segunda-feira, 19 de julho de 2010

Análise da Psiquiatria - Dr. Freud


ROTEIRO.
1-Introdução.
2- Uma breve cronologia da época de Freud.
3- Fragmentos da Pré-história dos sonhos.
4- Fragmentos da Teoria de Interpretação dos Sonhos.
5- Sonhos transcritos de um livro com a interpretação dada. Retirados do livro Interpretação dos Sonhos - Freud.
5.1- Relato de Freud de um sonho de um adulto.
5.2- Relato de Freud de um sonho de uma criança.
5.3- Relato de Freud de um sonho de uma senhora.
6- Relato de um sonho com a interpretação dada, acrescentando minha interpretação.
6.1-O segundo sonho de Dora (Freud, Obras Psicológicas Completas - Volume VII).
6.2-Complemento da interpretação de Freud realizado baseado na discussão do caso.
7-Apresente um sonho de um paciente ou de uma pessoa conhecida dando uma interpretação.
8-Apresente um sonho seu com a devida interpretação.
8.1- Um sonho que eu tive com a minha interpretação.
9-O significado simbólico dos sonhos e as origens dos nomes.
9.1-O significado simbólico dos sonhos.
9.2- Origens dos nomes.
10-Bibliografia.


1-INTRODUÇÃO.
“O sonho é a estrada real que conduz ao inconsciente”, escreveu Freud em sua obra-prima A Interpretação dos Sonhos (Die Traumdeutung) . O livro levou dois anos (1898 e 1899) para ser escrito e nele Freud edificou os principais fundamentos da teoria psicanalítica , constituindo como o ponto de apoio para todo o desenvolvimento posterior da sua obra.. Para Freud, a essência do sonho é a realização de um desejo infantil reprimido. E foi a partir desse princípio que ele elaborou as bases do método psicanalítico.
Antes de Freud, os sonhos eram considerados apenas símbolos, analisados como se fossem premonições ou manifestações divinas. Freud , por meio da análise dos sonhos, mostrou a existência do inconsciente e transformou algo tido pela ciência como o lixo do pensamento, no caso os sonhos, em um instrumento revelador da personalidade humana. Os sonhos mostram uma clara preferência pelas impressões dos dias imediatamente anteriores. Têm à sua disposição as impressões mais primitivas da nossa infância e até fazem surgir detalhes desse período de nossa vida que, mais uma vez, parecem-nos triviais e que, em nosso estado de vigília, acreditamos terem caído no esquecimento há muito tempo.
Para que um sonho seja interpretado é necessário que não tentemos entendê-lo de uma só vez, na sua totalidade, pois devido a ser formado no inconsciente só existe afetos e fragmentos da realidade, logo muito confuso no primeiro momento. Devemos dividi-lo em partes de acordo com o contexto do paciente e vamos decifrando-o lentamente sem adotar um critério cartesiano, pois o mesmo fragmento de um conteúdo pode ocultar um sentido diferente quando ocorre em várias pessoas ou em situações diferentes.
O sonho é justamente o fenômeno da vida psíquica normal em que os processos inconscientes da mente são revelados de forma bastante clara e acessível ao estudo. Na concepção freudiana, o sonho é um produto da atividade do Inconsciente e que tem sempre um sentido intencional, a saber: a realização ou a tentativa de realização - mais ou menos dissimulada, de uma tendência reprimida. Assim, os sonhos revelam a verdadeira natureza do homem, embora não toda a sua natureza, e constituem um meio de tornar o interior oculto da mente acessível a nosso conhecimento.
O sonho e as histéricas iniciam a psicanálise, dão-lhe, com Freud, o sopro inicial. Na Teoria dos Campos, é claro, também se pensa o sonho. Despertos, nossos atos, idéias, sentimentos arranjam-se segundo as linhas de força que, ao dormir, emergirão como um episódio onírico. Nossa identidade, com seus “Eus” em diálogo ou disputa, é composta de enredos que melhor se apreciam nos sonhos. As personagens de tais enredos povoam também nossa realidade, esgueirando-se entre os objetos do dia a dia, encarnando-se num amigo, numa pessoa que nos desperta a paixão, em nós mesmos. Sonho após sonho se fazem presentes; até que um desses nos permita interpretar seu sentido e despertar do sonho em que estávamos imersos.
O sonho pode deixar-nos tocar a rosa que vemos — e, ainda assim, estaremos sonhando. Existe um critério para determinar se estamos sonhando ou acordados, e esse é o critério puramente empírico do fato de acordarmos. Tudo o que experimentamos entre adormecer e acordar é ilusório quando, ao despertar, verificamos que estamos deitados na cama. Durante o sono, tomamos as imagens oníricas por imagens reais graças ao nosso hábito mental (que não pode ser adormecido) de supor a existência de um modo externo com o qual estabelecemos um contraste com o nosso ego.
Assim sendo, a interpretação dos sonhos desvela, sobretudo, os conteúdos mentais, pensamentos, dados e experiências que foram reprimidos ou recalcadas, excluídos da consciência pelas atividades de defesa do ego e superego e enviadas para o inconsciente. A parte do id cujo acesso à consciência foi impedido, é exatamente a que se encontra envolvida na origem das neuroses. Portanto, o interesse de Freud pelos sonhos teve origem no fato de constituírem eles processos normais, com os quais todos estão familiarizados, mas que exemplificam processos atuantes na formação dos sintomas neuróticos. Surge o sonho, via de regra, numa zona congestionada do entrelaçamento dos campos, de onde resulta que seu conteúdo exprima regras atinentes a distintos temas psíquicos simultaneamente; por isso não possui um só sentido latente, mas uma rede de significações emocionais, o sonho é um momento diagnóstico por excelência, identifica o sujeito.
Não é absurdo pedir explicações e associações ao paciente que conta um sonho, quer dizer, tratar o sonho como episódio distinto e fenômeno isolável. Faça isso quando achar oportuno, mas não se esqueça que a forma pela qual o sonho foi narrado e o conjunto inteiro das idéias que o cercam, ainda e sobretudo se não lhe parecem conectadas, são associações também, potencialmente. Com o sonhador, o analista sonha empaticamente, deixando-se levar pela iluminação que o sonho propicia, sem pressa, esperando que a precipitação insemine-lhe as idéias, para poder operar no mesmo ritmo do campo onírico.
O sonho é uma defesa do sono, a isso pode acrescentar-se que o sonho aberto, essa história visual que se vive de noite e se conta de dia, é a oportunidade para sair de um sonho, da surda corrente subterrânea dos temas de que o sonho trata, cuja lógica preside ocultamente a vigília, até que se possa manifestar num episódio constituído, ganhando estatuto de consciência. Segundo Freud, não existe nenhum fundamento nos fatos de que os sonhos tem o poder de adivinhar o futuro e nos sonhos não existem sentimentos morais.
Como existe uma forte tendência a se esquecer um sonho, por obra da resistência, e quase todos assim se perdem, a função do analista é também de recordação. Ele tem a função de manter o sonho à tona por um tempo mais longo do que espontaneamente se daria e por acompanhar seu movimento de disseminação e nova concentração, e não é uma tarefa fácil, pois em nós também operam resistências.


2- UMA BREVE CRONOLOGIA DA ÉPOCA DE FREUD.
1856 - Em 6 de maio nasce Sigmund Freud, o fundador da psicanálise e autor da obra A Interpretação dos Sonhos, na cidade Freiberg, Morávia (hoje Pribor), na atual República Tcheca, então parte do Império Austríaco. Filho de Jacob Freud, comerciante de lãs, e de Amalia Nathanson, sua terceira esposa, é registrado com o nome Schlomo Sigismund. Aos 22 anos ele muda o prenome para Sigmund.
1873 - Freud ingressa na Universidade de Viena para estudar medicina. Forma-se oito anos depois. Nasce o psiquiatra e psicanalista húngaro Sandor Ferenczi, que virá a ser o discípulo preferido de Freud e também o clínico mais talentoso da história do freudismo. Nasce também Juliano Moreira, médico baiano que, depois de se formar em psiquiatria dinâmica na Europa, será um dos introdutores das idéias freudianas no Brasil.
1875 - Nasce o psiquiatra suíço e fundador da psicologia analítica Carl Gustav Jung. Fundador da escola de psicoterapia, especialista em psicoses e interessado pelo orientalismo, sua obra será tão abundante quanto a de Freud.
1876 - Freud desenvolve trabalhos em neurologia e fisiologia.
1879 - Nasce o psiquiatra e psicanalista inglês Ernest Jones, de grande importância para a história política do freudismo. Será o fundador da psicanálise na Grã-Bretanha e criador do Comitê Secreto, círculo formado por discípulos de Freud para discussões de temas ligados à psicanálise. Pioneiro da historiografia psicanalítica e da tradução inglesa da obra freudiana. Terá uma longa correspondência de 671 cartas com Freud. Fará um grande trabalho de implantação das idéias freudianas no Canadá e nos EUA.
1882 - É criada uma cátedra de clínica de doenças nervosas, da qual o médico e fisiologista francês Jean Martin Charcot é o titular. A neurologia passa assim a ser reconhecida como uma disciplina autônoma pela primeira vez. Charcot, ligado à história da histeria, da hipnose e das origens da psicanálise, é o último grande representante da psiquiatria dinâmica.
1885 - Freud viaja a Paris para iniciar um estágio com Charcot. Este terá papel fundamental na formação do jovem Sigmund. As várias cartas que trocaram estão traduzidas no livro "Lições da terça-feira".
1886 - Freud volta a Viena, onde se estabelece como médico e dirige o Departamento de Neurologia, primeiro instituto público para crianças. Entre 1886 e 1890 exerce medicina como especialista em doenças nervosas. Freud se casa com Martha Bernays, com quem terá 6 filhos. Anna Freud, a filha mais velha, se tornará psicanalista e fundará sua própria corrente. No ano seguinte, inicia estudos com hipnose.
1892 - Freud elabora o método das associações livres (técnica usada pela psicanálise na qual o paciente deve esforçar-se a dizer tudo que lhe vier à cabeça, principalmente aquilo que ele se sinta tentado a omitir).
1893 - Início da correspondência entre Freud e Wilhelm Fliess, seu amigo íntimo e médico voltado a estudos relacionados à sexualidade. A correspondência entre eles terá uma enorme importância no desenvolvimento de teoria psicanalítica de Freud. Charcot morre neste ano.
1895 - Publica com Josef Breuer Estudos sobre a Histeria. Freud faz a primeira interpretação de um sonho seu: "A injeção de Irma", que parece ser a encenação de um romance familiar das origens e da história da psicanálise.
1896- Surge pela primeira vez o termo psicanálise, para nomear um método específico da psicoterapia. No mesmo ano, a correspondência entre Fliess e Freud apresenta a expressão "aparelho psíquico" e seus três componentes: consciente, pré-consciente e inconsciente.
1897 - Através de correspondência com Wilhelm Fliess, Freud inicia o que ele chamaria de sua auto-análise. Freud escreve a Fliess dizendo que está abandonando a teoria da sedução, segundo a qual a principal causa das neuroses são os traumas causados nas crianças pelos adultos. Freud começa a redigir A Interpretação dos Sonhos. Primeira interpretação de Freud da tragédia de Édipo Rei, de Sófocles.
1899 - Publicação de A Interpretação dos Sonhos, de Freud (sua edição, porém, é datada de 1900).
1900 - Nasce o médico fundador da Sociedade Brasileira de Psicanálise, Durval Ballegardi Marcondes. Marcondes toma conhecimento das obras de Freud aos 20 anos.
1901 - Nasce o psiquiatra e psicanalista francês Jacques Lacan, responsável por reformular a obra freudiana, dando-lhe um caráter mais filosófico e tirando-lhe o substrato biológico. Lacan elaborará inúmeros conceitos (imaginário, simbólico, real, significante, sujeito, psicologia dos povos) que enriquecerão as formulações clínicas. Será considerado o único verdadeiro mestre psicanalista da França.
1902 - Criada a primeira sociedade psicanalista do mundo, em Viena, com o nome de Sociedade Psicológica das Quartas-Feiras.
1903 - Freud analisa uma criança de 5 anos. É a primeira psicanálise feita em crianças.
1906 - Início das correspondências entre Freud e Jung. Amigo e discípulo de Freud até 1913, Jung estabelece com ele uma forte correspondência que chegou a 359 cartas. Jung já tinha uma concepção de inconsciente e do psiquismo quando decidiu se aproximar de Freud. O que o levou ao pai da psicanálise foi o fascínio por uma obra na qual acreditava encontrar a confirmação de suas hipóteses sobre as idéias fixas subconscientes, as associações verbais e os complexos.
1907 - Jung cria a Sociedade Freud em Zurique. Mais tarde, esta se torna a Associação Psicanalítica de Zurique.
1908 - Sandor Ferenczi visita Freud pela primeira vez, depois de ler A Interpretação dos Sonhos. A partir deste encontro, trocam cerca de 1.200 cartas durante 25 anos. Acontece o Primeiro Congresso Internacional de Psicanálise em Salzburgo, com o título: "Encontro dos psicólogos freudianos". Neste congresso, em que 42 membros de 6 países estiveram presentes, Freud encontra-se com Ernest Jones pela primeira vez. Acontece também o Primeiro Congresso sobre Psicanálise em Salzburgo, Áustria. Hermine von Hug-Hellmuth se torna a primeira mulher psicanalista de crianças.
1910 - Criada a a International Psychoanalytical Association (IPA), no II Congresso Internacional de Psicanálise de Nuremberg, sendo Carl Jung eleito seu primeiro presidente. A IPA virá a ser uma organização internacional responsável por reunir as sociedades de diferentes países. O médico chileno German Greve apresenta as teses freudianas pela primeira vez na América Latina, em um congresso de medicina em Buenos Aires.
1912 - Ernest Jones cria a American Psycoanalytic Association (APsaA).
1913 - Início do conflito entre Jung e Freud, após Jung tentar convencer Freud a dessexualizar sua doutrina. O conflito resultará, mais tarde, na ruptura definitiva entre eles.
1920 - A filha mais velha de Freud, Sofia, veio a falecer e depois o seu neto, filho de Sofia.
1921 - No Brasil, em São Paulo, Durval Marcondes começa a se orientar para a psicanálise.
1923 – Costata um câncer no maxilar de Freud, o que o leva a 33 cirurgias e a perder o maxilar superior, tendo de instalar aí uma prótese para separar a boca. Primeira difusão das obras de Freud em espanhol na América Latina. Publica O Ego e o Id. Surgem os primeiros sinais de câncer de boca.
1924 - A Sociedade Psicanalítica de Moscou passa a ser filiada à IPA, apesar de não receber o apoio de Ernest Jones. A filiação é defendida por Freud desde 1922.
1925 - Instauram-se as regras da psicanálise didática, que devem ser seguidas por todos os integrantes da IPA. Freud publica a sua auto-biografia.
1927 - Durval Marcondes e Franco da Rocha criam, em São Paulo, a Sociedade Brasileira de Psicanálise, a primeira sociedade freudiana da América Latina. Inicia-se o conflito entre europeus e americanos quanto à admissão de não-médicos na IPA.
1928 - O conflito leva à fundação da Associação Médica de Psicanálise em Paris, reservada apenas aos médicos. A Associação jamais se filiará à IPA. Publicação da primeira revista brasileira de psicanálise, sob responsabilidade de Durval Ballegardi.
1929 - A Sociedade Brasileira de Psicanálise é admitida na IPA.
1933-1939 - A terminologia freudiana é banida do vocabulário da psiquiatria e da psicologia da Alemanha. A psicanálise é considerada como uma ciência judaica. Neste período há uma grande emigração de psicanalistas alemães para a Argentina, Inglaterra e Estados Unidos. Os livros de Freud são queimados na Alemanha.
1934 - Jung é denunciado por excluir judeus de uma sociedade composta por psiquiatras e psicoterapeutas. É o início da polêmica da adesão de Jung ao nazismo.
1935 - Muitos titulares judeus de sociedades de psicanálise têm que se demitir para "salvar a psicanálise na Alemanha".
1936 - Adelheid Lucy Koch vem ao Brasil. Ela é a primeira psicanalista didática, responsável por iniciar Durval Marcondes e outros na psicanálise. Também contribuirá para que a Sociedade Brasileira de Psicanálise seja reconhecida pela IPA.
1938 - Fugindo do nazismo, fixa residência em Londres com a esposa e filhos. Com a ascensão do nazismo, os seus livros são queimados em praça pública. Os nazistas revistam sua casa e levam seus objetos de coleção de antiguidades.
1939 - Em 23 de setembro, Freud morre de um câncer de mandíbula, do qual padeceu durante 16 anos.
Depois deste período ocorrem muitas controvérsias, resultando no desdobramento da psicanálise em várias correntes. Até 1997, o freudismo estaria implantado em 41 países do mundo. O país que mais possui psicanalistas por habitante é a França, seguido pela Argentina, a Suíça, os Estados Unidos e o Brasil.


