quinta-feira, 9 de julho de 2009

Recital marca 7 anos sem Patativa


Aniversário de morte foi lembrado, ontem, na margem do Açude Canoas com recitais de poesias e peças teatrais

“Conheço que estou no fim/e sei que a terra me come/mas fica vivo o meu nome/para os que gostam de mim”. O verso da Patativa do Assaré, antevendo a própria morte, confirma a admiração e a saudade dos amigos e parentes. “Sete anos depois de sua morte, o mito parece maior do que a realidade”, afirmou o professor e advogado Fábio Sales de Luna, ressaltando os valores morais e éticos de Patativa, um homem pobre que, lembrou, foi além das fronteiras do Brasil.

O aniversário de morte do poeta, que faleceu no dia 8 de julho de 2002, foi lembrado, ontem, na margem do Açude Canoas, conseguido por ele para matar a sede dos seus conterrâneos e irrigar o Vale do Cariús, uma das fontes de sua inspiração poética.

Foi um encontro de confraternização, com direito a recitais de poesias e peças teatrais, tendo como enredo os seus poemas, que reuniu filhos, netos, sobrinhos e amigos de Patativa. O violeiro Miceno Pereira, um dos últimos repentistas que cantaram com Patativa, lembrou os desafios, que vararam as madrugadas, na casa do poeta maior, enquanto o sobrinho de Patativa, Geraldo Alencar, apontado como um dos melhores poetas populares da região, mostrou que a escola “patativana” ainda funciona na região, espalhando romantismo e denunciando injustiças.

O encontro foi promovido pela Universidade Patativa do Assaré (UPA), uma Organização Não-Governamental que, segundo o seu diretor Francisco Palácio Leite, tem como objetivo dar continuidade ao trabalho educativo de Patativa, que fez de seus poemas um instrumento de educação dos sertanejos. “A poesia foi a arma que ele utilizou para denunciar as injustiças e mitigar as dores dos seus irmãos nordestinos”, disse o diretor da UPA.

Na oportunidade, a UPA entregou à família de Patativa 500 calendários, contando em versos, a vida do poeta, que serão distribuídos com os amigos. Os poemas transcritos evidenciam o amor telúrico do poeta por Assaré, sua terra natal e, principalmente, pela serra de Santana, onde nasceu.

Em meio a emoções, alegrias e tristezas, as lembranças de uma vida marcada pelo sofrimento. O filho mais novo de Patativa , Pedro Gonçalves , recorda com saudade, as viagens que ele fazia com o pai na garupa do cavalo “mimoso”, da serra de Santana para o sitio Araçá, onde Patativa pegava um “misto” (caminhão com três cabines) que transportava passageiros e mercadorias.

Pedro lembra do outro cavalo de Patativa de nome “canivete”. “O pobre do animal era tão magro que parecia um canivete”, diz Pedro Gonçalves , acrescentando, por outro lado, que apesar da pobreza, Patativa que, na época, era chamado de “Senhorzinho” nunca reclamou das amarguras da vida.

Pedro Gonçalves recorda que a base alimentar da família era feijão e milho. Arroz era difícil. Carne, só nas quatro festas do ano, quando ele abatia um porco criado no chiqueiro. “Hoje, Patativa está recebendo as homenagens que merece”, diz a estudante de Comunicação Social da Universidade de Fortaleza Marília Pedrosa.

Do jornal Diário do Nordeste direto para o Mensageiro da Realidade.

quarta-feira, 8 de julho de 2009

Grunge, o movimento que dominou os 90's

Mais ou menos de dez em dez anos algum movimento musical se expande além dos limites sonoros, conquistando os mundos da moda e cinema, além de ditar o comportamento de milhões de jovens pelo mundo afora - foi assim com o beat nos anos 60, o punk nos 70, new wave nos 80. No início dos anos 90 chegou a vez do Grunge, movimento liderado por grupos como Soundgarden, Alice in Chains, Nirvana e Pearl Jam. O que eles tinham em comum? Todos vinham de uma fria e chuvosa cidade portuária dos EUA, movida a café e rock n'roll: Seattle.
Seattle sempre produziu grandes astros do rock. De lá saíram o lendário guitarrista Jimi Hendrix e o grupo Heart, do megahit "Barracuda", só para citar dois nomes. Mas foi só no fim dos anos 80 que a cidade produziu uma "cena", um movimento, com diversos grupos, chamou a atenção do mundo todo, vendendo dezenas de milhões de discos.
Bizarramente, muitos desses músicos tinham influências ecléticas, que iam de Bad Brains a Iron Maiden. Por isso é comum ler que a "cena de Seattle" e seu som, o Grunge Rock, é o "encontro do punk com o heavy metal".
Em questão de meses grupos "sujos" substituíam os roqueiros glam, com seu cabelo armado e roupas cintilantes, que dominaram os anos 80 (vide Poison, Warrant, Duran Duran e outros).


A origem do termo Grunge (variação de "grungy", sujo) é outro ponto muito discutido. Mark Arm, vocalista do Mudhoney, afirmou diversas vezes que pode ter sido o inventor da definição, pois a utilizou em um texto para um fanzine. Boa história para se ter no currículo, mas o crítico de rock Lester Bangs já usava o termo, nos anos 70.
E boas histórias não faltaram para essa época. Em 1992, o jornal "New York Times" resolveu pegar carona na nova moda. A intenção era publicar um dicionário que decifrasse o vocabulário peculiar daquele grupo de músicos. É claro que não havia uma linguagem paralela para o Grunge, mas uma funcionária da gravadora Sub Pop resolveu pregar uma peça no jornalista "traduzindo" o "grungês". O resultado - que incluía uma hilária definição de botas: chutadores - ficou conhecido como "The Great Grunge Hoax" (a grande armação grunge).



Com a popularização o movimento de Seattle pôde ser notado em todos os cantos. "Singles - Vida de Solteiro" (de Cameron Crowe, 1992) retratava, de forma romanceada, a vida e música de Seattle. Mais tarde veio o documentário definitivo, "Hype!" (de Doug Pray, lançado em 1996), que detalha cada aspecto da revolução que foi o Grunge. Sem contar a "moda grunge": calças rasgadas, botas estilo coturno e a infame camisa de flanela quadriculada, estilo lenhador (que se espalhou rapidamente até por países quentes, como o Brasil, onde era usada aberta, para refrescar um pouco mais [?]).
A influência musical do som de Seattle seguiu além dos anos 90. Grupos como Creed, Stone Temple Pilots e Silverchair se apoiaram nessa sonoridade agora já consagrada para subir nas paradas de sucesso.



