever o futuro, mas não podia intervir nele, pois todos os acontecimentos já estavam previstos. “A inteligência suposta por Laplace seria onisciente, mas impotente para provocar qualquer modificação no curso dos eventos. Restaria a ela um olhar entediado sobre o porvir, pois nada poderia acontecer que não tivesse já previsto”, diz Isaac Epstein, no livro Teoria da Informação.

A Teoria do Caos, por outro lado, propõe que o sistema é determinista, mas não sabemos o que ele fará a seguir. Ou seja, há uma determinação, até o ponto em que um efeito borboleta incida sobre o sistema. Em termos filosóficos, podemos dizer que o destino existe, mas nós o modificamos toda vez que fazemos determinadas escolhas que vão influenciar o futuro. Visualmente, isso pode ser imaginado como uma estrada com diversas bifurcações. A cada bifurcação, a escolha daquele que caminha, muda o caminho e, portanto, o seu destino.

Para compreender os fenômenos dinâmicos (não deterministas), os teóricos do caos foram buscar na teoria da informação a base científica. Eles chegaram à conclusão de que não existe caos, mas padrões de diferente níveis de complexidade. Um padrão mais complexo é mais caótico, um padrão mais simples é ordenado. Um exemplo. Imagine a seqüência abaixo:

1,2,3,4

É um padrão simples. É fácil perceber que o número seguinte será o 5.

Um padrão um pouco mais complexo pode ser visualizado na seqüência seguinte:

2,4,6,8

Embora seja um pouco mais imprevisível, não há grande dificuldade em perceber que o padrão é pular os números ímpares. Assim, o próximo número seria o 10.

Um padrão bem mais complexo poderia ser visualizado na seqüência abaixo:

2,4,8,10, 14

Qual seria o número seguinte? Uma análise detalhada da seqüência demonstraria que a regra é pular dois números e, em seguida, pular quatro. Assim, o número seguinte seria 16.

Um padrão totalmente complexo, ou caótico, seria demonstrado pela seqüência abaixo:

1, 7,10, 49,579,3400, 2, 5013

Eu a construí digitando números aleatórios no teclado. Embora a seqüência seja aleatória, ela provavelmente tem um padrão determinado pelo meu inconsciente, ou pela limitações de meus dedos. É possível que sejam necessários 500 ou mais números, mas em um determinado momento o padrão vai se repetir.

Para a Teoria da Informação, a primeira seqüência (1,2,3,4) é totalmente redundante, tanto que é muito fácil prever o número seguinte. Já a última seqüência seria a mais informativa, pois traz mais variedade.

Os teóricos do caos concluíram, portanto, que a ordem é redundante, enquanto o caos é informativo.

Fenômenos como a vida humana e o trânsito de uma cidade são essencialmente caóticos. Isso influenciou Edgar Morin a construir a teoria do pensamento complexo. Em uma frase autobiográfica, ele demonstra como o caos (ou complexidade) envolve nossas vidas: “Quando penso na minha vida, vejo que sou fruto de um encontro muito improvável entre meus progenitores. Vejo que sou produto de um espermatozóide salvo entre cento e oitenta milhões que, não sei por sorte ou infortúnio, se introduziu no óvulo de minha mãe. Soube que fui vítima de manobras abortivas, que deram resultado com meu predecessor, mas ninguém saberá dizer porque escapei à arrastadeira (...) E cada vida é tecida dessa forma, sempre com um fio de acaso misturado com o fio da necessidade. Sendo assim, não são fórmulas matemáticas que vão dizer-nos o que é uma vida humana, não são aspectos exteriores sociológicos que a vão encerrar no seu determinismo”.




Uma parte importante da Teoria do Caos é a chamada geometria fractal. Enquanto a geometria clássica, euclidiana, se preocupava com as formas perfeitas (círculos, quadrados, retas, cones), que são altamente redundantes, a Geometria Fractal vai se preocupar com as imperfeições das formas que encontramos na natureza. Enquanto a geometria clássica, ao estudar uma montanha, a transformava em um cone, para a nova geometria, o que interessa são justamente as irregularidades da montanha. Um raio não é definido como uma reta, mas em suas sinuosidades.

A geometria fractal, criada pelo matemático Benoit Mandelbrot, ficou famosa pelos gráficos criados para representar fenômenos caóticos: os fractais. Esses gráficos, na maioria muito belos, têm uma característica curiosa: quando ampliamos uma parte do desenho, ele se revela muito parecido com a imagem maior, mas com mais detalhes, mais informação. Uma outra característica dos fractais é que a mudança de um único número muda todo o desenho. É a Dependência Sensível das Condições iniciais, também chamada de Efeito Borboleta.

A Teoria do Caos tem influenciado os mais diversos campos do conhecimento. Na área da comunicação, essa teoria tem sido usada para descrever filmes, programas televisivos e até histórias em quadrinhos que apresentam características caóticas.

Um exemplo recente é o filme Cidade de Deus. Nele podemos encontrar todas as características da comunicação caótica: fatos fragmentados, muita informação em pouco tempo, padrões estéticos complexos, dependência sensível das condições iniciais, padrões mais complexos à medida em que nos aprofundamos nos fenômenos e na vida dos personagens...

A Dependência sensível das condições iniciais pode ser percebida, no filme Cidade de Deus, por exemplo, no momento em que o personagem Busca-pé tenta praticar um assalto. O fato do assalto dar errado vai evitar que ele entre no mundo do crime e, portanto, molda o seu destino. Como esse, há vários outros Efeitos Borboletas no filme.

Como num fractal, à medida em que nos aprofundamos nos personagens, percebemos uma maior complexidade. Para quem observa apenas superficialmente, o Trio Ternura é apenas um grupo de bandidos. À medida em que os conhecemos melhor, percebemos toda a complexidade que envolve cada um dos personagens, inclusive em termos de contradições.