3-FRAGMENTOS DA PRÉ-HISTÓRIA DOS SONHOS.
A visão pré-histórica dos sonhos sem dúvida ecoou na atitude adotada para com os sonhos pelos povos da Antiguidade clássica. Eles aceitavam como axiomático que os sonhos estavam relacionados com o mundo dos seres sobre-humanos nos quais acreditavam, e que constituíam revelações de deuses e demônios. Não havia dúvida, além disso, de que, para aquele que sonhava, os sonhos tinham uma finalidade importante, que era, via de regra, predizer o futuro. A extraordinária variedade no conteúdo dos sonhos e na impressão que produziam dificultava, todavia, ter deles qualquer visão uniforme, e tornava necessário classificá-los em numerosos grupos e subdivisões conforme sua importância e fidedignidade. A posição adotada perante os sonhos por filósofos isolados na Antiguidade dependia, naturalmente, até certo ponto, da atitude destes em relação à adivinhação em geral.
Nas duas obras de Aristóteles que versam sobre os sonhos, ele já se tornaram objeto de estudo psicológico. Informam-nos as referidas obras que os sonhos não são enviados pelos deuses e não são de natureza divina, mas que são “demoníacos”, visto que a natureza é “demoníaca”, e não divina. Os sonhos, em outras palavras, não decorrem de manifestações sobrenaturais, mas seguem as leis do espírito humano, embora este, é verdade, seja afim do divino. Definem-se os sonhos como a atividade mental de quem dorme, na medida em que esteja adormecido.
Aristóteles estava ciente de algumas características da vida onírica. Sabia, por exemplo, que os sonhos dão uma construção ampliada aos pequenos estímulos que surgem durante o sono. “Os homens pensam estar caminhando no meio do fogo e sentem um calor enorme, quando há apenas um pequeno aquecimento em certas partes.” E dessa circunstância infere ele a conclusão de que os sonhos podem muito bem revelar a um médico os primeiros sinais de alguma alteração corporal que não tenha sido observada na vigília.
Antes da época de Aristóteles, como sabemos, os antigos consideravam os sonho não como um produto da mente que sonhava, mas como algo introduzido por uma instância divina; e, já então, as duas correntes antagônicas que iremos encontrar influenciando as opiniões sobre a vida onírica em todos os períodos da história se faziam sentir. Traçou-se a distinção entre os sonhos verdadeiros e válidos, enviados ao indivíduo adormecido para adverti-lo ou predizer-lhe o futuro, e os sonhos vãos, falazes e destituídos de valor, cuja finalidade era desorientá-lo ou destruí-lo.
Nos sonhos está a verdade: nos sonhos aprendemos a conhecer-nos tal como somos, a despeito de todos os disfarces que usamos perante o mundo, sejam eles enobrecedores ou humilhantes. O homem honrado não pode cometer um crime nos sonhos, ou, se o fizer, ficará tão horrorizado com isso como com algo contrário à sua natureza. Um imperador romano poderia condenar à morte um homem que sonhara ter assassinado o governante pois estaria justificado em fazê-lo, se raciocinasse que os pensamentos que se têm nos sonhos também se têm quando em estado de vigília. A expressão corriqueira ‘eu nem sonharia em fazer tal coisa’ tem um significado duplamente correto, quando se refere a algo que não pode encontrar guarida em nosso coração nem em nossa mente. Platão, ao contrário, considerava que os melhores homens são aqueles que apenas sonham com o que os outros fazem em sua vida de vigília.
“É impossível pensar em qualquer ato de um sonho cuja motivação original não tenha passado, de um modo ou de outro — fosse como desejo, anseio ou impulso —, através da mente desperta.” Devemos admitir, prossegue Hildebrandt, que esse impulso original não foi inventado pelo sonho; o sonho simplesmente o copiou e desdobrou, meramente elaborou de forma dramática um fragmento de material histórico que encontrou em nós; meramente dramatizou as palavras do Apóstolo: “Todo aquele que odeia seu irmão é assassino.” [1 João 3, 15.] E embora, depois de acordarmos, conscientes da nossa força moral, possamos sorrir de toda a elaborada estrutura do sonho pecaminoso, mesmo assim o material original de que derivou a estrutura não conseguirá despertar um sorriso. Sentimo-nos responsáveis pelos erros do sonhador — não por sua totalidade, mas por uma certa percentagem. “Em suma, se compreendemos, nesse sentido quase incontestável, as palavras de Cristo, de que ‘do coração procedem os maus pensamentos’ [Mateus 15, 19], dificilmente escaparemos à convicção de que um pecado cometido num sonho traz em si pelo menos um mínimo obscuro de culpa.
Robert descreve os sonhos como “um processo somático de excreção do qual nos tornamos cônscios em nossa reação mental a ele”. Os sonhos são excreções de pensamentos que foram sufocados na origem. “Um homem privado da capacidade de sonhar ficaria, com o correr do tempo, mentalmente transtornado, pois uma grande massa de pensamentos incompletos e não elaborados e de impressões superficiais se acumularia em seu cérebro e, por seu grande volume, estaria fadada a sufocar os pensamentos que deveriam ser assimilados em sua memória como conjuntos completos.” Os sonhos servem de válvula de escape para o cérebro sobrecarregado. Possuem o poder de curar e aliviar.
Até meados do século XIX, os sonhos eram interpretados de acordo com os códigos das tradicionais "Chaves dos sonhos" que os viam como uma previsão do futuro. Seria necessária a intuição de alguns médicos alienistas e a audácia de alguns escritores para pressentir que o sonho fala sonhador sobre ele próprio. Mas antes de Freud, o conteúdo da mensagem permanecia indecifrável.
Por seu título e conteúdo, onde os sonhos são vistos como uma linguagem premonitória sobrenatural, ele se inscreve numa leitura tradicional do onírico. No passado, a leitura encontra sua fonte na crença de que os sonhos são enviados por Deus, pouco a pouco colado a uma dimensão mágica (na melhor das hipóteses) ou satânica (na pior). A etimologia da palavra "cauchemar" (pesadelo) é reveladora desse deslocamento, "cocher" significa em francês arcaico "chevaucher" (cavalgar): o corpo do sonhador possuído pelo pesadelo é cavalgado pelos demônios. Incluído nesse feixe de superstições, o sonho é estranho ao sonhador, ele é enviado por um "outro", cuja identidade não é nunca conhecida. Ele tem o papel de mensageiro que força a olhar o futuro através de seu prisma.
Esta vitalidade de práticas ligadas à superstição revela certa inércia de idéias. Ela prova um desconhecimento completo da natureza do imaginário noturno. Só a reflexão teológica sobre a responsabilidade moral do sonhador (assaltado de maus pensamentos ou de imagens eróticas que provocam ejaculações noturnas) tem o mérito de relacionar o indivíduo e o sonho que ele forma, tão estranhos um ao outro nas crenças populares.
Quanto ao povo, este recorre aos ciganos, que eram perseguidos por ler os sonhos e punidos pelo código penal com uma multa de onze a quinze francos e prisão de cinco dias em caso de reincidência.
No entanto, a moda da oniromancia declina na segunda metade do século. Várias razões podem, com cautela, ser levantadas. A mestiçagem das populações sob o efeito da revolução industrial e o êxodo rural que se segue contribuem para cortar a ligação com as crenças ancestrais. O progresso da instrução trabalha para desenraizar as superstições. A descristianização e recristianização contribuem ambas para matar a figura de Satã e seus acólitos.
Por fim, todo um arsenal legislativo reforça a proibição de interpretar sonhos suscetíveis de favorecer os delírios de grandeza e as revoltas. As adivinhadoras perdem assim seu mistério: elas não são mais perseguidas por exercício de bruxaria, mas por abuso de confiança. Uma precaução política que priva o sonho de toda qualidade sobrenatural, sem, por isso, lhe fornecer uma nova identidade.
Através da droga, atingir o sonho, uma escapada bem voluptuosa. Mas também se trata de ultrapassar a condição humana e alimentar a criação. "O haxixe será, para as impressões e os pensamentos familiares do homem, um espelho exacerbador, mas um puro espelho", escreve Baudelaire. A precisão da transcrição nos diários, as trocas epistolares, exprimem o interesse profundo e crescente pelo onírico. Essas narrativas desenham um caminho que leva à descoberta do inconsciente, mas ela é lenta pois vai de encontro às resistências cristalizadas em torno da suscetibilidade narcísica do sonhador.
Freud no livro A Interpretação dos Sonhos relatou, “É difícil escrever uma história do estudo científico dos problemas dos sonhos porque, por mais valioso que tenha sido esse estudo em alguns pontos, não se pode traçar nenhuma linha de progresso em qualquer direção específica. Não se lançou nenhum fundamento de descobertas seguras no qual um pesquisador posterior pudesse edificar algo; ao contrário, cada novo autor examina os mesmos problemas de novo e recomeça, por assim dizer, do início.”.


