terça-feira, 13 de julho de 2010

July 13#: World Day Of Rock


Bem, é certeza que o rock como era originalmente é hoje peça de museu, mantido em formol na cabeça de alguns poucos saudosistas, assim como eu, o rock cresceu. Muito, aliás. Demais até. Tal como um câncer de células embrionárias, acabou crescendo além da conta e tomando as mais bizarras formas imagináveis. Dos primórdios, com Chuck Berry, até a situação atual, que engloba vertentes das mais diferentes, de Belle and Sebastian a Sepultura, tudo mudou. Mudaram os artistas, mudou a audiência e, principalmente, mudou o mercado e as condições de comercialização desse tipo de música.O rock and roll tem suas origens no blues norte-americano, música predominantemente negra em suas raízes, e acaba surgindo no pós-guerra, na transição dos anos 40 para 50. Nada mais lógico que um ritmo mais alegre (sim, rock já foi sinônimo de alegria).
O primeiro disco considerado rock and roll surgiu muito antes do próprio nome do gênero, em 1951, com o lançamento de Gee pela banda The Crows. Mas o nome mesmo só surgiu em 1954, quando Alan Freed criou um festival chamado Rock’n’Roll Jubilee. Há diversas interpretações. Desde trepar (não exatamente em árvores) até algo como "botar pra quebrar".



Há algum consenso de que o gênero surgiu a partir de 1955, com Bill Haley e Seus Cometas lançando Rock Around the Clock, um equívoco histórico a ser sanado um dia. Talvez num futuro paranóico ao estilo de 1984, de George Orwell. Mas esse é outro assunto.




A partir desse ponto, a popularidade do rock subiu no rabo dos cometas de Bill Halley, que em 1955 deu um tom mais branquela à música. Mais tarde naquele mesmo ano, o estouro de Chuck Berry era o big bang de uma nova linhagem, mais pesada, do rock and roll.



Em 1956, surgem Elvis Presley (o rei do rock americano) e Little Richard (que tendia mais à vertente "berryana"). Elvis, aliás, foi uma ovelha retirada do rebanho do Senhor bem a tempo: antes de a luz do rock invadir sua vida e lhe dar fama e fortuna sem aparentemente ter passado por uma encruzilhada, ele animava cultos evangélicos no interiorzão dos EUA. O diabo, dizem, é pai do rock. Outros dizem que o diabo são os outros…



Vemos, a partir daí, o surgimento de toda uma constelação de nomes, de Stevie Wonder a Buddy Holly. Note-se aí a inclusão de nomes tipicamente associados ao que se convenciona chamar hoje nos EUA de rhythm and blues (que na verdade de blues não tem NADA), como Wonder, Ray Charles e The Marvelettes. Eles geralmente apareciam pela gravadora Motown, que por acaso começou gravando rock and roll. Nada mais apropriado, já que o soul deriva histórica e estruturalmente do rock and roll.




Em 1964, ocorre a grande virada da história do rock, com os Beatles pisando em solo americano e alcançando o primeiro lugar nas paradas. O rock deixa de ser propriedade exclusiva e patenteada dos EUA e passa a ser um fenômeno mundial depois de invadir o outro lado do piscinão Atlântico.



Pode-se facilmente imaginar o frenesi que isso causou em terras ianques. Para os americanos da gema, isso seria mais ou menos como o iraque ganhar uma guerra. Absurdo!



Logo em 1965, começa-se a sentir mais e mais influência de Robert Allen Zimmerman (ou Bob Dylan) e de elementos químicos na música dos Beatles e, por conseqüência, no rock como um todo. Outra banda britânica, liderada por um magrinho bocudo e rebolante, também exercia influência nos dois lados do oceano nessa época. Eram os Rolling Stones.



Em 1966, os Beach Boys lançam Good Vibrations, que eleva a elaboração a um gênero considerado visceral naquela época. Vocais bem arranjados, experimentações sonoras, dissonâncias e quebras de compasso: o rock deve muito disso tudo a Brian Wilson e seus comparsas que acabaram sendo (injustamente) remetidos à posteridade pela "humilde" Surfin’ Safari. Ou também por Surfin USA (mal traduzido no Brasil, numa ilimitada armação, como "Surf é o que eu sei"). Mas sempre surf.


Os americanos ainda teriam com o que colaborar com o rock and roll sessentista e setentista, principalmente com o protesto de Dylan, a psicodelia elétrica e polifônica da guitarra de Jimi Hendrix e a poesia lisérgica de Jim Morrison.

Nesse momento, ocorre também a associação do principal expoente da chamada pop art norte americana, Andy Warhol, a cantora Nico e o músico experimental Lou Reed, gerando algo que nunca havia sido visto antes o Velvet Underground. Pioneiro de um novo som, um fracasso comercial, mas que em última análise nos trouxe Sonic Youth e Beck. Há uma frase célebre sobre a banda que diz "apenas uma centena de pessoas compraram o primeiro disco do Velvet. Mas cada uma delas montou uma banda de Rock and Roll". Algum tempo depois John Lennon, babando pela artista plástica Yoko Ono, seguiria o mesmo caminho com sua Plastic Ono Band. O Talking Heads também bebeu do experimentalismo velvetiano.



Na seqüência, uma segunda onda britânica gerou fenômenos como o proto-heavy metal de Led Zeppelin e Black Sabbath e a progressividade quimioturbinada do Pink Floyd.




Também havia o "rock sinfônico" do Deep Purple, que avançou com todos os talheres nas vísceras do rock depois de se apresentar em 1969 com a Royal Philarmonic Orchestra com seu "Concerto for Group and Orchestra" —uma partitura escrita com cuidado numa parceria entre o tecladista Jon Lord e o maestro Malcolm Arnold, fundindo as linguagens clássica e elétrica para um duelo de titãs.




Ao mesmo tempo o underground musical, que se alimentava das cinzas de Hendrix e Janis Joplin, começa a dar sinais de vida com o estouro do movimento punk, também surgido na Inglaterra. Com a contradição entre surgir da simplicidade de três riffs, rebeldia social e atitude faça-você-mesmo e ser lapidado nos mofados escritórios de estúdios musicais, o ritmo deixou marcas profundas na música mundial com nomes como Sex Pistols, Clash e Stooges.



Os anos oitenta viram o nascimento da MTV e uma mudança da preocupação com a parte musical para a parte comercial. Surgiram aqui nomes que discute-se a inclusão em nossa retrospectiva, como Tina Turner, Elton John, Michael Jackson (advindo dos primórdios roqueiros da Motown) e Madonna. A experiência também degringolou, tornando fácil salvar um som ruim com um bom produtor de vídeo.



A partir de meados da década começam a surgir novas bandas, desta vez fazendo o que se poderia tachar de "rock de verdade". Nomes como The Police, U2, Dire Straits e Aerosmith estouram nas paradas de todo o mundo.



Começa também a surgir a chamada nova onda do heavy metal inglês, bebendo direto nas protoexperiências de Black Sabbath, Led Zeppelin e Deep Purple, com sua temática por vezes lembrando filmes de terror, por vezes lembrando cavalarias medievais e sempre com legiões de seguidores fanáticos, de cabelos compridos e jaquetas remendadas com suas estampas. Nomes&qt& Iron Maiden, AC/DC e muitos outros que criaram uma linhagem que viria a desembocar em Sepultura, Korn e Queens of the Stone Age em nossos dias. E nojeiras como Napalm Death, Carcass, Defecation e Disharmonic Orchestra há dez anos.



Começam a pipocar mundo afora nomes que acabariam ecoando mais adiante, e é em meados da década de 90 que o impensável acontece. Grandemente influenciados por nomes do quilate do Sonic Youth e do Soundgarden, surge em Seattle uma banda que conseguiu juntar o desprendimento do rock alternativo com o sucesso comercial tão almejado pelos figurões da cena musical, o Nirvana. Capitaneado pelo falso messias Kurt Cobain, a partir do álbum Nevermind as portas se abririam para praticamente todos os nomes, bons e medíocres, que o gênero nos traz hoje.



13 de Julho

Um cara chamado Bob Geldof, vocalista da banda Boomtown Rats, organizou aquele que foi sem dúvida o maior show de rock da Terra, o Live Aid – uma perfeita combinação de artistas lendários da história da pop music e do rock mundial, e isso aconteceu no dia 13 de Julho de 1985.



Além de contar com nomes de peso da música internacional, o Live Aid tinha um teor mais elevado, que era a tentativa nobre de conseguir fundos para que a miséria e a fome na África pudessem ser pelo menos minimizadas. Dois shows foram realizados, sendo um no lendário Wembley Stadium de Londres (Inglaterra) e outro no não menos lendário JFK Stadium na Filadélfia (EUA).





