
sábado, 20 de setembro de 2008
quinta-feira, 18 de setembro de 2008
A Suástica

Na foto podemos ver Budistas chineses a colocar recipientes de velas em forma de lótus para compor uma cruz suástica. Mas antes que pensem que os budistas chineses adoptaram as ideias de Hitler, convém esclarecer que a suástica é um símbolo de fortuna no budismo e esta cerimónia, no templo Yufo, em Xangai, serve para lembrar o nascimento de Buddha.A suástica ou cruz gamada é um símbolo místico encontrado em muitas culturas em tempos diferentes, dos índios Hopi aos Astecas, dos Celtas aos Budistas, dos Gregos aos Hindus. Alguns autores acreditam que a suástica tem um valor especial por ser encontrada em muitas culturas sem quaisquer contactos conhecidos de umas com as outras. Também podemos observá-la noutras culturas asiáticas, europeias, africanas e indígenas americanas - na maioria das vezes como elemento decorativo ou eventualmente como símbolo religioso.As primeiras formas similares à suástica estão conservadas em vasos cerâmicos datados de cerca de 4000 a.C., em antigas inscrições europeias (escrita "vinca"), e ainda como parte da escrita encontrada na região do Indo, por volta de 3000 a.C., tendo esta última sido adoptada como símbolo pelas religiões posteriores (hinduísmo, budismo). Vasos encontrados em Sintashta, datados de cerca de 2000 a.C. também foram decorados com o símbolo suástico. Símbolos semelhantes foram encontrados em objectos remanescentes das Idades do Bronze e do Ferro no norte do Cáucaso e no Azerbaijão, oriundos das culturas dos "cítios" e "sarmácios". Em todas as demais culturas, com a excepção daquelas do sul asiático, a suástica não parece apresentar alguma significação relevante, mas surge como uma forma no meio de uma série de símbolos similares em complexas variações.A própria grafia da suástica tem variado conforme a sua adopção por cada cultura. Por exemplo são conhecidos vários desenhos de suásticas que usam figuras com três linhas. A adoptada pelo regime nazi tem os braços inclinados para a esquerda e toda a figura roda de modo a um desses braços ficar no topo. Outras nem sequer têm braços e consistem mais em cruzes com linhas curvas. Os símbolos Islâmicos e Malteses parecem mais hélices do que suásticas. A chamada suástica celta dificilmente se assemelha a uma. As suásticas Budistas e Hopi parecem reflexos no espelho do símbolo Nazi. Na China é um símbolo da orientação quádrupla que segue os pontos cardeais e que desde 700 d.C. tem significado o número dez mil. No Japão, a suástica (manji) é usada para representar templos e santuários em mapas.Curiosamente foi a suástica usada como símbolo do Budismo e que significa "bons ventos", que foi utilizada por Adolf Hitler, devido à sua aparência como uma engrenagem, supostamente para simbolizar sua intenção de uma Revolução Industrial na Alemanha. embora este facto não tenha sido comprovado.Mais provável é a explicação de que o uso da suástica tenha sido associado pelos teóricos nazis à teoria da descendência cultural ariana dos alemães. Reproduzindo os passos da invasão ariana da Índia, reivindicavam os nazis que os primeiros arianos naquele país introduziram o símbolo, que foi incorporado nas tradições védicas, sendo a suástica o símbolo protótipo dos invasores brancos. Também acreditavam que o sistema de castas hindu tinha sido um meio criado para se evitar a mistura racial.O conceito de pureza racial, adoptado como central na ideologia Nazi, não utilizou nenhum dos métodos modernamente aceites como científicos. Para Alfred Rosenberg, que procurou emprestar cientificidade às ideias de Hitler, os arianos hindus eram, ao mesmo tempo, um modelo a ser copiado e uma advertência para dos perigos da "confusão" espiritual e racial que, dizia, ocorrera pela proximidade das raças distintas. Com isto, justificou a utilização da suástica como um símbolo da raça ariana. Assim, com o apoio de vários escritores apologistas da ideologia nazi, Hitler adoptou a suástica e fez acreditar que este era um símbolo exclusivamente ariano.A mensagem passou porque, mesmo considerando que o regime nazi foi deposto há mais de 60 anos, em muitos países do mundo, a utilização deste símbolo para fins que sirvam "causas (neo)nazis" é crime punível pela lei.
Luis Miguel
segunda-feira, 15 de setembro de 2008

O Rock está de luto mais uma vez. Morreu nesta segunda-feira, 15, o tecladista Richard Wright, um dos membros fundadores do Pink Floyd. Wright estava com 65 anos e faleceu em decorrência de um câncer. O anúncio da morte do músico foi feita por um porta-voz.Apesar de grande parte das composições do grupo ser de Roger Waters, Wright foi um dos grandes responsáveis pelo sucesso e por vários clássicos lançados pela banda principalmente no início da carreira.Além de tecladista, Wright contribuiu com vocais em diversas músicas como “Echoes” e “Wearing the Inside Out”. Atualmente Wright acompanhava o vocalista e guitarrista David Gilmour em suas turnês solo.Gilmour publicou uma nota em seu site oficial, comentando sobre a notícia: “Eu realmente não sei o que dizer além de que ele era um homem amável, gentil e genuíno e que fará uma falta terrível a tantos que o amavam. E são muitas pessoas. Não era ele quem ganhava as maiores salvas de palmas ao final de cada show em 2006?”.