4-FRAGMENTOS DA TEORIA DE INTERPRETAÇÃO DOS SONHOS.
Foi no decorrer dos estudos psicanalíticos que Freud se deparou com a interpretação dos sonhos. Seus pacientes assumiram o compromisso de lhe comunicar todas as idéias ou pensamentos que lhes ocorressem em relação a um assunto específico, e entre outras coisas, narravam os seus sonhos. Assim ensinaram a Freud que o sonho pode ser inserido na cadeia psíquica a ser retrospectivamente rastreada na memória a partir de uma idéia patológica. Freud disse que todo psicólogo é obrigado a confessar até mesmo suas próprias fraquezas, se acreditar que assim lança luz sobre algum problema obscuro.
Enquanto Freud tratava Frau Emmy von N., em 1889-1890, descobriu que ela apresentava espontaneamente os seus sonhos um material descritivo significativo. Tendo já descoberto a transferência, a resistência e a necessidade de um ego autônomo em terapia, Freud abandonou a hipnose, que criava distorções e adicionava complicações a esses fatores essenciais, e voltou-se para a livre associação e o método que conhecemos como psicanálise. Freud usou então o sonho como ponto de partida para associações que, em última instância, conduziam até as idéias inconscientes que se ocultavam atrás de sintomas e sonhos e eram responsáveis por ambos. Pela primeira vez, o significado dos sonhos era cientificamente abordado.
Todo material que compõe o conteúdo de um sonho é derivado, de algum modo, da experiência, ou seja, foi reproduzido ou lembrado no sonho. É possível que surja, no conteúdo de um sonho, um material que, no estado de vigília, não reconheçamos como parte de nosso conhecimento de nossa vigília, ou de nossa experiência. Lembramo-nos, naturalmente, de ter sonhado com a coisa em questão, mas não conseguimos lembrar se, ou quando, a experimentamos na vida real. Ficamos assim em dúvida quanto à fonte a que recorreu o sonho e sentimo-nos tentados a crer que os sonhos possuem uma capacidade de produção independente. Então, finalmente, muitas vezes após um longo intervalo, alguma nova experiência relembra a recordação perdida do outro acontecimento e, ao mesmo tempo, revela a fonte do sonho. Somos assim levados a admitir que, no sonho, sabíamos e nos recordávamos de algo que estava além do alcance de nossa memória de vigília.
As emoções profundas da vida de vigília, as questões e os problemas pelos quais difundimos nossa principal energia mental voluntária, não são os que costumam se apresentar de imediato à consciência onírica. No que diz respeito ao passado imediato, são basicamente as impressões corriqueiras, casuais e `esquecidas’ da vida cotidiana que reaparecem em nossos sonhos. As atividades psíquicas mais intensamente despertas são as que dormem mais profundamente. Isso nos chama a atenção para o fato de os afetos nos sonhos não poderem ser julgados da mesma forma que o restante de seu conteúdo; e nos confrontamos com o problema de determinar que parte dos processos psíquicos que ocorrem nos sonhos deve ser tomada como real, isto é, que parte tem o direito de figurar entre os processos psíquicos da vida de vigília.
Existem quatro tipos de fontes de sonho:
1-Excitações sensoriais externas (objetivas): todo ruído indistintamente percebido provoca imagens oníricas correspondentes (ex.: trovoada, cantar de um galo, etc.…); sensações de frio, calor, etc.…(ex.: vontade de urinar, partes do corpo descobertas, etc..).
2-Excitações sensoriais internas (subjetivas) dos órgãos dos sentidos: excitações subjetivas da retina, alucinações hipnagógicas ou fenômenos visuais imaginativos.
3-Estímulos somáticos internos (orgânicos): distúrbios dos órgãos internos (ex.: causa sonhos de angústia)
4-Fontes psíquicas de estimulação : material importante para chegar no inconsciente, necessário para o tratamento psicanalítico.
Existem diversas causas para o nosso esquecimento dos sonhos. Geralmente esquecemos o que ocorre somente uma vez. Temos dificuldade em se lembrar o que é desordenado e confuso. Não damos importância significativa aos nosso sonhos. Consideramos o sonho algo enigmático e inexplicado.
Embora seja verdade que os sonhos devem uma parte do seu conteúdo ao evento mental corrente, o resíduo do dia não é suficiente para produzí-los. Um sonho só se forma quando o evento corrente estabelece contato com um impulso do passado, especificamente com um desejo infantil. A experiência subjetiva que aparece na consciência durante o sono e que, após o despertar, chamamos de sonho, é apenas o resultado final de uma atividade mental inconsciente durante esse processo fisiológico que, por sua natureza ou intensidade, ameaça interferir com o próprio sonho. Ao invés de acordar, a pessoa sonha. Dormimos porque sonhamos em vez de sonhamos porque dormimos.
Os sonhos das crianças pequenas são freqüentemente pura realização de desejos e são, nesse caso, muito desinteressantes se comparados com os sonhos dos adultos. Não levantam problemas para serem solucionados, mas, por outro lado, são de inestimável importância para provar que, em sua natureza essencial, os sonhos representam realizações de desejos. É possível que os sonhos aflitivos e os sonhos de angústia nos adultos, uma vez interpretados, revelem-se como realizações de desejos.
O sonho é a realização de um desejo, um temor realizado, uma reflexão ou uma lembrança. O sonho de conveniência, satisfaz seus desejos e necessidades. A transformação de representações em alucinações não é o único aspecto em que os sonhos diferem de pensamentos correspondentes na vida de vigília. Os sonhos constroem uma situação a partir dessas imagens; representam um fato que está realmente acontecendo, eles “dramatizam” uma idéia. Mas essa faceta da vida onírica só pode ser plenamente compreendida se reconhecermos, além disso, que nos sonhos — via de regra, pois há exceções que exigem um exame especial — parecemos não pensar, mas ter uma experiência: em outras palavras, atribuímos completa crença às alucinações. Somente ao despertarmos é que surge o comentário crítico de que não tivemos nenhuma experiência, mas estivemos apenas pensando de uma forma peculiar, ou, dito de outra maneira, sonhando. É essa característica que distingue os verdadeiros sonhos do devaneio, que nunca se confunde com a realidade.
Vamos ver um exemplo de sonho de desejo interpretado por Freud : Aventurei-me a interpretar — sem nenhuma análise, mas apenas por meio de um palpite — um pequeno episódio ocorrido com um amigo meu que freqüentara a mesma classe que eu durante todo o nosso curso secundário. Um dia, ele ouviu uma palestra que proferi perante um pequeno auditório sobre a idéia inédita de que os sonhos eram realizações de desejos. Foi para casa e sonhou que perdera todos os seus casos (ele era advogado), e depois me contestou nesse assunto. Fugi à questão, dizendo-lhe que, afinal de contas, não se podem ganhar todos os casos. Mas pensei comigo mesmo: “Considerando que, por oito anos a fio, sentei-me no banco da frente como primeiro da classe, enquanto ele ficava ali pelo meio, ele dificilmente pode deixar de alimentar um desejo, remanescente de seus tempos de escola, de que mais dia menos dia, eu venha a me tornar um completo fracasso.”
O trabalho do sonho está sujeito a uma espécie de exigência de combinar todas as fontes que agiram como estímulos ao sonho numa única unidade no próprio sonho. Os sonhos nunca dizem respeito a trivialidades: não permitimos que nosso sono seja perturbado por tolices. Os sonhos aparentemente inocentes revelam ser justamente o inverso quando nos damos ao trabalho de analisá-los. A fonte de um sonho pode ser:
a) Uma experiência recente e psiquicamente significativa, que é diretamente representada no sonho.
b) Várias experiências recentes e significativas, combinadas numa única unidade pelo sonho.
c) Uma ou mais experiências recentes e significativas, representadas no conteúdo do sonho pela menção a uma experiência contemporânea, mas irrelevante.
d) Uma experiência significativa interna (por exemplo, um lembrança ou um fluxo de idéias), que é, nesse caso, invariavelmente representada no sonho por uma menção a uma impressão recente, irrelevante.
Os sonhos muito freqüentes, por terem como tema a frustração de um desejo ou a ocorrência de algo claramente indesejado, podem ser reunidos sob o título de “sonhos com o oposto do desejo”. Estes sonhos podem ser elaborados, quando um paciente se encontra num estado de resistência ao analista. O segundo motivo para os sonhos com o oposto do desejo está estabelecido em um componente masoquista na constituição sexual de muitas pessoas, que decorre da inversão de um componente agressivo e sádico em seu oposto, pois os sonhos desprazerosos são, ainda assim, realizações de desejos, pois satisfazem suas inclinações masoquistas. Após estas explicações chegamos a conclusão que o sonho é uma realização (disfarçada) de um desejo (suprimido ou recalcado.)
Os sonhos de angústia são abordados como uma subespécie particular dos sonhos de conteúdo aflitivo. A angústia neurótica se origina da vida sexual e corresponde à libido que se desviou de sua finalidade e não encontrou aplicação. Os sonhos de angústia são sonhos de conteúdo sexual cuja respectiva libido se transformou em angústia. É também instrutivo considerar a relação desses sonhos com os sonhos de angústia. Um desejo recalcado encontrou um meio de fugir à censura — e à distorção que a censura implica. O resultado invariável disso é que se experimentam sentimentos dolorosos no sonho. Da mesma forma, os sonhos de angústia só ocorrem quando a censura é total ou parcialmente subjugada; e, por outro lado, a subjugação da censura é facilitada nos casos em que a angústia já foi produzida como uma sensação imediata decorrente de fontes somáticas. Assim, podemos ver claramente a finalidade para a qual a censura exerce sua função e promove a distorção dos sonhos: ela o faz para impedir a produção de angústia ou de outras formas de afeto aflitivo.
A “angústia de prestar exames” dos neuróticos deve sua intensificação a esses mesmos medos infantis. Os sonhos com o Vestibular geralmente ocorrem nas pessoas que tem sido aprovadas, e nunca nas que foram reprovadas nele.
Quando o sonho é do tipo que se chama “recorrente”, é quando o sujeito teve um sonho pela primeira vez na infância e depois ele reaparece constantemente, de tempos em tempos, durante o sono adulto.
Os sonhos típicos sobre a morte de parentes queridos, encontramos realizada a situação extremamente incomum de um pensamento onírico formado por um desejo recalcado (da morte), que foge inteiramente à censura e passa para o sonho sem modificação.
As fontes somáticas de estimulação durante o sono (isto é, as sensações durante o sono), a menos que sejam de intensidade incomum, desempenham na formação dos sonhos papel semelhante ao desempenhado pelas impressões recentes, mas irrelevantes, deixadas pelo dia anterior. Ou seja, creio que elas são introduzidas para ajudar na formação de um sonho caso se ajustem apropriadamente ao conteúdo de representações derivado das fontes psíquicas do sonho, mas não de outra forma. Dessa maneira, podemos explicar o fato de o conteúdo onírico proporcionado por estímulos somáticos de intensidade não incomum deixar de aparecer em todos os sonhos ou todas as noites.
Quando alguma coisa num sonho tem o caráter de discurso direto, isto é, quando é dita ou ouvida e não simplesmente pensada (e é fácil, em geral, estabelecer a distinção com segurança), então isso provém de algo realmente falado na vida de vigília — embora, por certo, esse algo seja meramente alterado e, mais especialmente, desligado de seu contexto.
O fenômeno da distorção dos sonhos: quando nós temos um sonho e não queremos interpretá-lo ou lembrá-lo é porque estamos tentando esconder ou não queremos enfrentar algo que estávamos combatendo, estava recalcado no nosso inconsciente. Nos casos em que a realização de desejo é irreconhecível, em que é disfarçada, deve ter havido alguma inclinação para se erguer uma defesa contra o desejo; e, graças a essa defesa, o desejo é incapaz de se expressar, a não ser de forma distorcida. Podemos, portanto, supor que os sonhos recebem sua forma em cada ser humano mediante a ação de duas forças psíquicas (ou podemos descrevê-las como correntes ou sistemas) e que uma dessas forças constrói o desejo que é expresso pelo sonho, enquanto a outra exerce uma censura sobre esse desejo onírico e, pelo emprego dessa censura, acarreta forçosamente uma distorção na expressão do desejo.
Quando temos em mente que os pensamentos oníricos latentes não são conscientes antes de se proceder a uma análise, ao passo que o conteúdo manifesto do sonho é conscientemente lembrado, parece plausível supor que o privilégio fruído pela segunda instância seja o de permitir que os pensamentos penetrem na consciência. Nada, ao que parece, pode atingir a consciência a partir do primeiro sistema sem passar pela segunda instância; e a segunda instância não permite que passe coisa alguma sem exercer seus direitos e fazer as modificações que julgue adequadas no pensamento que busca acesso à consciência. Convém notar que o afeto vivenciado no sonho pertence a seu conteúdo latente, e não ao conteúdo manifesto, e que o conteúdo afetivo do sonho permaneceu intocado pela distorção que se apoderou de seu conteúdo de representações.
Quando nos referimos aos sonhos num sentido teórico, temos em mente três entidades distintas: o sonho manifesto, os pensamentos oníricos latentes e o funcionamento do sonho. Aquilo que o paciente recorda e relata como o seu sonho, o sonho manifesto, é uma mensagem críptica que exige decifração. Subjacentes ao sonho manifesto estão idéias e sentimentos, alguns dos quais pertencem ao presente, alguns ao passado, alguns dos quais são pré-conscientes, outros inconscientes: é o conteúdo latente. Os pensamentos latentes, dão origem ao sonho manifesto, e estamos interessados no método pelo qual esses pensamentos latentes são transformados nas imagens recordadas como sonho. O conteúdo latente é a parte mais importante do sonho. Os pensamentos e desejos inconscientes que ameaçaram acordar a pessoa são denominados como conteúdo latente do sonho.. Toda a significação, desejos, problemas, neuroses e até predisposições psicóticas estão nesta parte. As operações mentais inconscientes por meio das quais o conteúdo latente do sonho se transforma em sonho manifesto, damos o nome de elaboração do sonho, também chamada dramatização. O processo responsável por essa transformação, que Freud considerava a parte essencial da atividade onírica, é o funcionamento do sonho.
A primeira coisa que se torna clara para quem quer que compare o conteúdo do sonho com os pensamentos oníricos é que ali se efetuou um trabalho de condensação em larga escala. Os sonhos são curtos, insuficientes e lacônicos em comparação com a gama e riqueza dos pensamentos oníricos. Se um sonho for escrito, talvez ocupe meia página. A análise que expõe os pensamentos oníricos subjacentes a ele poderá ocupar seis, oito ou doze vezes mais espaço. O que é claramente a essência dos pensamentos do sonho não precisa, de modo algum, ser representado no sonho. O sonho tem, por assim dizer, uma centração diferente dos pensamentos oníricos — seu conteúdo tem elementos diferentes como ponto central.
O que aparece nos sonhos, poderíamos supor, não é o que é importante nos pensamentos do sonho, mas o que neles ocorre repetidas vezes. No trabalho do sonho, está em ação uma força psíquica que, por um lado, despoja os elementos com alto valor psíquico de sua intensidade, e, por outro, por meio da sobredeterminação, cria, a partir de elementos de baixo valor psíquico, novos valores, que depois penetram no conteúdo do sonho. Assim sendo, ocorrem uma transferência e deslocamento de intensidade psíquicas no processo de formação do sonho, e é como resultado destes que se verifica a diferença entre o texto do conteúdo do sono e o dos pensamentos do sonho. O processo que estamos aqui presumindo é nada menos do que a parcela essencial do trabalho do sonho, merecendo ser descrito como o “deslocamento do sonho”. O deslocamento do sonho e a condensação do sonho são os dois fatores dominantes a cuja atividade podemos, em essência, atribuir a forma assumida pelos sonhos. A conseqüência do deslocamento é que o conteúdo do sonho não mais se assemelha ao núcleo dos pensamentos do sonho, e que este não apresenta mais do que uma distorção do desejo do sonho que existe no inconsciente. Na distorção do sonho, descobrimos sua origem está na censura que é exercida por uma instância psíquica da mente sobre outra. O deslocamento do sonho é um dos principais métodos pelos quais essa distorção é obtida. Podemos presumir, portanto, que o deslocamento do sonho se dá por influência da mesma censura — ou seja, a censura da defesa endopsíquica.
Os sonhos não têm a seu dispor meios de representar as relações lógicas entre os pensamentos do sonho. Em sua maioria, os sonhos desprezam todas essas conjunções, e é só o conteúdo substantivo dos pensamentos do sonho que eles dominam e manipulam. O que é reproduzido pelo aparente pensamento no sonho é o tema dos pensamentos do sonho e não as relações mútuas entre eles, cuja asserção constitui o pensamento. Quando ocorre uma contradição num sonho, ou ela é uma contradição do próprio sonho ou uma contradição oriunda do tema de um dos pensamentos do sonho. Uma contradição num sonho só pode corresponder a uma contradição entre os pensamentos do sonho de maneira extremamente indireta. Alguns sonhos desprezam completamente a seqüência lógica de seu material, outros tentam dar uma indicação tão completa quanto possível dela. Ao fazê-lo, os sonhos se afastam ora mais, ora menos amplamente do texto de que dispõem para manipular.
Nos sonhos a categoria dos contrários e dos contraditórios são simplesmente desconsideradas. O “não” não parece existir no que diz respeito aos sonhos. Eles mostram uma preferência particular por combinar os contrários numa unidade ou por representá-los como uma só coisa. Os sonhos se sentem livres, além disso, para representar qualquer elemento por seu oposto imaginário, de modo que não há maneira de decidir, à primeira vista, se qualquer elemento que admita um contrário está presente nos pensamentos do sonho como positivo ou negativo.
A imagem onírica pode ser composta de traços visuais pertencentes, na realidade, em parte a uma pessoa e em parte à outra. Ou, ainda, a participação da segunda pessoa na imagem onírica pode estar não em seus traços visuais, mas nos gestos que atribuímos a ela, nas palavras que a fazemos pronunciar, ou na situação em que a colocamos. Nesse último caso, a distinção entre a identificação e a construção de uma figura composta começa a perder sua nitidez.
Todo sonho versa sobre o próprio sonhador. Os sonhos são inteiramente egoístas. Sempre que nosso próprio ego não aparece no conteúdo do sonho, mas somente alguma pessoa estranha, podemos presumir com segurança que nosso próprio ego está oculto, por identificação, por trás dessa outra pessoa; posso inserir nosso ego no contexto. Em outras ocasiões, quando nosso ego de fato aparece no sonho, a situação em que isso ocorre pode ensinar-nos que alguma outra pessoa jaz oculta, por identificação, por trás de nosso ego. Uma conclusão no sonho representa uma conclusão nos pensamentos oníricos.
Um afeto experimentado num sonho não é de modo algum inferior a outro de igual intensidade sentido na vida de vigília. A análise nos mostra que o material de representações passou por deslocamentos e substituições, ao passo que os afetos permaneceram inalterados. A inibição do afeto, por conseguinte, deve ser considerada como a segunda conseqüência da censura dos sonhos, tal como a distorção onírica é sua primeira consequência.
Em geral, é necessário buscar outra fonte de pensamentos do sonho, uma fonte que esteja sob a pressão da censura. Em resultado dessa pressão, essa fonte normalmente produziria, não satisfação, mas o afeto contrário. Graças à presença da primeira fonte do afeto, porém, a segunda fonte fica habilitada a subtrair do recalque seu afeto de satisfação e a permitir que ele funcione como uma intensificação da satisfação da primeira fonte. Assim, parece que os afetos nos sonhos são alimentados por uma confluência de diversas fontes e sobredeterminados em sua referência ao material dos pensamentos oníricos. Durante o trabalho do sonho, as fontes de afeto passíveis de produzir o mesmo afeto unem-se para gerá-lo.
O sonho não só apresenta as formas e facetas de resistência, mas pode tornar-se um veículo para a expressão da força que se opõe à análise. A mesma resistência que usa o sonho para absorver uma hora inteira, fornece uma variação quando atrasa a apresentação para os últimos minutos. O analista não tem por que se sentir perdido quando um sonho é relatado tardiamente demais para que possa ser abordado na sessão.
A transferência, positiva ou negativa, pode converter-se numa fonte de resistência obstinada, sendo que uma e outra podem caminhar de mãos dadas. O impulso infantil inconsciente é suscetível de dotar a transferência de uma tal intensidade que a realidade da situação analítica será completamente obliterada e a aliança terapêutica viciada. Para que o trabalho da análise progrida, uma tal transferência, com suas implicações de resistência, tem de ser interpretada sem esperar que se definam as condições ótimas. Quando a transferência toca esse rumo, o sonho pode ajudar com aviso prévio da necessidade de interpretação antes do paciente representar dramaticamente a sua última resistência, abandonando a análise (vide caso Dora).
Quanto mais o paciente aprende da prática de interpretação de sonhos, mais obscuros, geralmente, se tornam seus sonhos posteriores. Os sonhos corroborativos, sua tradução simplesmente apresenta o que o tratamento já inferiu, durante os últimos dias, do material das associações diárias, é como se o paciente houvesse sido amável o bastante para trazer, sob forma onírica, o que lhe havíamos estado “sugerindo” antes. Porém a grande maioria dos sonhos antecipa-se à análise, de maneira que, após subtrair deles tudo que já é sabido e compreendido, resta ainda uma alusão mais ou menos clara a algo que até então estivera oculto.
Uma fantasia consiste num desejo inconsciente trabalhado pela capacidade do pensamento lógico a fim de dar origem a uma expressão disfarçada e a uma satisfação imaginária do desejo pulsional. O bebê sonha com seus desejos que se tornam em fantasias de suas expressões diretas das pulsões e impulsos, pois as pulsões dão origem às fantasias. No adulto, o simples fato de fantasiar é para fugir de realidades dolorosas.
Descrevemos o elemento dos pensamentos oníricos como uma “fantasia”. O “sonho diurno” [ou devaneio] é algo análogo a fantasia na vida de vigília. O estudo das psiconeuroses leva à surpreendente descoberta de que essas fantasias ou sonhos diurnos são os precursores imediatos dos sintomas histéricos, ou pelo menos de uma série deles. Os sintomas histéricos não estão ligados a lembranças reais, mas a fantasias construídas com base em lembranças. A função de “elaboração secundária” que atribuímos ao quarto dos fatores envolvidos na formação do conteúdo dos sonhos mostra-nos em ação, mais uma vez, a atividade que consegue ter livre vazão na criação de sonhos diurnos sem ser inibida por quaisquer outras influências. Poderíamos simplificar isso dizendo que este nosso quarto fator procura configurar o material que lhe é oferecido em algo semelhante a um sonho diurno. No entanto, se um desses sonhos diurnos já tiver sido formado na trama dos pensamentos oníricos, esse quarto fator do trabalho do sonho preferirá apossar-se do sonho diurno já pronto e procurará introduzi-lo no conteúdo do sonho. Há alguns sonhos que consistem meramente na repetição de uma fantasia diurna que talvez tenha permanecido inconsciente.
Tem sido demonstrado, por pesquisadores do sono e do sonho, que todas as pessoas sonham regularmente durante todo o seu período de sono. Por isso dizermos que o “sonho é o guardião do sono”. O sonho é o fiel guardião da nossa saúde psíquica, da nossa alegria de viver, uma vez que a vida não passa, em essência, de uma contínua procura de prazer, contrariada pela realidade (Teoria do Princípio do Prazer). As pessoas que “não sonham, quando analisadas, apresentam recalques afetivos profundos. Porém quando uma pessoa, efetivamente, não sonha, é porque possui problemas estruturais graves, ou seja, são psicóticas, e por isso difícil de serem analisadas. Os sonhos acordados surgem por meio de representações, que fantasiamos à nossa maneira, segundo o curso que damos às nossas fantasias.
A única maneira pela qual podemos descrever o que acontece nos sonhos alucinatórios é dizendo que a excitação se move em direção retrocedente. Em vez de se propagar para a extremidade motora do aparelho, ela se movimenta no sentido da extremidade sensorial e, por fim, atinge o sistema perceptivo. Se descrevermos como “progressiva” a direção tomada pelos processos psíquicos que brotam do inconsciente durante a vida de vigília, poderemos dizer que os sonhos têm um caráter “regressivo”.
Nossa discussão não pode ser levada adiante sem examinarmos o papel desempenhado pelos afetos nesses processos; neste contexto, porém, só podemos fazê-lo de modo imperfeito. Assim, presumamos que a supressão do Ics. seja necessária, acima de tudo, porque, se o curso das representações no Ics. ficasse por sua própria conta, geraria um afeto que foi originalmente de natureza prazerosa, mas tornou-se desprazeroso depois de ocorrido o processo de “recalcamento”. O propósito, bem como o resultado da supressão, é impedir essa liberação de desprazer. A supressão se estende ao conteúdo de representações do Ics., já que a liberação de desprazer pode começar a partir desse conteúdo. Isso pressupõe uma suposição bastante específica quanto à natureza da geração do afeto. A característica essencial dos sonhos de punição, portanto, seria que, em seu caso, o desejo formador do sonho não é um desejo inconsciente derivado do recalcado (do sistema Ics.), mas um desejo punitivo que reage contra este e pertence ao ego, embora seja, ao mesmo tempo, um desejo inconsciente (isto é, pré-consciente).
Caso se pergunte se é possível interpretar todos os sonhos, a resposta deve ser negativa. Não se deve esquecer que, na interpretação de um sonho, tem-se como oponentes as forças psíquicas que foram responsáveis por sua distorção.


5. SONHOS TRANSCRITOS DE UM LIVRO COM A INTERPRETAÇÃO DADA. RETIRADOS DO LIVRO INTERPRETAÇÃO DOS SONHOS- FREUD.

5.1- RELATO DE FREUD DE UM SONHO DE UM ADULTO.
A paciente, um moça de pouca idade, assim começou: “Como o senhor deve estar lembrado, minha irmã só tem agora um menino — Karl; ela perdeu o filho mais velho, Otto, quando eu ainda morava com ela. Otto era meu favorito; de certa forma, eu o criei. Também gosto do menorzinho, mas, é claro, nem de longe tanto quanto gostava do que morreu. Então, ontem à noite, sonhei que via Karl morto diante de mim. Estava deitado em seu caixãozinho, com as mãos postas e velas a seu redor — de fato, exatamente como o pequeno Otto, cuja morte foi um golpe tão forte para mim. Agora me diga: que pode significar isso? O senhor me conhece. Será que sou uma pessoa tão má a ponto de desejar que minha irmã perca o único filho que ainda tem? Ou será que o sonho significa que eu preferiria que Karl estivesse morto, em vez de Otto, de quem eu gostava muito mais?”
Assegurei-lhe que esta última interpretação estava fora de cogitação. E, depois de refletir um pouco, pude dar-lhe a interpretação correta do sonho, posteriormente confirmada por ela. Pude fazê-lo porque estava familiarizado com toda a história prévia da autora do sonho.
Essa moça ficara órfã em tenra idade e fora criada na casa de uma irmã muito mais velha. Entre os amigos que freqüentavam a casa, havia um homem que deixou uma impressão duradoura em seu coração. Por algum tempo, pareceu que suas relações mal admitidas com ele levariam ao casamento, mas esse desenlace feliz foi reduzido a cinzas pela irmã, cujos motivos jamais foram plenamente explicados. Depois do rompimento, esse homem deixou de freqüentar a casa e, pouco depois da morte do pequeno Otto, para quem ela voltara sua afeição neste ínterim, minha paciente fixou residência própria sozinha. Não conseguiu, contudo, libertar-se de seu apego pelo amigo da irmã. Seu orgulho ordenava que o evitasse, mas ela não conseguiu transferir seu amor para nenhum dos outros admiradores que se apresentaram posteriormente. Sempre que se anunciava que o objeto de suas afeições, que era por profissão um homem de letras, ia proferir uma palestra em algum lugar, ela estava invariavelmente na platéia; e aproveitava todas as oportunidades possíveis de contemplá-lo à distância em campo neutro. Lembrei-me de que ela me dissera, na véspera, que o Professor iria a um certo concerto, e que ela pretendia ir também para ter o prazer de dar uma olhadela nele mais uma vez. Isso ocorrera na véspera do sonho, e o concerto iria realizar-se no dia em que ela o relatou a mim. Foi-me portanto fácil construir a interpretação correta, e perguntei-lhe se podia pensar em alguma coisa que tivesse acontecido após a morte do pequeno Otto. Ela respondeu de pronto: “Naturalmente; o Professor veio visitar-nos de novo depois de uma longa ausência e eu o vi mais uma vez ao lado do caixão do pequeno Otto.” Isso era exatamente o que eu esperava, e interpretei o sonho desta forma: “Se o outro menino morresse agora, aconteceria a mesma coisa. Você passaria o dia com sua irmã, e o Professor certamente viria apresentar seus pêsames, de modo que você o veria mais uma vez nas mesmas condições que na outra ocasião. O sonho significa apenas seu desejo de vê-lo mais uma vez, um desejo contra o qual você vem lutando internamente. Sei que você tem na bolsa uma entrada para o concerto de hoje. Seu sonho foi um sonho de impaciência: antecipou em algumas horas a visão que você vai ter dele hoje.”



5.2- RELATO DE FREUD DE UM SONHO DE UMA CRIANÇA.
Uma criança com menos de quatro anos de idade contou ter sonhado que vira um prato enorme com um grande pedaço de carne assada e legumes. De repente, toda a carne foi comida — inteira e sem ser destrinchada. Ela não viu a pessoa que a comeu.
Quem teria sido a pessoa desconhecida cujo suntuoso banquete de carne constitui o tema do sonho do menininho? Suas experiências durante o dia do sonho devem esclarecer-nos sobre o assunto. Por ordem médica, ele fora submetido a uma dieta de leite nos últimos dias. Na noite do dia do sonho ele se mostrara travesso e, como castigo, fora mandado para a cama sem jantar. Ele já havia passado por essa cura pela fome numa ocasião anterior e se portara com muita bravura. Sabia que não conseguiria nada, mas não se permitia demonstrar, nem mesmo por uma única palavra, que estava com fome. A educação já começara a surtir efeito nele: encontrou expressão em seu sonho, que exibe o início da distorção onírica. Interpretação: Não há nenhuma dúvida de que a pessoa cujos desejos eram visados nessa generosa refeição — de carne, ainda por cima — era ele próprio. Mas, como sabia que isso não lhe era permitido, ele não se aventurou a sentar-se pessoalmente para desfrutar a refeição, como fazem as crianças famintas nos sonhos. A pessoa que se serviu da refeição permaneceu no anonimato.