A teoria do caos também tem sido usada para explicar porque as novas gerações têm uma capacidade maior de captação de informação. À medida em que o mundo e as comunicações se tornam complexos, caóticos, nossa mente se expande para acompanhar esse desenvolvimento. Por outro lado, o aumento da capacidade de captar informação faz com que surjam cada vez mais obras caóticas, tais como Cidade de Deus, Matrix e, nos quadrinhos, Watchmen.

Cultura pop

O termo cultura pop tem sido usado indiscriminadamente para designar diversos produtos da Indústria Cultural. Fala-se em música pop, pop rock, quadrinhos pop e, finalmente, cultura pop. Mas o que é cultura pop? O que caracteriza algo como pop? Que tipo de cultura é essa, denominada pop?

Uma resposta interessante para a pergunta está no ponto de vista daqueles que colocam a cultura pop como uma alternativa para a cultura oficial.

Em um virulento editorial da revista General Visão, número zero, Rogério de Campos ataca o imobilismo cultural daqueles que criticam a Indústria Cultural por comodidade:

"Essa revista surge para, entre outras coisas, chatear essa gente. Nosso objetivo é mergulhar nas imagens criadas pela tal cultura pop e provocar mais imagens. Desenhos de shapes de skate, games, ilustrações, brinquedos estranhos, capas de discos, roupas, flyers, cartazes, filmes, tatuagens, fanzines, desenhos de sites, desenhos animados, fotografias, histórias em quadrinhos e até pinturas e esculturas. Criadores que vivem além das fronteiras das imaculadas galerias ou apenas inconvenientes, fora do lugar "correto", fora do tempo, contraditórias, infinitas imagens elétricas para ofuscar as imagens oficiais. Não siginifica ficar deslumbrado pela Indústria Cultural, mas, ao contrário, enfrentá-la com ações e visões críticas".

Daí percebe-se o conceito de cultura pop como algo que nasce da Indústria Cultural, mas não se limita às regras suas acríticas e homogenizantes. Ao contrário, a cultura pop está muito mais próxima da subversão que da ideologia. Ela, constantemente, quer incomodar o receptor, ao invés de acomodá-lo.

O trabalho do autor britânico de histórias em quadrinhos) Alan Moore se encaixa perfeitamente nesse padrão. Sua produção de quadrinhos tem sido subversiva e inquietante: do "herói" anarquista em "V de Vingança" à denúncia da moral vitoriana, na história incrivelmente detalhada de Jack, o Estripador, "Do Inferno", recentemente transformada em filme.

Quando achou que os leitores estavam acomodados à sua produção mais intelectual, Moore, para provocá-los, dedicou-se a fazer histórias de super-heróis para a editora Image.

Essa produção crítica e provocadora não se encaixa em absoluto no conceito de Indústria Cultural.

Muito antes de Alan Moore, a editora americana E.C. Comics já fazia quadrinhos que estavam mais próximos do conceito de obra aberta do que de Indústria Cultural.

São inúmeros os outros exemplos de produções que estão mais próximas da entropia que da redundância que, teoricamente, deveria caracterizar a Indústria Cultural.

No cinema, há diretores como os americanos QuentinTarantino (de "Cães de Aluguel" e "Tempo de Violência"), Terry Gillian e, mais recentemente, o indiano M. Night Shyamalan (de "O Sexto Sentido" e "Corpo Fechado"), que não se encaixam no jeito americano de fazer filmes.

Na música há bandas que rompem com os ditames do stablishment: Beatles e suas experimentações, o incorfomismo de Raul Seixas, Pato Fu e a crítica à TV (na música "Televisão de Cachorro")... Por outro lado, há toda uma leitura crítica por parte dos receptores que foi totalmente ignorada pelos frankfurtianos, assustados com a idéia de uma mídia toda-poderosa, derivada do conceito de agulha hipodérmica.

A leitura de uma história em quadrinhos, de um seriado de TV, de um filme, pode evoluir desde a fruição pura e simples até uma análise semiótica aprofundada, como demonstrou Umberto Eco no livro Apocalípticos e Integrados.

Embora os meios de comunicação de massa tenham como objetivo a leitura e a fruição rápidas, isso não significa que todos os leitores estejam "amaldiçoados" a fazerem sempre leituras superficiais.

Alguns leitores discutem os quadrinhos da mesma forma que um crítico de arte o faria com um quadro, ou um crítico literário com um romance.

Por conta dessa leitura, alguns produtos da indústria cultural acabam se tornando cultura pop. É o que acontece, por exemplo, com o seriado Jornada nas Estrelas ou com as histórias clássicas de Jack Kirby e Stan Lee para a Marvel.

Importante notar que, embora não tenham uma postura tão crítica ou provocadora quanto outros exemplos de cultura pop, tanto Jornada quanto as histórias clássicas da editora americana de quadrinhos Marvel (dona do Homem-Aranha, Capitão América e X-Men) têm duas características em comum:

A. Eles apresentam inovações significativas com relação ao modo de fazer as coisas dentro daquele gênero ou mídia (ou seja, são mais informativos que redundantes). A Marvel inovava, e muito, ao mostrar o lado humano dos heróis (o melhor exemplo talvez seja o Homem-aranha, sempre envolvido com gripes, perseguições da polícia e brigas com a namorada), sem falar na estética expressionista de Jack Kiby. Jornada nas Estrelas inovava ao introduzir nos seriados de ficção um vivo manifesto pacifista e ao dar um grande valor aos roteiros bem elaborados.

B. Eles se destacam por seu caráter mítico. Não são poucos os autores que admitem o caráter mítico de Jornada nas Estrelas e de personagens como o Surfista Prateado. A mídia estariam, nesse caso, resgatando algo que havia se perdido com a quase total extinção dos chamados contadores de histórias que, nas sociedades de desenvolvimento tecnológico menos desenvolvido, são os principais divulgadores dos mitos.