sexta-feira, 12 de setembro de 2008
UMA VISÃO DO FUTURO DA HUMANIDADE NO ESPAÇOOS ERRANTES: UMA INTRODUÇÃO

Fomos errantes desde o início. Conhecíamos a posição de todas as árvores num raio de duzentos quilômetros. Quando os frutos ou as castanhas amadureciam, lá estávamos nós. Seguíamos os rebanhos em suas migrações anuais. Deleitávamos-nos com a carne fresca. Por ações furtivas, estratagemas, emboscadas e ataques de força bruta, alguns de nós realizávamos em conjunto o que muito de nós, sozinhos, não podíamos conseguir. Dependíamos uns dos outros. Viver por conta própria era uma idéia tão absurda quanto fixar residência.Trabalhando juntos, protegíamos os filhos dos leões e das hienas. Ensinávamos a eles as habilidades de que iriam precisar. E as ferramentas. Naquela época, como agora, a tecnologia era a chave de nossa sobrevivência.Quando a seca era prolongada, ou quando o frio se demorava no ar do verão, nosso grupo partia – às vezes para terras desconhecidas. Procurávamos um lugar melhor. E, quando não nos dávamos bem com os outros em nosso pequeno bando nômade, partíamos à procura de um grupo mais amigável em algum outro lugar. Sempre podíamos começar de novo.Durante 99,99% do tempo, desde o aparecimento de nossa espécie, fomos caçadores e saqueadores, errantes nas savanas e nas estepes. Não havia guardas de fronteiras então, nem funcionários da alfândega. A fronteira estava por toda parte. Éramos limitados apenas pela Terra, pelo oceano e pelo céu – e mais alguns eventuais vizinhos rabugentos.No entanto, quando o clima era adequado, quando os alimentos eram abundantes, tínhamos vontade de ficar no mesmo lugar. Sem aventuras. Engordando. Sem cuidados. Nos últimos 10 mil anos – um instante em nossa longa história – abandonamos a vida nômade. Domesticamos as plantas e os animais. Por que correr atrás do alimento quando se pode fazer com que ele venha até nós?Apesar de todas as suas vantagens materiais, a vida sedentária nos deixou irritáveis, insatisfeitos. Mesmo depois de quatrocentas gerações em vilas e cidades, não esquecemos. A estrada aberta ainda nos chama suavemente, quase uma canção esquecida da infância. Atribuirmos um certo romance aos lugares remotos. A minha suspeita é de que o apelo tem sido meticulosamente elaborado pela seleção natural, como um elemento essencial de nossa sobrevivência. Longos verões, invernos amenos, ricas colheitas, caça abundante – nada disso dura pra sempre. Está além dos nossos poderes predizer o futuro. As catástrofes têm um modo de nos atacar sorrateiramente, nos pegando desprevenidos. Talvez você deva sua vida, a de seu bando ou, até mesmo, a de sua espécie a uns poucos inquietos - levados, por um desejo que mal podem expressar ou compreender, a terras desconhecidas e a novos mundos.Herman Melville, em Moby Dick, falou pelos errantes de todas às épocas e meridianos: “Sou atormentado por um desejo constante pelo que é remoto. Gosto de navegar mares proibidos...”.Para os antigos gregos e romanos, o mundo conhecido compreendia a Europa e reduzidas Ásia e África, tudo circundado por um intransponível Oceano do Mundo. Os viajantes poderiam encontrar seres inferiores, chamados bárbaros, ou seres superiores, chamados deuses. Toda árvore tinha a sua dríade, toda região o seu herói lendário. Mas não havia assim tantos deuses, ao menos no inicio, talvez apenas uns doze. Viviam nas montanhas, sob a Terra, no mar ou lá em cima do céu. Mandavam mensagens às pessoas, intervinham nos assuntos humanos e cruzavam conosco.À medida que passava o tempo e que a capacidade exploratória dos homens acertava o seu passo, ocorriam surpresas: os bárbaros podiam ser tão inteligentes quanto os gregos e os romanos. A África e a Ásia eram maiores do que se tinha pensado. O Oceano do Mundo não era intransponível. Havia antípodas. Existiam três novos continentes, ocupados pelos asiáticos em eras passadas, sem que a notícia jamais tivesse chegado à Europa. E, decepcionantemente, não era fácil encontrar os deuses.A primeira grande migração humana do Velho Mundo para o Novo Mundo aconteceu durante a última era glacial, cerca de 11 mil e 500 anos atrás, quando as calotas polares aumentaram, deixando rasos os oceanos e permitindo caminhar sobre terra seca da Sibéria para o Alasca. Mil anos mais tarde, estávamos na Terra do Fogo, a extremidade meridional da América do Sul. Muito antes de Colombo, argonautas indonésios em canoas de embono exploraram o Pacífico ocidental; habitantes de Bornéu povoaram Madagascar; egípcios e líbios circunavegaram a África; e uma grande frota de juncos adaptados para navegação marítima, partindo da China da dinastia Ming, ziguezagueou pelo oceano Índico, estabeleceu uma base em Zanzibar, dobrou o cabo da Boa Esperança e entrou no oceano Atlântico. Do século XV ao século XVII, as naus européias descobriram novos continentes (novos para os europeus, pelos menos) e circunavegaram o planeta.Nos séculos XVIII e XIX, exploradores, mercadores e colonizadores norte-americanos e russos precipitaram-se para oeste e para leste atravessando dois imensos continentes até chegarem ao Pacifico. Esse gosto de investigar e explorar, por mais temerários que tenham sido seus agentes, tem um claro valor e sobrevivência. Ele não é restrito a uma única nação ou grupo étnico. É um dom natural comum a todos os membros da espécie humana.Desde o nosso aparecimento, há alguns milhões de anos, na África Oriental, seguimos nosso caminho cheio de meandros ao redor do planeta. Agora existem pessoas em todos os continentes e nas ilhas mais remotas, de pólo a pólo, do monte Everest ao mar Morto, no fundo dos oceanos e até, ocasionalmente, residindo trezentos quilômetros acima da Terra – humanos, como os deuses de outrora, vivendo no céu.Nos dias de hoje não parece haver mais nenhum lugar para explorar, ao menos na área terrestre do planeta. Vitimas de seu próprio sucesso, os exploradores agora ficam bastante tempo em casa.As grandes migrações de povos – algumas voluntárias, a maioria involuntária – têm moldado a condição humana. Hoje fugimos da guerra, da opressão e da fome mais do que qualquer outra época na historia humana. Quando o clima na Terra mudar, nas próximas décadas, provavelmente aumentarão os refugiados ambientais. Lugares melhores sempre nos atrairão. As marés de