Os shows traziam um elenco de megastars, como Paul McCartney, The Who, Elton John, Boomtown Rats, Adam Ant, Ultravox, Elvis Costello, Black Sabbath, Run DMC, Sting, Brian Adams, U2, Dire Straits, David Bowie, The Pretenders, The Who, Santana, Madona, Eric Clapton, Led Zeppelin, Duran Duran, Bob Dylan, Lionel Ritchie, Rolling Stones, Queen, The Cars, The Four Tops, Beach Boys, entre outros, alcançando uma audiência pela TV de cerca de 2 bilhões de telespectadores em todo o planeta, em cerca de 140 países. Ao contrário do festival Woodstock (tanto o 1 como o 2), o Live Aid conseguiu tocar não somente os bolsos e as mentes das pessoas, mas também os corações. O Live Aid conseguiu em 16 horas de show acumular cerca de 100 milhões de dólares, totalmente destinados ao povo faminto e miserável da África. Isso é a cara do ROCK AND ROLL!

sábado, 10 de julho de 2010

DISCOS SEMINAIS DO ROCK


The Byrds - Younger Than Yesterday (1967)

Tentar apontar o melhor grupo do rock ianque dos anos 60 poderia nos levar a uma infindável discussão. Mas, se em vez disto tivéssemos de eleger o mais influente, The Byrds certamente seria um nome de consenso, graças a seu relevante papel na moldagem de boa parte das grandes bandas surgidas nos anos seguintes.
A eclosão dos Beatles e a repercussão do rock inglês nos EUA acabaram dando ao rhyhm'n'blues - então em franca decadência - um novo alento, levando dezenas de jovens músicos a abandonarem a majoritária cena folk. Foi o que ocorreu também com os futuros membros dos Byrds, na ocasião dispersos em vários grupo acústicos: Jim (aliás, Roger) McGuinn nos Limelighters, Gene Clark nos News Christy Minstrels, Chris Hillman nos Hilmen e David Crosby nos Lex Baxter Balladeers.
Assim, McGuinn, Clark e Crosby formaram o Jet Set em Los Angeles, que, com a entrada de Hillman no baixo e Michael Clarke (um velho amigo de Crosby) na bateria, originou os Beefeater. McGuinn descreveu o som deste embrião como uma síntese de Dylan e Beatles, algo que se comprova pelos tapes mais tarde reunidos no LP Preflyte. Já como The Byrds, um remake de Dylan - "Mr. Tambourine Man" - os levou ao topo das paradas dos dois lados do Atlântico. Ao misturar dois itens, até então tão imiscíveis quanto óleo, esta gravação foi a irrefutável gênese do folk-rock.
The Byrds foi considerado um grupo de singles até 1966, quando tornou-se precursor do som ácido californiano. Esta nova fase pautou-se perlo abandono da primazia folk (Gene Clark, autor principal nos álbuns "Mr. Tambourine Man" e "Turn! Turn!", os deixou aí) em favor de trucagens eletrônicas e outras inovações como a introdução da cítara no rock e o primeiro light-show de que se tem notícia (no Village Gate, em Nova York).
Apesar da aparente bizarria, tal momento catalisou três Lps que capturaram os Byrds no auge da criatividade: "Fifth Dimension" (1966), "Younger Than Yesterday" (1967) e "Notorious Byrd Brothers" (1968). Destes, o segundo foi o mais bem-sucedido, não só pela maturação de Crosby e Hillman como compositores, mas também por elevar as harmonias vocais, o padrão "Rickernbacker Doze Cordas" (especialmente através de McGuinn) e o requinte instrumental do grupo como um todo, em nível jamais igualado. Ofuscado pelo lançamento de "Sgt. Pepper's..." e com os Byrds passando por um período de baixa popularidade e rusgas internas, "Younger Than Yesterday" acabou se tornando um dos mais subestimados discos da história do rock.
A amargura com este estado de coisas surge logo na faixa "So You Want to Be rock'n'roll Star" que, com frases como "venda sua alma para a companhia", tornou-se uma cáustica exceção em meio às "boas vibrações" da nascente "hippilândia". Levando ao máximo o uso da eletrônica apenas insinuado no LP "Fifth Dimension", a faixa "CTA 102", por sua vez. era uma curiosa homenagem de McGuinn aos quasars. Também a fixação com os Beatles se resolveria aí, num par de baladas de Hillman, "Have You Evewr Seen Her Face?" e "Time Between", enquanto Crosby criaria épicos barrocos em "Renaissance Fair" e "Everybody's Been Burned", além da surpreendente tecnologia de "Mind Gardens". Num clássico destes, Dylan não poderia faltar e "My Back Pages" foi uma das mais sensíveis releituras feitas pelo grupo.
Os Byrds nunca soaram tão coesos como em "Yonger Than Yesterday" e, ainda que suas produções seguintes tivessem sido apenas medianas, seu legado já estava consolidado de forma seminal no rock das duas décadas seguintes

sexta-feira, 9 de julho de 2010

Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band (1967)


"Cada década produz um ou dois momentos autenticamente memoráveis. Em regra, apenas uma guerra ou uma tragédia apavorante conseguem penetrar as preocupações de milhões de pessoas ao mesmo tempo e ocasionar uma única e bem orquestrada emoção. Mesmo assim, em junho de 1967, tal emoção brotou sem ter sido causada por nenhuma morte, mas pela simples audição de um disco." Trecho do livro Shout!, de Philip Norman.

O tal disco era Sargeant Pepper's Lonely Hearts Club Band. Ainda hoje existem centenas de milhares de pessoas que lembram-se com clareza cristalina do primeiro dia em que ouviram um trecho ou uma faixa de Sgt. Pepper's. Na maioria dos casos, ficou na memória a lembrança de um imenso pasmo - feita pelo grupo pop mais famoso do mundo, ali estava uma coleção de sons musicais absolutamente inédita, revolucionária. Nunca se ouvira (ou se imaginara) coisa parecida: rock'n'roll misturado com vaudeville, ragas indianas entremeadas a cravos renascentistas, atmosferas psicodélicas combinadas com climas circenses. E também havia as letras, que para o suplemento literário do jornal inglês The Times eram "um barômetro dos nossos tempos" - fragmentos de imagens coladas num ritmo vertiginoso, lado a lado com os comentários sócio-políticos mais agudos. Sgt. Pepper's expandiu o vocabulário e o alcance do rock como jamais se sonhara, elevando o gênero à inédita de arte.

A idéia do disco surgiu de uma música de Paul McCartney - "Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band", que ele compusera inspirado na onda de nostalgia vitoriana que na época varria a indústria de moda londrina. A música falava de uma banda imaginária liderada, vinte anos atrás, por um tal Billy Shears. Nada de mais. Até que Paul sugeriu a George Martin, produtor dos Beatles: por que não fazer um álbum inteiro como se a Sgt. Pepper's Band existisse mesmo? Como se fosse a banda do Sargento Pimenta que estivesse tocando?
Martin tremeu na base. As máquinas de quatro canais usadas nos estúdios da época não comportariam a quantidade de idéias que os Beatles faziam jorrar. A solução foi um intrincado sistema de interligação de gravadores que gerou uma enormidade de superposições de fitas. E as fitas nunca pareciam suficientes para a criatividade dos Beatles - encharcados de LSD, eles escancararam as portas de sua percepção.

A obra-prima de Sgt. Pepper's foi uma das últimas verdadeiras parcerias de Lennon e McCartney. John havia começado a escrevê-la sozinho, baseado em dedicada leitura dos jornais e na morte da milionária Tara Browne, amiga dele e dos Stones, vítima de um acidente automobilístico. Paul ofereceu para John algumas frases curtas - "acordei, caí da cama, arrastei o pente pela minha cabeça". "A Day in the Life", a música escolhida para encerrar o álbum, foi, provavelmente, a faixa mais difícil - todas as demais davam uma sensação de picadeiro de circo, até mesmo a indianista e intimista "Within You, Without You", de George Harrison, que terminava em gargalhadas. Em "A Day ín the Life" os Beatles queriam ser sérios. Como nunca. Para o grand finale da música John pediu, literalmente, "um som que crescesse do nada e chegasse até o fim do mundo". Martin encomendou uma orquestra de 41 músicos. Deu a eles apenas uma instrução: disse quais eram as notas mais altas e mais baixas que teriam que tocar. No miolo, era cada um por si. O resultado estonteante foi comparado por um crítico ao som "de um sarcófago sendo fechado", mas para os Beatles ainda não era um encerramento definitivo. Adicionaram, nos últimos sulcos do disco, duas coisas a mais: primeiro, um palavreado incompreensível gravado de trás para frente. Depois, uma nota na freqüência de 20.000 hertz, audível apenas para cães.

José Emilio Rondeau

segunda-feira, 5 de julho de 2010

Nesta semana, completam-se 20 anos da morte de Cazuza e 30 da de Vinicius

Artistas são dois dos mais celebrados letristas da música brasileira


Foram dois cariocas, boêmios, brilhantes, polêmicos, poetas. Nesta quarta-feira, completam-se 20 anos da morte de Cazuza – e, na sexta-feira, a perda de Vinicius de Moraes fecha exatas três décadas. Tempo insuficiente para apagar da memória os versos de dois dos principais letristas da canção nacional.