O conceito de cultura pop surge não para substituir o de indústria cultural, mas complementá-lo. Ele é aplicado onde justamente as teorias da escola de Frankfurt falham: nos produtos da indústria cultural que não conformam, mas provocam, não acomodam, mas incentivam uma leitura crítica da realidade. A cultura pop surgiria ou de uma vontade de se contrapor à indústria cultural num movimento "de dentro", ou daquelas peças que ganham uma nova dimensão em decorrência de sua carga arquetípica.

Assim, a cultura pop teria as seguintes características:

A. ser inovadora com relação aos seus congêneres, tanto em termos de forma quanto de conteúdo;

B. apresentar uma leitura crítica de mundo;

C. ter um conteúdo arquetípico;

D. ser provocadora.

Tais características fazem com que, embora passe pelos mesmos mecanismos de reprodutibilidade técnica, a cultura pop se diferencie da média do que chamamos de indústria cultural.

Do Digestivo Cultural direto para o Mensageiro da Realidade

quinta-feira, 9 de julho de 2009

Recital marca 7 anos sem Patativa


Aniversário de morte foi lembrado, ontem, na margem do Açude Canoas com recitais de poesias e peças teatrais

“Conheço que estou no fim/e sei que a terra me come/mas fica vivo o meu nome/para os que gostam de mim”. O verso da Patativa do Assaré, antevendo a própria morte, confirma a admiração e a saudade dos amigos e parentes. “Sete anos depois de sua morte, o mito parece maior do que a realidade”, afirmou o professor e advogado Fábio Sales de Luna, ressaltando os valores morais e éticos de Patativa, um homem pobre que, lembrou, foi além das fronteiras do Brasil.

O aniversário de morte do poeta, que faleceu no dia 8 de julho de 2002, foi lembrado, ontem, na margem do Açude Canoas, conseguido por ele para matar a sede dos seus conterrâneos e irrigar o Vale do Cariús, uma das fontes de sua inspiração poética.

Foi um encontro de confraternização, com direito a recitais de poesias e peças teatrais, tendo como enredo os seus poemas, que reuniu filhos, netos, sobrinhos e amigos de Patativa. O violeiro Miceno Pereira, um dos últimos repentistas que cantaram com Patativa, lembrou os desafios, que vararam as madrugadas, na casa do poeta maior, enquanto o sobrinho de Patativa, Geraldo Alencar, apontado como um dos melhores poetas populares da região, mostrou que a escola “patativana” ainda funciona na região, espalhando romantismo e denunciando injustiças.

O encontro foi promovido pela Universidade Patativa do Assaré (UPA), uma Organização Não-Governamental que, segundo o seu diretor Francisco Palácio Leite, tem como objetivo dar continuidade ao trabalho educativo de Patativa, que fez de seus poemas um instrumento de educação dos sertanejos. “A poesia foi a arma que ele utilizou para denunciar as injustiças e mitigar as dores dos seus irmãos nordestinos”, disse o diretor da UPA.

Na oportunidade, a UPA entregou à família de Patativa 500 calendários, contando em versos, a vida do poeta, que serão distribuídos com os amigos. Os poemas transcritos evidenciam o amor telúrico do poeta por Assaré, sua terra natal e, principalmente, pela serra de Santana, onde nasceu.

Em meio a emoções, alegrias e tristezas, as lembranças de uma vida marcada pelo sofrimento. O filho mais novo de Patativa , Pedro Gonçalves , recorda com saudade, as viagens que ele fazia com o pai na garupa do cavalo “mimoso”, da serra de Santana para o sitio Araçá, onde Patativa pegava um “misto” (caminhão com três cabines) que transportava passageiros e mercadorias.

Pedro lembra do outro cavalo de Patativa de nome “canivete”. “O pobre do animal era tão magro que parecia um canivete”, diz Pedro Gonçalves , acrescentando, por outro lado, que apesar da pobreza, Patativa que, na época, era chamado de “Senhorzinho” nunca reclamou das amarguras da vida.

Pedro Gonçalves recorda que a base alimentar da família era feijão e milho. Arroz era difícil. Carne, só nas quatro festas do ano, quando ele abatia um porco criado no chiqueiro. “Hoje, Patativa está recebendo as homenagens que merece”, diz a estudante de Comunicação Social da Universidade de Fortaleza Marília Pedrosa.

Do jornal Diário do Nordeste direto para o Mensageiro da Realidade.

quarta-feira, 8 de julho de 2009

Grunge, o movimento que dominou os 90's

Mais ou menos de dez em dez anos algum movimento musical se expande além dos limites sonoros, conquistando os mundos da moda e cinema, além de ditar o comportamento de milhões de jovens pelo mundo afora - foi assim com o beat nos anos 60, o punk nos 70, new wave nos 80. No início dos anos 90 chegou a vez do Grunge, movimento liderado por grupos como Soundgarden, Alice in Chains, Nirvana e Pearl Jam. O que eles tinham em comum? Todos vinham de uma fria e chuvosa cidade portuária dos EUA, movida a café e rock n'roll: Seattle.
Seattle sempre produziu grandes astros do rock. De lá saíram o lendário guitarrista Jimi Hendrix e o grupo Heart, do megahit "Barracuda", só para citar dois nomes. Mas foi só no fim dos anos 80 que a cidade produziu uma "cena", um movimento, com diversos grupos, chamou a atenção do mundo todo, vendendo dezenas de milhões de discos.
Bizarramente, muitos desses músicos tinham influências ecléticas, que iam de Bad Brains a Iron Maiden. Por isso é comum ler que a "cena de Seattle" e seu som, o Grunge Rock, é o "encontro do punk com o heavy metal".
Em questão de meses grupos "sujos" substituíam os roqueiros glam, com seu cabelo armado e roupas cintilantes, que dominaram os anos 80 (vide Poison, Warrant, Duran Duran e outros).