povos vão continuar o seu fluxo e refluxo por todo o planeta. Mas as terras para onde agora corremos já foram povoadas. Outras pessoas, que muitas vezes não compreendem nossa situação, já ali se encontram antes de nós.No final do século XIX, Leib Gruber crescia na Europa Central, em uma cidade obscura do imenso, poliglota e antigo Império Austro-Húngaro. Seu pai vendia peixe sempre que possível. Mas os tempos eram freqüentemente difíceis. Jovem, o único emprego honesto que Leib conseguiu arrumar foi o de carregar as pessoas que queriam atravessar o rio Bug ali perto. O cliente, homem ou mulher, montava nas costas de Leib; com suas botas valiosas, a sua ferramenta de trabalho, ele vadeava um trecho raso do rio e depositava o passageiro na margem oposta. Às vezes, a água chegava até a sua cintura. Não havia pontes naquele ponto, nem barcas. Os cavalos poderiam ter servido para esse fim, mas tinham outras tarefas a cumprir. Só restavam Leib a alguns outros jovens como ele. Eles é que não tinham outra serventia. Não havia outro trabalho. Ficavam perambulando pelas margens do rio, gritando os seus preços, vangloriando-se da superioridade de seu carreto para clientes em potencial. Alugavam-se como animais de quatro patas. Meu avô era uma besta de carga.Não acho que, em toda a sua juventude, Leib tenha se aventurado mais que uns cem quilômetros além de sua cidadezinha natal, Sassow. Mas de repente, em 1904, ele fugiu para o Novo Mundo – para evitar uma condenação por assassinato, segundo uma lenda familiar. Partiu sem a sua jovem mulher. Como as grandes cidades portuárias alemãs devem ter lhe parecido imenso a seus olhos e como deve ter estranhado os altos arranha-céus e o alarido incessante de sua nova terra! Nada sabemos de sua travessia, mas encontramos o formulário do navio para a viagem empreendida mais tarde pela mulher Chaiya – que se reuniu a Leib depois que este poupou o suficiente para mandar busca-la. Ela viajou na classe mais barata do Batavia, uma embarcação com registro de Hamburgo. O documento tem uma concisão comovente: Sabe ler ou escrever? Não. Sabe falar inglês? Não. Quando dinheiro tem? Posso imaginar sua vulnerabilidade e vergonha ao responder: “Um dólar”.Ela desembarcou em Nova York, reuniu-se a Leib e ainda viveu o suficiente para dar à luz a minha mãe e sua irmã, morrendo mais tarde de complicações de parto. Nesses poucos anos na América, seu nome fora, às vezes, anglicizado para Clara. Um quarto de século mais tarde, o nome que minha mãe deu a seu filho primogênito era uma homenagem à mãe que nunca conheceu.Nossos antepassados distantes, observando as estrelas, notaram cinco que faziam mais que levanta-se e pôr-se numa marcha impassível, como era o caso das assim chamadas estrelas “fixas”. Essas cinco tinham um movimento curioso e complexo. Ao longo dos meses, pareciam errar lentamente entre as estrelas. Às vezes, andavam em círculo. Hoje nós as chamamos de planetas, a palavra grega para errantes. Era, assim imagino, uma peculiaridade que nossos antepassados compreendiam.Sabemos agora que os planetas não são estrelas, mas outros mundos, impelidos gravitacionalmente para o sol. Exatamente quando a exploração da Terra estava sendo completada, começamos a reconhecê-la como um mundo na multidão inumerável de outros mundos que circulam ao redor do Sol ou giram em torno de outras estrelas que formam a galáxia da Via Láctea. Nosso planeta e nosso sistema solar são circundados por um novo oceano do mundo – os abismos do espaço. Não é mais intransponível que o anterior.Talvez seja um pouco cedo. Talvez ainda não tenha chegado a hora. Mas esses outros mundos – promissores oportunidades ilimitadas – acenam, chamando-nos.Nas ultimas décadas, os Estados Unidos e a antiga União Soviética realizaram algo assombroso e histórico – o exame minucioso de todos esses pontos de luz, de Mercúrio a Saturno, que levaram nossos antepassados à admiração e à ciência. Desde o advento do vôo interplanetário bem-sucedido em 1962, nossas máquinas têm voado por mais de setenta novos mundos, descrevendo órbitas ao redor ou pousando em sua superfície. Temos errado entre os errantes. Descobrimos imensas elevações vulcânicas que eclipsam a montanha mais alta da Terra; vales de rios antigos em dois planetas, enigmaticamente, um demasiado frio e o outro quente em demasia para ter água corrente; um planeta gigantesco com um interior de hidrogênio metálico liquido em que caberiam mil Terras; luas inteiras que se fundiram; um lugar coberto de nuvens com uma atmosfera de ácidos corrosivos, onde até os platôs elevados têm uma temperatura acima do ponto de fusão do chumbo; superfícies antigas em que se acha gravado um registro fiel da formação violenta do Sistema Solar; mundos glaciais refugiados dos abismos transplutônicos; sistemas de anéis com padrões refinados, marcando as harmonias sutis da gravidade; e um mundo rodeado por nuvens de moléculas orgânicas complexas com as que, na história primeira do nosso planeta, deram origem à vida. Silenciosamente, eles giram em torno do Sol, esperando.Descobrimos maravilhas jamais sonhadas pelos nossos antepassados que especulavam pela primeira vez sobre a natureza dessas luzes errantes no céu noturno. Investigamos as origens de nosso planeta e de nós mesmos. Descobrindo outras possibilidades, confrontando-nos com os destinos alternativos de mundos mais ou menos parecidos com o nosso, temos começado a compreender melhor a Terra. Cada um desses mundos é encantador e instrutivo. Mas, que se saiba, são também desertos e áridos. No espaço, não existem “lugares melhores”. Até agora, pelo menos.Durante a missão robótica Viking, que teve início em julho de 1976, em certo sentido passei um ano em Marte. Examinei os penedos e as dunas de areia, o céu, vermelho até o auge do dia, os vales de rios antigos, as montanhas vulcânicas elevadas, a feroz erosão eólica, o terreno polar laminado, as duas luas escuras em forma de batata. Mas não havia vida – nem um grilo ou uma folha de grama, nem mesmo, tanto quanto podemos afirmar com certeza, um micróbio. Esses mundos não foram agraciados, como o nosso, com a vida. A vida é relativamente uma raridade. Podem-se examinar dúzias de mundos e descobrir que só em um deles a vida nasce, evolui e persiste.Não tendo cruzado, até aquele