Para muitos cientistas, suas histórias foram mais do que ficção de boa qualidade. Delas, como de uma bola de cristal, eles tiraram inspiração para criar a ciência moderna.
por Tatiana Loureiro
Ele escreveu 470 livros. Seu conto O cair da noite, escrito em 1941, foi considerado pela Associação dos Escritores de Ficção Científica da América como a melhor história de todos os tempos. E a trilogia Fundação, do período 1951/1953, foi premiada com um Hugo, a mais cobiçada homenagem prestada pela Convenção Mundial de Ficção Científica, como a melhor série já escrita. Ao todo, foram oito prêmios de alto significado como reconhecimento público. Mas resumir a importância de Asimov a esses feitos seria subestimá-lo, pois ele não foi apenas ficcionista. Foi também um pioneiro na popularização dos conhecimentos e um visionário, e como tal influenciou o próprio desenvolvimento da ciência.
A melhor prova disso foram suas histórias sobre robôs, justamente aquelas que lhe conquistaram a popularidade, no início dos anos 40. Antes dele, a ficção científica era influenciada pelo chamado complexo de Frankenstein, pois os robôs geralmente eram pintados como simples monstros, que acabavam se voltando contra seus criadores. Asimov rompeu com o mito ao descrever robôs que também eram dóceis, inteligentes e dignos. Elaborou, além disso, as três leis da robótica: um robô não pode ferir uma pessoa, nem, por omissão, permitir que ela sofra; deve obedecer aos humanos, exceto quando houver conflito com a primeira lei; deve proteger sua própria existência, ressalvadas as regras precedentes. Esses conceitos tiveram o efeito de um clarão sobre as possibilidades do futuro, lembra um dos pais da inteligência artificial, o americano Marvin Minsky, hoje professor do Instituto de Tecnologia de Massachusetts.
“A primeira vez que tomei contato com as idéias de Isaac foi há cinqüenta anos, quando estava entrando na adolescência. As histórias sobre espaço e tempo me fascinaram, mas sua concepção sobre robôs me impressionou demais.” Depois disso, diz o cientista, nunca mais parou de pensar sobre como a mente trabalha. Como os robôs iriam pensar? Como construir os robôs com senso comum, intuição, consciência e emoção? Como o cérebro faz essas coisas? Para Asimov, em contraposição, foi gratificante a velocidade com que tais idéias se concretizaram, pois não acreditava que os robôs habitariam a Terra em seu tempo de vida. “Mas eles estão aí”, escreveu no segundo volume de sua autobiografia, publicado em 1980: In Joy Still Felt (Ainda com alegria, em tradução livre). O primeiro volume, In Memory Yet Green (Na memória ainda fresca) havia sido lançado um ano antes.
São robôs industriais, criados para realizar tarefas específicas, e não criaturas sensíveis. Mas já representam máquinas complexas e têm, inclusive, salvaguardas embutidas — um eco das leis de Asimov. “Eu fui o primeiro a retratar robôs assim”, pleiteia ele com toda a justiça. Apesar da empolgação que sentia ao ver o avanço da robótica, Asimov sempre recusou os convites de Minsky para conhecer os robôs em operação. “Eu lia avidamente tudo sobre Marvin e seus robôs, mas não fazia questão de vê-los funcionando. Seria como entrar em contato com o material da ficção. Talvez eu não goste da invasão do mundo real na minha ficção científica.”
Publicados originalmente na revista Astounding Science Fiction, editada por John Campbell, os contos sobre robôs foram reunidos, em 1951, no segundo livro de Asimov, “Eu, Robô”. Campbell era conhecido por sua habilidade em descobrir e incentivar novos talentos, e muitas das histórias de Asimov, antes de irem para o papel, foram debatidas longamente com ele. As três leis da robótica surgiram numa dessas conversas e Asimov atribuiu sua criação a Campbell, que se tornou seu amigo. Fora da ficção científica, Asimov rompeu com o mito de Frankenstein em outro sentido — descrevendo os cientistas como pessoas comuns, e não como magos, muitas vezes esquisitos.
O próprio Dr. Frankenstein criado por Mary Shelley em 1818, parecia mais um alquimista do que um pesquisador moderno. Em seus livros de divulgação, Asimov escreveu sobre quase todas as áreas do conhecimento humano. Explicou o que é um buraco negro, os corpos mais densos que podem existir; falou sobre o valor exato de pi, a razão entre a circunferência e o diâmetro; ensinou a nomenclatura da Química orgânica; e discorreu até mesmo sobre o número de batimentos cardíacos de um gato ao longo da vida. Se não conhecia um assunto, comprava alguns livros e não parava de ler enquanto não pudesse escrever a respeito.