A origem do termo Grunge (variação de "grungy", sujo) é outro ponto muito discutido. Mark Arm, vocalista do Mudhoney, afirmou diversas vezes que pode ter sido o inventor da definição, pois a utilizou em um texto para um fanzine. Boa história para se ter no currículo, mas o crítico de rock Lester Bangs já usava o termo, nos anos 70.
E boas histórias não faltaram para essa época. Em 1992, o jornal "New York Times" resolveu pegar carona na nova moda. A intenção era publicar um dicionário que decifrasse o vocabulário peculiar daquele grupo de músicos. É claro que não havia uma linguagem paralela para o Grunge, mas uma funcionária da gravadora Sub Pop resolveu pregar uma peça no jornalista "traduzindo" o "grungês". O resultado - que incluía uma hilária definição de botas: chutadores - ficou conhecido como "The Great Grunge Hoax" (a grande armação grunge).



Com a popularização o movimento de Seattle pôde ser notado em todos os cantos. "Singles - Vida de Solteiro" (de Cameron Crowe, 1992) retratava, de forma romanceada, a vida e música de Seattle. Mais tarde veio o documentário definitivo, "Hype!" (de Doug Pray, lançado em 1996), que detalha cada aspecto da revolução que foi o Grunge. Sem contar a "moda grunge": calças rasgadas, botas estilo coturno e a infame camisa de flanela quadriculada, estilo lenhador (que se espalhou rapidamente até por países quentes, como o Brasil, onde era usada aberta, para refrescar um pouco mais [?]).
A influência musical do som de Seattle seguiu além dos anos 90. Grupos como Creed, Stone Temple Pilots e Silverchair se apoiaram nessa sonoridade agora já consagrada para subir nas paradas de sucesso.



Seattle, onde tudo começõu: No final dos anos 80 e início dos anos 90, Seattle, no estado de Washington, EUA, ficou conhecida como a cidade de origem de um dos mais importantes movimentos musicais da década, o grunge.
Muitos dos músicos envolvidos no "furacão" que passou pela cidade dizem que o tédio foi um dos fatores que levaram ao desenvolvimento das dezenas de bandas que de lá saíram. Mas Seattle é uma cidade comum, tipicamente americana - abriga a sede da Microsoft e o time de basquete Seattle Supersonics - mas continua com uma cena musical de fazer babar qualquer interessado por rock.
Claro que o fenômeno popularizado por grupos como Nirvana, Pearl Jam, Soundgarden e outros não passou despercebido pelos olhos das grandes corporações. Pensando nos milhares de turistas que vão a Seattle em busca de música, o co-fundador da Microsoft, Paul Allen, idealizou o Experience Music Project, um museu interativo sobre música.



Além de exposições permanentes (com salas dedicadas a Jimi Hendrix e ao "movimento grunge"), o local abriga shows de rock (em um espaço chamado Sky Church) e espaços interativos - onde computadores ensinam os visitantes a tocar guitarra, bateria, teclado, cantar e mixar músicas.
Em outro simulador, a pessoa pode ter a sensação de subir ao palco, em frente a centenas de fãs - uma experiência interessante, mas extremamente constrangedora.
O EMP abriga uma exposição permanente dedicada à vida do guitarrista Jimi Hendrix, o mais famoso músico a sair de Seattle (ou seria Kurt Cobain?).
Entre fotos, objetos pessoais e vídeos, uma peça que gera cobiça entre os colecionadores: uma guitarra Fender
Stratocaster, destruída por Hendrix durante um show, no dia 4 de junho de 1967, em Londres.

Por meio de um aparelho eletrônico, a história da vida do guitarrista é contada - e o visitante pode ver fotos e objetos relacionados a cada período.
Claro que o underground ainda respira forte em Seattle. Clubes como o Crocodile Cafe, Showbox, Sit N Spin abrigam semanalmente o melhor da música mundial - de Fatboy Slim a Strokes.
E as novas bandas da gravadora Sub Pop, que lançou praticamente todos os álbuns clássicos do grunge e pré-grunge, são figurinhas fáceis nos palcos da cidade.
"Há muitas pequenas bandas punk legais por aqui agora", diz Steve Turner, guitarrista do Mudhoney. Black Halos (que a gravadora Trama pode lançar por aqui em breve), Damon and Naomi (dois terços do Galaxie 500), Murder City Devils e Nebula, só para citar alguns, costumam tocar nesses estabelecimentos, que geralmente cobram um preço camarada na entrada (principalmente porque são bares, não casas de show).
Isso sem contar, claro, os veteranos que ainda aquecem a cena. Pequenos festivais reunindo Mudhoney, Fastbacks e outros são bem comuns na região.
Para quem faz o tipo "preciso ver tudo", Seattle abriga alguns pontos de visitação obrigatória. Diversos locais foram utilizados nas filmagens de "Singles - Vida de Solteiro", de Cameron Crowe, deliciosa e inofensiva comédia romântica que se passa em Seattle, no auge do grunge.
Soundgarden e Alice in Chains aparecem tocando nesse filme, e membros do Pearl Jam atuaram como coadjuvantes (eram da banda do personagem de Matt Dillon, a Citizen Dick, que tinha o "clássico" "Touch me I'm dick"). O site "Five Horizons", organizado por fãs do Pearl Jam, tem um ótimo guia, em inglês, com as principais referências grunge de Seattle.
Se o seu interesse é o Nirvana, não há muito o que fazer. A casa onde Kurt Cobain se matou foi vendida pela viúva Courtney Love (o anexo "Green House", onde o corpo foi encontrado, foi demolido) e não é muito simpático incomodar os novos moradores. Também não há um túmulo, já que o artista foi cremado. Resta torcer para cruzar com o baixista Krist Novoselic pelas ruas, o que não é impossível. Mas se prepare para o choque: ele está totalmente careca!
Pouco depois do fim do Nirvana, Novoselic fundou o Jampac (Comitê de artistas unidos, promoções musicais e ação política), organização sem fins lucrativos que defende a liberdade de expressão para os músicos e direito de escolha para os consumidores de música.
Entre os membros da comissão que lidera o grupo, estão Stone Gossard (do Pearl Jam), Dave Dederer (Presidents of the United States of America) e Art Alexakis (Everclear).
O Jampac atua fazendo lobby em casos que consideram importantes. Entre eles, a liberação do uso da maconha em tratamentos medicinais e a entrada livre de menores de 21 anos em shows de rock.
"Minha experiência foi a de confrontar o cinismo e a hostilidade, e meu desafio é o de defender nosso lento processo democrático, na época rápida e digital", disse Novoselic em um de seus discursos.
Mas o melhor de Seattle está em seus habitantes. No geral, quem mora lá tem pelo menos uma característica em comum com as pessoas de outro berço do rock, Liverpool, na Inglaterra: a simpatia. Afinal, em que outros locais do mundo você pode ver as pessoas sorrindo enquanto andam em um frio intenso, debaixo de chuva?