Ou seria exagerado dizer que quase todo brasileiro já parou ao menos alguns minutos imaginando o que seriam os tais “segredos de liquidificador” cantados por Cazuza em Codinome Beija-Flor? Cantarolou “Olha que coisa mais linda / Mais cheia de graça / É ela menina / Que vem e que passa”, lembrando a Garota de Ipanema de Vinicius e Tom Jobim, em uma tarde na praia? Ficou indignado a ponto de gritar “Brasil / Mostra tua cara / Quero ver quem paga /Pra gente ficar assim”, como fez Cazuza no disco Ideologia? Ou desejou “Passar uma tarde em Itapuã / Ao sol que arde em Itapuã / Ouvindo o mar de Itapuã / Falar de amor em Itapuã” ao som de Toquinho e Vinicius?

Essas e muitas outras canções fazem deles dois dos poetas mais populares do país. Cada um à sua maneira, é verdade. Vinicius, em seus 66 anos de vida, deixou dezenas de títulos, entre livros e discos, além de tomar parte em pelo menos uma revolução da cultura brasileira – o nascimento da bossa nova, o gênero que projetou definitivamente o Brasil no cenário musical mundial. Cazuza partiu aos 32 anos, vítima de Aids, mas teve tempo de fazer muito barulho, primeiro como cantor de banda de rock – num momento em que o gênero conquistou corações e mentes Brasil afora – e depois como compositor afeito à MPB.

Os dois artistas tiveram em comum o gosto pela boemia, pela vida desregrada, pelas paixões incontroláveis. Mas é arriscado tentar compará-los como artistas – tanto em termos absolutos como relativos. Para o crítico e pesquisador musical Zuza Homem de Mello, Cazuza teve o mérito de “retratar um aspecto muito vivo da época em que viveu”, algo que, no entanto, não lhe garantiria um papel mais transcendente como letrista – o que Vinicius, segundo ele, tem de sobra.

– Grandes obras se caracterizam por não se situarem em determinada época. É nisso que vejo o valor da obra de Vinicius como superior – diz Zuza, por telefone. – Vinicius é transcendental, Cazuza fica circunscrito a um determinado período.

Zuza ressalta ainda o papel decisivo de Vinicius como um dos principais pilares artísticos da bossa nova – aspecto que o professor de literatura Luís Augusto Fischer também destaca ao traçar um paralelo entre os dois artistas.

– Algum parentesco poderemos encontrar entre Vinicius e Cazuza, se a gente pensar no roqueiro-baladeiro carioca como ponto de referência da canção brasileira dos anos 1980 na qualidade de um magnífico letrista lírico, tanto como Vinícius fora antes, para a geração anterior – pondera Fischer, por e-mail. – A comparação fica prejudicada em parte porque o que Vinicius ajudou a fazer entrou para a corrente sanguínea da cultura brasileira, a ponto de podermos reconhecer, sem dificuldade, que ele influenciou Cazuza, que especialmente nos últimos anos também fez bossa nova.

No mínimo, foram dois dos brasileiros que melhor souberam cantar o amor demais.

Um tradutor da malandragem

Personagem do renascimento do rock brasileiro, letrista respeitado pelos fãs da canção popular, ídolo que assumiu publicamente ser portador de uma doença-tabu. Esse cara foi Cazuza, artista sempre lembrado por sua obra no pop brasileiro – e também por sua postura pessoal fora de palcos e estúdios.

Agenor de Miranda Araújo Neto já nasceu com apelido, graças à ascendência nordestina do pai, João Araújo – o termo “cazuza” era sinônimo de “moleque”, no vocabulário do Nordeste. A alcunha se revelou certeira já na adolescência, quando o garoto se mostrava bem mais interessado na vida noturna do Baixo Leblon do que nos estudos. Entre baladas, drogas, mulheres e eventuais encrencas com a polícia, Cazuza decidiu tentar a carreira musical, curiosamente, a partir de uma experiência no teatro – em um papel na peça Paraquedas do Coração, ele tinha de cantar em cena, o que o encorajou a virar vocalista.

Quando o Barão Vermelho – já com Cazuza como cantor e letrista – lançou seu primeiro disco, em 1982, o rock ainda não era um estilo muito popular no Brasil. Depois do deslumbre da Jovem Guarda nos anos 1960, as guitarras haviam ficado relegadas ao circuito underground na década seguinte. O Barão – ao lado de Paralamas do Sucesso, Blitz, Kid Abelha e Lulu Santos – teve a oportunidade de virar esse jogo ao participar da programação do Rock In Rio, em janeiro de 1985, dividindo o palco com estrelas como Queen, Iron Maiden e AC/DC. Deu certo: o rock virou fenômeno de massa no país, e a banda foi um dos símbolos dessa nova era. A imagem que ficou foi a de Cazuza cantando Pro Dia Nascer Feliz na Cidade do Rock no mesmo 15 de janeiro em que Tancredo Neves foi eleito para governar o país, encerrando o regime militar.

Consta que João Araújo – presidente da gravadora Som Livre nos anos 1980 – relutou antes de decidir contratar a banda do filho, temendo eventuais acusações de nepotismo. Na verdade, a principal ajuda paterna já havia sido oferecida em casa: graças ao trabalho do pai, Cazuza conviveu desde cedo com artistas como Caetano, Elis, Gal e João Gilberto e ouviu muito Cartola, Dolores Duran e Lupicínio Rodrigues. Essa parte brasileira na formação do poeta viria a se tornar mais evidente na trajetória solo, iniciada com o disco Cazuza, ainda em 1985, e bem resumida no disco ao vivo O Tempo Não Para, de 1989 – a energia roqueira estava ao lado da sutileza da bossa nova, acompanhando versos como “A tua piscina tá cheia de ratos / Tuas ideias não correspondem aos fatos” e “E se eu achar a tua fonte escondida / Te alcanço em cheio, o mel e a ferida”.

Esse mesmo disco simboliza a agonia pública de Cazuza. Ele fez o show já completamente desfigurado em função da aids – havia dois anos que a doença vinha se manifestando, e o artista chegou a dar entrevistas desmentindo que fosse portador do HIV. Bissexual, ele não abandonou o comportamento desregrado – mas sua imagem pública mudou muito em fevereiro de 1989, quando ele assumiu publicamente a condição de soropositivo. O que gerou uma comoção cada vez maior a cada aparição – para receber o Prêmio Sharp para o disco Ideologia (1988), por exemplo, ele estava sentado em uma cadeira de rodas. O álbum duplo Burguesia (1989) é o principal registro sonoro do ocaso do cantor, já quase sem voz para cantar suas próprias letras. Cazuza teve a fama, o sucesso, o amor do público e, com a morte precoce, alcançou o status de mito – como pessoa e como artista, ser exagerado sempre fez parte de seu show.

Exagerado, amado, singular

Muito antes de Cazuza proclamar-se exagerado em letra e melodia, Vinicius construía uma vida e uma obra em que o exagero, mais do que medida, era método. Vinicius produziu com muito sentimento, dando voz a um lirismo que o tornou um poeta popular como poucos no Brasil. E teve tempo ainda de casar nove vezes, viver incontáveis paixões e ser um dos pilares de uma revolução musical que tornou o Brasil referência internacional.

Vinicius é um personagem com estatura de gigante na cultura nacional, ao ponto de parecer ter vivido mais do que os 66 anos com que morreu. A prova da importância de Vinicius no cenário nacional é o quanto livros sobre personagens tão díspares quanto João Gilberto, João Cabral, Roberto Carlos, Jayme Ovalle e Chico Buarque abrem espaço para a figura de Vinicius, amigo, colaborador, inspirador ou simplesmente influência para uma boa parte da arte nacional na segunda metade do século 20.

Na mais completa biografia do poeta, O Poeta da Paixão, o jornalista José Castello conta que Vinicius se fez Vinicius aos nove anos de idade, quando, acompanhado da irmã Lygia, foi a um cartório no centro do Rio e simplificou o nome original mais pomposo que havia recebido ao nascer: Marcus Vinitius da Cruz e Mello Moraes. Carioca, filho de uma pianista e de um poeta, Vinicius parecia fadado a seguir a trajetória modelo dos bem-nascidos de sua estirpe: bons colégios, educação refinada e formação universitária em Direito. Mas, em paralelo com os estudos jurídicos e o curso para oficial da reserva, ia lapidando os primeiros poemas, editados no volume O Caminho para a Distância, em 1933, quando contava apenas 20 anos. A essa estreia seguiram-se os premiados Forma e Exegese (1935), Novos Poemas (1938), Cinco Elegias (1943) e Poemas, Sonetos e Baladas (1946). Nos livros dessa fase já se notava a gradual transição entre um misticismo sublime que marcou a primeira fase de sua produção e o lirismo sentimental, derramado, erótico, que seria a característica de Vinicius dali em diante.