“Para todos nós ele era um monumento”, elogia o prêmio Nobel de Física de 1988 e professor da Universidade de Chicago, Leon Lederman. “Muitos cientistas americanos foram levados para a ciência por causa dos livros de Asimov. Ele era notável pela sua capacidade de popularizar e entreter.” Para o astrônomo Carl Sagan, outro monstro sagrado da divulgação científica, Asimov era motivado por um forte impulso democrático. “Ele dizia que a ciência era muito importante para ficar na mão dos cientistas”, escreveu Sagan em um artigo publicado na revista inglesa Nature logo após a morte de Asimov.
Os dois eram amigos desde o início dos anos 60, quando o astrônomo, leitor ávido das aventuras intergaláticas narradas por Asimov, deu início a uma correspondência que se tornaria freqüente. Com sua típica falta de modéstia, Asimov costumava dizer que em toda a vida só encontrara dois homens mais inteligentes que ele: Carl Sagan e Marvin Minsky. E completava: “Não quer dizer que sejam mais talentosos que eu”. Menino de memória fotográfica, ele aprendeu a ler sozinho aos 5 anos, entrou na faculdade aos 15, e publicou sua primeira história aos 18.
Bem longe do local em que passaria a infância, ele havia nascido em Petrovich, a 200 quilômetros de Moscou, filho de Judah e Anna Rachel Asimov. Comemorava seu aniversário em 20 de janeiro, mas pode ter nascido em qualquer dia entre 4 de outubro de 1919 e 2 de janeiro de 1920, devido à mudança do calendário na Rússia. Aos três anos, emigrou com os pais para os Estados Unidos e se instalou na área judaica do Brooklyn. Aí, seu pai adquiriu a primeira da série de mercearias que teria.
Foi na banca de jornais e revistas, ao fundo da loja, que ele entrou em contato com as revistas de ficção científica. Lia as histórias com cuidado para não amassar as revistas, que seriam vendidas poste-riormente. A infância não foi fácil. Durante todos os dias, até mudar-se de No-va York em 1942, Asimov ajudava o pai, e suas obrigações na loja o impediam de fazer amigos. Solitário, passava a maior parte do tempo lendo e escrevendo. Anos mais tarde, ele admitiu que isso ajudou a torná-lo um escritor compulsivo, pois a loja ficava aberta dezesseis horas por dia, sete dias por semana.
“De alguma forma, eu assimilei esse horário como normal, e me orgulho de ter um despertador que nunca uso, apesar de acordar sempre às 6 horas. Eu continuo mostrando pro meu pai que não sou um vagabundo.” E não era mesmo. Acostumado aos apertos, ele passou metade da vida procurando uma garantia de estabilidade, mesmo que isso representasse muito trabalho e pouco tempo junto à máquina de escrever. O fato é que até se tornar escritor em tempo integral, em 1958, Asimov não acreditava que poderia viver apenas da literatura. Por causa disso, em 1942, ele suspendeu a tese de doutorado em Bioquímica na Universidade Columbia e aceitou um cargo de pesquisador na Marinha, no Estado da Filadélfia.
Havia se formado em Química três anos antes, e aos 21 anos concluíra o mestrado. Naquela época, ainda se debatia com o fracasso em entrar para a faculdade de Medicina e satisfazer o desejo da família. Esse complexo só iria desaparecer em 1950, quando pôde presentear o pai com seu primeiro livro, Pebble in the Sky (Cavernas de Marte em português). A década anterior havia sido conturbada. No início de dezembro de 1941, os japoneses atacaram a base americana de Pearl Harbour, no Pacífico, e o Congresso aprovou a declaração de guerra contra o Japão, Alemanha e Itália.
Assim, ao aceitar o trabalho de pesquisador na Marinha — onde trabalhou com Robert Heinlein e Sprague de Camp, já então dois grandes grandes nomes da ficção científica —, Asimov afastou temporariamente a ameaça de convocação. Também garantiu um salário providencial: tinha acabado de conhecer Gertrude Blugerman, com quem se casaria após cinco meses de namoro. Em 1946, finalmente, conseguiu dar baixa, retomar o estudo em Columbia e concluir o doutorado em Bioquímica. Sua primeira pesquisa foi a busca de uma vacina para a malária, que logo depois abandonou, com um desempenho apenas modesto, e aceitou o cargo de professor e pesquisador na Universitade de Boston.