Esperar convite, insinuar ou convidar?

Por que, nos inícios dos relacionamentos amorosos, tememos revelar a nossa atração pelo parceiro e os programas que queremos fazer com ele? Muitas vezes tudo o que fazemos quando ficamos encantados com alguém é torcer para que ele tome este tipo de iniciativa e ficar “subindo pelas paredes” enquanto isso não acontece. Existem três tipos principais de causas para este tipo de inibição: (1) temer ser rejeitado (por exemplo, ter medo de que o parceiro rejeite um convite porque não está interessado amorosamente em quem o apresenta), (2) temer incomodar (por exemplo, ter medo de telefonar para o parceiro e ele atender de má vontade ou só dar alguma atenção por polidez) e (3) temer perder a importância (por exemplo, ter medo de piorar a imagem que o parceiro tinha devido à manifestação de interesse). Este tipo de temor é captado por expressões populares depreciativas do tipo: “Correr atrás”, “Entregar-se de bandeja”, “Dar uma de oferecido”.

Uma pesquisa publicada na década de 1980, realizada por Charlene Muehlenhard e Richard Macfall, dois pesquisadores americanos, dá uma idéia das dimensões da inibição para revelar o interesse pelo parceiro no início de um relacionamento amoroso. Estes pesquisadores perguntaram para 431 homens e 148 mulheres de um curso introdutório de psicologia (idade média de 19 anos) o que uma mulher interessada em sair com um rapaz deveria fazer caso ele não tomasse a iniciativa de convidá-la para isso. Estes pesquisadores ofereceram três alternativas de resposta para os participantes: esperar o convite, insinuar e convidar. As percentagens de escolhas, apresentadas pelos participantes, para cada uma destas três alternativas foram as seguintes:
o Respostas das mulheres: esperar que ele tome a iniciativa: 34,7%; insinuar: 69,2% e convidar: 2,7%
o Respostas dos homens: esperar que ele tome a iniciativa: 4,3%; insinuar: 62,7 e convidar: 26,5%.

Estes resultados mostram que os homens gostariam que as mulheres fossem mais explícitas e ativas nas manifestações dos seus interesses amorosos. No entanto, um estudo que realizei indicou que quando uma mulher é mais explícita do que o usual quem recebe a iniciativa geralmente pensa que ela é fácil para sexo e encaminha o relacionamento para esta finalidade.

As vantagens de ser eficaz e indireto
Admiro as pessoas que são eficazes para manifestar seus interesses amorosos sem ser explícitas demais. Esta forma de agir deixa espaço para que ambos os parceiros manifestem sutilmente o que querem do outro sem criar uma situação desagradável em que um deles expõe claramente o que se passa com ele e o outro fica pressionado a se declarar também. Esta forma explícita de agir pode deixar marcas difíceis de serem apagadas quando acontece uma rejeição.

Dois pesos e duas medidas
O que complica ainda mais esta questão das revelações do interesse amoroso é que a avaliação do quanto está sendo revelado é bastante subjetiva. Por exemplo: as pessoas que temem a revelação geralmente apresentam uma distorção da percepção do quanto estão revelando. Uma pesquisa que realizei mostrou isto claramente: os tímidos geralmente superestimam aquilo que estão revelando e subestimam as revelações que estão recebendo dos seus possíveis parceiros amorosos. Pedi, nesta pesquisa, para dois grupos equivalentes de tímidos avaliarem quinze tipos de convites. A tarefa era estimar quanto cada um destes convites podia ser interpretado como manifestação de amizade ou como interesse amoroso. Os tímidos de um dos dois grupos deveriam imaginar que estavam apresentando os convite e os tímidos do outro grupo, que estavam recendo os convites de uma pessoa pela qual sentiam muito interesse amoroso. Eles deveriam utilizar uma escala, como a do exemplo abaixo, para avaliar quanto cada convite era amistoso ou amoroso:

O resultado mais interessante desta pesquisa é a constatação de que os tímidos percebem um grau muito maior de revelação de interesse amoroso quando apresentam os convites do que quando os recebem. Por exemplo, quando imaginavam que estavam recebendo um convite para tomar um café durante o intervalo de uma aula, acreditavam que este era um convite quase que totalmente amistoso. Quando eles imaginam que estavam apresentando o mesmo convite, acreditavam que estavam mostrando um alto grau de interesse amoroso. (Se você é tímido pense nisso: você pode estar mostrando muito menos interesse amoroso do que imagina que está!)