Seattle, onde tudo começõu: No final dos anos 80 e início dos anos 90, Seattle, no estado de Washington, EUA, ficou conhecida como a cidade de origem de um dos mais importantes movimentos musicais da década, o grunge.
Muitos dos músicos envolvidos no "furacão" que passou pela cidade dizem que o tédio foi um dos fatores que levaram ao desenvolvimento das dezenas de bandas que de lá saíram. Mas Seattle é uma cidade comum, tipicamente americana - abriga a sede da Microsoft e o time de basquete Seattle Supersonics - mas continua com uma cena musical de fazer babar qualquer interessado por rock.
Claro que o fenômeno popularizado por grupos como Nirvana, Pearl Jam, Soundgarden e outros não passou despercebido pelos olhos das grandes corporações. Pensando nos milhares de turistas que vão a Seattle em busca de música, o co-fundador da Microsoft, Paul Allen, idealizou o Experience Music Project, um museu interativo sobre música.



Além de exposições permanentes (com salas dedicadas a Jimi Hendrix e ao "movimento grunge"), o local abriga shows de rock (em um espaço chamado Sky Church) e espaços interativos - onde computadores ensinam os visitantes a tocar guitarra, bateria, teclado, cantar e mixar músicas.
Em outro simulador, a pessoa pode ter a sensação de subir ao palco, em frente a centenas de fãs - uma experiência interessante, mas extremamente constrangedora.
O EMP abriga uma exposição permanente dedicada à vida do guitarrista Jimi Hendrix, o mais famoso músico a sair de Seattle (ou seria Kurt Cobain?).
Entre fotos, objetos pessoais e vídeos, uma peça que gera cobiça entre os colecionadores: uma guitarra Fender
Stratocaster, destruída por Hendrix durante um show, no dia 4 de junho de 1967, em Londres.

Por meio de um aparelho eletrônico, a história da vida do guitarrista é contada - e o visitante pode ver fotos e objetos relacionados a cada período.
Claro que o underground ainda respira forte em Seattle. Clubes como o Crocodile Cafe, Showbox, Sit N Spin abrigam semanalmente o melhor da música mundial - de Fatboy Slim a Strokes.
E as novas bandas da gravadora Sub Pop, que lançou praticamente todos os álbuns clássicos do grunge e pré-grunge, são figurinhas fáceis nos palcos da cidade.
"Há muitas pequenas bandas punk legais por aqui agora", diz Steve Turner, guitarrista do Mudhoney. Black Halos (que a gravadora Trama pode lançar por aqui em breve), Damon and Naomi (dois terços do Galaxie 500), Murder City Devils e Nebula, só para citar alguns, costumam tocar nesses estabelecimentos, que geralmente cobram um preço camarada na entrada (principalmente porque são bares, não casas de show).
Isso sem contar, claro, os veteranos que ainda aquecem a cena. Pequenos festivais reunindo Mudhoney, Fastbacks e outros são bem comuns na região.
Para quem faz o tipo "preciso ver tudo", Seattle abriga alguns pontos de visitação obrigatória. Diversos locais foram utilizados nas filmagens de "Singles - Vida de Solteiro", de Cameron Crowe, deliciosa e inofensiva comédia romântica que se passa em Seattle, no auge do grunge.
Soundgarden e Alice in Chains aparecem tocando nesse filme, e membros do Pearl Jam atuaram como coadjuvantes (eram da banda do personagem de Matt Dillon, a Citizen Dick, que tinha o "clássico" "Touch me I'm dick"). O site "Five Horizons", organizado por fãs do Pearl Jam, tem um ótimo guia, em inglês, com as principais referências grunge de Seattle.
Se o seu interesse é o Nirvana, não há muito o que fazer. A casa onde Kurt Cobain se matou foi vendida pela viúva Courtney Love (o anexo "Green House", onde o corpo foi encontrado, foi demolido) e não é muito simpático incomodar os novos moradores. Também não há um túmulo, já que o artista foi cremado. Resta torcer para cruzar com o baixista Krist Novoselic pelas ruas, o que não é impossível. Mas se prepare para o choque: ele está totalmente careca!
Pouco depois do fim do Nirvana, Novoselic fundou o Jampac (Comitê de artistas unidos, promoções musicais e ação política), organização sem fins lucrativos que defende a liberdade de expressão para os músicos e direito de escolha para os consumidores de música.
Entre os membros da comissão que lidera o grupo, estão Stone Gossard (do Pearl Jam), Dave Dederer (Presidents of the United States of America) e Art Alexakis (Everclear).
O Jampac atua fazendo lobby em casos que consideram importantes. Entre eles, a liberação do uso da maconha em tratamentos medicinais e a entrada livre de menores de 21 anos em shows de rock.
"Minha experiência foi a de confrontar o cinismo e a hostilidade, e meu desafio é o de defender nosso lento processo democrático, na época rápida e digital", disse Novoselic em um de seus discursos.
Mas o melhor de Seattle está em seus habitantes. No geral, quem mora lá tem pelo menos uma característica em comum com as pessoas de outro berço do rock, Liverpool, na Inglaterra: a simpatia. Afinal, em que outros locais do mundo você pode ver as pessoas sorrindo enquanto andam em um frio intenso, debaixo de chuva?

Esperar convite, insinuar ou convidar?

Por que, nos inícios dos relacionamentos amorosos, tememos revelar a nossa atração pelo parceiro e os programas que queremos fazer com ele? Muitas vezes tudo o que fazemos quando ficamos encantados com alguém é torcer para que ele tome este tipo de iniciativa e ficar “subindo pelas paredes” enquanto isso não acontece. Existem três tipos principais de causas para este tipo de inibição: (1) temer ser rejeitado (por exemplo, ter medo de que o parceiro rejeite um convite porque não está interessado amorosamente em quem o apresenta), (2) temer incomodar (por exemplo, ter medo de telefonar para o parceiro e ele atender de má vontade ou só dar alguma atenção por polidez) e (3) temer perder a importância (por exemplo, ter medo de piorar a imagem que o parceiro tinha devido à manifestação de interesse). Este tipo de temor é captado por expressões populares depreciativas do tipo: “Correr atrás”, “Entregar-se de bandeja”, “Dar uma de oferecido”.

Uma pesquisa publicada na década de 1980, realizada por Charlene Muehlenhard e Richard Macfall, dois pesquisadores americanos, dá uma idéia das dimensões da inibição para revelar o interesse pelo parceiro no início de um relacionamento amoroso. Estes pesquisadores perguntaram para 431 homens e 148 mulheres de um curso introdutório de psicologia (idade média de 19 anos) o que uma mulher interessada em sair com um rapaz deveria fazer caso ele não tomasse a iniciativa de convidá-la para isso. Estes pesquisadores ofereceram três alternativas de resposta para os participantes: esperar o convite, insinuar e convidar. As percentagens de escolhas, apresentadas pelos participantes, para cada uma destas três alternativas foram as seguintes:
o Respostas das mulheres: esperar que ele tome a iniciativa: 34,7%; insinuar: 69,2% e convidar: 2,7%
o Respostas dos homens: esperar que ele tome a iniciativa: 4,3%; insinuar: 62,7 e convidar: 26,5%.