Mas, então, seu interesse pela ciência tomaria um impulso avassalador com o sucesso soviético no lançamento do satélite Sputnik, em 1957. Os americanos reagiram de pronto com a criação de uma agência espacial, a NASA, e a ficção científica ganhou o coração de milhões de pessoas. Além disso, Asimov havia escrito um artigo sobre Genética e as raças humanas, e ganhou gosto pela divulgação da ciência. Como resultado afastou-se da pesquisa e aumentou a produção literária. Já não precisava correr atrás dos editores, que o procuravam espontaneamente pedindo histórias e artigos. Nada mais natural que acelerasse o passo na literatura, terminando a década de 50 com 32 livros publicados. Na década seguinte, foram 70 livros; nos anos 70, 109; e nos últimos doze anos de vida, 259.
Para sustentar esse ritmo, Asimov jamais tirava férias sem levar consigo a máquina de escrever portátil, e enquanto todos se divertiam, ficava trabalhando. Na maioria das vezes, a mulher Gertrude e os filhos, David, de 1951, e Robyn, quatro anos mais nova, viajavam sozinhos. Esses desencontros só terminaram com a separação e com o retorno de Asimov a Nova York, em 1970. É verdade que a ausência do escritor nas viagens não se devia apenas ao trabalho: embora fosse idealizador de naves espaciais e impérios galácticos, Asimov era acrófobo — passava mal só de pensar em entrar num avião. Ele só voou uma vez na vida: quando estava na Marinha e uma recusa significaria corte marcial.
Outra esquisitice era uma espécie de paranóia que o fazia pular da cama para ver se a porta do apartamento estava trancada. Se sua segunda mulher, a psiquiatra e escritora Janet Jeppson, demorava a chegar em casa, logo pensava que ela tinha caído num buraco. Amigos desde os anos 50, casaram-se em 1973, quando a fama e a influência de Asimov chegou ao auge.
Nas muitas palestras que era convidado a fazer, ele passou a disseminar uma inestimável confiança no conhecimento e na democracia. Ateu, recusava crenças de qualquer tipo — “duendes, diabos e bruxas” —, e dizia que a única coisa que merecia ser chamada de Deus era a racionalidade. “Houve um tempo que o mundo nos parecia repleto de inteligências superiores à nossa. Agora, que sabemos tanto a respeito do Universo, podemos nos concentrar nos males reais.” O homem que foi ao delírio quando o russo Yuri Gagárin subiu pela primeira vez ao céu, acreditava que no espaço se encontraria solução para boa parte dos problemas terrestres. Imaginava que a colonização da Lua e de Marte seria uma válvula para a superpopulação. E propunha colocar captadores de energia solar em órbita co-mo saída para se obter energia limpa.
Pessoalmente, sua realização foi ter escrito livros, como ele mesmo declarou enfaticamente numa conversa em quesua primeira mulher lhe perguntou como se sentiria se, depois de gastar tanto tempo escrevendo, percebesse que perdera toda a essência da vida. Ele respondeu: “Para mim a essência da vida é escrever. Se eu publicar 100 livros e depois morrer minhas últimas palavras vão ser: só 100!” Na verdade, quando a morte sobreveio, em 6 de abril de 1992, por insuficiência renal, o número havia chegado a 468 e ainda estava crescendo — com os lançamentos previstos de The Positronic Man (O homem positrônico), para o final deste ano, e I, period Asimov: seven decades (Eu, ponto, Asimov: sete décadas).
sexta-feira, 2 de julho de 2010
Redução da população em Londres: O século das trevas londrinas
O arqueólogo inglês Peter Marsden revela que a cidade já ficou 100 anos sem nenhum morador.
Londres não tinha mais de 100 anos de vida quando, de repente, entrou em colapso e praticamente tomou-se uma cidade-fantasma. A revelação é do arqueólogo inglês Peter Marsden, depois de estudar indicadores básicos de população para a época: restos de lixo deixados pelos romanos e vestígios de alimentos. Fundada em cerca de 50 d.C. pelos romanos, Londinium, seu 2 nome de batismo, era capital colonial e um porto florescente. "No ano 150, porém, ela se viu abandonada por dois terços da população", garante Marsden, baseado na datação de 115000 pedaços de potes de lixo escavados desde 1973. De todas essas peças, 78% provinham dos primeiros 100 anos de vida da capital, enquanto apenas 7% datam dos anos 150 a 270. Proporções semelhantes se repetiram no estudo dos restos de ossos de animais, indicadores dos hábitos alimentares.
"A causa do declínio foi provavelmente econômica" teoriza o arqueólogo Mardsen, "já que o efeito de desastres naturais - como pragas - sobre a população é quase sempre temporário. " Por que os habitantes saíram, e para onde foi essa gente toda durante os 120 anos de abandono da cidade, nem o próprio Mársden conseguiu esclarecer.