O que é moderadamente difícil é mais valorizado
Quase todo mundo já assistiu um daqueles filmes americanos que mostram que as moças daquele país evitam aceitar um convite de última hora para sair com um pretendente. Por exemplo, uma mulher prefere recusar um convite para sair no mesmo dia, mesmo quando desejaria muito sair com quem a está convidando. Este tipo de convite é interpretado como uma espécie de “tapa buraco” ou “quebra galhos”, que é apresentado por aqueles que ficaram sem programa na última hora. Quem aceita este tipo de convite passa um atestado de que está disponível, de que não tem outro programa, de que está “jogada às traças”, que “está à gritos” e que é muito mal cotada no mercado amoroso.

Tudo o que é difícil demais é interpretado como rejeição
Na outra ponta da facilidade extrema está a dificuldade extrema. Na área amorosa um grau muito grande de dificuldade para obter sinais de interesse por parte do parceiro é vista como rejeição. Isto acontece, por exemplo, quando o outro já recusou vários convites para sair. Mesmo quando ele apresenta desculpas para as suas recusas, mas elas não são muito convincentes, isto indica que ele não quer um relacionamento amoroso com quem o está convidando. Quem realmente gostaria de aceitar um convite, mas tem motivos sérios que o obrigam a recusá-lo e não quer passar a mensagem de rejeição, deve mencionar o motivo explícito da recusa e apresentar uma contra-proposta. Por exemplo, deve dizer algo do tipo “Hoje não posso sair porque vou viajar para o Rio para visitar um cliente. Que tal na sexta feira?”

Motivos reais para “não parecer fácil”
Existem evidências de que o medo de revelar muito interesse no início de um relacionamento amoroso não é descabido. Por exemplo, a teoria do apaixonamento de Stendhal afirma que no início de um relacionamento amoroso uma certa dose de insegurança sobre o interesse do parceiro funcional como uma espécie de “catalisador do amor” para quem está inseguro ajuda a provocar o apaixonamento. Outro exemplo: uma pesquisa indicou que as pessoas valorizam mais os parceiros quando têm que lutar um pouco por eles. Neste estudo uma pessoa foi instruída a apresentar para os seus pretendentes todas as combinações possíveis entre ser fácil e ser difícil em dois momentos: no início e depois de algum tempo de relacionamento. Aqueles parceiros que se relacionaram com esta pessoa a valorizavam mais quando ela mostrava uma certa dificuldade no início e depois ficava mais fácil, em comparação às ocasiões em que ela se mostrava sempre fácil, quando se mostrava fácil no início e depois difícil e quando se mostrava sempre difícil.
Este estudo mostrou também que as pessoas que são seletivamente fáceis (“Só é fácil para mim”) também são valorizadas. Por exemplo: o sexo no primeiro encontro é valioso quando representa uma exceção: anteriormente a pessoa com quem você saiu só aceitou sexo mais tarde, quando havia um bom grau de envolvimento afetivo e algum compromisso!

Você está sendo muito fácil ou muito difícil para mostrar interesse amoroso? Pense nisso!

segunda-feira, 6 de julho de 2009

Wendy e Peter Pan em Neverland


Wendy e Peter Pan em Neverland
Dom, 05/07/09por Paulo Nogueira |categoria Geral| tags Michael Jackson




Não vou dizer, como Gay Talese, que a mídia matou Michael Jackson. O suicídio, ou a vida destrutiva que conduz à morte, é uma escolha que cada um de nós faz. Ninguém nos obriga a uma agenda mortal. Nas mesmas circunstâncias de super estrelato de Michael Jackson, Paul McCartney se esforçou com sucesso para levar uma vida real, igual à de todos nós - exceto pelo dinheiro e pelos holofotes. Roupas normais, comportamento normal, família normal: Paul não recorreu à excentricidade como arma publicitária, como é comum nas celebridades, e entre elas Michael Jackson levou ao ápice do ápice a bizarrice como método para não deixar as manchetes. Circular obsessivamente com um chimpanzé capaz de dançar o Moonwalk foi apenas uma das coisas esquisitas que Michael Jackson sabia que virariam notícia mesmo quando nada de novo ele tivesse a apresentar na música.

Reflito aqui comigo mesmo que a busca pela excentricidade foi tamanha que Michael Jackson, em algum momento, se tornou mesmo excêntrico. Há um verso clássico de Fernando Pessoa segundo o qual “o poeta é um fingidor. Finge tão completamente que chega a fingir que é dor a dor que deveras sente”. Num certo ponto de sua trajetória, que seus admiradores saberão precisar melhor que eu, que arrisco ser o lançamento de Thriller, Michael Jackson talvez tenha começado a acreditar que era mesmo esquisito como projetava ser na busca cruel de ser notícia sempre. Essa busca é a maldição suprema, o anátema enlouquecedor do artista incomodado com os períodos de sombra. O poeta de Fernando Pessoa fingia a dor; celebridades obcecadas com a presença na mídia fingem, com freqüência, excentricidade porque excentricidade é notícia.

A mídia não matou Michael Jackson, como sustentam Talese e tantas outras pessoas. Mas a mídia cometeu o erro de acreditar na bizarrice que Michael, pelo menos no início da etapa de sua vida desconectada da realidade, fingia com o propósito de ter sempre microfones e câmaras à espreita em busca dele mesmo ou sobretudo quando não havia motivos musicais para isso. O artista foi ficando para trás na mídia e o excêntrico foi ganhando cada vez mais espaço. Foi preciso que Michael Jackson morresse aos 50 anos, sob uma comoção mundial raras vezes vista, se é que alguma, para que fosse feita uma avaliação mais acurada do tamanho de Michael Jackson como artista: o inovador, o gênio versátil que dançava como James Brown, cantava como Marvin Gaye e compunha como Stevie Wonder.