Desde a adolescência, Vinicius dividia-se entre o fazer poético e a música. Chegou a formar, aos 14 anos, um conjunto para atuar em festinhas e teve entre seus amigos de juventude os irmãos Paulo e Haroldo Tapajós – com quem compôs, com apenas 15, anos, canções de relativo sucesso. O equilíbrio entre a poesia e a canção foi uma característica de sua trajetória, o que lhe garante lugar peculiar dentre os literatos de sua geração – esteve em posição privilegiada para manter contato com o melhor de ambas as correntes artísticas. Ao mesmo tempo em que angariava a admiração e o elogio de nomes como Drummond, Mario de Andrade, Augusto Frederico Schmidt, também conheceu Tom Jobim, formando uma das mais profícuas duplas de compositores do Brasil. Tom e Vinicius têm para a bossa nova o peso que Lennon & McCartney para o rock ou Gardel e Le Pera para o tango. São ao mesmo tempo marco e essência.

Apaixonado pela vida e por seu ofício, Vinicius é frequentemente citado como o grande poeta brasileiro do amor – o que talvez não seja exatamente apropriado no sentido em que a maioria usa a frase, mas serve à perfeição para definir a relação do próprio público com o poeta. Vinicius foi um escritor amado pelo público, alcançou, com a música e o lirismo de seus versos, aquele Olimpo literário rarefeito: a memória afetiva do grande público. E fez isso como compositor, poeta, dramaturgo e cronista de imprensa. Uma obra que faz de Vinicius algo próximo, nas letras nacionais, a um Homem do Renascimento.

CARLOS ANDRÉ MOREIRA e LUÍS BISSIGO

sexta-feira, 2 de julho de 2010

Asimov: Ficcionista e visionário do futuro

Para muitos cientistas, suas histórias foram mais do que ficção de boa qualidade. Delas, como de uma bola de cristal, eles tiraram inspiração para criar a ciência moderna.
por Tatiana Loureiro
Ele escreveu 470 livros. Seu conto O cair da noite, escrito em 1941, foi considerado pela Associação dos Escritores de Ficção Científica da América como a melhor história de todos os tempos. E a trilogia Fundação, do período 1951/1953, foi premiada com um Hugo, a mais cobiçada homenagem prestada pela Convenção Mundial de Ficção Científica, como a melhor série já escrita. Ao todo, foram oito prêmios de alto significado como reconhecimento público. Mas resumir a importância de Asimov a esses feitos seria subestimá-lo, pois ele não foi apenas ficcionista. Foi também um pioneiro na popularização dos conhecimentos e um visionário, e como tal influenciou o próprio desenvolvimento da ciência.

A melhor prova disso foram suas histórias sobre robôs, justamente aquelas que lhe conquistaram a popularidade, no início dos anos 40. Antes dele, a ficção científica era influenciada pelo chamado complexo de Frankenstein, pois os robôs geralmente eram pintados como simples monstros, que acabavam se voltando contra seus criadores. Asimov rompeu com o mito ao descrever robôs que também eram dóceis, inteligentes e dignos. Elaborou, além disso, as três leis da robótica: um robô não pode ferir uma pessoa, nem, por omissão, permitir que ela sofra; deve obedecer aos humanos, exceto quando houver conflito com a primeira lei; deve proteger sua própria existência, ressalvadas as regras precedentes. Esses conceitos tiveram o efeito de um clarão sobre as possibilidades do futuro, lembra um dos pais da inteligência artificial, o americano Marvin Minsky, hoje professor do Instituto de Tecnologia de Massachusetts.

“A primeira vez que tomei contato com as idéias de Isaac foi há cinqüenta anos, quando estava entrando na adolescência. As histórias sobre espaço e tempo me fascinaram, mas sua concepção sobre robôs me impressionou demais.” Depois disso, diz o cientista, nunca mais parou de pensar sobre como a mente trabalha. Como os robôs iriam pensar? Como construir os robôs com senso comum, intuição, consciência e emoção? Como o cérebro faz essas coisas? Para Asimov, em contraposição, foi gratificante a velocidade com que tais idéias se concretizaram, pois não acreditava que os robôs habitariam a Terra em seu tempo de vida. “Mas eles estão aí”, escreveu no segundo volume de sua autobiografia, publicado em 1980: In Joy Still Felt (Ainda com alegria, em tradução livre). O primeiro volume, In Memory Yet Green (Na memória ainda fresca) havia sido lançado um ano antes.

São robôs industriais, criados para realizar tarefas específicas, e não criaturas sensíveis. Mas já representam máquinas complexas e têm, inclusive, salvaguardas embutidas — um eco das leis de Asimov. “Eu fui o primeiro a retratar robôs assim”, pleiteia ele com toda a justiça. Apesar da empolgação que sentia ao ver o avanço da robótica, Asimov sempre recusou os convites de Minsky para conhecer os robôs em operação. “Eu lia avidamente tudo sobre Marvin e seus robôs, mas não fazia questão de vê-los funcionando. Seria como entrar em contato com o material da ficção. Talvez eu não goste da invasão do mundo real na minha ficção científica.”

Publicados originalmente na revista Astounding Science Fiction, editada por John Campbell, os contos sobre robôs foram reunidos, em 1951, no segundo livro de Asimov, “Eu, Robô”. Campbell era conhecido por sua habilidade em descobrir e incentivar novos talentos, e muitas das histórias de Asimov, antes de irem para o papel, foram debatidas longamente com ele. As três leis da robótica surgiram numa dessas conversas e Asimov atribuiu sua criação a Campbell, que se tornou seu amigo. Fora da ficção científica, Asimov rompeu com o mito de Frankenstein em outro sentido — descrevendo os cientistas como pessoas comuns, e não como magos, muitas vezes esquisitos.

O próprio Dr. Frankenstein criado por Mary Shelley em 1818, parecia mais um alquimista do que um pesquisador moderno. Em seus livros de divulgação, Asimov escreveu sobre quase todas as áreas do conhecimento humano. Explicou o que é um buraco negro, os corpos mais densos que podem existir; falou sobre o valor exato de pi, a razão entre a circunferência e o diâmetro; ensinou a nomenclatura da Química orgânica; e discorreu até mesmo sobre o número de batimentos cardíacos de um gato ao longo da vida. Se não conhecia um assunto, comprava alguns livros e não parava de ler enquanto não pudesse escrever a respeito.

“Para todos nós ele era um monumento”, elogia o prêmio Nobel de Física de 1988 e professor da Universidade de Chicago, Leon Lederman. “Muitos cientistas americanos foram levados para a ciência por causa dos livros de Asimov. Ele era notável pela sua capacidade de popularizar e entreter.” Para o astrônomo Carl Sagan, outro monstro sagrado da divulgação científica, Asimov era motivado por um forte impulso democrático. “Ele dizia que a ciência era muito importante para ficar na mão dos cientistas”, escreveu Sagan em um artigo publicado na revista inglesa Nature logo após a morte de Asimov.

Os dois eram amigos desde o início dos anos 60, quando o astrônomo, leitor ávido das aventuras intergaláticas narradas por Asimov, deu início a uma correspondência que se tornaria freqüente. Com sua típica falta de modéstia, Asimov costumava dizer que em toda a vida só encontrara dois homens mais inteligentes que ele: Carl Sagan e Marvin Minsky. E completava: “Não quer dizer que sejam mais talentosos que eu”. Menino de memória fotográfica, ele aprendeu a ler sozinho aos 5 anos, entrou na faculdade aos 15, e publicou sua primeira história aos 18.

Bem longe do local em que passaria a infância, ele havia nascido em Petrovich, a 200 quilômetros de Moscou, filho de Judah e Anna Rachel Asimov. Comemorava seu aniversário em 20 de janeiro, mas pode ter nascido em qualquer dia entre 4 de outubro de 1919 e 2 de janeiro de 1920, devido à mudança do calendário na Rússia. Aos três anos, emigrou com os pais para os Estados Unidos e se instalou na área judaica do Brooklyn. Aí, seu pai adquiriu a primeira da série de mercearias que teria.

Foi na banca de jornais e revistas, ao fundo da loja, que ele entrou em contato com as revistas de ficção científica. Lia as histórias com cuidado para não amassar as revistas, que seriam vendidas poste-riormente. A infância não foi fácil. Durante todos os dias, até mudar-se de No-va York em 1942, Asimov ajudava o pai, e suas obrigações na loja o impediam de fazer amigos. Solitário, passava a maior parte do tempo lendo e escrevendo. Anos mais tarde, ele admitiu que isso ajudou a torná-lo um escritor compulsivo, pois a loja ficava aberta dezesseis horas por dia, sete dias por semana.

“De alguma forma, eu assimilei esse horário como normal, e me orgulho de ter um despertador que nunca uso, apesar de acordar sempre às 6 horas. Eu continuo mostrando pro meu pai que não sou um vagabundo.” E não era mesmo. Acostumado aos apertos, ele passou metade da vida procurando uma garantia de estabilidade, mesmo que isso representasse muito trabalho e pouco tempo junto à máquina de escrever. O fato é que até se tornar escritor em tempo integral, em 1958, Asimov não acreditava que poderia viver apenas da literatura. Por causa disso, em 1942, ele suspendeu a tese de doutorado em Bioquímica na Universidade Columbia e aceitou um cargo de pesquisador na Marinha, no Estado da Filadélfia.