Estes resultados mostram que os homens gostariam que as mulheres fossem mais explícitas e ativas nas manifestações dos seus interesses amorosos. No entanto, um estudo que realizei indicou que quando uma mulher é mais explícita do que o usual quem recebe a iniciativa geralmente pensa que ela é fácil para sexo e encaminha o relacionamento para esta finalidade.

As vantagens de ser eficaz e indireto
Admiro as pessoas que são eficazes para manifestar seus interesses amorosos sem ser explícitas demais. Esta forma de agir deixa espaço para que ambos os parceiros manifestem sutilmente o que querem do outro sem criar uma situação desagradável em que um deles expõe claramente o que se passa com ele e o outro fica pressionado a se declarar também. Esta forma explícita de agir pode deixar marcas difíceis de serem apagadas quando acontece uma rejeição.

Dois pesos e duas medidas
O que complica ainda mais esta questão das revelações do interesse amoroso é que a avaliação do quanto está sendo revelado é bastante subjetiva. Por exemplo: as pessoas que temem a revelação geralmente apresentam uma distorção da percepção do quanto estão revelando. Uma pesquisa que realizei mostrou isto claramente: os tímidos geralmente superestimam aquilo que estão revelando e subestimam as revelações que estão recebendo dos seus possíveis parceiros amorosos. Pedi, nesta pesquisa, para dois grupos equivalentes de tímidos avaliarem quinze tipos de convites. A tarefa era estimar quanto cada um destes convites podia ser interpretado como manifestação de amizade ou como interesse amoroso. Os tímidos de um dos dois grupos deveriam imaginar que estavam apresentando os convite e os tímidos do outro grupo, que estavam recendo os convites de uma pessoa pela qual sentiam muito interesse amoroso. Eles deveriam utilizar uma escala, como a do exemplo abaixo, para avaliar quanto cada convite era amistoso ou amoroso:

O resultado mais interessante desta pesquisa é a constatação de que os tímidos percebem um grau muito maior de revelação de interesse amoroso quando apresentam os convites do que quando os recebem. Por exemplo, quando imaginavam que estavam recebendo um convite para tomar um café durante o intervalo de uma aula, acreditavam que este era um convite quase que totalmente amistoso. Quando eles imaginam que estavam apresentando o mesmo convite, acreditavam que estavam mostrando um alto grau de interesse amoroso. (Se você é tímido pense nisso: você pode estar mostrando muito menos interesse amoroso do que imagina que está!)

O que é moderadamente difícil é mais valorizado
Quase todo mundo já assistiu um daqueles filmes americanos que mostram que as moças daquele país evitam aceitar um convite de última hora para sair com um pretendente. Por exemplo, uma mulher prefere recusar um convite para sair no mesmo dia, mesmo quando desejaria muito sair com quem a está convidando. Este tipo de convite é interpretado como uma espécie de “tapa buraco” ou “quebra galhos”, que é apresentado por aqueles que ficaram sem programa na última hora. Quem aceita este tipo de convite passa um atestado de que está disponível, de que não tem outro programa, de que está “jogada às traças”, que “está à gritos” e que é muito mal cotada no mercado amoroso.

Tudo o que é difícil demais é interpretado como rejeição
Na outra ponta da facilidade extrema está a dificuldade extrema. Na área amorosa um grau muito grande de dificuldade para obter sinais de interesse por parte do parceiro é vista como rejeição. Isto acontece, por exemplo, quando o outro já recusou vários convites para sair. Mesmo quando ele apresenta desculpas para as suas recusas, mas elas não são muito convincentes, isto indica que ele não quer um relacionamento amoroso com quem o está convidando. Quem realmente gostaria de aceitar um convite, mas tem motivos sérios que o obrigam a recusá-lo e não quer passar a mensagem de rejeição, deve mencionar o motivo explícito da recusa e apresentar uma contra-proposta. Por exemplo, deve dizer algo do tipo “Hoje não posso sair porque vou viajar para o Rio para visitar um cliente. Que tal na sexta feira?”

Motivos reais para “não parecer fácil”
Existem evidências de que o medo de revelar muito interesse no início de um relacionamento amoroso não é descabido. Por exemplo, a teoria do apaixonamento de Stendhal afirma que no início de um relacionamento amoroso uma certa dose de insegurança sobre o interesse do parceiro funcional como uma espécie de “catalisador do amor” para quem está inseguro ajuda a provocar o apaixonamento. Outro exemplo: uma pesquisa indicou que as pessoas valorizam mais os parceiros quando têm que lutar um pouco por eles. Neste estudo uma pessoa foi instruída a apresentar para os seus pretendentes todas as combinações possíveis entre ser fácil e ser difícil em dois momentos: no início e depois de algum tempo de relacionamento. Aqueles parceiros que se relacionaram com esta pessoa a valorizavam mais quando ela mostrava uma certa dificuldade no início e depois ficava mais fácil, em comparação às ocasiões em que ela se mostrava sempre fácil, quando se mostrava fácil no início e depois difícil e quando se mostrava sempre difícil.
Este estudo mostrou também que as pessoas que são seletivamente fáceis (“Só é fácil para mim”) também são valorizadas. Por exemplo: o sexo no primeiro encontro é valioso quando representa uma exceção: anteriormente a pessoa com quem você saiu só aceitou sexo mais tarde, quando havia um bom grau de envolvimento afetivo e algum compromisso!

Você está sendo muito fácil ou muito difícil para mostrar interesse amoroso? Pense nisso!

segunda-feira, 6 de julho de 2009

Wendy e Peter Pan em Neverland


Wendy e Peter Pan em Neverland
Dom, 05/07/09por Paulo Nogueira |categoria Geral| tags Michael Jackson




Não vou dizer, como Gay Talese, que a mídia matou Michael Jackson. O suicídio, ou a vida destrutiva que conduz à morte, é uma escolha que cada um de nós faz. Ninguém nos obriga a uma agenda mortal. Nas mesmas circunstâncias de super estrelato de Michael Jackson, Paul McCartney se esforçou com sucesso para levar uma vida real, igual à de todos nós - exceto pelo dinheiro e pelos holofotes. Roupas normais, comportamento normal, família normal: Paul não recorreu à excentricidade como arma publicitária, como é comum nas celebridades, e entre elas Michael Jackson levou ao ápice do ápice a bizarrice como método para não deixar as manchetes. Circular obsessivamente com um chimpanzé capaz de dançar o Moonwalk foi apenas uma das coisas esquisitas que Michael Jackson sabia que virariam notícia mesmo quando nada de novo ele tivesse a apresentar na música.