Ainda assim, quando saiu da avaliação musical para o perfil pessoal, a cobertura dada a Michael Jackson sofreu a contaminação de anos e anos da crença na bizarrice. Quando você vai escrever o obituário de alguém, faz uma pesquisa com o que foi publicado sobre o morto, e de Michael Jackson emergiu uma dose fabulosa de esquisitices que leitores do mundo todo foram obrigados a engolir em novas e antigas mídias na procura sôfrega por informações do ídolo tombado.

Eram os dados velhos. Quanto aos novos, vieram na forma de desencontros formidáveis. Nos ótimos jornais britânicos, pelos quais acompanhei em Londres o noticiário, você lia numa página que Michael Jackson estava semimorto fazia tempo e em outra que seus ensaios no Staples Center tinham uma magia ainda maior do que tudo o que ele fizera antes. Um artigo dizia que ele estava apavorado com o retorno depois de tantos anos ausente a ponto de buscar involuntariamente se livrar de tudo pela morte, e outro afirmava que ele contava os minutos pela volta aos palcos. Alguém dizia que ele perdera a voz e os passos de dançarino exímio, e outra pessoa dizia que ele estava melhor que nunca. Tudo numa só edição, no espaço de uma ou duas páginas de distância.

Não me causou espanto, assim, que o melhor artigo sobre Michael Jackson tenha sido feito não por um de nós, jornalistas, mas por um escritor, Paul Theroux. Theroux publicou, no Daily Telegraph, suas reminiscências de uma visita a Neverland e um telefonema trocado com Michael Jackson. Theroux estava escrevendo um artigo sobre Liz Taylor, grande amiga de Michael, e foi a Neverland falar com ela. Não vi nenhuma outra descrição de Neverland que se igualasse à de Theroux, nem tampouco um retrato de Jackson como ser humano tão profundo ainda que em poucas linhas. Muitas coisas em Neverland têm nomes caros ao dono, de ruas a brinquedos, mas nada foi batizado de Joseph, como se chama o pai. De Katherine, a mãe, sim.

Wendy e Peter Pan, assim é descrita a relação entre Liz Taylor e Michael Jackson. Eles se conheceram quando a atriz pediu ingressos - 14 - para uma apresentação da turnê de Thriller. Os lugares eram tão distantes que parecia que você estava vendo pela tevê, reclamou Liz Taylor, e Michael Jackson ficou embaraçado. Pediu desculpas, e assim começou uma amizade que se tornaria provavelmente a maior de todas nos 50 anos de vida de Michael. “Compartilhamos a grande tragédia do estrelato na infância”, disse Michael. Liz Taylor, inspirado em quem ele escreveu Childhood, também estourou cedo.

Depois da visita a Neverland, um dia toca o telefone de Theroux às 4 da manhã e a voz frágil lhe diz: “Aqui é Michael Jackson.” Ele diz a Theroux que ninguém sabe o que é fazer um show, com a adrenalina no máximo, e no dia seguinte estar acordado às duas da tarde. Na conversa, fala dos escritores de que gosta: Somerset Maugham de cara, e depois cita Hemingway, Whitman, Twain. Desabafa sobre o número de vampiros que cercam alguém como ele, em busca do dinheiro. Michael Jackson fica interessado e pede explicações quando Theroux faz uma citação de um evangelho apócrifo sobre uma certa infância perdida. Duas vezes ele interrompe o silêncio e diz “uau”, a primeira na citação, a segunda no final da dissertação religiosa de vinte minutos feita por Theroux.

Sobre Wendy e Peter Pan, o depoimento melhor do amor eterno entre ambos estava, uma vez mais vez, não na mídia britânica - mas no twitter. “Estava arrumando minha mala rumo a Londres, para a abertura de seu show, quando ouvi a notícia”, escreveu ela em seu twitter. “Ainda não acredito. Não quero acreditar.” Eram exatamente 10 horas da noite do dia 26 de junho. Seis minutos depois, ela escreveu: “Não posso imaginar a vida sem ele. Mas com a ajuda de Deus talvez consiga.” Às 10h08, mais uma manifestação de Liz Taylor. “Fico olhando para a foto que ele me deu dele mesmo, que diz ‘para meu amor verdadeiro Elizabeth, te amo para sempre’. E eu vou amar a ELE para sempre.”

E desde ali o twitter de Liz Taylor está em silêncio, como Michael Jackson diante das palavras de Paul Theroux numa madrugada avançada sobre uma infância perdida e suas conseqüências.

Paulo Nogueira é jornalista e está vivendo em Londres. Foi editor assistente da Veja, editor da Veja São Paulo, diretor de redação da Exame, diretor superintendente da Editora Abril e diretor editorial da Editora Globo direto para o Mensageiro da Realidade.

Ornitorrinco

Meu senhor, minha senhora, desculpa tocar no assunto, mas você vai morrer. Não se ofenda, vamos todos: eu, a Dona Eulália do 51, a rainha Silvia da Suécia e a voz da chamada a cobrar. Talvez não hoje, nem em dez anos, mas uma hora dessas bateremos as botas e batidas elas ficarão, até virarem terra, depois capim, minhoca, cachorro e daqui milhões de anos, quando o sol explodir, voltaremos à poeira cósmica de que viemos.

Eu sei que você sabe disso - sempre soube -, mas aposto que não estava pensando no assunto quando começou a ler essa crônica. Nós raramente pensamos na morte. Sabemos que ela existe em algum lugar distante, assim como, digamos, os ornitorrincos - e assim como vivemos muito bem, obrigado, sem nunca topar um ornitorrinco, nutrimos lá no fundo a esperança de, quem sabe, jamais darmos de cara com Ela.

Talvez seja melhor assim. Seria impossível viver de olho na ampulheta. O dia-a-dia transformaria-se num filme do Bergman, ficaríamos cambaleando por corredores escuros e resmungando sobre o tempo e o nada, ou quem sabe sairíamos loucos pelas ruas, pelados, saqueando supermercados, bebendo Cynar no gargalo e cantando A Jardineira; imagina só botar as crianças pra dormir ou calcular o imposto de renda no meio da confusão?