momento, em suas vidas, nada mais largo que um rio, Leib e Chaya foram promovidos à travessia de oceanos. Tinham uma grande vantagem: do outro lado das águas, haveria – revestidos de costumes estranhos, é verdade – outros seres humanos que falavam a sua língua e partilhavam ao menos alguns de seus valores, e mesmo pessoas com quem tinham relações próximas.Em nossa época cruzamos o Sistema Solar e enviamos quatro naves às estrelas. Netuno se acha um milhão de vezes mais distante da Terra que a cidade de Nova York das margens do Bug. Mas não há parentes remotos, nem seres humanos, nem qualquer vida aparente esperando por nós nesses outros mundos. Nenhuma carta trazida por emigrantes recentes nos ajuda a compreender a nova terra – apenas dados digitais transmitidos, à velocidade da luz, por emissários-robôs precisos, insensíveis. Eles nos dizem que esses novos mundos não são como a nossa casa. Continuamos, no entanto, a procurar os habitantes. Não podemos evitar. Vida procura vida.Ninguém na Terra, nem mesmo o mais rico dentre nós, tem recursos para empreender a viagem; assim, não podemos fazer as malas e partir rumo a Marte ou Titã ao sabor de um capricho, por estarmos entediados, desempregados, oprimidos, porque fomos recrutados pelo exército ou porque, justa ou injustamente, nos acusaram de um crime. Não parece haver lucro suficiente, a curto prazo, para motivar a indústria privada. Se nós, humanos, algum dia partirmos rumo a esses mundos, será porque uma nação ou um consórcio de nações acredita que o empreendimento lhe trará benefícios sendo pressionados por um grande numero de questões que disputam o dinheiro necessário para enviar pessoas a outros mundos.Este é o tema desse livro: outros mundos, o que nos espera neles, o que eles nos dizem sobre nós mesmos e – dados os problemas urgentes que nossa espécie enfrenta no momento – se faz sentido partir. Deveríamos resolver esses problemas primeiro? Ou serão eles uma razão a mais para partir?Sob muitos aspectos, este livro é otimista a respeito do futuro humano. À primeira vista, os capítulos iniciais podem dar a impressão de troçar de nossas imperfeições. Eles estabelecem, porém, um fundamento espiritual e lógico essencial para o desenvolvimento de minha argumentação.Tentei apresentar mais de uma faceta das questões. Haverá momentos em que pareço estar discutindo comigo mesmo. Estou. Percebendo algum mérito em mais de um lado, freqüentemente discuto comigo mesmo. Espero que, no ultimo capítulo, fique claro onde quero chegar.O plano do livro é, em linhas gerais, o seguinte: examinar primeiro as afirmações, muito difundidas em toda a história humana, de que o nosso mundo e a nossa espécie são únicos, e, até, centrais para o funcionamento e a finalidade do cosmo. Percorrer o Sistema Solar, seguindo os passos das últimas viagens de exploração e descoberta, e, então, avaliar as razões geralmente apresentadas para enviar seres humanos ao espaço. Na última parte desse livro, mais especulativa, traço um esboço de como imagino que será, a longo prazo, o nosso futuro no espaço.Pálido Ponto Azul é sobre esse novo reconhecimento, que ainda nos invade lentamente, de nossas coordenadas, de nosso lugar no Universo – e de como um elemento central do futuro humano se encontra muito além da Terra, embora o apelo da estrada aberta esteja hoje emudecido.
quarta-feira, 10 de setembro de 2008
Poema para escrever no asfalto

Agora eu sei o quanto basta à ceia do coração
e o quanto sobra do naufrágio
das nossas utopias.
Agora eu sei o que significa a fala dos mortos
e esta parábola soterrada
que jorra das veias da pedra.
Agora eu sei o quanto custa o ouro das palavras
e este pacto de sangue
com as metáforas do tempo.
Agora eu sei o que se passa no coração de treva
e do homem que morre mendigando
a própria liberdade.
Agora eu sei que o pão da terra nunca foi repartido
com a nossa pobreza
e com a solidão de ninguém.
Agora eu sei que é preciso agarrar a vida
como se fosse a última dádiva
colocada em nossas mãos.
Francisco Carvalho
terça-feira, 9 de setembro de 2008
O Grande Colisor de Hádrons (LHC), o maior acelerador de partículas domundo, começará a funcionar amanhã

Exatamente na fronteira franco-suíça,tocando em alguns dos mistérios pendentes sobre a matéria e o iníciodo universo, há 13,7 milhões de anos.
Maior acelerador de partículas já criado no mundo será testado em 10de setembro
DADOS PARA 60 MIL COMPUTADORESINFOGRÁFICO: COMO O LHC FUNCIONAO LHC PODE DESTRUIR O MUNDO?
O colossal instrumento, em que trabalham cerca de 5 mil físicos eengenheiros, há mais de uma década, é o maior projeto científico dosúltimos anos.
Robert Aymar, diretor geral da Organização Européia para aInvestigação Nuclear (CERN), se diz convencido de que o LHC vai levaros cientistas a achados que "mudarão nossa visão do mundo e, emparticuçar, de sua criação".
Desde 1996, a CERN construiu a 100 metros abaixo da terra perto deGenebra um anel de 27 km de circunferência, resfriado até chegar a1,9º C a mais que o zero absoluto. Ao redor do anel, foram instaladosquatro grandes detectores, em cujo núcleo se produzirão grandescolisões de prótons (partículas da família dos hádrons). O LHCalcançará 99,999% da velocidade da luz, que é de cerca de 300.000 kmpor segundo.
A potência máxima, de 600 milhões de colisões por segundo, vai gerarmuitas partículas, algumas das quais nunca foram vistas.
Para selecionar os 15 milhões de gigaoctetos de dados colhidos, onzecentros distribuirão a informação bruta a 200 instituições do mundo,que a analizarão e arquivarão.
Entre os detectores, o Atlas e o CMS foram desenhados paraesquadrinhar o chamado bosón de Higgs, uma partícula elementar quedotaria as outras partículas de massa. Sua ausência sacudiria a físicateórica.
"Há uma grande possibilidade de que o bosón de Higgs possa serobservado", diz Yves Sacquin, do Instituto francês de Investigaçãosobre Leis Fundamentais do Universo (IRFU).
À margem de Higgs, "estamos convencidos de que existem no universovárias partículas muito mais pesadas que as que conhecemos. É o quechamamos de matéria negra", explica Aymar.
Saiba o que é o LHC
"O LHC proporcionará a identificação e a compreensão desta matérianegra", que integra 23% do universo, enquanto que a normal representa4% e o restante é constituído de energua escura.