Reflito aqui comigo mesmo que a busca pela excentricidade foi tamanha que Michael Jackson, em algum momento, se tornou mesmo excêntrico. Há um verso clássico de Fernando Pessoa segundo o qual “o poeta é um fingidor. Finge tão completamente que chega a fingir que é dor a dor que deveras sente”. Num certo ponto de sua trajetória, que seus admiradores saberão precisar melhor que eu, que arrisco ser o lançamento de Thriller, Michael Jackson talvez tenha começado a acreditar que era mesmo esquisito como projetava ser na busca cruel de ser notícia sempre. Essa busca é a maldição suprema, o anátema enlouquecedor do artista incomodado com os períodos de sombra. O poeta de Fernando Pessoa fingia a dor; celebridades obcecadas com a presença na mídia fingem, com freqüência, excentricidade porque excentricidade é notícia.

A mídia não matou Michael Jackson, como sustentam Talese e tantas outras pessoas. Mas a mídia cometeu o erro de acreditar na bizarrice que Michael, pelo menos no início da etapa de sua vida desconectada da realidade, fingia com o propósito de ter sempre microfones e câmaras à espreita em busca dele mesmo ou sobretudo quando não havia motivos musicais para isso. O artista foi ficando para trás na mídia e o excêntrico foi ganhando cada vez mais espaço. Foi preciso que Michael Jackson morresse aos 50 anos, sob uma comoção mundial raras vezes vista, se é que alguma, para que fosse feita uma avaliação mais acurada do tamanho de Michael Jackson como artista: o inovador, o gênio versátil que dançava como James Brown, cantava como Marvin Gaye e compunha como Stevie Wonder.

Ainda assim, quando saiu da avaliação musical para o perfil pessoal, a cobertura dada a Michael Jackson sofreu a contaminação de anos e anos da crença na bizarrice. Quando você vai escrever o obituário de alguém, faz uma pesquisa com o que foi publicado sobre o morto, e de Michael Jackson emergiu uma dose fabulosa de esquisitices que leitores do mundo todo foram obrigados a engolir em novas e antigas mídias na procura sôfrega por informações do ídolo tombado.

Eram os dados velhos. Quanto aos novos, vieram na forma de desencontros formidáveis. Nos ótimos jornais britânicos, pelos quais acompanhei em Londres o noticiário, você lia numa página que Michael Jackson estava semimorto fazia tempo e em outra que seus ensaios no Staples Center tinham uma magia ainda maior do que tudo o que ele fizera antes. Um artigo dizia que ele estava apavorado com o retorno depois de tantos anos ausente a ponto de buscar involuntariamente se livrar de tudo pela morte, e outro afirmava que ele contava os minutos pela volta aos palcos. Alguém dizia que ele perdera a voz e os passos de dançarino exímio, e outra pessoa dizia que ele estava melhor que nunca. Tudo numa só edição, no espaço de uma ou duas páginas de distância.

Não me causou espanto, assim, que o melhor artigo sobre Michael Jackson tenha sido feito não por um de nós, jornalistas, mas por um escritor, Paul Theroux. Theroux publicou, no Daily Telegraph, suas reminiscências de uma visita a Neverland e um telefonema trocado com Michael Jackson. Theroux estava escrevendo um artigo sobre Liz Taylor, grande amiga de Michael, e foi a Neverland falar com ela. Não vi nenhuma outra descrição de Neverland que se igualasse à de Theroux, nem tampouco um retrato de Jackson como ser humano tão profundo ainda que em poucas linhas. Muitas coisas em Neverland têm nomes caros ao dono, de ruas a brinquedos, mas nada foi batizado de Joseph, como se chama o pai. De Katherine, a mãe, sim.

Wendy e Peter Pan, assim é descrita a relação entre Liz Taylor e Michael Jackson. Eles se conheceram quando a atriz pediu ingressos - 14 - para uma apresentação da turnê de Thriller. Os lugares eram tão distantes que parecia que você estava vendo pela tevê, reclamou Liz Taylor, e Michael Jackson ficou embaraçado. Pediu desculpas, e assim começou uma amizade que se tornaria provavelmente a maior de todas nos 50 anos de vida de Michael. “Compartilhamos a grande tragédia do estrelato na infância”, disse Michael. Liz Taylor, inspirado em quem ele escreveu Childhood, também estourou cedo.

Depois da visita a Neverland, um dia toca o telefone de Theroux às 4 da manhã e a voz frágil lhe diz: “Aqui é Michael Jackson.” Ele diz a Theroux que ninguém sabe o que é fazer um show, com a adrenalina no máximo, e no dia seguinte estar acordado às duas da tarde. Na conversa, fala dos escritores de que gosta: Somerset Maugham de cara, e depois cita Hemingway, Whitman, Twain. Desabafa sobre o número de vampiros que cercam alguém como ele, em busca do dinheiro. Michael Jackson fica interessado e pede explicações quando Theroux faz uma citação de um evangelho apócrifo sobre uma certa infância perdida. Duas vezes ele interrompe o silêncio e diz “uau”, a primeira na citação, a segunda no final da dissertação religiosa de vinte minutos feita por Theroux.

Sobre Wendy e Peter Pan, o depoimento melhor do amor eterno entre ambos estava, uma vez mais vez, não na mídia britânica - mas no twitter. “Estava arrumando minha mala rumo a Londres, para a abertura de seu show, quando ouvi a notícia”, escreveu ela em seu twitter. “Ainda não acredito. Não quero acreditar.” Eram exatamente 10 horas da noite do dia 26 de junho. Seis minutos depois, ela escreveu: “Não posso imaginar a vida sem ele. Mas com a ajuda de Deus talvez consiga.” Às 10h08, mais uma manifestação de Liz Taylor. “Fico olhando para a foto que ele me deu dele mesmo, que diz ‘para meu amor verdadeiro Elizabeth, te amo para sempre’. E eu vou amar a ELE para sempre.”

E desde ali o twitter de Liz Taylor está em silêncio, como Michael Jackson diante das palavras de Paul Theroux numa madrugada avançada sobre uma infância perdida e suas conseqüências.

Paulo Nogueira é jornalista e está vivendo em Londres. Foi editor assistente da Veja, editor da Veja São Paulo, diretor de redação da Exame, diretor superintendente da Editora Abril e diretor editorial da Editora Globo direto para o Mensageiro da Realidade.

Ornitorrinco

Meu senhor, minha senhora, desculpa tocar no assunto, mas você vai morrer. Não se ofenda, vamos todos: eu, a Dona Eulália do 51, a rainha Silvia da Suécia e a voz da chamada a cobrar. Talvez não hoje, nem em dez anos, mas uma hora dessas bateremos as botas e batidas elas ficarão, até virarem terra, depois capim, minhoca, cachorro e daqui milhões de anos, quando o sol explodir, voltaremos à poeira cósmica de que viemos.