Havia se formado em Química três anos antes, e aos 21 anos concluíra o mestrado. Naquela época, ainda se debatia com o fracasso em entrar para a faculdade de Medicina e satisfazer o desejo da família. Esse complexo só iria desaparecer em 1950, quando pôde presentear o pai com seu primeiro livro, Pebble in the Sky (Cavernas de Marte em português). A década anterior havia sido conturbada. No início de dezembro de 1941, os japoneses atacaram a base americana de Pearl Harbour, no Pacífico, e o Congresso aprovou a declaração de guerra contra o Japão, Alemanha e Itália.

Assim, ao aceitar o trabalho de pesquisador na Marinha — onde trabalhou com Robert Heinlein e Sprague de Camp, já então dois grandes grandes nomes da ficção científica —, Asimov afastou temporariamente a ameaça de convocação. Também garantiu um salário providencial: tinha acabado de conhecer Gertrude Blugerman, com quem se casaria após cinco meses de namoro. Em 1946, finalmente, conseguiu dar baixa, retomar o estudo em Columbia e concluir o doutorado em Bioquímica. Sua primeira pesquisa foi a busca de uma vacina para a malária, que logo depois abandonou, com um desempenho apenas modesto, e aceitou o cargo de professor e pesquisador na Universitade de Boston.

Mas, então, seu interesse pela ciência tomaria um impulso avassalador com o sucesso soviético no lançamento do satélite Sputnik, em 1957. Os americanos reagiram de pronto com a criação de uma agência espacial, a NASA, e a ficção científica ganhou o coração de milhões de pessoas. Além disso, Asimov havia escrito um artigo sobre Genética e as raças humanas, e ganhou gosto pela divulgação da ciência. Como resultado afastou-se da pesquisa e aumentou a produção literária. Já não precisava correr atrás dos editores, que o procuravam espontaneamente pedindo histórias e artigos. Nada mais natural que acelerasse o passo na literatura, terminando a década de 50 com 32 livros publicados. Na década seguinte, foram 70 livros; nos anos 70, 109; e nos últimos doze anos de vida, 259.

Para sustentar esse ritmo, Asimov jamais tirava férias sem levar consigo a máquina de escrever portátil, e enquanto todos se divertiam, ficava trabalhando. Na maioria das vezes, a mulher Gertrude e os filhos, David, de 1951, e Robyn, quatro anos mais nova, viajavam sozinhos. Esses desencontros só terminaram com a separação e com o retorno de Asimov a Nova York, em 1970. É verdade que a ausência do escritor nas viagens não se devia apenas ao trabalho: embora fosse idealizador de naves espaciais e impérios galácticos, Asimov era acrófobo — passava mal só de pensar em entrar num avião. Ele só voou uma vez na vida: quando estava na Marinha e uma recusa significaria corte marcial.

Outra esquisitice era uma espécie de paranóia que o fazia pular da cama para ver se a porta do apartamento estava trancada. Se sua segunda mulher, a psiquiatra e escritora Janet Jeppson, demorava a chegar em casa, logo pensava que ela tinha caído num buraco. Amigos desde os anos 50, casaram-se em 1973, quando a fama e a influência de Asimov chegou ao auge.

Nas muitas palestras que era convidado a fazer, ele passou a disseminar uma inestimável confiança no conhecimento e na democracia. Ateu, recusava crenças de qualquer tipo — “duendes, diabos e bruxas” —, e dizia que a única coisa que merecia ser chamada de Deus era a racionalidade. “Houve um tempo que o mundo nos parecia repleto de inteligências superiores à nossa. Agora, que sabemos tanto a respeito do Universo, podemos nos concentrar nos males reais.” O homem que foi ao delírio quando o russo Yuri Gagárin subiu pela primeira vez ao céu, acreditava que no espaço se encontraria solução para boa parte dos problemas terrestres. Imaginava que a colonização da Lua e de Marte seria uma válvula para a superpopulação. E propunha colocar captadores de energia solar em órbita co-mo saída para se obter energia limpa.

Pessoalmente, sua realização foi ter escrito livros, como ele mesmo declarou enfaticamente numa conversa em quesua primeira mulher lhe perguntou como se sentiria se, depois de gastar tanto tempo escrevendo, percebesse que perdera toda a essência da vida. Ele respondeu: “Para mim a essência da vida é escrever. Se eu publicar 100 livros e depois morrer minhas últimas palavras vão ser: só 100!” Na verdade, quando a morte sobreveio, em 6 de abril de 1992, por insuficiência renal, o número havia chegado a 468 e ainda estava crescendo — com os lançamentos previstos de The Positronic Man (O homem positrônico), para o final deste ano, e I, period Asimov: seven decades (Eu, ponto, Asimov: sete décadas).

Redução da população em Londres: O século das trevas londrinas

O arqueólogo inglês Peter Marsden revela que a cidade já ficou 100 anos sem nenhum morador.
Londres não tinha mais de 100 anos de vida quando, de repente, entrou em colapso e praticamente tomou-se uma cidade-fantasma. A revelação é do arqueólogo inglês Peter Marsden, depois de estudar indicadores básicos de população para a época: restos de lixo deixados pelos romanos e vestígios de alimentos. Fundada em cerca de 50 d.C. pelos romanos, Londinium, seu 2 nome de batismo, era capital colonial e um porto florescente. "No ano 150, porém, ela se viu abandonada por dois terços da população", garante Marsden, baseado na datação de 115000 pedaços de potes de lixo escavados desde 1973. De todas essas peças, 78% provinham dos primeiros 100 anos de vida da capital, enquanto apenas 7% datam dos anos 150 a 270. Proporções semelhantes se repetiram no estudo dos restos de ossos de animais, indicadores dos hábitos alimentares.

"A causa do declínio foi provavelmente econômica" teoriza o arqueólogo Mardsen, "já que o efeito de desastres naturais - como pragas - sobre a população é quase sempre temporário. " Por que os habitantes saíram, e para onde foi essa gente toda durante os 120 anos de abandono da cidade, nem o próprio Mársden conseguiu esclarecer.

Júlio Verne: Inventor do Futuro


Em quase uma centena de livros, o pai da ficção científica antecipou as conquistas tecnológicas do século XX em histórias de suspense e aventura.
O ano é 1873. Correspondentes dos principais jornais europeus e dos Estados Unidos em Paris relatam a aventura do explorador Phileas Fogg na sua viagem ao redor do mundo. Cada etapa é avidamente acompanhada por centenas de milhares de leitores. Só que Phileas Fogg não existia era apenas mais um dos personagens cria dos pela mente exuberante do escritor francês Júlio Verde, então no auge da fama. O livro A volta ao mundo em 80 dias foi inicialmente publicado como folhetim no jornal parisiense Le Temps.

No final, a aparente decepção: o herói, depois de uma infinidade de peripécias, tinha levado 81 dias para completar o percurso, perdendo assim as 20 mil libras que apostara com os companheiros do Reform Club, em Londres. Mas surpresa os jornais do dia em que Fogg volta à Inglaterra estavam datados do que ele imaginava ser o dia anterior. Viajando em direção ao leste, acabou ganhando um dia, pois tinha visto o Sol nascer 81 vezes, uma a mais do que as pessoas que tinham ficado em casa. O fenômeno já era conhecido desde 1522, quando os marinheiros da expedição de Fernão de MagaIhães perderam um dia no calendário, viajando para o oeste.

Mas é o uso que Júlio Verne dá a esse conhecimento, entre outros tantos, que faz dele o pai da ficção científica. Verne escreveu histórias que não apenas prendem o leitor pelo suspense e o ritmo da aventura como também antecipam invenções que só apareceriam no século XX, como o helicóptero, o submarino, o aqualung, a televisão e a conquista do espaço. São histórias verossímeis e emocionantes. Tudo o que Verne escrevia parecia viável, embora a explosão científica de seu tempo ainda não fosse suficiente para produzir as maravilhas tecnológicas de que ele falava.

Muitos contemporâneos chegaram a pensar que ele próprio fosse uma ficção e que seus livros eram produzidos por uma equipe de redatores. Em 1895, dez anos antes de morrer, uma celebridade de temperamento discreto e hábitos reclusos, Verne chegou a ser visitado, na cidade de Amiens, onde vivia, à beira do rio Somme, pelo escritor italiano Edmondo De Amicis (1846 1908), interessado, em saber se o colega francês realmente existia. Fisicamente, era um homem típico de sua época e de sua classe social. Membro da burguesia média, vestia-se com ternos em estilo redingote, colarinhos engomados, gravata de laço e uma infalível bengala.

A cabeleira espessa lhe dava ares de compositor; barba e o bigode compactos, a expressão respeitável dos homens de bem. O trabalho era para ele um prazer comparável apenas ao de navegar nos seus iates, Saint-Michel II e III, a bordo dos quais revivia o gosto pela aventura que vinha da infância.