Outro detector, o LHCb, tratará de elucidar o que aconteceu com aantimatéria, presente no momento do Big Bang.
Já o Alice se interessará pelas colisões de íons de chumbo com oobjetivo de recriar um lapso relâmpago da "sopa" primordial de quarkse glúons que formavam a matéria durante os primeiros micro-segundos douniverso, antes da criação dos prótons.
Quando o acelerador começar a funcionar, serão injetados no colisorpacotes de 100 milhões de prótons. Após o início do processo, serãoprovocadas colisões de energia cada vez mais elevadas, até chegar asete vezes a potência do Fermilab dos EUA, até o momento o aceleradormais potente do mundo.
O projeto, em que contribuíram países europeus, os Estados Unidos, aÍndia, a Rússia e o Japão teve um custo de 3,76 bilhões de euros.
Maior acelerador de partículas já criado no mundo será testado em 10de setembro
DADOS PARA 60 MIL COMPUTADORESINFOGRÁFICO: COMO O LHC FUNCIONAO LHC PODE DESTRUIR O MUNDO?
O colossal instrumento, em que trabalham cerca de 5 mil físicos eengenheiros, há mais de uma década, é o maior projeto científico dosúltimos anos.
Robert Aymar, diretor geral da Organização Européia para aInvestigação Nuclear (CERN), se diz convencido de que o LHC vai levaros cientistas a achados que "mudarão nossa visão do mundo e, emparticuçar, de sua criação".
Desde 1996, a CERN construiu a 100 metros abaixo da terra perto deGenebra um anel de 27 km de circunferência, resfriado até chegar a1,9º C a mais que o zero absoluto. Ao redor do anel, foram instaladosquatro grandes detectores, em cujo núcleo se produzirão grandescolisões de prótons (partículas da família dos hádrons). O LHCalcançará 99,999% da velocidade da luz, que é de cerca de 300.000 kmpor segundo.
A potência máxima, de 600 milhões de colisões por segundo, vai gerarmuitas partículas, algumas das quais nunca foram vistas.
Para selecionar os 15 milhões de gigaoctetos de dados colhidos, onzecentros distribuirão a informação bruta a 200 instituições do mundo,que a analizarão e arquivarão.
Entre os detectores, o Atlas e o CMS foram desenhados paraesquadrinhar o chamado bosón de Higgs, uma partícula elementar quedotaria as outras partículas de massa. Sua ausência sacudiria a físicateórica.
"Há uma grande possibilidade de que o bosón de Higgs possa serobservado", diz Yves Sacquin, do Instituto francês de Investigaçãosobre Leis Fundamentais do Universo (IRFU).
À margem de Higgs, "estamos convencidos de que existem no universovárias partículas muito mais pesadas que as que conhecemos. É o quechamamos de matéria negra", explica Aymar.
Saiba o que é o LHC
"O LHC proporcionará a identificação e a compreensão desta matérianegra", que integra 23% do universo, enquanto que a normal representa4% e o restante é constituído de energua escura.
Outro detector, o LHCb, tratará de elucidar o que aconteceu com aantimatéria, presente no momento do Big Bang.
Já o Alice se interessará pelas colisões de íons de chumbo com oobjetivo de recriar um lapso relâmpago da "sopa" primordial de quarkse glúons que formavam a matéria durante os primeiros micro-segundos douniverso, antes da criação dos prótons.
Quando o acelerador começar a funcionar, serão injetados no colisorpacotes de 100 milhões de prótons. Após o início do processo, serãoprovocadas colisões de energia cada vez mais elevadas, até chegar asete vezes a potência do Fermilab dos EUA, até o momento o aceleradormais potente do mundo.
O projeto, em que contribuíram países europeus, os Estados Unidos, aÍndia, a Rússia e o Japão teve um custo de 3,76 bilhões de euros.
sexta-feira, 5 de setembro de 2008
O CORVO

O gênio visionário de Poe, poeta de amplos recursos e contista conhecido sobretudo por suas histórias de mistério e horror, constituiu uma fonte de inspiração direta para a renovação literária européia no final do século XIX.Edgar Allan Poe nasceu em 19 de janeiro de 1809 em Boston, Massachusetts. Filho de um casal de atores, ficou órfão aos dois anos e foi adotado por John Allan, rico comerciante de Richmond, Virgínia. Entre 1815 e 1820, recebeu esmerada educação clássica na Escócia e Inglaterra. No período em que freqüentou a Universidade da Virgínia, aderiu ao jogo e álcool. Rompeu relações com seu tutor e no mesmo ano publicou, em Boston, seu primeiro livro de poesia, Tamerlane, and Other Poems (1827; Tamerlão e outros poemas), ao qual se seguiu Al Aaraaf, Tamerlane, and Minor Poems (1829; Al Aaraaf, Tamerlão e poemas menores).Expulso da Academia Militar de West Point, decidiu dedicar-se por completo à literatura e começou a publicar contos em revistas. No livro Poems (1831), mostra da maturidade de seu gênio e publicado numa época de situação financeira precária, a evocação de um mundo ideal e visionário era realçada pelo ritmo hipnótico dos versos e pela força perturbadora das imagens. Fixou-se então em Baltimore com uma tia e, em 1833, recebeu um prêmio em dinheiro por seu Manuscript Found in a Bottle (Manuscrito encontrado em uma garrafa). Tornou-se editor literário do Southern Literary Messenger, de Richmond, em 1835, e no mesmo ano casou-se com a prima Virginia Clemm, de 13 anos de idade.Despedido do emprego, ao que parece por seus problemas com a bebida, que o perturbariam pela vida afora, mudou-se para Nova York e passou os anos seguintes envolvido com a febril criação de suas obras, ao mesmo tempo em que trabalhava, em geral brevemente, em vários periódicos de Filadélfia e Nova York. Em 1838 publicou uma novela de tema marinho, The Narrative of Arthur Gordon Pym. Posteriormente, apareceram coletâneas de seus textos de ficção: Tales of the Grotesque and Arabesque (1839; Contos do grotesco e arabesco), The Prose Romances of Edgar A. Poe (1843; Romances em prosa de Edgar A. Poe) e Tales (1845; Contos).Em geral esses contos, como "The Fall of the House of Usher ("A queda da casa de Usher"), "The Cask of Amontillado" ("O barril de amontillado") ou "The Facts in the Case of M. Valdemar" ("A verdade no caso do sr. Valdemar"), abordavam temas como a morte, o horror sobrenatural e os desvarios da mente humana, expressos numa linguagem a um só tempo precisa e alucinada, que refletia os tormentos do autor. Poe, por outro lado, possuía grande capacidade analítica, e assim contos como "The Murders in the Rue Morgue" ("Os assassinatos da rua Morgue") assentaram as bases do gênero policial e de mistério que se difundiu no século XX.Poe também deixou textos nos campos da estética, da crítica e teoria literária, como "Philosophy of Composition" (1845; "Filosofia da composição") e o "The Poetic Principle" (1850; "Princípio poético"), nos quais expôs sua concepção da elaboração racional do poema e o sentido estético da poesia. Entretanto, apesar da popularidade alcançada por Poe com The Raven and Other Poems (1845; O corvo e outros poemas), a aura de escândalo que o envolvia impediu que seu prestígio se consolidasse. Esquecido e incompreendido por seus compatriotas, foram os simbolistas franceses e, em particular, por Charles Baudelaire, que lhe reconheceram o gênio. O golpe representado pela morte da esposa, em 1847, aumentou ainda mais sua dependência do álcool. Após vários dias de excessos alcoólicos, Poe morreu em Baltimore, Maryland, em 7 de outubro de 1849.