5.3- RELATO DE FREUD DE UM SONHO DE UMA SENHORA.
Quando jovem ela se destacara por sua inteligência viva e sua disposição alegre; e essas características ainda podiam ser observadas, pelo menos nas idéias que lhe ocorriam durante o tratamento. No decorrer de um sonho um tanto longo, essa senhora imaginou ver sua única filha, de quinze anos de idade, morta “numa caixa”. Estava parcialmente inclinada a utilizar essa cena como uma objeção à teoria da realização dos desejos, embora ela própria suspeitasse de que o detalhe da “caixa” devia estar apontando para outra visão do sonho.
No decorrer da análise, ela lembrou que, numa reunião na noite anterior, falara-se um pouco sobre a palavra inglesa “box” e as várias formas pelas quais se poderia traduzi-la em alemão — tais como “Schachtel” [“caixa”] “Loge” [“camarote de teatro”], Kasten [arca], “Ohrfeige” [“murro no ouvido”], e assim por diante. Outras partes do mesmo sonho nos permitiram descobrir ainda que ela havia pensado que “box”, em inglês, se relacionava mesmo com o “Büchse” [“receptáculo”] em alemão, e que depois fora atormentada pela lembrança de que “Büchse” é empregado como termo vulgar para designar os órgãos genitais femininos. Fazendo uma certa concessão aos limites de seus conhecimentos de anatomia topográfica, poder-se-ia presumir, portanto, que a criança que jazia na caixa significava um embrião no útero. Após ter sido esclarecida quanto a esse ponto, ela não mais negou que a imagem onírica correspondesse a um desejo seu. Interpretação: Como tantas jovens casadas, ela não ficara nada satisfeita ao engravidar, e, mais de uma vez, tinha-se permitido desejar que a criança que trazia no ventre morresse. De fato, num acesso de cólera após uma cena violenta com o marido, ela batera com os punhos cerrados no próprio corpo para atingir a criança lá dentro. Dessa forma, a criança morta era de fato a realização de um desejo, mas de um desejo que fora posto de lado quinze anos antes. Dificilmente se pode ficar admirado com o fato de um desejo realizado após uma demora tão prolongada não ser reconhecido. Muitas coisas haviam mudado nesse intervalo.


6- RELATO DE UM SONHO COM A INTERPRETAÇÃO DADA, ACRESCENTANDO MINHA INTERPRETAÇÃO.

6.1-O SEGUNDO SONHO DE DORA (FREUD, OBRAS PSICOLÓGICAS COMPLETAS -VOLUME VII).
Algumas semanas depois do primeiro sonho ocorreu o segundo, com cuja resolução interrompeu-se a análise. O estado anímico de Dora, preencheu uma lacuna de sua memória e permitiu obter um profundo conhecimento da gênese de outro de seus.
“Eu estava passeando por uma cidade que não conhecia, vendo ruas e praças que me eram estranhas. Cheguei então a uma casa onde eu morava, fui até meu quarto e ali encontrei uma carta de mamãe. Dizia que, como eu saíra de casa sem o conhecimento de meus pais, ela não quisera escrever-me que papai estava doente. `Agora ele morreu e, se quiser, você pode vir.’ Fui então para a estação [Bahnhof] e perguntei umas cem vezes: `Onde fica a estação?’ Recebia sempre a resposta: `Cinco minutos.’ Vi depois à minha frente um bosque espesso no qual penetrei, e ali fiz a pergunta a um homem que encontrei. Disse-me: `Mais duas horas e meia.’ Pediu-me que o deixasse acompanhar-me. Recusei e fui sozinha. Vi a estação à minha frente e não conseguia alcança-la. Aí me veio o sentimento habitual de angústia de quando, nos sonhos, não se consegue ir adiante. Depois, eu estava em casa; nesse meio tempo, tinha de ter viajado, mas nada sei sobre isso. Dirigi-me à portaria e perguntei ao porteiro por nossa casa. A criada abriu para mim e respondeu: `A mamãe e os outros já estão no cemitério [Friedhof]’”.

Carta despedida Dora; A cena do Lago; O pai morto sem repressão
…Com isso chegamos ao conteúdo da carta no sonho. O pai estava morto e ela saíra de casa por seu próprio arbítrio. A partir dessa carta, relembrei prontamente a Dora a carta de despedida que ela escrevera aos pais, ou que pelo menos fora composta para eles . Essa carta se destinava a dar um susto no pai para que ele desistisse da Sra. K., ou pelo menos a se vingar dele, caso não fosse possível induzi-lo a isso. Estamos diante do tema da morte dela ou da morte do pai (cf. cemitério, mais adiante no sonho). Acaso estaremos no caminho errado ao supor que a situação constitutiva da fachada do sonho correspondia a uma fantasia de vingança contra o pai? ...De onde proviria a frase “se você quiser”? A propósito disso ocorreu a Dora o adendo de que, depois da palavra “quiser”, havia um ponto de interrogação, e com isso ela também reconheceu essas palavras como uma citação extraída da carta da Sra. K. que contivera o convite para L (o lugar junto ao lago). De maneira estranhíssima, após a intercalação “se você quiser vir”, havia nessa carta um ponto de interrogação colocado bem no meio da frase.
Assim, estamos outra vez de volta à cena do lago e aos enigmas ligados a ela. Pedi a Dora que me descrevesse essa cena minuciosamente...Mal compreendeu do que se tratava, deu-lhe uma bofetada no rosto e se afastou às pressas. Eu queria saber que palavras ele empregara, mas Dora só se lembrou de uma de suas alegações: “Sabe, não tenho nada com minha mulher.” Naquele momento, para não tornar a encontrá-lo, ela quisera voltar para L contornando o lago a pé, e perguntou a um homem com quem cruzou a que distância ficava. Ante a resposta “duas horas e meia”, desistiu dessa intenção e voltou em busca do barco, que partiu logo depois. O Sr. K. também estava lá novamente, aproximou-se dela e lhe pediu que o desculpasse e não contasse nada sobre o incidente. ...O pai estava morto e os demais já tinham ido para o cemitério. Ela podia ler calmamente o que bem lhe aprouvesse. Não significaria isso que uma de suas razões para a vingança era também a revolta contra a coerção exercida pelos pais? Se seu pai estivesse morto, ela poderia ler ou amar como quisesse.

A governanta do Sr.K e a última seção de Dora
Agora conheço o motivo daquela bofetada com que você respondeu à proposta do Sr. K. Não foi a afronta pela impertinência dele, mas uma vingança por ciúme. Quando a mocinha lhe contou sua história, você ainda pôde valer-se de sua arte de pôr de lado tudo o que não convinha a seus sentimentos. Mas no momento em que o Sr. K. usou as palavras “Não tenho nada com minha mulher”, que ele também dissera à senhorita, novas emoções foram despertadas em você e fizeram pender a balança. Você disse a si mesma: “Como se atreve ele a me tratar como uma governanta, uma serviçal?” A esse orgulho ferido somaram-se o ciúme e os motivos de prudência conscientes: definitivamente, era demais. Para provar o quanto você ficou impressionada com a história da governanta, relembro suas repetidas identificações com ela no sonho e em sua própria conduta. Você contou a seus pais, o que até aqui não havíamos compreendido, tal como a moça escreveu aos pais dela. Está-se despedíndo de mim como uma governanta, com um aviso prévio de quatorze dias. ...Você compreendeu muito bem a pobre moça. Ela não queria ir-se de imediato porque ainda tinha esperanças, porque esperava que o Sr. K. voltasse a lhe dar sua ternura. Esse deve ter sido também o seu motivo. Você aguardou esse prazo para ver se ele renovaria suas propostas; daí teria concluído que ele estava agindo a sério, e que não queria brincar com você como fizera com a governanta....Será que não pensou que ele queria divorciar-se da mulher para se casar com você.... As relações entre seu pai e a Sra. K., que provavelmente você só apoiou por tanto tempo por causa disso, davam-lhe a certeza de que se conseguiria o consentimento da mulher para o divórcio, e com seu pai você consegue o que quer. Na verdade, se a tentação em L houvesse tido outro desfecho, essa teria sido a única solução possível para todas as partes. Penso também que por isso você lamentou tanto o outro desenlace e o corrigiu na fantasia que se apresentou como uma apendicite. Assim, deve ter sido uma grande decepção para você que, em vez de uma proposta renovada, suas acusações tenham tido como resultado as negativas e as calúnias do Sr. K. Você admite que nada a enfurece mais do que acreditarem que você imaginou a cena do lago . Agora sei do que é que não quer ser lembrada: é de ter imaginado que a proposta estava sendo feita a sério e que o Sr. K. não desistiria até que você se casasse com ele.

6.2-COMPLEMENTO DA INTERPRETAÇÃO DE FREUD REALIZADA BASEADO NA DISCUSSÃO DO CASO.
“`Onde fica a estação?’ Recebia sempre a resposta: `Cinco minutos.’”.
Esta frase está cheia de sentido transferencial de Dora para com Freud. Onde fica a estação, é a busca de Dora responder aos seus anseios e questionamentos. O papel de Freud que posteriormente ele diz “Será que eu poderia ter conservado a moça em tratamento, se tivesse eu mesmo representado um papel, se exagerasse o valor de sua permanência para mim e lhe mostrasse um interesse caloroso que, mesmo atenuado por minha posição de médico, teria eqüivalido a um substituto da ternura por que ela ansiava?” , porém este é o lado negativo da transferência. Posteriormente Freud reconhece, “Assim, fui surpreendido pela transferência e, por causa desse “x” que me fazia lembrar-lhe o Sr. K., ela se vingou de mim como queria vingar-se dele, e me abandonou como se acreditara enganada e abandonada por ele.”
Aí Dora no sonho se refere aos “Cinco minutos”, que eu posso associar com os “cinquenta minutos da análise”.


7- APRESENTE UM SONHO DE UM PACIENTE OU DE UMA PESSOA CONHECIDA DANDO UMA INTERPRETAÇÃO.
Como nós sabemos, os sonhos isoladamente, não autoriza ao psicanalista a fazer um diagnóstico e menos ainda a instituir um tratamento. Só em mãos bastante destras, tornam-se eles capazes de oferecer índices proveitosos e de revelar alguma coisa mais que a simples análise de um sonho comum. Porém, nos foi solicitado uma interpretação e com este objetivo vos apresento o relato que se segue.
Na aula do dia 23/03/2001 com o Professor Heitor, uma colega relatou um sonho na sala de aula, na presença de todos os alunos. O sonho era repetitivo e tinha acontecido a um tempo atrás quando a sua mãe tinha morrido, porém ela não conseguia interpretar este sonho até o momento. “ Minha mãe tinha morrido . Ela estava no meio das nuvens, feliz, dançando e dizia que era um lugar bom e me chamava. Eu estava lá embaixo, como se fosse o fim de uma escada. Eu não queria ir.” Neste instante a minha colega fez um gesto com a mão dizendo “não” junto com sua voz e negativa.
O professor ouviu seu sonho e emitiu um comentário de que provavelmente, no seu sonho a mãe na realidade não era sua mãe e deu prosseguimento a aula. A partir deste momento eu disse, vou interpretar este sonho. Comecei a pensar, porque a “mãe” no seu sonho estava “feliz” ? Qual a necessidade da colega ter de reforçar o “não queria ir” com gestos marcantes ? Qual o objetivo da escada ou caminho?
Pensei e veio uma percepção clara e objetiva sobre os meus questionamentos. No intervalo, procurei a colega, tocando no seu ombro. Ela virou-se com surpresa, nós não nos conhecíamos (só de vista). Neste instante eu falei, “ você poderia me dar um minuto, eu interpretei o seu sonho.” Chamei no lugar mais reservado, sem ninguém ao redor e expliquei que estava estudando e lendo A Interpretação dos Sonhos de Freud (e discutindo o caso Dora). Solicitei que caso a interpretação não fosse lógica, pois não tinha sua anaminese nem a conhecia, poderia não levar em conta a minha interpretação, mas que no meu conceito o sonho estava esclarecido.
Eu disse então na interpretação :“Você tinha um desejo de suicídio”.
No início ela ficou calada, “surpresa” e tive a percepção de alguma resistência. Porém logo em seguida se emocionou enchendo os olhos com lágrimas que não chegaram a cair, me confirmou e falou “ realmente faz sentido, na época além de minha mãe morrer, eu estava me separando do meu marido. Provavelmente, tivesse realmente ter sentido esta emoção e o desejo.” Neste instante me senti bem por ter ajudado uma pessoa a decifrar e resolver algo que estava lhe incomodando no seu inconsciente e que ela “não sabia o que era”.
A minha interpretação partiu do seguinte raciocínio: A morte era uma coisa boa pois a sua mãe, ou alguém (quem sabe ela mesma) estava feliz apesar da morte. O caminho estava traçado. O seu sentimento olhando e dizendo “não” com gestos marcantes, tinha um sentido, “um afeto” muito forte como se estivesse sendo “gratificada” com a situação, ou seja ... dizendo “sim”.



8. APRESENTE UM SONHO SEU COM A DEVIDA INTERPRETAÇÃO.

8.1- UM SONHO QUE EU TIVE COM A MINHA INTERPRETAÇÃO.
Quando eu tinha 16 anos, estava cursando o 3ºano do 2ºgrau e estudava para o vestibular de Engenharia. Gostava bastante de Física e Matemática, e em uma noite estava resolvendo questões relativa a estas matérias. Em determinado momento me senti cansado, fato que foi agravado devido a tentativa de não conseguir resolver uma questão. Resolvi dormi e acordar cedo para continuar estudando.
De repente me vejo tentando resolver a questão, porém não conseguia, tentava novamente e não conseguia, tentava, tentava, tentava. Comecei a achar estranho pois nunca tinha tentado tanto e não conseguia resolver. Tudo começou a parecer um pesadê-lo, um mal estar geral tomou conta de mim. Em determinado instante…. acordei ! É, tinha sonhado, tive um sonho “com o resto do dia” , continuando algo que não tinha finalizado. Algo que era importante para mim, o vestibular. A questão foi a sintetização deste desafio (vestibular) e a minha meta era de superá-lo.
Quando acordei de madrugada, busquei retomar e resolver a questão. Resolvi e fui dormir novamente, mas agora sem este peso do desafio não resolvido. O sono neste instante foi agradável e tranquilo. Há, no fim do ano, passei no vestibular na Ufba, para Engenharia Mecânica, e agora…um Psicanalista em Formação.

9-O SIGNIFICADO SIMBÓLICO DOS SONHOS E AS ORIGENS DOS NOMES.
Vamos fazer uma referência aos símbolos, agora Freud adverte : o significado dos símbolos deve ser somente utilizado como um método auxiliar. As associações do paciente com o elemento onírico (sonho) determina a preferência em todos os casos, a interpretação correta só pode ser alcançada, em cada ocasião. Os elementos podem ser modificados inclusive demonstrando ser o oposto, devemos sempre investigar o contexto.
Muitas vezes, um símbolo tem de ser interpretado em seu sentido próprio, e não simbolicamente, ao passo que, em outras ocasiões, o sonhador pode tirar de suas lembranças particulares o poder de empregar como símbolos sexuais toda sorte de coisas que não são comumente empregadas como tal.


9.1-O SIGNIFICADO SIMBÓLICO DOS SONHOS.
- Sentimento convicto de que já se esteve em um lugar antes: esses lugares são, invariavelmente, os órgãos genitais da mãe de quem sonha.
- Atravessar espaços estreitos ou estar na água: baseiam-se em fantasias da vida intra-uterina, da existência no ventre e do ato do nascimento.
- Morte de um ente querido: desejo de que a pessoa em questão venha a morrer.
- Sonhos de estar despido: sonhos de exibição.
- Reis, príncipe, princesa ou personalidades: pais do sonhador.
- Chama (fogo), gravata, meninos pequenos, cobra, peixe, caracol, rato, aviões, foguetes, número 3,edificios, torres, igrejas, monolito, mirantes, armas (facas, espadas, etc..), objetos que expelem líquidos (torneiras, fontes, etc..), lâmpadas que pendem do teto, batom extensível, telescópios, antenas de automóvel, lápis, canetas, lixas de unhas, foguetes, balões, papagaios, pássaros, cogumelo, trevo de quatro folhas : símbolo sexual masculino, penis.
- Estojos, caixas, estufas, cavernas, paisagens, bosques, barcos, habitações, máquinas, aparelhos, chapéu ou agasalho feminino, peles, moitas, grupo de árvores, barba, portas, “O” zero, “doce”, “pote de mel”, “gatinha”, caracóis, gato, jóias, boca, ferradura, coroa, covas, vasos, garrafas, bolsos, sapatos, chinelos, lareira : corpo feminino, ou seu órgão sexual.
- Várias habitações : harém ou lugar de prostituição.
- Duas habitações : teoria infantil da cloaca ( quando o menino supõe que o órgão sexual feminino se confunde com o ânus).
- Subindo ou descendo uma escada : ato sexual
- Paredes e muros lisos pelos quais subimos: lembrança infantil de subir pelas pernas dos pais.
- Muros lisos : homens.
- Mesas, tábuas e madeira: mulheres
- Cama e mesa ; ato de comer alimentos: matrimonio.
- Brincar com crianças pequenas, dar-lhes golpes, acariciá-las, etc.…: masturbação
- Calvície, cortar cabelos, extração ou queda de dentes, decapitação : complexo de castração.
- Lagartixa, quando um dos símbolos penianos aparecem mutilados: medo preventivo da castração.
- Animais pequenos e parasitas: irmãozinhos pequenos que vieram perturbar com o seu nascimento.
- Número 9,Corpo invadido por parasitas, tumor, canguru, gambá, vaca, hipopótamo, camelo : gravidez
- O caminho direito: deve seguir
- O caminho esquerdo, urinar sobre uma fogueira, fantasia da falta de lactação: homossexualidade, incesto.
- Animais selvagens: instintos ou paixões perversas.
- Loteria (um estado de felicidade de curta duração): casamento
- Água : símbolo de gente, multidões.
- Serpentes enroscada: grandes fezes.
- Órgãos sexuais: o próprio sonhador com uma visão pejorativa.
- Armários, fogões, quartos: útero.
- Maçãs, pêras, frutas, irmãos : nádegas.
- Irmãs: seios.
- Roupas íntimas e roupas brancas, flores, : símbolos femininos.
- Abacaxi: seio negado.
- Banana: natureza fálica.
- Planos, mapas, gráficos, diagramas: corpo humano com os órgãos genitais.
- Bagagem: encargo de família.
- Tocar piano, escorregar, desfolhar um galho, número 5: masturbação.
- Dançar, cavalgar, subir ou descer escadas, portas estreitas, escadas altas e íngremes: relações sexuais.
- Ser atropelado, experiências violentas: ameaça com armas.
- Ser machucado, surrado, torturado, baleado, crucificado, assassinado: sadomasoquismo.
- Ouro, ovos: fezes.
- Dinheiro: amor ou pagamento para fazer sexo.
- Aranhas : mãe fálica.
- Nadar: na infância urinava na cama.
- Lugar que acredita já ter estado ali: órgãos sexuais da mãe do sonhador.
- Palidez, viagem, emudecimento, esconder-se, vazio, escuridão, feiúra, desordem, sujeira, excrementos secos de animais: morte
- Viagem: lua-de-mel.
- Viagem ao desconhecido: processo de psicanálise.
- Desejo de matar ou de suicídio: cuidado um sentimento forte de matar ou morrer.
- Placa de veículos: ano do evento.
- Roupas e uniformes: nudez.
- Ônibus: conduz outras pessoas da família ao analista.
- Mártir, santos, demônios : sua neurose.
- Olhar no espelho: olhar para si mesmos.