Londres não tinha mais de 100 anos de vida quando, de repente, entrou em colapso e praticamente tomou-se uma cidade-fantasma. A revelação é do arqueólogo inglês Peter Marsden, depois de estudar indicadores básicos de população para a época: restos de lixo deixados pelos romanos e vestígios de alimentos. Fundada em cerca de 50 d.C. pelos romanos, Londinium, seu 2 nome de batismo, era capital colonial e um porto florescente. "No ano 150, porém, ela se viu abandonada por dois terços da população", garante Marsden, baseado na datação de 115000 pedaços de potes de lixo escavados desde 1973. De todas essas peças, 78% provinham dos primeiros 100 anos de vida da capital, enquanto apenas 7% datam dos anos 150 a 270. Proporções semelhantes se repetiram no estudo dos restos de ossos de animais, indicadores dos hábitos alimentares.
"A causa do declínio foi provavelmente econômica" teoriza o arqueólogo Mardsen, "já que o efeito de desastres naturais - como pragas - sobre a população é quase sempre temporário. " Por que os habitantes saíram, e para onde foi essa gente toda durante os 120 anos de abandono da cidade, nem o próprio Mársden conseguiu esclarecer.
Júlio Verne: Inventor do Futuro

Em quase uma centena de livros, o pai da ficção científica antecipou as conquistas tecnológicas do século XX em histórias de suspense e aventura.
O ano é 1873. Correspondentes dos principais jornais europeus e dos Estados Unidos em Paris relatam a aventura do explorador Phileas Fogg na sua viagem ao redor do mundo. Cada etapa é avidamente acompanhada por centenas de milhares de leitores. Só que Phileas Fogg não existia era apenas mais um dos personagens cria dos pela mente exuberante do escritor francês Júlio Verde, então no auge da fama. O livro A volta ao mundo em 80 dias foi inicialmente publicado como folhetim no jornal parisiense Le Temps.
No final, a aparente decepção: o herói, depois de uma infinidade de peripécias, tinha levado 81 dias para completar o percurso, perdendo assim as 20 mil libras que apostara com os companheiros do Reform Club, em Londres. Mas surpresa os jornais do dia em que Fogg volta à Inglaterra estavam datados do que ele imaginava ser o dia anterior. Viajando em direção ao leste, acabou ganhando um dia, pois tinha visto o Sol nascer 81 vezes, uma a mais do que as pessoas que tinham ficado em casa. O fenômeno já era conhecido desde 1522, quando os marinheiros da expedição de Fernão de MagaIhães perderam um dia no calendário, viajando para o oeste.
Mas é o uso que Júlio Verne dá a esse conhecimento, entre outros tantos, que faz dele o pai da ficção científica. Verne escreveu histórias que não apenas prendem o leitor pelo suspense e o ritmo da aventura como também antecipam invenções que só apareceriam no século XX, como o helicóptero, o submarino, o aqualung, a televisão e a conquista do espaço. São histórias verossímeis e emocionantes. Tudo o que Verne escrevia parecia viável, embora a explosão científica de seu tempo ainda não fosse suficiente para produzir as maravilhas tecnológicas de que ele falava.
Muitos contemporâneos chegaram a pensar que ele próprio fosse uma ficção e que seus livros eram produzidos por uma equipe de redatores. Em 1895, dez anos antes de morrer, uma celebridade de temperamento discreto e hábitos reclusos, Verne chegou a ser visitado, na cidade de Amiens, onde vivia, à beira do rio Somme, pelo escritor italiano Edmondo De Amicis (1846 1908), interessado, em saber se o colega francês realmente existia. Fisicamente, era um homem típico de sua época e de sua classe social. Membro da burguesia média, vestia-se com ternos em estilo redingote, colarinhos engomados, gravata de laço e uma infalível bengala.
A cabeleira espessa lhe dava ares de compositor; barba e o bigode compactos, a expressão respeitável dos homens de bem. O trabalho era para ele um prazer comparável apenas ao de navegar nos seus iates, Saint-Michel II e III, a bordo dos quais revivia o gosto pela aventura que vinha da infância.
Na cidade de Nantes, na região francesa da Bretanha, onde nasceu a 8 de fevereiro de 1828, havia também um rio, o Loire, em cujas margens ele e seu irmão Paul (um ano mais jovem) gostavam de brincar e conversar com velhos marinheiros, ouvindo histórias de países distantes. Tanto essas histórias o fascinavam que, aos 11 anos de idade, Júlio Verne fugiu de casa para ser marujo e conhecer o mundo. Não foi longe. Seu pai, Pierre Verne, um advogado de muito prestígio, conseguiu impedir que a ousadia se consumasse, apanhando o rapazinho na primeira escala do navio, no porto de Paimboeuf. Monsieur Verne, muito conservador, sonhava ver seus dois filhos seguindo a carreira de advogado jamais a de marujo. Ao resgatar Júlio, aplicou-lhe uma memorável surra de chicote.