Eu sei que você sabe disso - sempre soube -, mas aposto que não estava pensando no assunto quando começou a ler essa crônica. Nós raramente pensamos na morte. Sabemos que ela existe em algum lugar distante, assim como, digamos, os ornitorrincos - e assim como vivemos muito bem, obrigado, sem nunca topar um ornitorrinco, nutrimos lá no fundo a esperança de, quem sabe, jamais darmos de cara com Ela.

Talvez seja melhor assim. Seria impossível viver de olho na ampulheta. O dia-a-dia transformaria-se num filme do Bergman, ficaríamos cambaleando por corredores escuros e resmungando sobre o tempo e o nada, ou quem sabe sairíamos loucos pelas ruas, pelados, saqueando supermercados, bebendo Cynar no gargalo e cantando A Jardineira; imagina só botar as crianças pra dormir ou calcular o imposto de renda no meio da confusão?

Não é por desleixo que ignoramos a morte: empenhamos muita energia nessa direção. Está vendo esses homens embriagando-se no bar? Aquela garota de sobrancelhas franzidas analisando a tabela nutricional do iogurte? O casal brigando dentro do carro? Tudo para não olharmos de frente a grande defenestradora. Tergiversamos o quanto podemos, mas não postergamos: uma hora ela chega, nós vamos.

Não, caro leitor, essa não é uma crônica edificante. Não recomendarei que viva todo dia como se fosse o último, pule de pára-quedas, faça as pazes com seu irmão. Talvez essas ações te façam bem, mas isso nada tem a ver com a morte. Ter uma vida plena só é bom enquanto estamos vivos; defuntos, Don Juan e a dondoca são iguaizinhos.

Veja só os gregos, tão sabidos: todos mortos. Shakespeare, morto! Einstein, morto! A Marilyn Monroe, Noel Rosa e o Cacique Tibiriçá, mortos, mortos, mortos! “Ah, mas eles sobreviveram em nossa memória!”. Grande coisa. Lembranças não comem picanha, não fazem sexo e, mesmo vivendo na cabeça de milhões de pessoas, nunca sentiram o prazer de um cafuné.

Paciência. O negócio é tocar pra frente. Vamos lá, hoje é domingo. Tem jogo? Churrasco? É dia de cortar as unhas dos pés? Melhor não pensar na morte e torcer para que ela também não pense na gente. Quando ela vier, que venha: antes disso, que fique lá pros lados da Austrália, junto aos ornitorrincos.

Desculpa tocar no assunto.


por Antonio Prata,Direto de O Estado de S. Paulo para o Mensageiro da Realidade.

sábado, 4 de julho de 2009

Terras do Nunca


Pobre Michael Jackson. O homem morre como todos morremos. Radicalmente só. Com o coração a despedir-se prosaicamente do corpo. O mundo, em choro e transe, não acredita. Um mito não morre assim. Porque assim morremos nós, anônimos e mortais, mergulhados na nossa própria miséria. Os mitos só morrem por acidente ou conspiração invejosa de terceiros, que não aguentam o brilho incandescente da estrela.

John Kennedy não foi abatido pelo fracassado Lee Oswald numa manhã funesta de Dallas. Kennedy foi assassinado pela CIA, pelos cubanos, pelos soviéticos, pela máfia, eventualmente pelos extraterrestres.

O mesmo para a "Princesa do Povo", Diana Spencer. Uma vítima de um motorista alcoolizado e irresponsável numa noite de Paris? Não, mil vezes não. Diana foi vítima da Família Real inglesa, que a desprezava para lá do tolerável. Para dar mais requinte ao episódio, há quem garanta que Diana estava grávida. A autópsia não confirmou. Mas quem se prende a pormenores? Eu, por mim, aposto que eram gêmeos.

E, agora, Michael Jackson: ele não morreu por excessos vários e loucuras evidentes. Foi o médico; foi a empregada; foi o Rato Mickey quem acabou com o cantor.

Deixemos as teorias da conspiração para as mentes conspiratórias. No meio do sentimentalismo vulgar, e quase religioso, com que o planeta chora a morte de Jackson, a única declaração vagamente sensata foi dita pelo próprio presidente americano. E que nos disse Obama?

Para começar, que Jackson foi um músico de talento. Difícil discordar, embora o Jackson que eu aprecio morreu no dia em que nasceu o Jackson que grande parte do mundo aprecia, ou seja, em 1979 com "Off the Wall". O single prodigioso que os Jackson Five editaram dez anos antes, "I Want You Back", é incomparável com qualquer obra posterior. Opinião pessoal. Do Michael Jackson a solo, admiro apenas o bailarino. Brinco? Não brinco. Fred Astaire também não brincava quando dizia, na década de 80, que Jackson nascera demasiado tarde. Tivesse ele vivido nos anos 30 ou 40 e teria feito as delícias de Busby Berkeley ou Vincent Minelli. Quem aprecia musicais sabe do que falo.

Mas Obama não elogiou apenas o talento. Obama foi corajoso e lamentou a figura profundamente trágica de Michael Jackson. Nos próximos anos, saberemos mais sobre essa tragédia. Mas aposto que a origem dela está num homem que, para usar as palavras de um francês célebre, alimentou uma "náusea-de-si-próprio" ao longo da vida: uma náusea da sua própria negritude e, talvez mais importante, uma náusea da sua própria humanidade, por definição mutável e perecível. Não admira que, ano após ano, ele tenha tentado golpear essa humanidade, perseguindo um ideal estético que era, aos olhos do mundo, caricatural e infantil. E, aos olhos dele, eterno e pós-humano.

Disse anteriormente, citando Fred Astaire, que Michael Jackson não viveu nas décadas de 30 e 40 para inscrever o seu nome na tradição dos grandes musicais. Mas é possível recuar mais um pouco e lamentar que Jackson não tenha nascido e vivido em finais do século 19, inícios do 20. E que não tenha conhecido uma alma gêmea como J.M. Barrie, o escritor para quem a infância era, simultaneamente, o melhor e o pior dos mundos. O melhor, pelo encantamento permanente que lemos em "Peter Pan" ou no injustamente esquecido "The Little White Bird". Mas também o pior dos mundos, porque capaz de antecipar a corrupção futura: a maturidade, o envelhecimento, a perda da inocência.

Não sei se Jackson leu Barrie. Provavelmente. Mas sei que lhe roubou o nome para o seu rancho, "Neverland", essa "Terra do Nunca" onde os rapazes não crescem. Tivesse Michael Jackson lido "Peter Pan" com atenção e saberia que, mesmo na "Terra do Nunca", os rapazes não crescem mas também morrem.

POETA SINGULAR



Poeta brasileiro. Famoso pela originalidade temática e vocabular, na fase que antecedeu o modernismo. Eu (1912).