Na cidade de Nantes, na região francesa da Bretanha, onde nasceu a 8 de fevereiro de 1828, havia também um rio, o Loire, em cujas margens ele e seu irmão Paul (um ano mais jovem) gostavam de brincar e conversar com velhos marinheiros, ouvindo histórias de países distantes. Tanto essas histórias o fascinavam que, aos 11 anos de idade, Júlio Verne fugiu de casa para ser marujo e conhecer o mundo. Não foi longe. Seu pai, Pierre Verne, um advogado de muito prestígio, conseguiu impedir que a ousadia se consumasse, apanhando o rapazinho na primeira escala do navio, no porto de Paimboeuf. Monsieur Verne, muito conservador, sonhava ver seus dois filhos seguindo a carreira de advogado —jamais a de marujo. Ao resgatar Júlio, aplicou-lhe uma memorável surra de chicote.

De volta aos bancos escolares, o garoto transferiu a paixão pelo desconhecido para o estudo de Geografia. A imaginação transportava o aluno para os países que os professores iam descrevendo, e seus cadernos estavam repletos de esboços e mapas. Mas nada estimularia tanto a sua imaginação como a visita que fez com o pai às fundições e estaleiros de Indre, perto de Nantes, onde os novos barcos a vapor estavam sendo construídos.

O adolescente ficou deslumbrado. Não era para menos: as máquinas a vapor eram a grande sensação da época. Símbolos da Revolução Industrial, que começara na Inglaterra no século anterior, elas impulsionariam uma série de portentosas transformações na sociedade européia, naqueles meados do século XIX. De um momento para o outro, tudo seria possível. A ciência parecia ter respostas para tudo—e essas respostas se materializavam em máquinas, engrenagens, aparelhos que tornavam a vida diária um paraíso de conforto, em comparação com tudo aquilo que os europeus se haviam habituado a conhecer.

Mas, apesar da paixão pelo rio, que poderia sugerir uma carreira semelhante à do irmão, que se tornou —ele sim—marinheiro, ou do interesse pelas máquinas, que o encaminhava para a engenharia, Júlio Verne, aos 16 anos, foi mesmo se preparar para a Escola de Direito. Em 1848, aos 20 anos, ele chega a Paris apenas para cumprir um desejo do pai. Seis décadas após a Revolução Francesa e 27 anos após a morte de Napoleão, o país vivia turbulentos conflitos políticos e sociais.

A Revolução de fevereiro de 1848 derruba o rei Luís Felipe, que tinha subido ao poder em 1830, e proclama a Segunda República, com Luís Napoleão sendo eleito presidente meses mais tarde. Quatro anos depois, um golpe restaura a monarquia e o presidente se transforma em Napoleão III. Mas não foi a política que seduziu o jovem provinciano de Nantes, e sim o espírito boêmio e cultural de Paris, onde reinavam figuras como os escritores Alexandre Dumas e Victor Hugo. Na interpretação do neto do escritor, Jean Jules Verne, "ele era um idealista e um verdadeiro anarquista". De qualquer forma, jamais teve militância partidária—nem mesmo em 1888, quando foi eleito vereador em Amiens: ninguém conseguiu explicar por que seu nome foi apresentado pela extrema esquerda.

Ainda jovem estudante de Direito, é convidado ao castelo de Alexandre Dumas, em Saint-Germain. Fica impressionado pelo uso que o autor de Os três mosqueteiros faz dos temas históricos para criar uma novela ou peça teatral. A partir de então, começa a fazer planos literários. Sem muito sucesso, uma peça de Verne, Les pailles rompues ("Contratos anulados"), é encenada em 1850 Não seria esse o caminho pelo qual se tornaria famoso. Embora já formado em Direito, emprega-se de 1852 a 1854 como secretário do Teatro Lírico. Nessa época conhece uma viúva com duas filhas, Honorine-Anne de Vianne, com quem se casaria em 1857. Honorine não tinha nenhum interesse pela literatura. Gostava, isso sim, da vida social de Paris, preocupada em morar bem, vestir-se bem e freqüentar as grandes recepções. Foi uma presença secundária na vida do marido. Júlio e Honorine tiveram um fiIho, Michel, em 1861.

Logo após o casamento Júlio arranja um emprego de—quem diria— corretor na Bolsa de Paris, onde trabalharia nove anos. Mas não tirava da cabeça a idéia de fazer com a Geografia o que Dumas fizera com a História: escrever romances e novelas que popularizassem o conhecimento do mundo e da tecnologia. Assim publica em 1851 um pequeno conto cujo tema são as viagens marítimas Conhece então o jornalista, fotógrafo e aventureiro Félix Nadar, um entusiasta dos balões. Paris vivia na época uma verdadeira mania pelo balonismo. No Campo de Marte, de onde Santos Dumont decolaria com seu 14-bis, eram comuns as ascensões diárias de uma enorme variedade de balões.

Santos Dumont, como ele mesmo contou certa vez, inspirou-se na obra de Verne para construir seus apareIhos. As façanhas cada vez mais arriscadas do fotógrafo Nadar culminaran com o acidente com o Géant, o gigantesco balão que levou Nadar, a mulher e mais nove passageiros para um tumultuado passeio de dezesseis horas. No pouso, Nadar quebra pernas. Tudo isso aumenta em Verne a paixão pela idéia do que se poderia chamar o romance da ciência. Devora revistas de atualidades e publicações científicas, querendo saber tudo sobre máquinas e invenções. Tinha 35 anos quando conhece o editor Jules Hetzel. O encontro, acertado por Nadar, seria decisivo em sua vida.

Tímido Verne estava bastante nervoso quando Ihe entregou os primeiros originais—uma aventura a bordo de balões em homenagem ao amigo fotógrafo. O editor, depois de ler atentamente o calhamaço, comentou: "Como narração histórica está bom. Mas quem quer História? Volte para casa e escreva de novo. Escreva aventuras emocionantes. O povo divertimento, não aulas". Verne ficou atordoado, mas obedeceu. Duas semanas depois, entregava o texto reescrito a Hetzel. O editor sorriu satisfeito, era aquilo que desejava: sonho, aventura, e fim, uma leitura que dava prazer.

O livro chamava-se Cinco semanas num balão e descrevia uma aventura na África. Foi um sucesso. Verne assinou então um contrato, pelo qual comprometia a escrever dois Iivros por ano pelos próximos vinte anos (mais tarde, o contrato foi ampliado, para toda a produção futura), ganhando 10 mil francos por livro— uma fortuna, na época, que Ihe permitiu libertar-se da Bolsa parisiense. Verne cumpriria o contrato rigorosamente durante quarenta anos.

Hetzel teria um papel fundamental na obra do escritor: no texto das Viagens extraordinárias, uma coleção de aventuras publicadas em forma de folhetim, o editor acompanhava cada frase como um produtor de televisão acompanha o trabalho do autor de uma novela. Ele próprio era um viajante de marca. Além de cruzeiros pelo mar do Norte e pelo Mediterrâneo, atravessou o Atlântico rumo Nova York, em 1867. Era também um entusiasta do meio de transporte mais revolucionário de sua época: o trem. Em 1880, atravessou a Inglaterra e a Escócia. Durante as viagens, preocupava-se em fazer copiosas anotações que depois serviriam de referência para seus livros. Para o público francês, ler Verne era então a única oportunidade de aventurar-se por uma ficção decididamente incomum.

Verne era minucioso na descrição de cenários. Transportava os leitores dos pólos gelados aos desertos africanos, das aldeias da Rússia e da Ásia a nada menos que o centro da Terra. Além disso, nas suas narrativas havia referências às últimas invenções da época—as lâmpadas de arco e fluorescentes—como também às máquinas a vapor, ao telégrafo e ao cabo submarino. Mas são as projeções futuríticas que surpreendem até hoje. Quando projetou o submarino Nautilus, comandado pelo Capitão Nemo, Verne estava a par do que se publicava sobre as mais recentes tentativas de se construir um barco submersível.

Mas não são apenas máquinas que habitam seus livros. A descrição do fundo do mar, em Vinte mil léguas submarinas (1870), é tão fascinante que o oceanógrafo Jacques Cousteau considera Verne uma das leituras fundamentais de sua infância, indicando-lhe o caminho de explorador dos mares.

Instalado numa magnífica mansão em Amiens, ao norte de Paris, procura a tranqüilidade para escrever que a capital não Ihe proporcionava, de tanto que era assediado. Além do refúgio de um quarto na torre da mansão, passava boa parte do tempo a bordo de seu barco, com o qual ia a Paris, subindo o Sena. O menino que amava navegar, explorando as ilhas do Loire, se realizava como capitão do iate Saint-Michel, onde guardava magníficos mapas, livros e revistas. Escrevia dois ou três livros ao mesmo tempo—primeiro a lápis, num caderno onde só usava a página da direita; a esquerda, em branco, serviria para as correções. Os originais mostram que sua redação era fluente e que ele raramente modificava a versão inicial. Levava, em média, seis meses para completar um livro.