Não é por desleixo que ignoramos a morte: empenhamos muita energia nessa direção. Está vendo esses homens embriagando-se no bar? Aquela garota de sobrancelhas franzidas analisando a tabela nutricional do iogurte? O casal brigando dentro do carro? Tudo para não olharmos de frente a grande defenestradora. Tergiversamos o quanto podemos, mas não postergamos: uma hora ela chega, nós vamos.

Não, caro leitor, essa não é uma crônica edificante. Não recomendarei que viva todo dia como se fosse o último, pule de pára-quedas, faça as pazes com seu irmão. Talvez essas ações te façam bem, mas isso nada tem a ver com a morte. Ter uma vida plena só é bom enquanto estamos vivos; defuntos, Don Juan e a dondoca são iguaizinhos.

Veja só os gregos, tão sabidos: todos mortos. Shakespeare, morto! Einstein, morto! A Marilyn Monroe, Noel Rosa e o Cacique Tibiriçá, mortos, mortos, mortos! “Ah, mas eles sobreviveram em nossa memória!”. Grande coisa. Lembranças não comem picanha, não fazem sexo e, mesmo vivendo na cabeça de milhões de pessoas, nunca sentiram o prazer de um cafuné.

Paciência. O negócio é tocar pra frente. Vamos lá, hoje é domingo. Tem jogo? Churrasco? É dia de cortar as unhas dos pés? Melhor não pensar na morte e torcer para que ela também não pense na gente. Quando ela vier, que venha: antes disso, que fique lá pros lados da Austrália, junto aos ornitorrincos.

Desculpa tocar no assunto.


por Antonio Prata,Direto de O Estado de S. Paulo para o Mensageiro da Realidade.

sábado, 4 de julho de 2009

Terras do Nunca


Pobre Michael Jackson. O homem morre como todos morremos. Radicalmente só. Com o coração a despedir-se prosaicamente do corpo. O mundo, em choro e transe, não acredita. Um mito não morre assim. Porque assim morremos nós, anônimos e mortais, mergulhados na nossa própria miséria. Os mitos só morrem por acidente ou conspiração invejosa de terceiros, que não aguentam o brilho incandescente da estrela.

John Kennedy não foi abatido pelo fracassado Lee Oswald numa manhã funesta de Dallas. Kennedy foi assassinado pela CIA, pelos cubanos, pelos soviéticos, pela máfia, eventualmente pelos extraterrestres.

O mesmo para a "Princesa do Povo", Diana Spencer. Uma vítima de um motorista alcoolizado e irresponsável numa noite de Paris? Não, mil vezes não. Diana foi vítima da Família Real inglesa, que a desprezava para lá do tolerável. Para dar mais requinte ao episódio, há quem garanta que Diana estava grávida. A autópsia não confirmou. Mas quem se prende a pormenores? Eu, por mim, aposto que eram gêmeos.

E, agora, Michael Jackson: ele não morreu por excessos vários e loucuras evidentes. Foi o médico; foi a empregada; foi o Rato Mickey quem acabou com o cantor.

Deixemos as teorias da conspiração para as mentes conspiratórias. No meio do sentimentalismo vulgar, e quase religioso, com que o planeta chora a morte de Jackson, a única declaração vagamente sensata foi dita pelo próprio presidente americano. E que nos disse Obama?

Para começar, que Jackson foi um músico de talento. Difícil discordar, embora o Jackson que eu aprecio morreu no dia em que nasceu o Jackson que grande parte do mundo aprecia, ou seja, em 1979 com "Off the Wall". O single prodigioso que os Jackson Five editaram dez anos antes, "I Want You Back", é incomparável com qualquer obra posterior. Opinião pessoal. Do Michael Jackson a solo, admiro apenas o bailarino. Brinco? Não brinco. Fred Astaire também não brincava quando dizia, na década de 80, que Jackson nascera demasiado tarde. Tivesse ele vivido nos anos 30 ou 40 e teria feito as delícias de Busby Berkeley ou Vincent Minelli. Quem aprecia musicais sabe do que falo.

Mas Obama não elogiou apenas o talento. Obama foi corajoso e lamentou a figura profundamente trágica de Michael Jackson. Nos próximos anos, saberemos mais sobre essa tragédia. Mas aposto que a origem dela está num homem que, para usar as palavras de um francês célebre, alimentou uma "náusea-de-si-próprio" ao longo da vida: uma náusea da sua própria negritude e, talvez mais importante, uma náusea da sua própria humanidade, por definição mutável e perecível. Não admira que, ano após ano, ele tenha tentado golpear essa humanidade, perseguindo um ideal estético que era, aos olhos do mundo, caricatural e infantil. E, aos olhos dele, eterno e pós-humano.

Disse anteriormente, citando Fred Astaire, que Michael Jackson não viveu nas décadas de 30 e 40 para inscrever o seu nome na tradição dos grandes musicais. Mas é possível recuar mais um pouco e lamentar que Jackson não tenha nascido e vivido em finais do século 19, inícios do 20. E que não tenha conhecido uma alma gêmea como J.M. Barrie, o escritor para quem a infância era, simultaneamente, o melhor e o pior dos mundos. O melhor, pelo encantamento permanente que lemos em "Peter Pan" ou no injustamente esquecido "The Little White Bird". Mas também o pior dos mundos, porque capaz de antecipar a corrupção futura: a maturidade, o envelhecimento, a perda da inocência.

Não sei se Jackson leu Barrie. Provavelmente. Mas sei que lhe roubou o nome para o seu rancho, "Neverland", essa "Terra do Nunca" onde os rapazes não crescem. Tivesse Michael Jackson lido "Peter Pan" com atenção e saberia que, mesmo na "Terra do Nunca", os rapazes não crescem mas também morrem.