©Encyclopaedia Britannica do Brasil Publicações Ltda.
Edgar Allan Poe nasceu em Boston, em 19 de janeiro de 1809. Sua família paterna era de origem irlandesa, enraizada em Baltimore, onde conquistara postos entra as melhores famílias da região. Seu avô, David Poe, tinha feito a Guerra da Independência. Fora "Quartel-master-general" de Lafaiete, que lhe atribuiu mandatos importantes, dispensando-lhe estima e admiração. O filho mais velho também se chamou David e se fez herdeiro dos espírito de aventura, que conduzia seu pai às trincheiras, sob o comando do general francês. Apaixonando-se pela atriz inglesa Elizabeth Arnold, mulher de estonteante formosura, David rompera todos os laços de família, casando-se e fazendo-se ator também para percorrer todas as cidades norte-americanas com sua "troupe".
A vida errante não lhe concedeu nunca os indispensáveis recursos de vida. Breve o casal tinha dois filhos: Willian e Edgar. Pouco mais tarde o nascimento de Rosalie comprometerá a saúde materna, já comprometida pelos sacrifícios da existência incerta um pouco vagabunda, feita de imprevistos cruéis e de misérias implacáveis.
Com vinte e quatro anos apenas Elizabeth morre, então, deixando David enfermo. Tuberculoso e sem recursos imediatos, ele deveria acompanhá-la breve, deixando os três filhos em extrema penúria.
Mas os órfãos encontraram obrigo nas famílias de Richmond. Edgar fora adotado pelo rico casal John Allan e Frances Keeling Allan.
Edgar estudou na juventude na Inglaterra, no colégio Stoke-Newington, de Londres. Era um velho edifício sombrio e gótico. Mais tarde, de volta à Richmond, Poe continuaria seus estudos na Universidade de Charlotteville. Desde cedo, Poe se mostrara um rapaz extremamente inteligente e genioso, motivo esse que o levaria a ser expulso da Universidade. Edgar era filho da paixão sem disciplina e do espírito largo da aventura, explica Baudelaire, seu mais fiel entusiasta.
Edgar Allan Poe era um jovem aventureiro, romântico, orgulhoso e idealista. Aperfeiçoou seus estudos na Universidade de Virgínia, mas com não seguia os rígidos padrões da época, foi expulso da Universidade. Poe era um boêmio que se entregava à bebida, ao jogo e às mulheres. Homem de ação forte, também era um homem de devaneio.
Vivia no luxo e cultivava o amor vadio. Seguindo os passos romanescos de Byron, mais tarde Poe foi para a Grécia e alistou-se no exército lutando contra os turcos. Como todos os jovens da época, Poe sonhava com as glórias militares. Mas aventura acabou saindo muito caro. Perdido nos Bálcãs, sofrendo ônus terríveis no percurso, acaba chegando na Rússia sem documentos e sem dinheiro. Acaba sendo repatriado pelo cônsul americano, mas em seu retorno, descobre que sua mãe adotiva a quem devera tudo, havia morrido.
Na volta aos Estados Unidos, alista-se num Batalhão de Artilharia e mais tarde matricula-se na Academia Militar de West Point. Era conhecido pelos colegas como aquele que "Embarcou para Grécia num baleeiro". É lógico que o ritmo de uma escola para Cadetes do Exército não seria compatível ao gênio de Edgar. Ele se concentrava muito mais em seus poemas do que nos estudos.
Com o lançamento de uma Compilação de Poemas (1831), o orgulhoso Edgar Allan Poe abandona West Point e rompe relações com o pai adotivo (que se casara recentemente e deixara Poe muito contrariado).
Com 22 anos, poeta de ofício, sujeito a devaneios, pobre e sem vontade inflexível, consola-se publicando: "Poemas". De regresso a Baltimore, em busca de seu irmão Willian, assiste à morte deste e entra nas relações de uma tia, viúva com duas filhas, também pobre e sem arrimo seguro. Vivendo em miséria profunda, durante 2 anos Edgar consegue um pouco de triunfo ao vencer dois concursos de poesias. Com uma certa fama, o editor Thomaz White entrega para Poe a direção do "Southern Literary Messenger" em 1833. Pouco depois, escreveria seu primeiro conto: "Uma Aventura sem paralelo de um certo Hans Pfaal". Fica na direção da revista por 2 anos, depois de ter escrito outros vários contos, poemas e resenhas. Edgar Allan Poe já tinha uma certa reputação e um bom número de leitores.