Augusto dos Anjos recorreu a uma infinidade de termos científicos, biológicos e médicos ao escrever seus versos de excelente fatura, nos quais expressa por princípio um pessimismo atroz.

Considerado o mais original dos poetas brasileiros entre Cruz e Sousa e os modernistas, Augusto de Carvalho Rodrigues dos Anjos nasceu no Engenho Pau d'Arco PB em 20 de abril de 1884. Aprendeu com o pai, bacharel, as primeiras letras. Fez o curso secundário no Liceu Paraibano, já sendo dado como doentio e nervoso por testemunhos da época. Formado em direito em Recife (1906), casou-se logo depois. Contudo, não advogou; vivia de ensinar português, primeiro em seu estado e a seguir no Rio de Janeiro RJ, para onde se mudou em 1910. Lecionou também geografia na Escola Normal, depois Instituto de Educação, e no Ginásio Nacional, depois Colégio Pedro II, sem conseguir ser efetivado como professor.

Em fins de 1913 mudou-se para Leopoldina MG, onde assumiu a direção do grupo escolar e continuou a dar aulas particulares. Seu único livro, Eu, foi publicado em 1912. Surgido em momento de transição, pouco antes da virada modernista de 1922, é bem representativo do espírito sincrético que prevalecia na época, parnasianismo por alguns aspectos e simbolista por outros. Praticamente ignorado a princípio, quer pelo público, quer pela crítica, esse livro que canta a degenerescência da carne e os limites do humano só alcançou novas edições graças ao empenho de Órris Soares (1884-1964), amigo e biógrafo do autor.

Cético em relação às possibilidades do amor ("Não sou capaz de amar mulher alguma, / Nem há mulher talvez capaz de amar-me), Augusto dos Anjos fez da obsessão com o próprio "eu" o centro do seu pensamento. Não raro, o amor se converte em ódio, as coisas despertam nojo e tudo é egoísmo e angústia em seu livro patético ("Ai! Um urubu pousou na minha sorte").

A vida e suas facetas, para o poeta que aspira à morte e à anulação de sua pessoa, reduzem-se a combinações de elementos químicos, forças obscuras, fatalidades de leis físicas e biológicas, decomposições de moléculas. Tal materialismo, longe de aplacar sua angústia, sedimentou-lhe o amargo pessimismo ("Tome, doutor, essa tesoura e corte / Minha singularíssima pessoa"). Ao asco de volúpia e à inapetência para o prazer contrapõe-se porém um veemente desejo de conhecer outros mundos, outras plagas, onde a força dos instintos não cerceie os vôos da alma ("Quero, arrancado das prisões carnais, / Viver na luz dos astros imortais").

A métrica rígida, a cadência musical, as aliterações e rimas preciosas dos versos fundiram-se ao esdrúxulo vocabulário extraído da área científica para fazer do Eu -- desde 1919 constantemente reeditado como Eu e outras poesias -- um livro que sobrevive, antes de tudo, pelo rigor da forma.

Com o tempo, Augusto dos Anjos tornou-se um dos poetas mais lidos do país, sobrevivendo às mutações da cultura e a seus diversos modismos como um fenômeno incomum de aceitação popular. Vitimado pela pneumonia aos trinta anos de idade, morreu em Leopoldina em 12 de novembro de 1914.

sexta-feira, 3 de julho de 2009

Jackson:58-09

A morte do cantor, compositor e dançarino Michael Jackson, aos 50 anos, causou uma comoção mundial só reservada antes a outros dois ídolos da música popular: Elvis Presley (1935-1977) e John Lennon (1940-1980). A reação dos fãs canoniza o “rei do pop” – que não constituiu um título oficial, mas o apelido que sua amiga, a atriz Elizabeth Taylor, lhe deu em 1989 na entrega de um entre as centenas de prêmios que ele recebeu em sua carreira. Não poderia haver apelido mais adequado. Assim como Presley ganhou o título de “rei do rock” e Lennon se consagrou como o poeta da rebeldia global dos anos 60, Michael Jackson foi o líder revolucionário da música pop, o fundador da era do videoclipe, o defensor de causas sociais e o maior vendedor de discos de todos os tempos. A exemplo de Elvis e Lennon, Michael experimentou a glória e a tragédia e deixou atrás de si um rastro de enigmas e azares. Foi vítima do sensacionalismo da imprensa de celebridades e enfrentou batalhas jurídicas polêmicas, como as acusações de assédio sexual a menores – das quais foi absolvido.

Carisma, mistério, decadência e morte são as marcas dos ícones da cultura pop. Michael Jackson reuniu todos esses elementos. Subiu mais alto que todos, foi o artista mais popular do planeta e amargou uma longa derrocada artística que durou 20 anos e o levou praticamente à falência financeira – um traço distintivo em relação a seus dois antecessores no reinado pop, que morreram milionários. Michael passou de anjo a monstro, mas a história deverá lhe dar o status de gênio, um artista conturbado e sincero cujas confissões nunca foram levadas a sério.


O SORRISO DO ARTISTA
Michael Jackson no intervalo de um ensaio, em 1984. Ele estava no auge da carreira, logo depois de inventar o moonwalk, passo de dança que o celebrizou Por isso mesmo, quando os twitters e sites de fofocas anunciaram sua morte, furando os jornais, tudo aquilo pareceu mais um boato entre os muitos que envolveram Michael. Desta vez era verdade, e a notícia levou a um choque de proporções mundiais. A morte de Michael Jackson foi confirmada oficialmente na tarde da quinta-feira 25, no Centro Médico da Universidade da Califórnia em Los Angeles (UCLA), aonde chegou em coma depois de uma parada cardíaca sofrida em uma mansão alugada no bairro de Bel Air. Imediatamente, multidões saí­ram espontaneamente às ruas no mundo inteiro para reverenciar o ídolo máximo do pop. De Mumbai a Nova York, de São Paulo a Londres, as pessoas se reuniram para fazer homenagens e cantar juntas os sucessos do ídolo. Enquanto a autópsia do corpo não era realizada, proliferaram as especulações. Ele estaria estafado com o ritmo de exercícios físicos para recuperar a forma, e isso teria provocado um infarto. Cogitou-se também suicídio por barbitúricos. O advogado Brian Oxman, da família Jackson, afirmou que Michael estava muito tenso ultimamente e que usava remédios com receita médica para aliviar a ansiedade, a dor e o esgotamento nervoso. Na sexta-feira, as primeiras investigações sobre a morte levantavam a hipótese de que ele tenha recebido uma injeção de Demerol (medicamento à base de morfina, contra a dor) ministrada pelo médico da casa, Conrad Robert Murray, no final da manhã, duas horas antes de morrer.