Do ponto de vista literário, foi sempre considerado um escritor para o público juvenil, sem maiores pretensões. O poeta francês Guillaume Apollinaire (1880-1918) costumava dizer que a grande virtude do estilo de Verne era a ausência de adjetivo. É bom lembrar que seus livros foram todos escritos sob contrato e obedeciam a exigências específicas. Considerados como o melhor presente de Natal para os adolescentes do século passado, não podiam ferir, por exemplo, a sensibilidade católica dos leitores—ou a de seus pais. A febre que acompanhava a publicação dos capítulos seriados da Volta ao mundo... induziu as companhias de navegação a Ihe oferecer verdadeiras fortunas para que os personagens fizessem a última etapa num dos seus navios— uma autêntica jogada de merchandising.

No inicio da noite de 8 de março de 1886, Verne voltava para casa, quando dois tiros o atingiram no pé direito. O escritor ainda chegou a ver a silhueta de um homem, com a pistola na mão. Mais tarde, na cama, enquanto os médicos tentavam inutilmente tirar as balas do pé, saberia que o atacante era Gaston. o sobrinho preferido, filho do irmão Paul. A família jamais esclareceu adequadamente o obscuro episódio. Ficou a versão de que Gaston havia enlouquecido.

Julio Verne jamais se recuperaria. Desde então, passou a mancar e teve que desistir dos seus passeios de barco, pois perdia o equilíbrio no convés. Na virada do século, estava possuído por uma tristeza sem remédio —perdera o mar, o amigo e editor Hetzel e o irmão Paul, por quem tinha verdadeira paixão. Com o filho único, Michel, era severo e pouco afetuoso—talvez por causa do comportamento contestador do jovem.

Intransigente, Verne o mandou para um reformatório e, mais tarde, chegou a denunciá-lo à policia, para imperdir que se casasse com uma cantora de cabaré. Anos depois, gastaria um bom dinheiro para pagar as dívidas do filho pródigo.

Em compensação, dedicou muito afeto ao jovem Aristide Briand (1862-1932), a quem conheceu no ginásio onde Michel estudava. Briand (Prêmio Nobel da Paz em 1926) foi incorporado à obra literária de Verne como Briant, personagem principal do livro Dois anos de férias (1888). Apesar das atribulações da velhice, não desiste de escrever—queria chegar à centésima obra, como declarou em 1902. Então, as viagens extraordinárias, somadas às peças e outros livros, faziam o total ficar bem próximo da meta.

Aos 74 anos, continua escrevendo pela manhã e lendo à tarde. Como não podia mais ir à biblioteca, os livros vinham a ele. Do alto de sua torre, sonhava com um futuro ainda mais fantástico que o descrito nos livros anteriores. No Senhor do mundo de 1902, cria um veículo, mistura de automóvel, barco, submarino e avião. Por que não sonhar? No começo de 1905 publica uma história em que o mar Mediterrâneo e o deserto do Saara são ligados por um canal, para transformar o deserto num grande lago. Júlio Verne jamais saberia da repercussão do livro.

Na noite de 24 de março de 1905, aos 77 anos, deitado em sua estreita cama, pediu o volume das Vinte mil léguas submarinas. Não chegou a abri-lo. O livro caiu-lhe das mãos. Perguntou então pela mulher e os filhos e fechou os olhos.

quarta-feira, 30 de junho de 2010

MADAME ZOARA - CONTO VENCEDOR DO II CONCURSO DE CONTOS SESC - CRATO-CE

MADAME ZOARA

Nelson Silva

Talvez madame Zoara não houvesse sido capaz de prever o seu próprio destino, mas o fato é que, chovesse ou fizesse sol, lá estava ela a erguer sua exótica tenda todo santo dia, no olho do furacão de um caldeirão comercial localizado em um dos corredores mais apinhados de gente da cidade. A armação de ferros e alumínios opacos sustentava uma horrenda lona azul, sobre a qual repousavam meias-luas, sóis e estrelas pintadas à mão, em um tom amarelado, semelhante a um universo tirado dos delírios de Lewis Carroll. Mas o artista bem que poderia ter sido um dos pequenos que a acompanhavam na extenuante tarefa: uma menina em idade púbere e dois garotinhos, já familiarizados com os curiosos olhares passageiros daqueles que se diluíam no torvelinho diário de pedestres apressados.
A soberba mulher trajava-se magnificamente bem, com um rubro lenço de seda na cabeça e portentosas argolas de prata dependuradas nas orelhas africanas. As mãos eram ornamentadas com pontiagudas unhas escarlates que por sua vez prenunciavam dedos atapetados de anéis vulgares, mas que ela dizia terem sido desembarcados da Mesopotâmia. Um sobrenatural vestido de cigana, trazido da Andaluzia, cobria-lhe o corpo magro, ligeiramente curvado para a frente, numa direção impossível. Colares de nuances psicodélicas, repletos de referências astrais adornavam-lhe o pescoço etíope e os pés, descalços, denunciavam sua estreita ligação com a Mãe Natureza. Memento homo quia es puluis etin pulverem reverteris.
Os meninos, coitados, assemelhavam-se a cãezinhos sacrificados em seu altar, cabelos desgrenhados, maltrapilhos. A mulher, como não se poderia deixar de perceber, dedicava maior atenção à mocinha, mas esta, recém-saída de uma conturbada infância, demonstrava um olhar resignado, como se houvera deixado um brinquedo muito querido esquecido no porão do tempo. Ao final da complexa operação, eles colocavam uma grotesca placa feita de material indetectável severamente castigada pelas intempéries, onde se lia, em letras garranchudas: Madame Zoara – descendente dos Caldeus, a primeira linhagem de astrólogos da Humanidade. E, como que para garantir a receita do empreendimento, uma tigela de flandres era posta na calçada com o propósito de receber moedas atiradas pela caridade alheia. A cada novo tilintar os meninos urravam de alegria, deixando nos passantes uma gratificante sensação do dever cumprido.
O espaço que madame Zoara ocupava fora cedido pelo proprietário de uma loja vizinha, um sujeito eternamente agradecido por ter sido galardoado com um prêmio de loteria após ter posto em prática os ensinamentos propostos pela feiticeira. Mas ele não era tão grato assim, visto que não permitia que ela dormitasse ali com a sua matilha de crianças sujas. Então, quando o sol se precipitava por detrás dos edifícios, a tenda era desarmada e o grupo dirigia-se para um lar improvisado, construído com nacos de madeira e papelão extraídos do lixo, sob uma marquise abandonada numa praça ali perto. Banhavam-se com a água fétida da fonte de um velho chafariz, com a qual também cozinhavam o parco alimento da família. O minúsculo bunker não comportava a todos e a esquisita mulher dormia fora do abrigo, exposta à gélida temperatura da madrugada.
Mas quem fora afinal, madame Zoara? Ora, dir-se-ia, uma respeitável celebridade esotérica que soubera escalar com afinco o topo da pirâmide social. Seus mapas astrais e suas previsões ganharam credibilidade após impressionantes êxitos de seus prognósticos sobre vários assuntos. Sua notoriedade alastrara-se na alta roda. Não há muito tempo seria possível constatar em sua lista de clientes um grande número de personalidades pertencentes a diversos segmentos da sociedade. Chegara mesmo a apresentar um programa de televisão de grande audiência onde desfilava seu rol de atividades adivinhatórias. Todos desejavam saber aonde investir suas fortunas, que direção dar a este ou àquele empreendimento, com quem desposariam suas ninfetas poços de soberba, que cavalo cruzaria a reta final e até se seriam eleitos para os cobiçados cargos públicos, o que lhes dava o direito de apoderar-se do tesouro nacional. Tudo, evidentemente, a peso de ouro. Em suma: ela detinha nas mãos o destino de poderosos. Ninguém saía de casa sem a benção de madame Zoara.
Até que sobreveio a maldição.
A sorte começou a mudar paulatinamente: primeiro ela foi desmoralizada em público diante de milhares de espectadores acerca de um caso de sequestro cuja vítima fora esfolada viva, causando comoção em todo o país. Na ocasião, ela previra que a polícia estouraria o cativeiro e o refém sairia com vida do incidente. De outra feita, um conhecido magnata da soja perdera parte da fortuna ao aplicá-la em um lugar escuso onde a prestidigitadora indicara. Um outro morrera em um acidente aéreo após estar convicto de que a travessia do Atlântico a bordo de um lear-jet estalando de novo seria uma viagem segura. E teve aquela moça que sucumbira a um câncer mesmo estando curada. Afora muitos outros casos que foram, digamos assim, abafados para não causar constrangimento aos envolvidos.
Madame Zoara caíra então repentinamente em desgraça perante seus ricos admiradores. E quão difícil seria provar que a causa de tantos infortúnios não emanasse das profundezas do ectoplasma de sua bola de cristal.
Articulara-se nos bastidores uma guerra infame contra madame Zoara a ponto de se organizar uma pesada campanha de difamação e um ardoroso processo de calúnia com o objetivo não só de demolir o mito, mas também fazê-la sentir na carne os dissabores que hipoteticamente causara aos seus endinheirados amigos. Foram além: raptaram seus meninos usando-os como moeda de troca pela assinatura de papéis que a usurpavam de todos os seus bens. E como se não bastasse, um incêndio criminoso consumira sua luxuosa mansão. As labaredas, vistas durante à noite evocavam as fogueiras medievais onde as bruxas ardiam nas chamas para pagarem seus pecados. Nada mais apropriado, pois.
Durante a perseguição porém, madame Zoara manteve-se imperturbável. O incomensurável gigante que se levantara contra ela dispunha de muitas armas e não seria apenas sua armadura de fé incondicional nos poderes eternos que iria derrotá-lo e destituí-lo de seu intento assim tão facilmente. Antes que o pior acontecesse, ela optou por uma retirada estratégica, voando para Houston - Texas, com as crianças, eclipsando-se por lá durante um bom par de anos, até que a poeira baixasse.
Ao regressar da América, madame Zoara passara a levar a vida miserável que todos conheciam, tornando-se a folclórica figura que cruzava a praça todos os dias, com sua tenda e seus meninos. Ela constatara que no meio do povo não tinha apenas detratores, mas ainda muitos fãs que torciam por sua recuperação, além do que, alguns jornais ainda a procuravam, o que servia de publicidade gratuita para seu pequeno negócio naqueles tempos pesados.
Madame Zoara voltara às manchetes meses depois, protagonizando uma fantástica notícia desencavada por um repórter mais astuto: ela estaria movendo um processo contra a agência espacial norte-americana, a Nasa, por esta ter alterado seus mapas astrais ao fazer colidir um projétil da sonda Deep com o cometa Temple-1, que passeava na vizinhança terrestre à época em que começaram a eclodir as acusações contra ela. A mudança de rota do corpo celeste, causada pelo impacto – alegava ela – teria feito um estrago no céu particular de seus clientes, repercutindo nos infortúnios que a levaram ao seu inferno astral. O processo consumira uma pequena fortuna, que ela manteve a salvo de seus inimigos na fuga para o grande país anglo-saxão. Quando finalmente acabou o dinheiro, madame Zoara não teve outra alternativa a não ser retornar ao Brasil e aguardar o resultado do júri na corte americana em meios aos cães, que tão bem lhe faziam companhia na sarjeta.
Numa daquelas gélidas madrugadas, Madame Zoara e suas crianças foram trucidadas a tiros em seu bunker na praça.
E absurdo dos absurdos: ela ganhara a causa apenas alguns dias depois.