Suas críticas tiveram grande repercussão e os jornais, abrindo-lhes as portas e as colunas de honra, decretando-lhe dias melhores. Com 27 anos, em 1836, ele casa-se com a prima de apenas 13 anos. Virgínia Clemn, eis a mulher ideal que o destino lhe destinara para lhe ser a única. A tia aceita o casamento desigual. Era sua esposa e musa. Virgínia gostava de música, canto e poesia; o que deixava Edgar muito entusiasmando. Em 1838 trabalha com Editor da Button's Gentleman Magazine. Na companhia da Sra. Clemn o casal vivera na Filadélfia, Nova York, Fordham, até que, de novo, a penúria lhe bate à porta. A vida de intimidade conjugal será prolongada pela dedicação da tia. Mas, as amarguras de Edgar Allan Poe não tinham limites. Virgínia, indo cantar na casa de amigos, sofrera um acidente causando-lhe uma forte hemorragia interna que a faz cair doente sem nunca mais voltar. Em 1847, morre deixado o marido nas entranhas do luto e da miséria espiritual.
Em 1849. Poe reage e publica o célebre poema "O Corvo" que o coloca novamente no alto da literatura americana. Edgar não abandona a tia. Esta constitui a lembrança viva de Virgínia. A Sra Helen Whitman, de Boston, dar-lhe-á estímulos e apoio. Enfermo, ele encontrara amigos e admiradores amigos e admiradores. Mas foi preciso lutar. O álcool reduzira-o de modo estranho. A caça ao dinheiro completara as impaciências, que o acabrunhavam. Seu "Romance Cosmogônico" "Eureka" acaba por lhe atribuir um renome literário enorme. Sua conduta provoca censuras, acres da imprensa e da sociedade; mas o poeta cumpria as sentenças do destino...
A exemplos de outros, resolve fazer "leituras" de seus poemas e contos para um público de jornalistas e intelectuais antes de publicá-los. Seus trabalhos lhe renderam mais honras e prestígio. O trabalho fica cada vez mais cansativo e Poe se entrega mais e mais à bebida. Poe volta a Richmore por uma temporada, mas acaba deixando-a por Nova York na expectativa de deixar seu passado lúgubre para trás. Chegando a Baltimore, suas conseqüências o abateram. Antes de de seguir para a Filadélfia resolve entrar em Taverna à caça de estimulantes. Aí encontram velhos amigos demorando-se mais do que pretende, vencido, mal percebendo o andar do tempo. Na manhã seguinte, os transeuntes encontram um homem agonizante, em abandono, na sarjeta. Pouco depois descobrem que aquele homem sem documentos e dinheiro era Edgar Allan Poe. Conduzido ao hospital, pouco resistiu, morrendo aos 39 anos apenas, deixando uma obra opulenta, escrita através de sacrifícios espantosos, de desordens implacáveis, de desconcertos incríveis.
EDGAR ALLAN POE
Criador de histórias extraordinárias
Eliane Robert Moraes
Vamos começar pelo final.
E, já que nosso tema é Edgar Allan Poe, vamos começar pelo mistério. A 27 de setembro de 1849, após jantar com alguns amigos em Richmond, Poe dirigiu-se ao cais da cidade. Por volta das quatro horas da madrugada, embarcou num navio para Baltimore e, ao que tudo indica, chegou a seu destino no dia seguinte. A viagem havia sido programada para ser bem rápida, pois ele estava de casamento marcado com a senhora Shelton, um antigo amor de juventude. Porém, de sua suposta chegada a Baltimore até o fatídico 7 de outubro, nada mais se pode afirmar com segurança.Dizem alguns que ele teria seguido para a Filadélfia e de lá para Nova York, onde planejava buscar uma velha tia para assistir à cerimônia do casamento. Outros afirmam que ele permaneceu a semana inteira em Baltimore e, embriagado, caiu nas mãos de uma quadrilha de falsários, que lhe teriam oferecido algum licor com drogas que colaborasse numa fraude eleitoral. São meras hipóteses. A única coisa certa é que a 3 de outubro o dr.James E. Snodgrass, velho amigo de Poe em Baltimore, recebeu uma carta assinada por um tal Walker, que dizia: "Há um cavalheiro, um tanto descomposto nas vestimentas, na rua Ward Polls, dizendo atender pelo nome Edgar A.Poe, que parece estar muito atormentada e diz ter conhecimento com o senhor, e eu asseguro que ele precisa de assistência urgente".Poe foi encontrado pelo amigo em estado de profundo desespero, largado numa taberna sórdida, de onde transportaram imediatamente para um hospital. Estava inconsciente e moribundo. Ali permaneceu, delirando e chamando repetidamente por um misterioso "Reynolds", até morrer, na manhã do domingo seguinte. Era 7 de outubro de 1849, e os Estados Unidos perdiam um de seus maiores escritores.O que terá acontecido a Poe naqueles últimos dias de vida ? Por onde terá perambulado ? Teria sido vítima da doença que mais temia e que lhe causava tanta aflição nos outros, a loucura? Um ataque súbito? Ou motivado pela ingestão de álcool e drogas? Sabe-se que, meses antes de sua morte, ele havia voltado a beber e andava a vagar pelos becos da Filadélfia. Foi salvo da prisão e tirado das ruas por amigos fiéis, que o ajudaram a voltar para Richmond. Essa errância, contudo, não foi característica apenas desse período, mas marcou toda a sua vida. Pode-se mesmo dizer que Edgar Allan Poe foi um errante desde o seu nascimento em Boston, a 19 de janeiro de 1809. Mais ainda: essa vida instável ele herdou de seus pais. David e Elizabeth Poe se conheceram no meio teatral, onde disputavam uma chance como atores. Casaram-se em 1806 e passaram a representar juntos, mas a carreira incerta e de pouco êxito dificultava o sustento dos filhos pequenos, William e Edgar. A situação agravou-se quando David abandonou a mulher doente e grávida da filha Rosalie, que nasceria em 1810. Elizabeth não resistiu à vida miserável que levavam e, abatida por uma doença fatal, morreu no ano seguinte.Edgar, então com dois anos, foi obrigado por um próspero negociante escocês que, embora casado, não tinha filhos. Nos primeiros anos de convivência com o sr. e a sra. John Allan - sobrenome que viria a adotar - , o menino teve um ambiente feliz e agradável. Viagens, boas escolas e carinho familiar marcaram essa convivência até aproximadamente seus quinze anos. Mas, por volta de 1824, começaram os primeiros conflitos, motivados pela constante irritabilidade do tutor. Os problemas financeiros de Allan e a saúde precária da mulher foram os pretextos para os ataques contra Edgar, sempre ressaltando a situação de caridade do menino, que nunca fora oficialmente adotado. Clima tenso e difícil para um jovem poeta que sonhava com a carreira literária.