A tensão que Michael vivia nos últimos tempos foi motivada pela insegurança em relação a seu retorno aos palcos, com a turnê This is it, que estava marcada para estrear em 13 de julho na O2 Arena, em Londres. A temporada estava pré-consagrada, com 800 mil ingressos vendidos para 50 shows programados até março do ano que vem. O plano de Michael, conforme declarou na entrevista coletiva que concedeu na Inglaterra em janeiro, era percorrer outras cidades do mundo. Os sites de fofoca de Hollywood, como o TMZ, informam que o artista tinha uma dívida de US$ 320 milhões. A turnê o ajudaria a saldá-la, pois lhe renderia só na Inglaterra US$ 400 milhões. Ele tinha consciência de que sua carreira não poderia continuar depois.

“Esta será a minha cortina final”, disse, diante de 7 mil fãs. “Depois disso, nada mais. É isso e pronto (this is it).” E emendou, com as lágrimas transparecendo, apesar de seus óculos mais escuros que seu cabelo longo tingido de negro, encobrindo o rosto desfigurado por sucessivas cirurgias plásticas: “Eu amo vocês, de verdade!”. As multidões que lhe prestaram tributo no mundo inteiro nos últimos dias mostraram que o sentimento era recíproco.

Para conquistar centenas de milhões de admiradores, Michael Jackson esteve à frente de três acontecimentos fora do comum. Primeiro, simbolizou as mudanças sociais ocorridas nos Estados Unidos e no mundo nas últimas cinco décadas. Afirmou o lugar de destaque dos artistas negros, fez moda e alterou o comportamento da juventude. Em segundo lugar, no plano comercial, atuou como peça fundamental para a transformação da indústria da música e do entretenimento em um negócio gigantesco. Com seus passos inventados, os espetáculos superproduzidos, sua vocação para o videoclipe e para entender o que as pessoas queriam ouvir, ele instaurou a era dos superastros – no que foi seguido por Madonna, Prince e... os outros. Por fim, sua contribuição artística se revelou tão poderosa que hoje quase toda a música pop de sucesso é devedora de suas invenções (leia o quadro na última página).

A história de sua formação é repleta de lances de sorte, e também de tristeza. Sua infância foi marcada pelas agressões físicas sofridas dentro de casa. Ele nasceu Michael Joseph, em Gary, Indiana, em 29 de agosto de 1958, sétimo filho de uma família de nove irmãos. O pai, Joseph Walker Jackson, trabalhava como operador de guindaste na Island Steel Chicago. A mãe, Katherine, era dona de casa e cristã devotada. Depois de muitos batismos, converteu-se às Testemunhas de Jeová. Ela achava que Michael era um ser especial. Ainda bebê, dançava sacudindo a mamadeira. Com 5 anos, arrancou aplausos numa apresentação da escola, quando cantou “Climb ev’ry mountain”, do musical A noviça rebelde. Seus irmãos igualmente exibiam talento musical. Eles cantavam e dançavam na frente de casa, localizada em uma área pobre e reservada aos negros da cidade. Não demorou para que Joseph visse nas brincadeiras dos filhos um negócio a explorar. Em 1960, criou o primeiro conjunto – o trio The Jackson Brothers, formado por Jack, de 9 anos, Tito, 7, e Jermaine, 6. Depois viriam Marlon e Michael, que se juntou ao grupo quando completou 5 anos, em 1963. Surgia o Jackson 5. Depois, Michael Jackson lembraria das pancadas que costumava levar de seu pai, porque era o único dos irmãos que revidava as agressões. “Meu pai era horrível”, disse em entrevista a Oprah Winfrey, em 1993. “Eu chegava a vomitar quando o via. Não tive infância, eu era obrigado a trabalhar dia e noite. Foi um preço alto para o sucesso...”
A carreira profissional se iniciou quando o conjunto venceu o concurso de calouros do Apollo Theatre, no bairro negro do Harlem, em Nova York, em agosto de 1967 – episódio narrado no livro Michael Jackson, a magia e a loucura, de J. Randy Taraborrelli (Editora Globo). A gravadora Motown, dedicada ao rhythm-and-blues, tinha experiência com astros infanto-ju­venis, pois vendia muito vinil com o astro infantil Stevie Wonder. Contratou os irmãos Jacksons em 1968. Eles logo atingiram o sucesso. Em 1970, o Jackson 5 bateu um recorde: pela primeira vez, um grupo chegava ao primeiro lugar das paradas de sucesso da revista Billboard com quatro músicas: “I want you back”, “ABC”, “The love you save” e “I’ll be there”. Muito do êxito estava ligado à voz aguda e afinada e ao desempenho de palco de Michael. A Motown lançou-o em carreira solo em 1971. Foi quando sua voz agudíssima e afinada se fez ouvir no mundo todo com as canções lentas “Got to be there” e “Ben”. Ele continuava no Jackson 5, que amargava o fracasso. Em 1975, o grupo trocou a Motown pela CBS.

O produtor da gravadora, o maestro e jazzista Quincy Jones, se encantou com o talento musical e gestual de Michael e se ofereceu para produzir seus álbuns a partir de então. A parceria rendeu a trilogia Off the wall (1979), Thriller (1982) e Bad (1987). Os três discos elevaram Michael Jackson à condição de superastro. Off the wall foi o LP mais vendido de rhythm-and-blues até então: 20 milhões de cópias. Com Thriller, a fórmula de superpro­dução de cada faixa fez com que Michael Jackson fosse o primeiro artista afro-americano a atingir a corrente principal do pop. As vendas do álbum até hoje não foram superadas: atingiram 104 milhões de exemplares em 25 anos, segundo a produção do músico (o livro Guinness de recordes informa 65 milhões).

Thriller foi uma fonte de inovações. Em 1983, durante a festa de 25 anos da Motown, Michael cantou com voz superaguda uma nova modalidade de balada, Billy Jean, uma mistura de rock, funk, soul e jazz, enquanto exibia pela primeira vez o “moonwalk” (“andando na lua”), a coreografia de passos escorregadios e imprevisíveis jamais vista. A plateia gritou e aplaudiu com entusiasmo. Outra contribuição do artista está na transformação do vídeo musical em peça de arte. Antes, o videoclipe era usado mais como peça promocional. A partir de Thriller, dirigido por John Landis (de Um lobisomem americano em Londres, de 1981), o videoclipe ganhou autonomia estética. De lá para cá, som e imagem se tornariam inseparáveis. Bad reafirmou a eficácia da fórmula criada por Quincy e Michael, que até hoje é usada: uma acoplagem de funk, soul, jazz, música latina e rock. A indústria da música vivia seu ápice, liderada pela CBS, depois comprada pela Sony (atual Sony BMG).