quarta-feira, 19 de maio de 2010

A BATALHA DE BERNA - SUIÇA 1954




O confronto de 27 de junho de 1954 contra a Hungria, sensação daquele mundial, ficaria conhecido para sempre como "a batalha de Berna". Nem tanto pelo jogo em si, válido pelas quartas-de-final. O que entrou para a história foi a pancadaria.

A seleção brasileira chegou pessimista à Suíça. O trauma da derrota no Maracanã ainda não tinha sido superado. Criticado por não ter convocado Zizinho, o técnico Zezé Moreira tinha em mãos outros remanescentes de 1950, como Nilton Santos e o capitão Bauer (na foto, pouco antes do início da partida contra a Hungria).

Porém, mais do que o abatimento pela derrota em casa, o grande problema era, mais uma vez, a desoganização. Na segunda partida do mundial, por exemplo, os dirigentes brasileiros não sabiam que um empate com os iugoslavos garantia a vaga para as quartas-de-final. Com 1 a 1 no placar, desgastaram-se inutilmente em busca da vitória.

O sorteio colocou o time contra a Hungria. Os brasileiros temiam enfrentar os campeões olímpicos de 1952, time de lendas como Puskas, Czibor e Hidegkuti. Zezé Moreira tentou amenizar: "Não me interesso pelo time dos outros". Kocsis, que terminaria o mundial como artilheiro, com 11 gols, rebateu com convicção: "Venceremos o Brasil e seremos os novos campeões do mundo".

Mas o Brasil já sairia derrotado do vestiário, depois que o chefe da delegação, João Lyra Filho, comparou os jogadores aos pracinhas brasileiros mortos na Segunda Guerra Mundial e exigiu a vitória. Todos entraram apavorados e nervosos com o peso da responsabilidade. Com 7 minutos de jogo, já perdiam por 2 a 0.

Reagiram, mas a Hungria venceu por 4 a 2, em jogo tenso e violento. Quando os jogadores dos dois países iam saindo de campo, Czibor estendeu a mão para Maurinho, que aceitou o cumprimento. Só que o húngaro retirou a mão e o brasileiro deu-lhe um soco na barriga. Zezé Moreira afastou seu jogador do bolo, mas os húngaros pronunciaram seu nome - "Moreira!" - e cuspiram no chão.

Zezé estava com uma chuteira de Didi na mão e atirou-a contra os inimigos, acertando o rosto do técnico da Hungria, Gusztav Sebes, que era simplesmente o vice-ministro de Esportes de seu país. A trava de madeira fez um talho no rosto e o sangue esguichou. Em represália, Puskas deu uma garrafada na testa do zagueiro Pinheiro. No meio do rolo, o jornalista brasileiro Paulo Planet Buarque ainda derrubou um policial suiço com uma rasteira.

O juiz inglês Arthur Ellis foi o bode expiatório para os brasileiros explicarem a derrota, por causa das expulsões de Nilton Santos e Humberto. Assim, não bastasse o vexame do quebra-pau, o árbitro brasileiro Mário Vianna, que tinha apitado um dos jogos da Copa, foi ao microfone de uma rádio brasileira e acusou Ellis de fazer parte de um complô comunista para classificar a Hungria.

Resultado: o infeliz cartola João Lyra Filho enviou protesto por escrito à Fifa, acusando a arbitragem de "estar a soldo do Kremlin". Vexame completo.

Brasil 2 x 4 Hungria
27 de junho de 1954


Brasil: Castilho; Djalma Santos, Pinheiro, Nílton Santos; Brandãozinho, Bauer; Julinho, Didi, Índio, Humberto, Maurinho. Técnico: Zezé Moreira
Hungria: Grosics; Buzansky, Lorant, Lantos; Boszik, Zakarias; M. Toth, Kocsis, Hidegkuti, Czibor, J. Toth. Técnico: Gusztav Sebes.

Local: Berna (Suiça)
Árbitro: Arthur Ellis (Inglaterra)
Expulsões: Nílton Santos, Boszik e Humberto
Gols: Hidegkuti (3), Kocsis (7), Djalma Santos (17), Lantos (61), Julinho (75) e Kocsis (88)

sexta-feira, 14 de maio de 2010

NOTÍCIAS DA COPA

A Confederação Brasileira de Futebol (CBF) anunciou nesta sexta-feira o décimo patrocinador da seleção brasileira para a Copa do Mundo da África do Sul, que começa em 11 de junho. Com o novo parceiro a entidade passa a ter uma receita de cerca de R$ 220 milhões por ano (aproximadamente R$ 18 milhões mensais).


O acordo, que já está em vigor, prevê a exposição da marca em placas de campo, ações conjuntas de marketing, a utilização de imagens dos jogadores em promoções e campanhas da empresa, além da liberação da marca da seleção brasileira para a empresa explorar em embalagens de produtos e peças promocionais. O Rei Pelé também faz parte da parceria.

A Nestlé deve pagar à CBF aproximadamente R$ 10 milhões anualmente. O patrocínio tem validade até o Mundial de 2014, que será realizado no Brasil. "Estar com a seleção é motivo de orgulho para a Nestlé e uma maneira de participar da maior festa do esporte", afirmou o presidente da empresa, Ivan Zurita. "Espero que a Nestlé nos ajude a ter grande sucesso não só nesta Copa como também no processo para 2014", disse o presidente da CBF, Ricardo Teixeira.

TAM, Gillete, Volkswagen, Grupo Pão de Açúcar e Seara tem acordos semelhantes ao da Nestlé com a seleção brasileira. Todas podem usar suas marcas com o símbolo da CBF, mas não estão presentes no uniforme da equipe comandada pelo técnico Dunga.

A Nike, patrocinadora mais antiga da seleção (desde 1996), paga R$ 78,7 milhões por ano. Vivo, Ambev e Itaú dão um suporte de R$ 26,2 milhões à CBF. Estas são as empresas que tem as suas marcas estampadas na camisa do Brasil.

OUTROS ESPORTES
Além do futebol, a Nestlé patrocina outros esportes brasileiros. No vôlei, a parceria é com o Sollys/Osasco, atual campeção da Superliga feminina. No atletismo, recentemente foi fechado um acordo com Maurren Maggi, medalhsiat de ouro no salto em distância nos Jogos Olímpicos de Pequim.