De volta aos bancos escolares, o garoto transferiu a paixão pelo desconhecido para o estudo de Geografia. A imaginação transportava o aluno para os países que os professores iam descrevendo, e seus cadernos estavam repletos de esboços e mapas. Mas nada estimularia tanto a sua imaginação como a visita que fez com o pai às fundições e estaleiros de Indre, perto de Nantes, onde os novos barcos a vapor estavam sendo construídos.
O adolescente ficou deslumbrado. Não era para menos: as máquinas a vapor eram a grande sensação da época. Símbolos da Revolução Industrial, que começara na Inglaterra no século anterior, elas impulsionariam uma série de portentosas transformações na sociedade européia, naqueles meados do século XIX. De um momento para o outro, tudo seria possível. A ciência parecia ter respostas para tudoe essas respostas se materializavam em máquinas, engrenagens, aparelhos que tornavam a vida diária um paraíso de conforto, em comparação com tudo aquilo que os europeus se haviam habituado a conhecer.
Mas, apesar da paixão pelo rio, que poderia sugerir uma carreira semelhante à do irmão, que se tornou ele simmarinheiro, ou do interesse pelas máquinas, que o encaminhava para a engenharia, Júlio Verne, aos 16 anos, foi mesmo se preparar para a Escola de Direito. Em 1848, aos 20 anos, ele chega a Paris apenas para cumprir um desejo do pai. Seis décadas após a Revolução Francesa e 27 anos após a morte de Napoleão, o país vivia turbulentos conflitos políticos e sociais.
A Revolução de fevereiro de 1848 derruba o rei Luís Felipe, que tinha subido ao poder em 1830, e proclama a Segunda República, com Luís Napoleão sendo eleito presidente meses mais tarde. Quatro anos depois, um golpe restaura a monarquia e o presidente se transforma em Napoleão III. Mas não foi a política que seduziu o jovem provinciano de Nantes, e sim o espírito boêmio e cultural de Paris, onde reinavam figuras como os escritores Alexandre Dumas e Victor Hugo. Na interpretação do neto do escritor, Jean Jules Verne, "ele era um idealista e um verdadeiro anarquista". De qualquer forma, jamais teve militância partidárianem mesmo em 1888, quando foi eleito vereador em Amiens: ninguém conseguiu explicar por que seu nome foi apresentado pela extrema esquerda.
Ainda jovem estudante de Direito, é convidado ao castelo de Alexandre Dumas, em Saint-Germain. Fica impressionado pelo uso que o autor de Os três mosqueteiros faz dos temas históricos para criar uma novela ou peça teatral. A partir de então, começa a fazer planos literários. Sem muito sucesso, uma peça de Verne, Les pailles rompues ("Contratos anulados"), é encenada em 1850 Não seria esse o caminho pelo qual se tornaria famoso. Embora já formado em Direito, emprega-se de 1852 a 1854 como secretário do Teatro Lírico. Nessa época conhece uma viúva com duas filhas, Honorine-Anne de Vianne, com quem se casaria em 1857. Honorine não tinha nenhum interesse pela literatura. Gostava, isso sim, da vida social de Paris, preocupada em morar bem, vestir-se bem e freqüentar as grandes recepções. Foi uma presença secundária na vida do marido. Júlio e Honorine tiveram um fiIho, Michel, em 1861.
Logo após o casamento Júlio arranja um emprego dequem diria corretor na Bolsa de Paris, onde trabalharia nove anos. Mas não tirava da cabeça a idéia de fazer com a Geografia o que Dumas fizera com a História: escrever romances e novelas que popularizassem o conhecimento do mundo e da tecnologia. Assim publica em 1851 um pequeno conto cujo tema são as viagens marítimas Conhece então o jornalista, fotógrafo e aventureiro Félix Nadar, um entusiasta dos balões. Paris vivia na época uma verdadeira mania pelo balonismo. No Campo de Marte, de onde Santos Dumont decolaria com seu 14-bis, eram comuns as ascensões diárias de uma enorme variedade de balões.