Entre o jornalismo e a literatura
Aos dezessete anos, Edgar matriculou-se na Universidade de Virgínia, onde, em pouco tempo, ficou conhecido por suas qualidades intelectuais e seu desempenho nos esportes. Mas não só por isso: nessa época, ele também descobriu a bebida e os jogos de azar, o que rapidamente resultou numa reputação duvidosa e em dívidas bem maiores do que poderia assumir. As relações com Allan se tornaram então mais tensas, obrigando Poe a deixar a universidade e a ausentar-se de casa constantemente, numa vida instável que se complicaria ainda mais com a morte da mãe de criação, em 1829. Allan morreu seis anos depois, excluindo Edgar de seu testamento.Nada disso, contudo, parecia impedi-lo de escrever: mal completou vinte anos, publicou seu segundo livro de poemas; três anos mais tarde, ganhou o concurso de contos promovido pelo The Saturday Visitor, um jornal de Baltimore. "Manuscrito encontrado numa garrafa" foi seu primeiro êxito no mundo das letras, rendendo-lhe um cheque de cinqüenta dólares e um emprego no Southern Literary Messenger, periódico literário de Richmond. Ali trabalhou escrevendo todo tipo de texto, de poemas e resenhas de livros, de contos a notícias do mundo literário. Em 1837, quando decidiu abandonar o emprego, a circulação do jornal aumentara de setecentos para três mil e quinhentos exemplares, fazendo do Messenger o periódico mais influente do Sul. Esse desempenho notável iria repetir-se nos outros jornais onde trabalharia: tendo assumido a editoria do Graham`s Magazine da Filadélfia em 1840, em pouco mais de um ano as assinaturas saltaram de cinco mil para quarenta mil! Apesar disso, Poe fracassou nas tentativas de montar e editar um jornal próprio. Um sonho que acalentou durante toda a vida, sendo, em parte, responsável por suas inúmeras mudanças de emprego e endereço.É verdade que a saúde frágil de sua mulher também contribuiu para essa inconstância. Edgar casou-se com a prima Virgínia Clemm em 1835. A menina, então com apenas treze anos, passou a acompanhá-lo pelas andanças à procura de melhores oportunidades, até que os primeiros sinais de tuberculose se manifestaram. Daí para a frente, a saúde de Virgínia piorou na mesma proporção que as dificuldades financeiras do casal, e a freqüência das hemorragias veio a exigir constantes mudanças da cidade para o campo. Faltavam recursos de todo o tipo para que ela pudesse tratar-se. O rigor do inverno, aliado à miséria da família, levou a sra. Poe à morte em 1847, deixando o marido desconsolado.
Suspense, terror e aventura
Certos fatos da vida de Poe, assim como o seu misterioso fim, parecem estabelecer um estranho nexo com sua obra. A morte, o medo e a dor sempre foram seus temas prediletos. Seus principais personagens são solitários, sensíveis, tristonhos e até beiram a loucura. Os cenários são os mais sombrios: cemitérios, subterrâneos, torres inacessíveis e navios fantasmas. Seus contos parecem concentrar uma força irracional e maligna à qual todo ser humano está condenado, como se o terror estivesse não só nos ambientes sinistros, mas dentro de cada um de nós.Aficionado por esses temas, aos trinta anos já tinha publicado três livros de poemas, uma coletânea de vinte e cinco contos (entre eles obras-primas do terror como "A queda da Casa de Usher" e "Ligéia") e o romance de aventuras A narrativa de Arthur Gordon Pym. Foi nesse período que ele começou a se dedicar às histórias de raciocínio e dedução, escrevendo o famoso conto "Os crimes da rua Morgue"e outras narrativas policiais.
Estava fundando a moderna "novela de detetive".
Algumas dessas histórias têm como personagem principal o francês Auguste Dupin, um nobre falido e excêntrico cuja única diversão na vida é passar noites e noites elucubrando sobre assassinatos misteriosos. Graças a complicadíssimos raciocínios, ele consegue desvendar "crimes perfeitos", considerados insolúveis pelo comissário de polícia. Tudo o que era misterioso atraía Edgar Allan Poe. Solucionar mistérios era, para ele, uma obsessão. Quando trabalhava no Graham`s Magazine, costumava desafiar os leitores a lhe enviarem criptogramas ( mensagens cifradas), que, por mais difíceis que fossem, jamais ficavam sem resolução. Nessa época, ele publicou "O escaravelho de ouro", história de mistério que gira em torno de um desses enigmas. O conto rendeu-lhe um prêmio de cem dólares e uma circulação de trezentos mil exemplares.A partir daí, consolidou-se a fama de Poe como escritos de contos policiais e histórias arrepiantes. Alguns anos mais tarde, ele viria a ser reconhecido também como grande poeta: em 1845, a publicação do poema "O corvo" provocou furor no meio literário americano. Esse sucesso ecoou na Europa, encantando os franceses e merecendo especial atenção de Baudelaire. O poeta francês não poupou elogios ao americano: "Nenhum homem soube narrar com mais magia as exceções da vida humana e da própria natureza".Contudo, a fama em nada facilitou a vida de Poe. Do ponto de vista financeiro, a literatura era péssimo negócio. Direitos autorais baixíssimos e ainda calculados sobre o preço desprezível dos livros. O escritor viveu sempre em condições muito precárias; com a morte de Virginia, parece que tudo se tornou ainda mais difícil. Sofreu um colapso físico e mental, passando a recorrer mais à bebida e, com certa freqüência, ao ópio. Meses após a publicação de seu décimo e último livro, Eureka, Poe chegou mesmo a tentar suicídio, ingerindo grande quantidade de láudano.Se o envenenamento não o matou, teve conseqüências tristes, como um ataque de paralisia facial.Segue-se a esses episódios uma fase extremamente atormentada, complicada por fracassos amorosos e profissionais. Quando enfim parecia ter encontrado um pouco de paz, ao voltar para Richmond e reatar com Sarah Shelton, acontecimentos nebulosos vieram desviá-lo do caminho. O resto da história já sabemos. Aos quarenta anos, morre Edgar Allan Poe, deixando-nos dezenas de histórias fantásticas e um único mistério sem solução.
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