9.2- ORIGENS DOS NOMES
A
- Abílio: do Latim o significado "apto, capaz", do grego "aquele que é incapaz da vingança".
- Adalberto: do Teutônico "notório fulgurante", este nome apresenta muitas variações, como
Alberto, Etelberto, Oberto.
- Adão: do Hebreu "homem feito de argila vermelha.
- Adelaide: do Teutônico "de linhagem nobre".
- Ademar: do Teutônico "glorioso guerreiro".
- Adolfo: do Teutônico "nobre lobo".
- Afonso: do Teutônico "guerreiro de ânimo combativo".
- Agostinho: do Latim "da família dos Augustos".
- Alan: do Gaelico "gracioso agradável".
- Alessandro(a): variante Italiana de Alexandre.
- Alexandre(a): do Elenico "protetor e defensor do genero humano".
- Alice : do Grego "verídica, autêntica".
- Álvaro: do Teutônico "o que a todos esta atento".
- Amélia : do gótico "trabalhadora".
- Ana: do Hebreu "cheia de graça", "que tem compaixão, clemência".
- Anderson: do inglês "filho de André".
- André: do grego "másculo, varão".
- Angélica: do latim "como um anjo, pura".
- Antônio: provavelmente de origem etrusca, seu significado perdeu-se no tempo.
- Aparecida: homenagem à virgem Maria,que apareceu nas águas de um rio.
- Arlete: do celta "garantia, penhor".
- Augusto: do latim "O venerado", "O sublime", "O máximo".
B
- Baltasar: do Hebraico "Que o deus Baal proteja o rei".
- Bárbara: palavra usada na antiguidade para designar os que não pertenciam ao império greco-romano".
- Basílio: do grego "Rei".
- Batista: do grego "aquele que batiza".
- Beatriz: do latim "bem - aventurada".
- Benedito: do latim "bendito", "abençoado".
- Benjamim: do hebraico "filho da mão direita".
- Bianca: do Teutônico "branca".
- Bruno: do germânico "luminoso, brilhante".
C
- Caio: do latim "feliz, alegre".
- Cândido(a): do latim "puro, alvo".
- Carina: do grego "gracioso, engraçado".
- Carlos(Carla): do latim "homem, viril".
- Carol: variedade de Carlos.
- Cássio(a): do latim "distinto, ilustrado, sábio".
- Catarina: do grego "pura, imaculada".
- Cecília: do etrusco "cega, ceguinha".
- Cíntia: do latim "natural de Cinto".
- Clara: do latim "brilhante, luzente, ilustre".
- Cláudio(a): do latim "coxo, manco".
- Clóvis: do teutônico "guerreiro famoso".
- Cremilda: do germânico "que planeja com capacete".
- Cristiano(a): do grego "Seguidor de Cristo"
D
- Dácio: do helênico "antiga região localizada ao norte do Danúbio".
- Daniel: do hebraico "Deus é meu juiz".
- Davi(d): do hebraico "amado, respeitado".
- Débora: do hebraico "abelha".
- Dirce: do helênico "fonte, água turva".
- Dora: do helênico "Dádiva, presente".
- Douglas: do escocês "rio preto, água escuro".
- Dulce: do latim "doce, tenra, meiga".
E
- Edelina: do alemão "bem humorada".
- Edgard: do alemão "próspero".
- Edson: do inglês "filho de Eduardo".
- Elaine: do inglês “filho de Helena”
- Eli: do hebraico "Jeová".
- Elias: do hebraico "Meu Deus é Jeová".
- Elizabeth: do hebraico "consagrada por Deus".
- Elza: do alemão "a nobre virgem".
- Erica: do norueguês "constantemente possante".
- Estela: do latim "estrela".
- Ezequiel: do hebraico "força de Deus".
F
- Fabiano(a): do latim "fava que cresce".
- Fábio: do latim "fava".
- Fabricio: do latim "o operário, o fabricante".
- Fátima: do árabe "donzela esplendida".
- Fernando(a): do alemão "inteligente, protetor".
- Filipe: "aquele que gosta de cavalos".
- Flávio(a): do latim "louro, cor de ouro".
- Francisco: do latim "francês".
G
- Gabriel: do hebraico "força de Deus".
- George: do grego "agricultor".
- Geraldo(a): do alemão "nobre através da lança".
- Gerson: do hebraico "estrangeiro, peregrino".
- Gilberto(a): do alemão "famoso com a flecha".
- Gisela(e): do alemão "garantia, penhor".
- Guilherme: do alemão "protetor, defensor".
- Gustavo: do sueco "bastão de combate".
H
- Hamilton: do inglês "de aparência orgulhosa".
- Hebe: do grego "juventude, mocidade".
- Heitor: do grego "mantenedor da vitória".
- Helena: do grego "tocha, luz, luminosa".
- Hélio: do grego "sol".
- Heloísa: variante de Luiza.
- Henrique: do alemão "príncipe, poderoso".
- Honório: do latim "que inspira honra".
- Horácio: do latim "visível, evidente".
- Hortênsia: do latim "horticultor".
- Hugo: do alemão "pensamento, espirito, razão".
- Humberto: do alemão "espirito brilhante".
I
- Iara: do tupi "Senhora, dona das águas".
- Ieda: do hebraico "favo de mel".
- Igor: do russo "filho famoso, defensor".
- Inácio: do latim "ardente, fogoso".
- Inês: do grego "pura, casta".
- Iolanda: do grego "violeta, roxo".
- Íris: do grego "anunciar".
- Ivã: do búlgaro "O glorioso".
J
- Jacinto: do grego "nome de uma pedra preciosa".
- Jaime: do espanhol "variedade popular de Jacó."
- Janaína: do tupi-africano "sinônimo de Iemanjá".
- Jerônimo: do grego "nome sagrado ou santo".
- Jéssica: do hebraico "Deus é a salvação".
- Jesus: do hebraico "Deus é a salvação".
- Juca: forma diminutiva de José.
- Juliano(a): do latim "que pertence a Júlio".
- Julieta: diminutivo de Júlia.
- Júlio: do latim "cheio de juventude", do grego "de cabelos pretos, cabelos macios".
K
- Kelly: do irlandês "donzela guerreira."
- Kelvin: do inglês "amigo", do gaélico "rio estreito".
L
- Laís: do grego "a democrática", do hebraico "a leoa".
- Lauro: do latim "vitória, louvor".
- Leandro: do grego "homem-leão".
- Leda: do latim "alegre, contente, jovial, risonha".
- Leonardo: do alemão "homens fortes, forte como o leão".
- Leonel: do francês "leão novo, filhote de leão".
- Leopoldo: do alemão "povo audacioso".
- Letícia: do latim "alegria".
- Lídia: do grego "irmã".
- Lilian :do latim "lírico".
- Lucas: do latim "luminoso".
- Luciano(a): forma derivada de Lúcio.
- Luis(a): do alemão "guerreiro famoso, glorioso".
- Lurdes: do basco "altura escarpada".
M
- Madalena: do hebraico "cidade de torres, cabelos penteados".
- Manuel(a): do hebraico "Deus está conosco".
- Mara: do hebraico "amargosa"
- Marcelo(a): do latim "proveniente de marte".
- Márcio(a): do latim "nome que se envoca Júpiter".
- Marcos: do latim "o grande orador".
- Maria: do hebraico "amargura, mágoa, soberana".
- Mário: do alemão "homem por excelência".
- Maristela: do latim "estrela do mar".
- Marta: do aramaico "senhora".
- Mateus: do hebraico "dádiva de Deus".
- Maurício(a): derivado de Mauro.
- Mauro: do latim "Mouro da Mauritânia".
N
- Nadir: do árabe "vigilante".
- Nair: do árabe "a luminosa".
- Neide: do grego "nadadora".
- Nelson: do inglês "filho de campeão".
- Neusa: do grego "a nadadora".
- Nilton: do inglês "de um novo local".
- Nuno: do latim "pai, avô, peixe".
O
- Odair: o mesmo que Adail.
- Ofélia: do grego "serpente".
- Olga: do nórdico arcaico "santa, sacra".
- Olinda: do latim "cheirosa, odorosa".
- Olívia: do latim "a oliveira, a azeitona".
- Osmar: do anglo saxão "ilustrado pelos deuses".
P
- Paloma: do espanhol "terra das palmeiras".
- Pamela: do grego "doçura".
- Paulo: do latim "pouco, pequeno".
- Pedro: do latim "pedra".
- Priscila(o): do latim "velha antiga".
Q
- Quirino: do latim "lanceiro guerreiro".
- Quixote: do espanhol "peça de arnês destinada a cobrir a coxa".
R
- Rafael(a): do hebraico "curado por Deus".
- Raimundo(a): do gótico "protetor poderoso".
- Raul: do inglês "combatente".
- Regina: do latim "rainha".
- Reinaldo: do alemão "variante de Reginaldo".
- Renato: do latim "renascido".
- Ricardo: do alemão "poderoso, senhor".
- Rita: do italiano "forma popular de margarida".
- Rodrigo: do alemão "famoso pela glória".
- Rosa: do latim "designa a flor".
- Rosana: do inglês "rosa graciosa".
- Rui: do alemão "forma apocopada de Rodrigo".
S
- Sabrina: do latim "antigo povo itálico".
- Salomão: do hebraico "prosperidade".
- Samanta: do aramaico "ouvinte".
- Samuel: do hebraico "ouvido por Deus".
- Sandra: forma reduzida de Alessandra".
- Sebastião: do grego "sagrado, reverenciado".
- Silvana(o): do latim "das selvas".
- Sílvia(o): do latim "da selva".
- Solange: do francês "solene, majestosa".
- Soraia: do árabe "estrela da manhã".
T
- Tadeu: do aramaico "o corajoso".
- Talita: do aramaico "menina, donzela".
- Tarcísio: do grego "confiança, coragem".
- Teresa: do grego "ceifeira, caçadora".
- Tiago: forma vernácula de Jacó.
- Túlio: do latim "levar, levantar".
U
- Ulisses: do grego "o irritado, o colérico".
- Urbano: do latim "civilizado, bem educado".
V
- Vágner: do alemão "aquele que faz vagões".
- Valesca: do eslavo "soberana, gloriosa".
- Valter: do alemão "comandante do exército".
- Vanessa: nome ligado a borboletas.
- Vera: do latim "verdadeira, primavera".
- Vitor: do latim "triunfo, vitória".
W
- Wilson: do inglês "filho de William".
- Wilton: do inglês "fazenda da primavera".
X
- Xavier: do espanhol "casa nova".
Y
- Yara: variante de Iara.
- Yuri: do russo "correspondente a Jorge".
Z
- Zacarias: do hebraico "o lembrado de Deus".
- Zélia: do grego "bela".
- Zuleica: do persa "estrela de ouro".


10-BIBLIOGRAFIA

FREUD, SIGMUND A Interpretação dos Sonhos, Edição C. 100 anos, Imago-RJ.1999

FREUD, SIGMUND Obras Psicológicas Completas versão 2.0
Volume VII - O quadro clínico,o primeiro sonho,o segundo sonho,posfácio.
Volume VI - Determinismo, crença no acaso e supertição – alguns pontos de vista.
A dinâmica da transferência.
Volume XIV- A história do movimento psicanalítico.
Volume XIV- Sobre o narcisismo : uma introdução.

SILVA, Dr. HEITOR ANTONIO DA Interpretação de Sonhos. Isbn.RJ.2000

LAPLANCHE E PONTALIS, Vocabulário da Psicanálise – Martins Fontes, SP-2000

NICOLA ABBAGNANO, Dicionário de Filosofia – Martins Fontes, SP-2000

INTERNET -http:// www.epoca.com.br/edic/ed190499/almana.htm
Introdução A interpretação dos sonhos- Freud

INTERNET - http://www.comciencia.br/reportagens/psicanalise/frameset/silsai.htm
Sonho, o despertar de um sonho
Pré-história do sonho

INTERNET- http://www.ebp.org.Br Cronologia.

quinta-feira, 15 de julho de 2010

ABBEY ROAD - 1969



Logo após as desastrosas gravações do que seria o disco Let it Be, e quando o próprio grupo achava que não se reuniria mais, foi surpresa de George Martin quando recebeu o telefonema de Paul McCartney para produzir mais um disco. George Martin topou, e não só produziu o melhor disco dos Beatles como o álbum do grupo que mais vendeu até hoje.

Apesar de ser o derradeiro canto de cisne da banda, Os Beatles nunca tocaram tão bem, não cantaram tão bem e não se mostraram tão maduros como em Abbey Road. É o suspiro final do que foi a melhor banda de rock de todos os tempos.

George Harrison surpreendeu a crítica como compositor, e que levaria adiante até o seu disco solo 'All Things Must Pass'. Paul McCartney foi o mentor musical do trabalho, tendo seu ápice o medley do lado B do disco.
John Lennon, ausente em muitas sessões de gravação, ainda teve fôlego para dar ao grupo duas de suas melhores canções: ' Come Togeher', e 'Because'. Ringo teve seu reconhecimento como músico merecido, tendo seu primeiro solo de bateria num disco dos Beatles.

Parte Rock'n'Roll, parte melódico, o disco ainda tem pitadas de blues, country e até de música clássica e progressiva. John Lennon sempre preferiu o lado A ( de 'Come Together'' à 'I Want You' ) por serem simples canções agrupadas. Paul McCartney e George Martin acham que o lado B é o mais interessante, não pelas músicas, que na maioria são simplesmente trechos inacabados e vinhetas, mas pelo trabalho de juntá-las num trabalho só, como se fosse uma única faixa.

Com lados distintos ou não, o disco é com certeza brilhante, e coincidência ou não, o álbum finaliza com uma faixa que diz adeus não só ao trabalho, mas a melhor banda do planeta.. 'The End'.

'Abbey Road' foi diretamente ao nº 1 das paradas uma semana depois do lançamento, permanecendo lá por 18 semanas. O título do disco foi tirado obviamente dos estúdios que os Beatles gravavam desde 1962. A foto da capa ( idéia de Paul ) foi tirada em 08 de Agosto de 1969 em frente aos estúdios. A faixa de pedestres hoje é mundialmente famosa, tornando-se ponto para fotos e atropelamentos de beatlemaníacos de todo mundo.

Logo depois John Lennon anunciaria ao grupo sua saída, mas isso foi mantido em segredo até 1970. Com o nome Beatles, Paul, George e Ringo ainda finalizariam 'Let it Be'. O grupo oficialmente acabou quando Paul foi a imprensa dizer que ELE havia saído. 'The Dream is Over', mas não completamente. Até hoje os Beatles é a banda que mais vende em todo o planeta e um dos poucos grupos que se dão ao luxo de terem todos os seus discos sempre em catálogo.

REVOLVER - THE BEATLES



1966 é um ano decisivo aos Beatles em vários aspectos. É nesse ano que a banda decide parar de excursionar, também não fazem nenhum filme e dão-se tempo de fazer trabalhos paralelos. Nesse mesmo ano John Lennon tem seu primeiro encontro com Yoko Ono. Em 1966 também foi lançado apenas um disco original dos Beatles - 'Revolver', este, que se não for chamado de divisor de águas, recebe o título de precursor de tudo que viria pela frente. Mas independentemente disso Revolver fala por si mesmo. É um disco brilhante. Pela primeira vez os Beatles conseguiram fazer um trabalho com mais folga ( mas não muita ).Revolver não só é um disco com ótimas canções, como também é o marco da reviravolta de Paul McCartney como compositor.

Com a falta de um script bom, os Beatles decidiram não rodar nenhum filme no início de 66. Com isso, desviaram o horário para as supostas filmagens para o estúdio de gravação. Tiveram mais tempo para experimentar, gravar... e ousar. As gravações ocorreram entre Abril e Junho deste ano. Os Beatles ainda se encontravam no meio de uma excursão, mas era clara a insatisfação da banda tocar ao vivo. Eles estavam piorando como músicos de palco, pois mal se ouviam. Eles... e quem ia assistir aos shows ( naquele tempo o som que se ouvia nos shows eram das próprias caixas do estádio, ou seja.. nem a bateria era amplificada, agora junte isso com milhares de adolescentes gritando..)

Apesar de todo vanguardismo de Revolver e devido ao trabalho e trucagens de estúdio, Os Beatles se tornaram incapazes de tocar alguma música desse novo disco ao vivo.O grupo só tocava músicas dos discos anteriores.Essa diferença fez a banda optar por não excursionar mais, e 2 semanas depois do lançamento de Revolver, os Beatles realizaram seu último show, em 29 de Agosto no Candelstick Park, San Francisco. Depois disso tirariam as tão desejadas férias ( as primeiras desde 1962 ). John iria para a Espanha para filmar ' How I Won The War', Paul trabalharia na trilha sonora de 'The Family Way', George iria para a India aprender cítara, e Ringo... bom, Ringo iria acompanhar John.

Ao contrário de que se pensa, o título Revolver não tem nada a ver com arma ( apesar de besteiras ditas de que o disco 'Gun' foi chamado de 'Revolver' no Brasil ). 'Revolver' vem de revolver, como um disco.O título original deveria se chamar 'Abracadabra', mas foi descartado. A capa do disco assinada por Klaus Voorman, uma amigo antigo dos tempos de Hamburgo ( que mais tarde tocaria baixo em vários discos de John, George e Ringo ) e entrou no 1º lugar das paradas em 10 de Agosto, onde ficou por 7 semanas. Na falta de um 2º disco para ser lançado no natal, a EMI optou por uma coletânea, ' A Collection of Beatles Oldies... But Goldies', sendo esta, a primeria coletânea oficial.