O canto de Michael alterou a música porque transformou o falsete, em geral usado em backing vocals, num campo de improvisações. As letras das canções continham mensagens fortes e críticas sobre a situação das comunidades pobres dos Estados Unidos, obrigadas a viver na miséria. Em dez discos solos, lançados de 1972 a 2001, Michael atingiu a impressionante marca de 750 milhões de cópias vendidas no mundo todo. Um recorde praticamente impossível de ser superado, até porque o disco deixou de ser o suporte exclusivo da música. O fim do CD correspondeu ao fim da carreira musical de Michael. Seu último CD, Invincible (2001) não emplacou um único sucesso.

Michael esteve à frente da mudança de atitude dos artistas afro-americanos. Antes dele, o negro só podia brilhar em um nicho de mercado, o rhythm-and-blues. Depois dele, o panorama do pop se alterou radicalmente: os gêneros negros triunfaram, já não como som de gueto, mas generalizado. Em 1985, Michael escreveu com Lionel Richie a música “We are the world” (“Nós somos o mundo”), para arrecadar fundos para combater a fome na África. O clipe com a música reuniu os principais astros daquele tempo e inaugurou a era da generosidade no pop. Em 1993, ansioso para conhecer a América Latina, Michael se apresentou no estádio do Morumbi, em São Paulo, na turnê Dangerous. Voltaria ao país em 1996, para gravar, na Favela Morro Dona Marta, no Rio, e no Pelourinho de Salvador, o clipe “They don’t care about us” (“Eles não ligam para nós”), com participação do Olodum e direção de Spike Lee. Para gravar no Rio, Michael teve de negociar com o chefe do tráfico local, Marcinho VP.

O artista foi também um visionário social: em 1991 ele anunciava o mundo pós-racial com a canção “Black or white” (“Preto ou branco”). Se naquele momento aquilo pareceu uma excentricidade para justificar as operações de branqueamento da pele a que se submetia (segundo ele, por causa de um vitiligo), hoje o clipe da música soa como o anúncio de um novo mundo, em que as raças se fundem e a humanidade se eleva para um plano universal.

À medida que sua música definhava, afloravam as frustrações infantis. Inseguro com a aparência e com a própria personalidade, desde 1988 Michael passou a se submeter a cirurgias plásticas e a dar vazão a manias, como colecionar objetos bizarros e comprar um rancho, que batizou de Neverland (Terra do Nunca) em homenagem a seu personagem favorito: o eternamente menino Peter Pan. Ali, convidava crianças para passar o dia (e alguns a noite) com ele, o que lhe rendeu diversos processos por pedofilia.

A vida privada problemática se misturou ao anseio de se aproximar de seus ídolos. Comprou, num leilão, os direitos autorais sobre metade das músicas da dupla Lennon & McCartney. Paul McCartney, que também participou do leilão, ficou furioso, e nunca mais falou com Michael. Com 36 anos, casou-se com Lisa Marie Presley, filha de Elvis Presley. O casamento durou dois anos e só fez crescer os rumores sobre seu comportamento estranho. Isso aumentaria em seguida. Para ter filhos, Michael ficou casado entre 1995 e 1999 com a enfermeira Debbie Rowe. Da união, nasceram dois filhos, Prince Michael I, hoje com 12 anos, e Paris Katherine, com 11. Michael fez acordo com Debbie para ficar com a guarda das crianças. Depois, gerou Prince Michael II, hoje com 7 anos, por inseminação artificial.

Ele buscou a justificativa íntima compondo “Childhood”, canção lançada em 2001. Segundo ele, a música continha a explicação para suas frustrações. Mas ninguém deu muita atenção ao recado. Dizem os versos: Você viu a minha infância?/Estou procurando pelo mundo de onde venho/Nos achados e perdidos do meu coração/Ninguém me entende/Eles a veem como excêntrica/Porque continuo brincando/Como uma criança, mas me perdoem”. E, mais adiante: Antes de você me julgar, se esforce por me amar.

Nesta última década, o público lhe virou as costas. Seu último disco, Invincible, não cumpriu a promessa do título: apesar da qualidade à altura do mito, não venceu os crescentes preconceitos do público. Envolvido em escândalos e perseguido por credores, cada vez mais fechado em si mesmo, Michael sofreu uma decadência física, moral e artística mais lenta que a de Elvis Presley – e uma danação pública que John Lennon nem imaginaria.

Certa vez, Michael afirmou que uma das metas de sua vida foi conquistar a imortalidade pela música. Não há dúvida de que conseguiu. Não só sua música. Há um pouco – ou muito – de Michael Jackson no canto e na dança de Justin Timberlake, Usher, Chris Brown, Rihanna... e até Prince, Madonna ou Black Eyed Peas. Antes de Michael Jackson, havia nichos sonoros para públicos específicos: o rock, o soul, a salsa. Depois de Michael Jackson, há... qualquer coisa que você vai ouvir, no universo do pop, nos próximos 20 anos.

Sentimento de ódio é igual ao sentimento de amor

Investigadores do Laboratório de Neurobiologia do Colégio Universitário de Londres estudaram uma das sensações menos interessantes do ser humano - o ódio - em particular que zonas do cérebro humano fazem despertar essa emoção. Os cientistas britânicos descobriram que a origem do “circuito do ódio” tem pontos em comum com o que desperta o sentimento antagónico do amor.
Capaz de levar as pessoas a cometer ações agressivas, o ódio é um sentimento complexo e, semelhante ao amor, impele à realização de algumas ações impensadas.
Para descobrir o “circuito do ódio”, os investigadores observaram imagens de ressonância magnética de 17 pessoas – 10 homens e 7 mulheres – captadas quando observavam imagens de pessoas pelas quais sentiam animosidade (cedidas pelos próprios participantes), alternadas com fotografias de rostos que lhes eram indiferentes, que não lhes despertavam nenhum tipo de sentimento.
Desta forma, os cientistas observaram as áreas neurológicas que se ativavam quando sentiam ódio e concluíram que o circuito estimulado pelo ódio envolve principalmente duas regiões do cérebro, que geram também o comportamento agressivo. Estas zonas estão situadas no centro do cérebro (ínsula) e numa superfície lateral do órgão (putamen) e são “as mesmas áreas ativadas quando as pessoas se apaixonam”, explicam os investigadores no estudo publicado em uma revista estrangeira.

Diversas pesquisas têm concluído que nas funções em que participa a ínsula incluem-se as que catalisam as expressões de desgosto e os estímulos desagradáveis, enquanto o putamen está encarregado de planificar a resposta ativa, como por exemplo, agredir uma pessoa que se odeia ou realizar uma atitude defensiva.
O fato das zonas do putamen e da ínsula também se ativarem com o sentimento de amor não é surpreendente, já que ambos os sentimentos (amor e ódio) podem levar a atos irracionais e agressivos” explica Semir Zeki, coordenador do estudo.