Santos Dumont, como ele mesmo contou certa vez, inspirou-se na obra de Verne para construir seus apareIhos. As façanhas cada vez mais arriscadas do fotógrafo Nadar culminaran com o acidente com o Géant, o gigantesco balão que levou Nadar, a mulher e mais nove passageiros para um tumultuado passeio de dezesseis horas. No pouso, Nadar quebra pernas. Tudo isso aumenta em Verne a paixão pela idéia do que se poderia chamar o romance da ciência. Devora revistas de atualidades e publicações científicas, querendo saber tudo sobre máquinas e invenções. Tinha 35 anos quando conhece o editor Jules Hetzel. O encontro, acertado por Nadar, seria decisivo em sua vida.
Tímido Verne estava bastante nervoso quando Ihe entregou os primeiros originaisuma aventura a bordo de balões em homenagem ao amigo fotógrafo. O editor, depois de ler atentamente o calhamaço, comentou: "Como narração histórica está bom. Mas quem quer História? Volte para casa e escreva de novo. Escreva aventuras emocionantes. O povo divertimento, não aulas". Verne ficou atordoado, mas obedeceu. Duas semanas depois, entregava o texto reescrito a Hetzel. O editor sorriu satisfeito, era aquilo que desejava: sonho, aventura, e fim, uma leitura que dava prazer.
O livro chamava-se Cinco semanas num balão e descrevia uma aventura na África. Foi um sucesso. Verne assinou então um contrato, pelo qual comprometia a escrever dois Iivros por ano pelos próximos vinte anos (mais tarde, o contrato foi ampliado, para toda a produção futura), ganhando 10 mil francos por livro uma fortuna, na época, que Ihe permitiu libertar-se da Bolsa parisiense. Verne cumpriria o contrato rigorosamente durante quarenta anos.
Hetzel teria um papel fundamental na obra do escritor: no texto das Viagens extraordinárias, uma coleção de aventuras publicadas em forma de folhetim, o editor acompanhava cada frase como um produtor de televisão acompanha o trabalho do autor de uma novela. Ele próprio era um viajante de marca. Além de cruzeiros pelo mar do Norte e pelo Mediterrâneo, atravessou o Atlântico rumo Nova York, em 1867. Era também um entusiasta do meio de transporte mais revolucionário de sua época: o trem. Em 1880, atravessou a Inglaterra e a Escócia. Durante as viagens, preocupava-se em fazer copiosas anotações que depois serviriam de referência para seus livros. Para o público francês, ler Verne era então a única oportunidade de aventurar-se por uma ficção decididamente incomum.
Verne era minucioso na descrição de cenários. Transportava os leitores dos pólos gelados aos desertos africanos, das aldeias da Rússia e da Ásia a nada menos que o centro da Terra. Além disso, nas suas narrativas havia referências às últimas invenções da épocaas lâmpadas de arco e fluorescentescomo também às máquinas a vapor, ao telégrafo e ao cabo submarino. Mas são as projeções futuríticas que surpreendem até hoje. Quando projetou o submarino Nautilus, comandado pelo Capitão Nemo, Verne estava a par do que se publicava sobre as mais recentes tentativas de se construir um barco submersível.
Mas não são apenas máquinas que habitam seus livros. A descrição do fundo do mar, em Vinte mil léguas submarinas (1870), é tão fascinante que o oceanógrafo Jacques Cousteau considera Verne uma das leituras fundamentais de sua infância, indicando-lhe o caminho de explorador dos mares.
Instalado numa magnífica mansão em Amiens, ao norte de Paris, procura a tranqüilidade para escrever que a capital não Ihe proporcionava, de tanto que era assediado. Além do refúgio de um quarto na torre da mansão, passava boa parte do tempo a bordo de seu barco, com o qual ia a Paris, subindo o Sena. O menino que amava navegar, explorando as ilhas do Loire, se realizava como capitão do iate Saint-Michel, onde guardava magníficos mapas, livros e revistas. Escrevia dois ou três livros ao mesmo tempoprimeiro a lápis, num caderno onde só usava a página da direita; a esquerda, em branco, serviria para as correções. Os originais mostram que sua redação era fluente e que ele raramente modificava a versão inicial. Levava, em média, seis meses para completar um livro.
Do ponto de vista literário, foi sempre considerado um escritor para o público juvenil, sem maiores pretensões. O poeta francês Guillaume Apollinaire (1880-1918) costumava dizer que a grande virtude do estilo de Verne era a ausência de adjetivo. É bom lembrar que seus livros foram todos escritos sob contrato e obedeciam a exigências específicas. Considerados como o melhor presente de Natal para os adolescentes do século passado, não podiam ferir, por exemplo, a sensibilidade católica dos leitoresou a de seus pais. A febre que acompanhava a publicação dos capítulos seriados da Volta ao mundo... induziu as companhias de navegação a Ihe oferecer verdadeiras fortunas para que os personagens fizessem a última etapa num dos seus navios uma autêntica jogada de merchandising.