Numa votação realizada em 1998 pela empresa Virgin, 'Revolver' foi eleito como melhor disco já lançados, e em 2001, o álbum repetiu esta façanha numa pesquisa do canal VH-1.

terça-feira, 13 de julho de 2010

July 13#: World Day Of Rock


Bem, é certeza que o rock como era originalmente é hoje peça de museu, mantido em formol na cabeça de alguns poucos saudosistas, assim como eu, o rock cresceu. Muito, aliás. Demais até. Tal como um câncer de células embrionárias, acabou crescendo além da conta e tomando as mais bizarras formas imagináveis. Dos primórdios, com Chuck Berry, até a situação atual, que engloba vertentes das mais diferentes, de Belle and Sebastian a Sepultura, tudo mudou. Mudaram os artistas, mudou a audiência e, principalmente, mudou o mercado e as condições de comercialização desse tipo de música.O rock and roll tem suas origens no blues norte-americano, música predominantemente negra em suas raízes, e acaba surgindo no pós-guerra, na transição dos anos 40 para 50. Nada mais lógico que um ritmo mais alegre (sim, rock já foi sinônimo de alegria).
O primeiro disco considerado rock and roll surgiu muito antes do próprio nome do gênero, em 1951, com o lançamento de Gee pela banda The Crows. Mas o nome mesmo só surgiu em 1954, quando Alan Freed criou um festival chamado Rock’n’Roll Jubilee. Há diversas interpretações. Desde trepar (não exatamente em árvores) até algo como "botar pra quebrar".



Há algum consenso de que o gênero surgiu a partir de 1955, com Bill Haley e Seus Cometas lançando Rock Around the Clock, um equívoco histórico a ser sanado um dia. Talvez num futuro paranóico ao estilo de 1984, de George Orwell. Mas esse é outro assunto.




A partir desse ponto, a popularidade do rock subiu no rabo dos cometas de Bill Halley, que em 1955 deu um tom mais branquela à música. Mais tarde naquele mesmo ano, o estouro de Chuck Berry era o big bang de uma nova linhagem, mais pesada, do rock and roll.



Em 1956, surgem Elvis Presley (o rei do rock americano) e Little Richard (que tendia mais à vertente "berryana"). Elvis, aliás, foi uma ovelha retirada do rebanho do Senhor bem a tempo: antes de a luz do rock invadir sua vida e lhe dar fama e fortuna sem aparentemente ter passado por uma encruzilhada, ele animava cultos evangélicos no interiorzão dos EUA. O diabo, dizem, é pai do rock. Outros dizem que o diabo são os outros…



Vemos, a partir daí, o surgimento de toda uma constelação de nomes, de Stevie Wonder a Buddy Holly. Note-se aí a inclusão de nomes tipicamente associados ao que se convenciona chamar hoje nos EUA de rhythm and blues (que na verdade de blues não tem NADA), como Wonder, Ray Charles e The Marvelettes. Eles geralmente apareciam pela gravadora Motown, que por acaso começou gravando rock and roll. Nada mais apropriado, já que o soul deriva histórica e estruturalmente do rock and roll.




Em 1964, ocorre a grande virada da história do rock, com os Beatles pisando em solo americano e alcançando o primeiro lugar nas paradas. O rock deixa de ser propriedade exclusiva e patenteada dos EUA e passa a ser um fenômeno mundial depois de invadir o outro lado do piscinão Atlântico.



Pode-se facilmente imaginar o frenesi que isso causou em terras ianques. Para os americanos da gema, isso seria mais ou menos como o iraque ganhar uma guerra. Absurdo!



Logo em 1965, começa-se a sentir mais e mais influência de Robert Allen Zimmerman (ou Bob Dylan) e de elementos químicos na música dos Beatles e, por conseqüência, no rock como um todo. Outra banda britânica, liderada por um magrinho bocudo e rebolante, também exercia influência nos dois lados do oceano nessa época. Eram os Rolling Stones.



Em 1966, os Beach Boys lançam Good Vibrations, que eleva a elaboração a um gênero considerado visceral naquela época. Vocais bem arranjados, experimentações sonoras, dissonâncias e quebras de compasso: o rock deve muito disso tudo a Brian Wilson e seus comparsas que acabaram sendo (injustamente) remetidos à posteridade pela "humilde" Surfin’ Safari. Ou também por Surfin USA (mal traduzido no Brasil, numa ilimitada armação, como "Surf é o que eu sei"). Mas sempre surf.


Os americanos ainda teriam com o que colaborar com o rock and roll sessentista e setentista, principalmente com o protesto de Dylan, a psicodelia elétrica e polifônica da guitarra de Jimi Hendrix e a poesia lisérgica de Jim Morrison.

Nesse momento, ocorre também a associação do principal expoente da chamada pop art norte americana, Andy Warhol, a cantora Nico e o músico experimental Lou Reed, gerando algo que nunca havia sido visto antes o Velvet Underground. Pioneiro de um novo som, um fracasso comercial, mas que em última análise nos trouxe Sonic Youth e Beck. Há uma frase célebre sobre a banda que diz "apenas uma centena de pessoas compraram o primeiro disco do Velvet. Mas cada uma delas montou uma banda de Rock and Roll". Algum tempo depois John Lennon, babando pela artista plástica Yoko Ono, seguiria o mesmo caminho com sua Plastic Ono Band. O Talking Heads também bebeu do experimentalismo velvetiano.



Na seqüência, uma segunda onda britânica gerou fenômenos como o proto-heavy metal de Led Zeppelin e Black Sabbath e a progressividade quimioturbinada do Pink Floyd.




Também havia o "rock sinfônico" do Deep Purple, que avançou com todos os talheres nas vísceras do rock depois de se apresentar em 1969 com a Royal Philarmonic Orchestra com seu "Concerto for Group and Orchestra" —uma partitura escrita com cuidado numa parceria entre o tecladista Jon Lord e o maestro Malcolm Arnold, fundindo as linguagens clássica e elétrica para um duelo de titãs.




Ao mesmo tempo o underground musical, que se alimentava das cinzas de Hendrix e Janis Joplin, começa a dar sinais de vida com o estouro do movimento punk, também surgido na Inglaterra. Com a contradição entre surgir da simplicidade de três riffs, rebeldia social e atitude faça-você-mesmo e ser lapidado nos mofados escritórios de estúdios musicais, o ritmo deixou marcas profundas na música mundial com nomes como Sex Pistols, Clash e Stooges.



Os anos oitenta viram o nascimento da MTV e uma mudança da preocupação com a parte musical para a parte comercial. Surgiram aqui nomes que discute-se a inclusão em nossa retrospectiva, como Tina Turner, Elton John, Michael Jackson (advindo dos primórdios roqueiros da Motown) e Madonna. A experiência também degringolou, tornando fácil salvar um som ruim com um bom produtor de vídeo.



A partir de meados da década começam a surgir novas bandas, desta vez fazendo o que se poderia tachar de "rock de verdade". Nomes como The Police, U2, Dire Straits e Aerosmith estouram nas paradas de todo o mundo.



Começa também a surgir a chamada nova onda do heavy metal inglês, bebendo direto nas protoexperiências de Black Sabbath, Led Zeppelin e Deep Purple, com sua temática por vezes lembrando filmes de terror, por vezes lembrando cavalarias medievais e sempre com legiões de seguidores fanáticos, de cabelos compridos e jaquetas remendadas com suas estampas. Nomes&qt& Iron Maiden, AC/DC e muitos outros que criaram uma linhagem que viria a desembocar em Sepultura, Korn e Queens of the Stone Age em nossos dias. E nojeiras como Napalm Death, Carcass, Defecation e Disharmonic Orchestra há dez anos.



Começam a pipocar mundo afora nomes que acabariam ecoando mais adiante, e é em meados da década de 90 que o impensável acontece. Grandemente influenciados por nomes do quilate do Sonic Youth e do Soundgarden, surge em Seattle uma banda que conseguiu juntar o desprendimento do rock alternativo com o sucesso comercial tão almejado pelos figurões da cena musical, o Nirvana. Capitaneado pelo falso messias Kurt Cobain, a partir do álbum Nevermind as portas se abririam para praticamente todos os nomes, bons e medíocres, que o gênero nos traz hoje.



13 de Julho

Um cara chamado Bob Geldof, vocalista da banda Boomtown Rats, organizou aquele que foi sem dúvida o maior show de rock da Terra, o Live Aid – uma perfeita combinação de artistas lendários da história da pop music e do rock mundial, e isso aconteceu no dia 13 de Julho de 1985.



Além de contar com nomes de peso da música internacional, o Live Aid tinha um teor mais elevado, que era a tentativa nobre de conseguir fundos para que a miséria e a fome na África pudessem ser pelo menos minimizadas. Dois shows foram realizados, sendo um no lendário Wembley Stadium de Londres (Inglaterra) e outro no não menos lendário JFK Stadium na Filadélfia (EUA).





Os shows traziam um elenco de megastars, como Paul McCartney, The Who, Elton John, Boomtown Rats, Adam Ant, Ultravox, Elvis Costello, Black Sabbath, Run DMC, Sting, Brian Adams, U2, Dire Straits, David Bowie, The Pretenders, The Who, Santana, Madona, Eric Clapton, Led Zeppelin, Duran Duran, Bob Dylan, Lionel Ritchie, Rolling Stones, Queen, The Cars, The Four Tops, Beach Boys, entre outros, alcançando uma audiência pela TV de cerca de 2 bilhões de telespectadores em todo o planeta, em cerca de 140 países. Ao contrário do festival Woodstock (tanto o 1 como o 2), o Live Aid conseguiu tocar não somente os bolsos e as mentes das pessoas, mas também os corações. O Live Aid conseguiu em 16 horas de show acumular cerca de 100 milhões de dólares, totalmente destinados ao povo faminto e miserável da África. Isso é a cara do ROCK AND ROLL!

sábado, 10 de julho de 2010

DISCOS SEMINAIS DO ROCK


The Byrds - Younger Than Yesterday (1967)

Tentar apontar o melhor grupo do rock ianque dos anos 60 poderia nos levar a uma infindável discussão. Mas, se em vez disto tivéssemos de eleger o mais influente, The Byrds certamente seria um nome de consenso, graças a seu relevante papel na moldagem de boa parte das grandes bandas surgidas nos anos seguintes.
A eclosão dos Beatles e a repercussão do rock inglês nos EUA acabaram dando ao rhyhm'n'blues - então em franca decadência - um novo alento, levando dezenas de jovens músicos a abandonarem a majoritária cena folk. Foi o que ocorreu também com os futuros membros dos Byrds, na ocasião dispersos em vários grupo acústicos: Jim (aliás, Roger) McGuinn nos Limelighters, Gene Clark nos News Christy Minstrels, Chris Hillman nos Hilmen e David Crosby nos Lex Baxter Balladeers.
Assim, McGuinn, Clark e Crosby formaram o Jet Set em Los Angeles, que, com a entrada de Hillman no baixo e Michael Clarke (um velho amigo de Crosby) na bateria, originou os Beefeater. McGuinn descreveu o som deste embrião como uma síntese de Dylan e Beatles, algo que se comprova pelos tapes mais tarde reunidos no LP Preflyte. Já como The Byrds, um remake de Dylan - "Mr. Tambourine Man" - os levou ao topo das paradas dos dois lados do Atlântico. Ao misturar dois itens, até então tão imiscíveis quanto óleo, esta gravação foi a irrefutável gênese do folk-rock.
The Byrds foi considerado um grupo de singles até 1966, quando tornou-se precursor do som ácido californiano. Esta nova fase pautou-se perlo abandono da primazia folk (Gene Clark, autor principal nos álbuns "Mr. Tambourine Man" e "Turn! Turn!", os deixou aí) em favor de trucagens eletrônicas e outras inovações como a introdução da cítara no rock e o primeiro light-show de que se tem notícia (no Village Gate, em Nova York).
Apesar da aparente bizarria, tal momento catalisou três Lps que capturaram os Byrds no auge da criatividade: "Fifth Dimension" (1966), "Younger Than Yesterday" (1967) e "Notorious Byrd Brothers" (1968). Destes, o segundo foi o mais bem-sucedido, não só pela maturação de Crosby e Hillman como compositores, mas também por elevar as harmonias vocais, o padrão "Rickernbacker Doze Cordas" (especialmente através de McGuinn) e o requinte instrumental do grupo como um todo, em nível jamais igualado. Ofuscado pelo lançamento de "Sgt. Pepper's..." e com os Byrds passando por um período de baixa popularidade e rusgas internas, "Younger Than Yesterday" acabou se tornando um dos mais subestimados discos da história do rock.
A amargura com este estado de coisas surge logo na faixa "So You Want to Be rock'n'roll Star" que, com frases como "venda sua alma para a companhia", tornou-se uma cáustica exceção em meio às "boas vibrações" da nascente "hippilândia". Levando ao máximo o uso da eletrônica apenas insinuado no LP "Fifth Dimension", a faixa "CTA 102", por sua vez. era uma curiosa homenagem de McGuinn aos quasars. Também a fixação com os Beatles se resolveria aí, num par de baladas de Hillman, "Have You Evewr Seen Her Face?" e "Time Between", enquanto Crosby criaria épicos barrocos em "Renaissance Fair" e "Everybody's Been Burned", além da surpreendente tecnologia de "Mind Gardens". Num clássico destes, Dylan não poderia faltar e "My Back Pages" foi uma das mais sensíveis releituras feitas pelo grupo.
Os Byrds nunca soaram tão coesos como em "Yonger Than Yesterday" e, ainda que suas produções seguintes tivessem sido apenas medianas, seu legado já estava consolidado de forma seminal no rock das duas décadas seguintes

sexta-feira, 9 de julho de 2010

Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band (1967)


"Cada década produz um ou dois momentos autenticamente memoráveis. Em regra, apenas uma guerra ou uma tragédia apavorante conseguem penetrar as preocupações de milhões de pessoas ao mesmo tempo e ocasionar uma única e bem orquestrada emoção. Mesmo assim, em junho de 1967, tal emoção brotou sem ter sido causada por nenhuma morte, mas pela simples audição de um disco." Trecho do livro Shout!, de Philip Norman.

O tal disco era Sargeant Pepper's Lonely Hearts Club Band. Ainda hoje existem centenas de milhares de pessoas que lembram-se com clareza cristalina do primeiro dia em que ouviram um trecho ou uma faixa de Sgt. Pepper's. Na maioria dos casos, ficou na memória a lembrança de um imenso pasmo - feita pelo grupo pop mais famoso do mundo, ali estava uma coleção de sons musicais absolutamente inédita, revolucionária. Nunca se ouvira (ou se imaginara) coisa parecida: rock'n'roll misturado com vaudeville, ragas indianas entremeadas a cravos renascentistas, atmosferas psicodélicas combinadas com climas circenses. E também havia as letras, que para o suplemento literário do jornal inglês The Times eram "um barômetro dos nossos tempos" - fragmentos de imagens coladas num ritmo vertiginoso, lado a lado com os comentários sócio-políticos mais agudos. Sgt. Pepper's expandiu o vocabulário e o alcance do rock como jamais se sonhara, elevando o gênero à inédita de arte.

A idéia do disco surgiu de uma música de Paul McCartney - "Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band", que ele compusera inspirado na onda de nostalgia vitoriana que na época varria a indústria de moda londrina. A música falava de uma banda imaginária liderada, vinte anos atrás, por um tal Billy Shears. Nada de mais. Até que Paul sugeriu a George Martin, produtor dos Beatles: por que não fazer um álbum inteiro como se a Sgt. Pepper's Band existisse mesmo? Como se fosse a banda do Sargento Pimenta que estivesse tocando?
Martin tremeu na base. As máquinas de quatro canais usadas nos estúdios da época não comportariam a quantidade de idéias que os Beatles faziam jorrar. A solução foi um intrincado sistema de interligação de gravadores que gerou uma enormidade de superposições de fitas. E as fitas nunca pareciam suficientes para a criatividade dos Beatles - encharcados de LSD, eles escancararam as portas de sua percepção.

A obra-prima de Sgt. Pepper's foi uma das últimas verdadeiras parcerias de Lennon e McCartney. John havia começado a escrevê-la sozinho, baseado em dedicada leitura dos jornais e na morte da milionária Tara Browne, amiga dele e dos Stones, vítima de um acidente automobilístico. Paul ofereceu para John algumas frases curtas - "acordei, caí da cama, arrastei o pente pela minha cabeça". "A Day in the Life", a música escolhida para encerrar o álbum, foi, provavelmente, a faixa mais difícil - todas as demais davam uma sensação de picadeiro de circo, até mesmo a indianista e intimista "Within You, Without You", de George Harrison, que terminava em gargalhadas. Em "A Day ín the Life" os Beatles queriam ser sérios. Como nunca. Para o grand finale da música John pediu, literalmente, "um som que crescesse do nada e chegasse até o fim do mundo". Martin encomendou uma orquestra de 41 músicos. Deu a eles apenas uma instrução: disse quais eram as notas mais altas e mais baixas que teriam que tocar. No miolo, era cada um por si. O resultado estonteante foi comparado por um crítico ao som "de um sarcófago sendo fechado", mas para os Beatles ainda não era um encerramento definitivo. Adicionaram, nos últimos sulcos do disco, duas coisas a mais: primeiro, um palavreado incompreensível gravado de trás para frente. Depois, uma nota na freqüência de 20.000 hertz, audível apenas para cães.

José Emilio Rondeau

segunda-feira, 5 de julho de 2010

Nesta semana, completam-se 20 anos da morte de Cazuza e 30 da de Vinicius

Artistas são dois dos mais celebrados letristas da música brasileira


Foram dois cariocas, boêmios, brilhantes, polêmicos, poetas. Nesta quarta-feira, completam-se 20 anos da morte de Cazuza – e, na sexta-feira, a perda de Vinicius de Moraes fecha exatas três décadas. Tempo insuficiente para apagar da memória os versos de dois dos principais letristas da canção nacional.

Ou seria exagerado dizer que quase todo brasileiro já parou ao menos alguns minutos imaginando o que seriam os tais “segredos de liquidificador” cantados por Cazuza em Codinome Beija-Flor? Cantarolou “Olha que coisa mais linda / Mais cheia de graça / É ela menina / Que vem e que passa”, lembrando a Garota de Ipanema de Vinicius e Tom Jobim, em uma tarde na praia? Ficou indignado a ponto de gritar “Brasil / Mostra tua cara / Quero ver quem paga /Pra gente ficar assim”, como fez Cazuza no disco Ideologia? Ou desejou “Passar uma tarde em Itapuã / Ao sol que arde em Itapuã / Ouvindo o mar de Itapuã / Falar de amor em Itapuã” ao som de Toquinho e Vinicius?

Essas e muitas outras canções fazem deles dois dos poetas mais populares do país. Cada um à sua maneira, é verdade. Vinicius, em seus 66 anos de vida, deixou dezenas de títulos, entre livros e discos, além de tomar parte em pelo menos uma revolução da cultura brasileira – o nascimento da bossa nova, o gênero que projetou definitivamente o Brasil no cenário musical mundial. Cazuza partiu aos 32 anos, vítima de Aids, mas teve tempo de fazer muito barulho, primeiro como cantor de banda de rock – num momento em que o gênero conquistou corações e mentes Brasil afora – e depois como compositor afeito à MPB.

Os dois artistas tiveram em comum o gosto pela boemia, pela vida desregrada, pelas paixões incontroláveis. Mas é arriscado tentar compará-los como artistas – tanto em termos absolutos como relativos. Para o crítico e pesquisador musical Zuza Homem de Mello, Cazuza teve o mérito de “retratar um aspecto muito vivo da época em que viveu”, algo que, no entanto, não lhe garantiria um papel mais transcendente como letrista – o que Vinicius, segundo ele, tem de sobra.

– Grandes obras se caracterizam por não se situarem em determinada época. É nisso que vejo o valor da obra de Vinicius como superior – diz Zuza, por telefone. – Vinicius é transcendental, Cazuza fica circunscrito a um determinado período.

Zuza ressalta ainda o papel decisivo de Vinicius como um dos principais pilares artísticos da bossa nova – aspecto que o professor de literatura Luís Augusto Fischer também destaca ao traçar um paralelo entre os dois artistas.

– Algum parentesco poderemos encontrar entre Vinicius e Cazuza, se a gente pensar no roqueiro-baladeiro carioca como ponto de referência da canção brasileira dos anos 1980 na qualidade de um magnífico letrista lírico, tanto como Vinícius fora antes, para a geração anterior – pondera Fischer, por e-mail. – A comparação fica prejudicada em parte porque o que Vinicius ajudou a fazer entrou para a corrente sanguínea da cultura brasileira, a ponto de podermos reconhecer, sem dificuldade, que ele influenciou Cazuza, que especialmente nos últimos anos também fez bossa nova.

No mínimo, foram dois dos brasileiros que melhor souberam cantar o amor demais.

Um tradutor da malandragem

Personagem do renascimento do rock brasileiro, letrista respeitado pelos fãs da canção popular, ídolo que assumiu publicamente ser portador de uma doença-tabu. Esse cara foi Cazuza, artista sempre lembrado por sua obra no pop brasileiro – e também por sua postura pessoal fora de palcos e estúdios.

Agenor de Miranda Araújo Neto já nasceu com apelido, graças à ascendência nordestina do pai, João Araújo – o termo “cazuza” era sinônimo de “moleque”, no vocabulário do Nordeste. A alcunha se revelou certeira já na adolescência, quando o garoto se mostrava bem mais interessado na vida noturna do Baixo Leblon do que nos estudos. Entre baladas, drogas, mulheres e eventuais encrencas com a polícia, Cazuza decidiu tentar a carreira musical, curiosamente, a partir de uma experiência no teatro – em um papel na peça Paraquedas do Coração, ele tinha de cantar em cena, o que o encorajou a virar vocalista.

Quando o Barão Vermelho – já com Cazuza como cantor e letrista – lançou seu primeiro disco, em 1982, o rock ainda não era um estilo muito popular no Brasil. Depois do deslumbre da Jovem Guarda nos anos 1960, as guitarras haviam ficado relegadas ao circuito underground na década seguinte. O Barão – ao lado de Paralamas do Sucesso, Blitz, Kid Abelha e Lulu Santos – teve a oportunidade de virar esse jogo ao participar da programação do Rock In Rio, em janeiro de 1985, dividindo o palco com estrelas como Queen, Iron Maiden e AC/DC. Deu certo: o rock virou fenômeno de massa no país, e a banda foi um dos símbolos dessa nova era. A imagem que ficou foi a de Cazuza cantando Pro Dia Nascer Feliz na Cidade do Rock no mesmo 15 de janeiro em que Tancredo Neves foi eleito para governar o país, encerrando o regime militar.

Consta que João Araújo – presidente da gravadora Som Livre nos anos 1980 – relutou antes de decidir contratar a banda do filho, temendo eventuais acusações de nepotismo. Na verdade, a principal ajuda paterna já havia sido oferecida em casa: graças ao trabalho do pai, Cazuza conviveu desde cedo com artistas como Caetano, Elis, Gal e João Gilberto e ouviu muito Cartola, Dolores Duran e Lupicínio Rodrigues. Essa parte brasileira na formação do poeta viria a se tornar mais evidente na trajetória solo, iniciada com o disco Cazuza, ainda em 1985, e bem resumida no disco ao vivo O Tempo Não Para, de 1989 – a energia roqueira estava ao lado da sutileza da bossa nova, acompanhando versos como “A tua piscina tá cheia de ratos / Tuas ideias não correspondem aos fatos” e “E se eu achar a tua fonte escondida / Te alcanço em cheio, o mel e a ferida”.

Esse mesmo disco simboliza a agonia pública de Cazuza. Ele fez o show já completamente desfigurado em função da aids – havia dois anos que a doença vinha se manifestando, e o artista chegou a dar entrevistas desmentindo que fosse portador do HIV. Bissexual, ele não abandonou o comportamento desregrado – mas sua imagem pública mudou muito em fevereiro de 1989, quando ele assumiu publicamente a condição de soropositivo. O que gerou uma comoção cada vez maior a cada aparição – para receber o Prêmio Sharp para o disco Ideologia (1988), por exemplo, ele estava sentado em uma cadeira de rodas. O álbum duplo Burguesia (1989) é o principal registro sonoro do ocaso do cantor, já quase sem voz para cantar suas próprias letras. Cazuza teve a fama, o sucesso, o amor do público e, com a morte precoce, alcançou o status de mito – como pessoa e como artista, ser exagerado sempre fez parte de seu show.

Exagerado, amado, singular

Muito antes de Cazuza proclamar-se exagerado em letra e melodia, Vinicius construía uma vida e uma obra em que o exagero, mais do que medida, era método. Vinicius produziu com muito sentimento, dando voz a um lirismo que o tornou um poeta popular como poucos no Brasil. E teve tempo ainda de casar nove vezes, viver incontáveis paixões e ser um dos pilares de uma revolução musical que tornou o Brasil referência internacional.

Vinicius é um personagem com estatura de gigante na cultura nacional, ao ponto de parecer ter vivido mais do que os 66 anos com que morreu. A prova da importância de Vinicius no cenário nacional é o quanto livros sobre personagens tão díspares quanto João Gilberto, João Cabral, Roberto Carlos, Jayme Ovalle e Chico Buarque abrem espaço para a figura de Vinicius, amigo, colaborador, inspirador ou simplesmente influência para uma boa parte da arte nacional na segunda metade do século 20.

Na mais completa biografia do poeta, O Poeta da Paixão, o jornalista José Castello conta que Vinicius se fez Vinicius aos nove anos de idade, quando, acompanhado da irmã Lygia, foi a um cartório no centro do Rio e simplificou o nome original mais pomposo que havia recebido ao nascer: Marcus Vinitius da Cruz e Mello Moraes. Carioca, filho de uma pianista e de um poeta, Vinicius parecia fadado a seguir a trajetória modelo dos bem-nascidos de sua estirpe: bons colégios, educação refinada e formação universitária em Direito. Mas, em paralelo com os estudos jurídicos e o curso para oficial da reserva, ia lapidando os primeiros poemas, editados no volume O Caminho para a Distância, em 1933, quando contava apenas 20 anos. A essa estreia seguiram-se os premiados Forma e Exegese (1935), Novos Poemas (1938), Cinco Elegias (1943) e Poemas, Sonetos e Baladas (1946). Nos livros dessa fase já se notava a gradual transição entre um misticismo sublime que marcou a primeira fase de sua produção e o lirismo sentimental, derramado, erótico, que seria a característica de Vinicius dali em diante.

Desde a adolescência, Vinicius dividia-se entre o fazer poético e a música. Chegou a formar, aos 14 anos, um conjunto para atuar em festinhas e teve entre seus amigos de juventude os irmãos Paulo e Haroldo Tapajós – com quem compôs, com apenas 15, anos, canções de relativo sucesso. O equilíbrio entre a poesia e a canção foi uma característica de sua trajetória, o que lhe garante lugar peculiar dentre os literatos de sua geração – esteve em posição privilegiada para manter contato com o melhor de ambas as correntes artísticas. Ao mesmo tempo em que angariava a admiração e o elogio de nomes como Drummond, Mario de Andrade, Augusto Frederico Schmidt, também conheceu Tom Jobim, formando uma das mais profícuas duplas de compositores do Brasil. Tom e Vinicius têm para a bossa nova o peso que Lennon & McCartney para o rock ou Gardel e Le Pera para o tango. São ao mesmo tempo marco e essência.

Apaixonado pela vida e por seu ofício, Vinicius é frequentemente citado como o grande poeta brasileiro do amor – o que talvez não seja exatamente apropriado no sentido em que a maioria usa a frase, mas serve à perfeição para definir a relação do próprio público com o poeta. Vinicius foi um escritor amado pelo público, alcançou, com a música e o lirismo de seus versos, aquele Olimpo literário rarefeito: a memória afetiva do grande público. E fez isso como compositor, poeta, dramaturgo e cronista de imprensa. Uma obra que faz de Vinicius algo próximo, nas letras nacionais, a um Homem do Renascimento.

CARLOS ANDRÉ MOREIRA e LUÍS BISSIGO

sexta-feira, 2 de julho de 2010

Asimov: Ficcionista e visionário do futuro

Para muitos cientistas, suas histórias foram mais do que ficção de boa qualidade. Delas, como de uma bola de cristal, eles tiraram inspiração para criar a ciência moderna.
por Tatiana Loureiro
Ele escreveu 470 livros. Seu conto O cair da noite, escrito em 1941, foi considerado pela Associação dos Escritores de Ficção Científica da América como a melhor história de todos os tempos. E a trilogia Fundação, do período 1951/1953, foi premiada com um Hugo, a mais cobiçada homenagem prestada pela Convenção Mundial de Ficção Científica, como a melhor série já escrita. Ao todo, foram oito prêmios de alto significado como reconhecimento público. Mas resumir a importância de Asimov a esses feitos seria subestimá-lo, pois ele não foi apenas ficcionista. Foi também um pioneiro na popularização dos conhecimentos e um visionário, e como tal influenciou o próprio desenvolvimento da ciência.

A melhor prova disso foram suas histórias sobre robôs, justamente aquelas que lhe conquistaram a popularidade, no início dos anos 40. Antes dele, a ficção científica era influenciada pelo chamado complexo de Frankenstein, pois os robôs geralmente eram pintados como simples monstros, que acabavam se voltando contra seus criadores. Asimov rompeu com o mito ao descrever robôs que também eram dóceis, inteligentes e dignos. Elaborou, além disso, as três leis da robótica: um robô não pode ferir uma pessoa, nem, por omissão, permitir que ela sofra; deve obedecer aos humanos, exceto quando houver conflito com a primeira lei; deve proteger sua própria existência, ressalvadas as regras precedentes. Esses conceitos tiveram o efeito de um clarão sobre as possibilidades do futuro, lembra um dos pais da inteligência artificial, o americano Marvin Minsky, hoje professor do Instituto de Tecnologia de Massachusetts.

“A primeira vez que tomei contato com as idéias de Isaac foi há cinqüenta anos, quando estava entrando na adolescência. As histórias sobre espaço e tempo me fascinaram, mas sua concepção sobre robôs me impressionou demais.” Depois disso, diz o cientista, nunca mais parou de pensar sobre como a mente trabalha. Como os robôs iriam pensar? Como construir os robôs com senso comum, intuição, consciência e emoção? Como o cérebro faz essas coisas? Para Asimov, em contraposição, foi gratificante a velocidade com que tais idéias se concretizaram, pois não acreditava que os robôs habitariam a Terra em seu tempo de vida. “Mas eles estão aí”, escreveu no segundo volume de sua autobiografia, publicado em 1980: In Joy Still Felt (Ainda com alegria, em tradução livre). O primeiro volume, In Memory Yet Green (Na memória ainda fresca) havia sido lançado um ano antes.

São robôs industriais, criados para realizar tarefas específicas, e não criaturas sensíveis. Mas já representam máquinas complexas e têm, inclusive, salvaguardas embutidas — um eco das leis de Asimov. “Eu fui o primeiro a retratar robôs assim”, pleiteia ele com toda a justiça. Apesar da empolgação que sentia ao ver o avanço da robótica, Asimov sempre recusou os convites de Minsky para conhecer os robôs em operação. “Eu lia avidamente tudo sobre Marvin e seus robôs, mas não fazia questão de vê-los funcionando. Seria como entrar em contato com o material da ficção. Talvez eu não goste da invasão do mundo real na minha ficção científica.”

Publicados originalmente na revista Astounding Science Fiction, editada por John Campbell, os contos sobre robôs foram reunidos, em 1951, no segundo livro de Asimov, “Eu, Robô”. Campbell era conhecido por sua habilidade em descobrir e incentivar novos talentos, e muitas das histórias de Asimov, antes de irem para o papel, foram debatidas longamente com ele. As três leis da robótica surgiram numa dessas conversas e Asimov atribuiu sua criação a Campbell, que se tornou seu amigo. Fora da ficção científica, Asimov rompeu com o mito de Frankenstein em outro sentido — descrevendo os cientistas como pessoas comuns, e não como magos, muitas vezes esquisitos.

O próprio Dr. Frankenstein criado por Mary Shelley em 1818, parecia mais um alquimista do que um pesquisador moderno. Em seus livros de divulgação, Asimov escreveu sobre quase todas as áreas do conhecimento humano. Explicou o que é um buraco negro, os corpos mais densos que podem existir; falou sobre o valor exato de pi, a razão entre a circunferência e o diâmetro; ensinou a nomenclatura da Química orgânica; e discorreu até mesmo sobre o número de batimentos cardíacos de um gato ao longo da vida. Se não conhecia um assunto, comprava alguns livros e não parava de ler enquanto não pudesse escrever a respeito.

“Para todos nós ele era um monumento”, elogia o prêmio Nobel de Física de 1988 e professor da Universidade de Chicago, Leon Lederman. “Muitos cientistas americanos foram levados para a ciência por causa dos livros de Asimov. Ele era notável pela sua capacidade de popularizar e entreter.” Para o astrônomo Carl Sagan, outro monstro sagrado da divulgação científica, Asimov era motivado por um forte impulso democrático. “Ele dizia que a ciência era muito importante para ficar na mão dos cientistas”, escreveu Sagan em um artigo publicado na revista inglesa Nature logo após a morte de Asimov.

Os dois eram amigos desde o início dos anos 60, quando o astrônomo, leitor ávido das aventuras intergaláticas narradas por Asimov, deu início a uma correspondência que se tornaria freqüente. Com sua típica falta de modéstia, Asimov costumava dizer que em toda a vida só encontrara dois homens mais inteligentes que ele: Carl Sagan e Marvin Minsky. E completava: “Não quer dizer que sejam mais talentosos que eu”. Menino de memória fotográfica, ele aprendeu a ler sozinho aos 5 anos, entrou na faculdade aos 15, e publicou sua primeira história aos 18.

Bem longe do local em que passaria a infância, ele havia nascido em Petrovich, a 200 quilômetros de Moscou, filho de Judah e Anna Rachel Asimov. Comemorava seu aniversário em 20 de janeiro, mas pode ter nascido em qualquer dia entre 4 de outubro de 1919 e 2 de janeiro de 1920, devido à mudança do calendário na Rússia. Aos três anos, emigrou com os pais para os Estados Unidos e se instalou na área judaica do Brooklyn. Aí, seu pai adquiriu a primeira da série de mercearias que teria.

Foi na banca de jornais e revistas, ao fundo da loja, que ele entrou em contato com as revistas de ficção científica. Lia as histórias com cuidado para não amassar as revistas, que seriam vendidas poste-riormente. A infância não foi fácil. Durante todos os dias, até mudar-se de No-va York em 1942, Asimov ajudava o pai, e suas obrigações na loja o impediam de fazer amigos. Solitário, passava a maior parte do tempo lendo e escrevendo. Anos mais tarde, ele admitiu que isso ajudou a torná-lo um escritor compulsivo, pois a loja ficava aberta dezesseis horas por dia, sete dias por semana.

“De alguma forma, eu assimilei esse horário como normal, e me orgulho de ter um despertador que nunca uso, apesar de acordar sempre às 6 horas. Eu continuo mostrando pro meu pai que não sou um vagabundo.” E não era mesmo. Acostumado aos apertos, ele passou metade da vida procurando uma garantia de estabilidade, mesmo que isso representasse muito trabalho e pouco tempo junto à máquina de escrever. O fato é que até se tornar escritor em tempo integral, em 1958, Asimov não acreditava que poderia viver apenas da literatura. Por causa disso, em 1942, ele suspendeu a tese de doutorado em Bioquímica na Universidade Columbia e aceitou um cargo de pesquisador na Marinha, no Estado da Filadélfia.

Havia se formado em Química três anos antes, e aos 21 anos concluíra o mestrado. Naquela época, ainda se debatia com o fracasso em entrar para a faculdade de Medicina e satisfazer o desejo da família. Esse complexo só iria desaparecer em 1950, quando pôde presentear o pai com seu primeiro livro, Pebble in the Sky (Cavernas de Marte em português). A década anterior havia sido conturbada. No início de dezembro de 1941, os japoneses atacaram a base americana de Pearl Harbour, no Pacífico, e o Congresso aprovou a declaração de guerra contra o Japão, Alemanha e Itália.

Assim, ao aceitar o trabalho de pesquisador na Marinha — onde trabalhou com Robert Heinlein e Sprague de Camp, já então dois grandes grandes nomes da ficção científica —, Asimov afastou temporariamente a ameaça de convocação. Também garantiu um salário providencial: tinha acabado de conhecer Gertrude Blugerman, com quem se casaria após cinco meses de namoro. Em 1946, finalmente, conseguiu dar baixa, retomar o estudo em Columbia e concluir o doutorado em Bioquímica. Sua primeira pesquisa foi a busca de uma vacina para a malária, que logo depois abandonou, com um desempenho apenas modesto, e aceitou o cargo de professor e pesquisador na Universitade de Boston.

Mas, então, seu interesse pela ciência tomaria um impulso avassalador com o sucesso soviético no lançamento do satélite Sputnik, em 1957. Os americanos reagiram de pronto com a criação de uma agência espacial, a NASA, e a ficção científica ganhou o coração de milhões de pessoas. Além disso, Asimov havia escrito um artigo sobre Genética e as raças humanas, e ganhou gosto pela divulgação da ciência. Como resultado afastou-se da pesquisa e aumentou a produção literária. Já não precisava correr atrás dos editores, que o procuravam espontaneamente pedindo histórias e artigos. Nada mais natural que acelerasse o passo na literatura, terminando a década de 50 com 32 livros publicados. Na década seguinte, foram 70 livros; nos anos 70, 109; e nos últimos doze anos de vida, 259.