No inicio da noite de 8 de março de 1886, Verne voltava para casa, quando dois tiros o atingiram no pé direito. O escritor ainda chegou a ver a silhueta de um homem, com a pistola na mão. Mais tarde, na cama, enquanto os médicos tentavam inutilmente tirar as balas do pé, saberia que o atacante era Gaston. o sobrinho preferido, filho do irmão Paul. A família jamais esclareceu adequadamente o obscuro episódio. Ficou a versão de que Gaston havia enlouquecido.
Julio Verne jamais se recuperaria. Desde então, passou a mancar e teve que desistir dos seus passeios de barco, pois perdia o equilíbrio no convés. Na virada do século, estava possuído por uma tristeza sem remédio perdera o mar, o amigo e editor Hetzel e o irmão Paul, por quem tinha verdadeira paixão. Com o filho único, Michel, era severo e pouco afetuosotalvez por causa do comportamento contestador do jovem.
Intransigente, Verne o mandou para um reformatório e, mais tarde, chegou a denunciá-lo à policia, para imperdir que se casasse com uma cantora de cabaré. Anos depois, gastaria um bom dinheiro para pagar as dívidas do filho pródigo.
Em compensação, dedicou muito afeto ao jovem Aristide Briand (1862-1932), a quem conheceu no ginásio onde Michel estudava. Briand (Prêmio Nobel da Paz em 1926) foi incorporado à obra literária de Verne como Briant, personagem principal do livro Dois anos de férias (1888). Apesar das atribulações da velhice, não desiste de escreverqueria chegar à centésima obra, como declarou em 1902. Então, as viagens extraordinárias, somadas às peças e outros livros, faziam o total ficar bem próximo da meta.
Aos 74 anos, continua escrevendo pela manhã e lendo à tarde. Como não podia mais ir à biblioteca, os livros vinham a ele. Do alto de sua torre, sonhava com um futuro ainda mais fantástico que o descrito nos livros anteriores. No Senhor do mundo de 1902, cria um veículo, mistura de automóvel, barco, submarino e avião. Por que não sonhar? No começo de 1905 publica uma história em que o mar Mediterrâneo e o deserto do Saara são ligados por um canal, para transformar o deserto num grande lago. Júlio Verne jamais saberia da repercussão do livro.
Na noite de 24 de março de 1905, aos 77 anos, deitado em sua estreita cama, pediu o volume das Vinte mil léguas submarinas. Não chegou a abri-lo. O livro caiu-lhe das mãos. Perguntou então pela mulher e os filhos e fechou os olhos.
quarta-feira, 30 de junho de 2010
MADAME ZOARA - CONTO VENCEDOR DO II CONCURSO DE CONTOS SESC - CRATO-CE
MADAME ZOARA
Nelson Silva
Talvez madame Zoara não houvesse sido capaz de prever o seu próprio destino, mas o fato é que, chovesse ou fizesse sol, lá estava ela a erguer sua exótica tenda todo santo dia, no olho do furacão de um caldeirão comercial localizado em um dos corredores mais apinhados de gente da cidade. A armação de ferros e alumínios opacos sustentava uma horrenda lona azul, sobre a qual repousavam meias-luas, sóis e estrelas pintadas à mão, em um tom amarelado, semelhante a um universo tirado dos delírios de Lewis Carroll. Mas o artista bem que poderia ter sido um dos pequenos que a acompanhavam na extenuante tarefa: uma menina em idade púbere e dois garotinhos, já familiarizados com os curiosos olhares passageiros daqueles que se diluíam no torvelinho diário de pedestres apressados.
A soberba mulher trajava-se magnificamente bem, com um rubro lenço de seda na cabeça e portentosas argolas de prata dependuradas nas orelhas africanas. As mãos eram ornamentadas com pontiagudas unhas escarlates que por sua vez prenunciavam dedos atapetados de anéis vulgares, mas que ela dizia terem sido desembarcados da Mesopotâmia. Um sobrenatural vestido de cigana, trazido da Andaluzia, cobria-lhe o corpo magro, ligeiramente curvado para a frente, numa direção impossível. Colares de nuances psicodélicas, repletos de referências astrais adornavam-lhe o pescoço etíope e os pés, descalços, denunciavam sua estreita ligação com a Mãe Natureza. Memento homo quia es puluis etin pulverem reverteris.