Para sustentar esse ritmo, Asimov jamais tirava férias sem levar consigo a máquina de escrever portátil, e enquanto todos se divertiam, ficava trabalhando. Na maioria das vezes, a mulher Gertrude e os filhos, David, de 1951, e Robyn, quatro anos mais nova, viajavam sozinhos. Esses desencontros só terminaram com a separação e com o retorno de Asimov a Nova York, em 1970. É verdade que a ausência do escritor nas viagens não se devia apenas ao trabalho: embora fosse idealizador de naves espaciais e impérios galácticos, Asimov era acrófobo — passava mal só de pensar em entrar num avião. Ele só voou uma vez na vida: quando estava na Marinha e uma recusa significaria corte marcial.

Outra esquisitice era uma espécie de paranóia que o fazia pular da cama para ver se a porta do apartamento estava trancada. Se sua segunda mulher, a psiquiatra e escritora Janet Jeppson, demorava a chegar em casa, logo pensava que ela tinha caído num buraco. Amigos desde os anos 50, casaram-se em 1973, quando a fama e a influência de Asimov chegou ao auge.

Nas muitas palestras que era convidado a fazer, ele passou a disseminar uma inestimável confiança no conhecimento e na democracia. Ateu, recusava crenças de qualquer tipo — “duendes, diabos e bruxas” —, e dizia que a única coisa que merecia ser chamada de Deus era a racionalidade. “Houve um tempo que o mundo nos parecia repleto de inteligências superiores à nossa. Agora, que sabemos tanto a respeito do Universo, podemos nos concentrar nos males reais.” O homem que foi ao delírio quando o russo Yuri Gagárin subiu pela primeira vez ao céu, acreditava que no espaço se encontraria solução para boa parte dos problemas terrestres. Imaginava que a colonização da Lua e de Marte seria uma válvula para a superpopulação. E propunha colocar captadores de energia solar em órbita co-mo saída para se obter energia limpa.

Pessoalmente, sua realização foi ter escrito livros, como ele mesmo declarou enfaticamente numa conversa em quesua primeira mulher lhe perguntou como se sentiria se, depois de gastar tanto tempo escrevendo, percebesse que perdera toda a essência da vida. Ele respondeu: “Para mim a essência da vida é escrever. Se eu publicar 100 livros e depois morrer minhas últimas palavras vão ser: só 100!” Na verdade, quando a morte sobreveio, em 6 de abril de 1992, por insuficiência renal, o número havia chegado a 468 e ainda estava crescendo — com os lançamentos previstos de The Positronic Man (O homem positrônico), para o final deste ano, e I, period Asimov: seven decades (Eu, ponto, Asimov: sete décadas).

Redução da população em Londres: O século das trevas londrinas

O arqueólogo inglês Peter Marsden revela que a cidade já ficou 100 anos sem nenhum morador.
Londres não tinha mais de 100 anos de vida quando, de repente, entrou em colapso e praticamente tomou-se uma cidade-fantasma. A revelação é do arqueólogo inglês Peter Marsden, depois de estudar indicadores básicos de população para a época: restos de lixo deixados pelos romanos e vestígios de alimentos. Fundada em cerca de 50 d.C. pelos romanos, Londinium, seu 2 nome de batismo, era capital colonial e um porto florescente. "No ano 150, porém, ela se viu abandonada por dois terços da população", garante Marsden, baseado na datação de 115000 pedaços de potes de lixo escavados desde 1973. De todas essas peças, 78% provinham dos primeiros 100 anos de vida da capital, enquanto apenas 7% datam dos anos 150 a 270. Proporções semelhantes se repetiram no estudo dos restos de ossos de animais, indicadores dos hábitos alimentares.

"A causa do declínio foi provavelmente econômica" teoriza o arqueólogo Mardsen, "já que o efeito de desastres naturais - como pragas - sobre a população é quase sempre temporário. " Por que os habitantes saíram, e para onde foi essa gente toda durante os 120 anos de abandono da cidade, nem o próprio Mársden conseguiu esclarecer.

Júlio Verne: Inventor do Futuro


Em quase uma centena de livros, o pai da ficção científica antecipou as conquistas tecnológicas do século XX em histórias de suspense e aventura.
O ano é 1873. Correspondentes dos principais jornais europeus e dos Estados Unidos em Paris relatam a aventura do explorador Phileas Fogg na sua viagem ao redor do mundo. Cada etapa é avidamente acompanhada por centenas de milhares de leitores. Só que Phileas Fogg não existia era apenas mais um dos personagens cria dos pela mente exuberante do escritor francês Júlio Verde, então no auge da fama. O livro A volta ao mundo em 80 dias foi inicialmente publicado como folhetim no jornal parisiense Le Temps.

No final, a aparente decepção: o herói, depois de uma infinidade de peripécias, tinha levado 81 dias para completar o percurso, perdendo assim as 20 mil libras que apostara com os companheiros do Reform Club, em Londres. Mas surpresa os jornais do dia em que Fogg volta à Inglaterra estavam datados do que ele imaginava ser o dia anterior. Viajando em direção ao leste, acabou ganhando um dia, pois tinha visto o Sol nascer 81 vezes, uma a mais do que as pessoas que tinham ficado em casa. O fenômeno já era conhecido desde 1522, quando os marinheiros da expedição de Fernão de MagaIhães perderam um dia no calendário, viajando para o oeste.

Mas é o uso que Júlio Verne dá a esse conhecimento, entre outros tantos, que faz dele o pai da ficção científica. Verne escreveu histórias que não apenas prendem o leitor pelo suspense e o ritmo da aventura como também antecipam invenções que só apareceriam no século XX, como o helicóptero, o submarino, o aqualung, a televisão e a conquista do espaço. São histórias verossímeis e emocionantes. Tudo o que Verne escrevia parecia viável, embora a explosão científica de seu tempo ainda não fosse suficiente para produzir as maravilhas tecnológicas de que ele falava.

Muitos contemporâneos chegaram a pensar que ele próprio fosse uma ficção e que seus livros eram produzidos por uma equipe de redatores. Em 1895, dez anos antes de morrer, uma celebridade de temperamento discreto e hábitos reclusos, Verne chegou a ser visitado, na cidade de Amiens, onde vivia, à beira do rio Somme, pelo escritor italiano Edmondo De Amicis (1846 1908), interessado, em saber se o colega francês realmente existia. Fisicamente, era um homem típico de sua época e de sua classe social. Membro da burguesia média, vestia-se com ternos em estilo redingote, colarinhos engomados, gravata de laço e uma infalível bengala.

A cabeleira espessa lhe dava ares de compositor; barba e o bigode compactos, a expressão respeitável dos homens de bem. O trabalho era para ele um prazer comparável apenas ao de navegar nos seus iates, Saint-Michel II e III, a bordo dos quais revivia o gosto pela aventura que vinha da infância.

Na cidade de Nantes, na região francesa da Bretanha, onde nasceu a 8 de fevereiro de 1828, havia também um rio, o Loire, em cujas margens ele e seu irmão Paul (um ano mais jovem) gostavam de brincar e conversar com velhos marinheiros, ouvindo histórias de países distantes. Tanto essas histórias o fascinavam que, aos 11 anos de idade, Júlio Verne fugiu de casa para ser marujo e conhecer o mundo. Não foi longe. Seu pai, Pierre Verne, um advogado de muito prestígio, conseguiu impedir que a ousadia se consumasse, apanhando o rapazinho na primeira escala do navio, no porto de Paimboeuf. Monsieur Verne, muito conservador, sonhava ver seus dois filhos seguindo a carreira de advogado —jamais a de marujo. Ao resgatar Júlio, aplicou-lhe uma memorável surra de chicote.

De volta aos bancos escolares, o garoto transferiu a paixão pelo desconhecido para o estudo de Geografia. A imaginação transportava o aluno para os países que os professores iam descrevendo, e seus cadernos estavam repletos de esboços e mapas. Mas nada estimularia tanto a sua imaginação como a visita que fez com o pai às fundições e estaleiros de Indre, perto de Nantes, onde os novos barcos a vapor estavam sendo construídos.

O adolescente ficou deslumbrado. Não era para menos: as máquinas a vapor eram a grande sensação da época. Símbolos da Revolução Industrial, que começara na Inglaterra no século anterior, elas impulsionariam uma série de portentosas transformações na sociedade européia, naqueles meados do século XIX. De um momento para o outro, tudo seria possível. A ciência parecia ter respostas para tudo—e essas respostas se materializavam em máquinas, engrenagens, aparelhos que tornavam a vida diária um paraíso de conforto, em comparação com tudo aquilo que os europeus se haviam habituado a conhecer.

Mas, apesar da paixão pelo rio, que poderia sugerir uma carreira semelhante à do irmão, que se tornou —ele sim—marinheiro, ou do interesse pelas máquinas, que o encaminhava para a engenharia, Júlio Verne, aos 16 anos, foi mesmo se preparar para a Escola de Direito. Em 1848, aos 20 anos, ele chega a Paris apenas para cumprir um desejo do pai. Seis décadas após a Revolução Francesa e 27 anos após a morte de Napoleão, o país vivia turbulentos conflitos políticos e sociais.

A Revolução de fevereiro de 1848 derruba o rei Luís Felipe, que tinha subido ao poder em 1830, e proclama a Segunda República, com Luís Napoleão sendo eleito presidente meses mais tarde. Quatro anos depois, um golpe restaura a monarquia e o presidente se transforma em Napoleão III. Mas não foi a política que seduziu o jovem provinciano de Nantes, e sim o espírito boêmio e cultural de Paris, onde reinavam figuras como os escritores Alexandre Dumas e Victor Hugo. Na interpretação do neto do escritor, Jean Jules Verne, "ele era um idealista e um verdadeiro anarquista". De qualquer forma, jamais teve militância partidária—nem mesmo em 1888, quando foi eleito vereador em Amiens: ninguém conseguiu explicar por que seu nome foi apresentado pela extrema esquerda.

Ainda jovem estudante de Direito, é convidado ao castelo de Alexandre Dumas, em Saint-Germain. Fica impressionado pelo uso que o autor de Os três mosqueteiros faz dos temas históricos para criar uma novela ou peça teatral. A partir de então, começa a fazer planos literários. Sem muito sucesso, uma peça de Verne, Les pailles rompues ("Contratos anulados"), é encenada em 1850 Não seria esse o caminho pelo qual se tornaria famoso. Embora já formado em Direito, emprega-se de 1852 a 1854 como secretário do Teatro Lírico. Nessa época conhece uma viúva com duas filhas, Honorine-Anne de Vianne, com quem se casaria em 1857. Honorine não tinha nenhum interesse pela literatura. Gostava, isso sim, da vida social de Paris, preocupada em morar bem, vestir-se bem e freqüentar as grandes recepções. Foi uma presença secundária na vida do marido. Júlio e Honorine tiveram um fiIho, Michel, em 1861.

Logo após o casamento Júlio arranja um emprego de—quem diria— corretor na Bolsa de Paris, onde trabalharia nove anos. Mas não tirava da cabeça a idéia de fazer com a Geografia o que Dumas fizera com a História: escrever romances e novelas que popularizassem o conhecimento do mundo e da tecnologia. Assim publica em 1851 um pequeno conto cujo tema são as viagens marítimas Conhece então o jornalista, fotógrafo e aventureiro Félix Nadar, um entusiasta dos balões. Paris vivia na época uma verdadeira mania pelo balonismo. No Campo de Marte, de onde Santos Dumont decolaria com seu 14-bis, eram comuns as ascensões diárias de uma enorme variedade de balões.

Santos Dumont, como ele mesmo contou certa vez, inspirou-se na obra de Verne para construir seus apareIhos. As façanhas cada vez mais arriscadas do fotógrafo Nadar culminaran com o acidente com o Géant, o gigantesco balão que levou Nadar, a mulher e mais nove passageiros para um tumultuado passeio de dezesseis horas. No pouso, Nadar quebra pernas. Tudo isso aumenta em Verne a paixão pela idéia do que se poderia chamar o romance da ciência. Devora revistas de atualidades e publicações científicas, querendo saber tudo sobre máquinas e invenções. Tinha 35 anos quando conhece o editor Jules Hetzel. O encontro, acertado por Nadar, seria decisivo em sua vida.

Tímido Verne estava bastante nervoso quando Ihe entregou os primeiros originais—uma aventura a bordo de balões em homenagem ao amigo fotógrafo. O editor, depois de ler atentamente o calhamaço, comentou: "Como narração histórica está bom. Mas quem quer História? Volte para casa e escreva de novo. Escreva aventuras emocionantes. O povo divertimento, não aulas". Verne ficou atordoado, mas obedeceu. Duas semanas depois, entregava o texto reescrito a Hetzel. O editor sorriu satisfeito, era aquilo que desejava: sonho, aventura, e fim, uma leitura que dava prazer.

O livro chamava-se Cinco semanas num balão e descrevia uma aventura na África. Foi um sucesso. Verne assinou então um contrato, pelo qual comprometia a escrever dois Iivros por ano pelos próximos vinte anos (mais tarde, o contrato foi ampliado, para toda a produção futura), ganhando 10 mil francos por livro— uma fortuna, na época, que Ihe permitiu libertar-se da Bolsa parisiense. Verne cumpriria o contrato rigorosamente durante quarenta anos.

Hetzel teria um papel fundamental na obra do escritor: no texto das Viagens extraordinárias, uma coleção de aventuras publicadas em forma de folhetim, o editor acompanhava cada frase como um produtor de televisão acompanha o trabalho do autor de uma novela. Ele próprio era um viajante de marca. Além de cruzeiros pelo mar do Norte e pelo Mediterrâneo, atravessou o Atlântico rumo Nova York, em 1867. Era também um entusiasta do meio de transporte mais revolucionário de sua época: o trem. Em 1880, atravessou a Inglaterra e a Escócia. Durante as viagens, preocupava-se em fazer copiosas anotações que depois serviriam de referência para seus livros. Para o público francês, ler Verne era então a única oportunidade de aventurar-se por uma ficção decididamente incomum.

Verne era minucioso na descrição de cenários. Transportava os leitores dos pólos gelados aos desertos africanos, das aldeias da Rússia e da Ásia a nada menos que o centro da Terra. Além disso, nas suas narrativas havia referências às últimas invenções da época—as lâmpadas de arco e fluorescentes—como também às máquinas a vapor, ao telégrafo e ao cabo submarino. Mas são as projeções futuríticas que surpreendem até hoje. Quando projetou o submarino Nautilus, comandado pelo Capitão Nemo, Verne estava a par do que se publicava sobre as mais recentes tentativas de se construir um barco submersível.

Mas não são apenas máquinas que habitam seus livros. A descrição do fundo do mar, em Vinte mil léguas submarinas (1870), é tão fascinante que o oceanógrafo Jacques Cousteau considera Verne uma das leituras fundamentais de sua infância, indicando-lhe o caminho de explorador dos mares.

Instalado numa magnífica mansão em Amiens, ao norte de Paris, procura a tranqüilidade para escrever que a capital não Ihe proporcionava, de tanto que era assediado. Além do refúgio de um quarto na torre da mansão, passava boa parte do tempo a bordo de seu barco, com o qual ia a Paris, subindo o Sena. O menino que amava navegar, explorando as ilhas do Loire, se realizava como capitão do iate Saint-Michel, onde guardava magníficos mapas, livros e revistas. Escrevia dois ou três livros ao mesmo tempo—primeiro a lápis, num caderno onde só usava a página da direita; a esquerda, em branco, serviria para as correções. Os originais mostram que sua redação era fluente e que ele raramente modificava a versão inicial. Levava, em média, seis meses para completar um livro.

Do ponto de vista literário, foi sempre considerado um escritor para o público juvenil, sem maiores pretensões. O poeta francês Guillaume Apollinaire (1880-1918) costumava dizer que a grande virtude do estilo de Verne era a ausência de adjetivo. É bom lembrar que seus livros foram todos escritos sob contrato e obedeciam a exigências específicas. Considerados como o melhor presente de Natal para os adolescentes do século passado, não podiam ferir, por exemplo, a sensibilidade católica dos leitores—ou a de seus pais. A febre que acompanhava a publicação dos capítulos seriados da Volta ao mundo... induziu as companhias de navegação a Ihe oferecer verdadeiras fortunas para que os personagens fizessem a última etapa num dos seus navios— uma autêntica jogada de merchandising.

No inicio da noite de 8 de março de 1886, Verne voltava para casa, quando dois tiros o atingiram no pé direito. O escritor ainda chegou a ver a silhueta de um homem, com a pistola na mão. Mais tarde, na cama, enquanto os médicos tentavam inutilmente tirar as balas do pé, saberia que o atacante era Gaston. o sobrinho preferido, filho do irmão Paul. A família jamais esclareceu adequadamente o obscuro episódio. Ficou a versão de que Gaston havia enlouquecido.

Julio Verne jamais se recuperaria. Desde então, passou a mancar e teve que desistir dos seus passeios de barco, pois perdia o equilíbrio no convés. Na virada do século, estava possuído por uma tristeza sem remédio —perdera o mar, o amigo e editor Hetzel e o irmão Paul, por quem tinha verdadeira paixão. Com o filho único, Michel, era severo e pouco afetuoso—talvez por causa do comportamento contestador do jovem.

Intransigente, Verne o mandou para um reformatório e, mais tarde, chegou a denunciá-lo à policia, para imperdir que se casasse com uma cantora de cabaré. Anos depois, gastaria um bom dinheiro para pagar as dívidas do filho pródigo.

Em compensação, dedicou muito afeto ao jovem Aristide Briand (1862-1932), a quem conheceu no ginásio onde Michel estudava. Briand (Prêmio Nobel da Paz em 1926) foi incorporado à obra literária de Verne como Briant, personagem principal do livro Dois anos de férias (1888). Apesar das atribulações da velhice, não desiste de escrever—queria chegar à centésima obra, como declarou em 1902. Então, as viagens extraordinárias, somadas às peças e outros livros, faziam o total ficar bem próximo da meta.

Aos 74 anos, continua escrevendo pela manhã e lendo à tarde. Como não podia mais ir à biblioteca, os livros vinham a ele. Do alto de sua torre, sonhava com um futuro ainda mais fantástico que o descrito nos livros anteriores. No Senhor do mundo de 1902, cria um veículo, mistura de automóvel, barco, submarino e avião. Por que não sonhar? No começo de 1905 publica uma história em que o mar Mediterrâneo e o deserto do Saara são ligados por um canal, para transformar o deserto num grande lago. Júlio Verne jamais saberia da repercussão do livro.

Na noite de 24 de março de 1905, aos 77 anos, deitado em sua estreita cama, pediu o volume das Vinte mil léguas submarinas. Não chegou a abri-lo. O livro caiu-lhe das mãos. Perguntou então pela mulher e os filhos e fechou os olhos.