Os meninos, coitados, assemelhavam-se a cãezinhos sacrificados em seu altar, cabelos desgrenhados, maltrapilhos. A mulher, como não se poderia deixar de perceber, dedicava maior atenção à mocinha, mas esta, recém-saída de uma conturbada infância, demonstrava um olhar resignado, como se houvera deixado um brinquedo muito querido esquecido no porão do tempo. Ao final da complexa operação, eles colocavam uma grotesca placa feita de material indetectável severamente castigada pelas intempéries, onde se lia, em letras garranchudas: Madame Zoara – descendente dos Caldeus, a primeira linhagem de astrólogos da Humanidade. E, como que para garantir a receita do empreendimento, uma tigela de flandres era posta na calçada com o propósito de receber moedas atiradas pela caridade alheia. A cada novo tilintar os meninos urravam de alegria, deixando nos passantes uma gratificante sensação do dever cumprido.
O espaço que madame Zoara ocupava fora cedido pelo proprietário de uma loja vizinha, um sujeito eternamente agradecido por ter sido galardoado com um prêmio de loteria após ter posto em prática os ensinamentos propostos pela feiticeira. Mas ele não era tão grato assim, visto que não permitia que ela dormitasse ali com a sua matilha de crianças sujas. Então, quando o sol se precipitava por detrás dos edifícios, a tenda era desarmada e o grupo dirigia-se para um lar improvisado, construído com nacos de madeira e papelão extraídos do lixo, sob uma marquise abandonada numa praça ali perto. Banhavam-se com a água fétida da fonte de um velho chafariz, com a qual também cozinhavam o parco alimento da família. O minúsculo bunker não comportava a todos e a esquisita mulher dormia fora do abrigo, exposta à gélida temperatura da madrugada.
Mas quem fora afinal, madame Zoara? Ora, dir-se-ia, uma respeitável celebridade esotérica que soubera escalar com afinco o topo da pirâmide social. Seus mapas astrais e suas previsões ganharam credibilidade após impressionantes êxitos de seus prognósticos sobre vários assuntos. Sua notoriedade alastrara-se na alta roda. Não há muito tempo seria possível constatar em sua lista de clientes um grande número de personalidades pertencentes a diversos segmentos da sociedade. Chegara mesmo a apresentar um programa de televisão de grande audiência onde desfilava seu rol de atividades adivinhatórias. Todos desejavam saber aonde investir suas fortunas, que direção dar a este ou àquele empreendimento, com quem desposariam suas ninfetas poços de soberba, que cavalo cruzaria a reta final e até se seriam eleitos para os cobiçados cargos públicos, o que lhes dava o direito de apoderar-se do tesouro nacional. Tudo, evidentemente, a peso de ouro. Em suma: ela detinha nas mãos o destino de poderosos. Ninguém saía de casa sem a benção de madame Zoara.
Até que sobreveio a maldição.
A sorte começou a mudar paulatinamente: primeiro ela foi desmoralizada em público diante de milhares de espectadores acerca de um caso de sequestro cuja vítima fora esfolada viva, causando comoção em todo o país. Na ocasião, ela previra que a polícia estouraria o cativeiro e o refém sairia com vida do incidente. De outra feita, um conhecido magnata da soja perdera parte da fortuna ao aplicá-la em um lugar escuso onde a prestidigitadora indicara. Um outro morrera em um acidente aéreo após estar convicto de que a travessia do Atlântico a bordo de um lear-jet estalando de novo seria uma viagem segura. E teve aquela moça que sucumbira a um câncer mesmo estando curada. Afora muitos outros casos que foram, digamos assim, abafados para não causar constrangimento aos envolvidos.
Madame Zoara caíra então repentinamente em desgraça perante seus ricos admiradores. E quão difícil seria provar que a causa de tantos infortúnios não emanasse das profundezas do ectoplasma de sua bola de cristal.
Articulara-se nos bastidores uma guerra infame contra madame Zoara a ponto de se organizar uma pesada campanha de difamação e um ardoroso processo de calúnia com o objetivo não só de demolir o mito, mas também fazê-la sentir na carne os dissabores que hipoteticamente causara aos seus endinheirados amigos. Foram além: raptaram seus meninos usando-os como moeda de troca pela assinatura de papéis que a usurpavam de todos os seus bens. E como se não bastasse, um incêndio criminoso consumira sua luxuosa mansão. As labaredas, vistas durante à noite evocavam as fogueiras medievais onde as bruxas ardiam nas chamas para pagarem seus pecados. Nada mais apropriado, pois.
Durante a perseguição porém, madame Zoara manteve-se imperturbável. O incomensurável gigante que se levantara contra ela dispunha de muitas armas e não seria apenas sua armadura de fé incondicional nos poderes eternos que iria derrotá-lo e destituí-lo de seu intento assim tão facilmente. Antes que o pior acontecesse, ela optou por uma retirada estratégica, voando para Houston - Texas, com as crianças, eclipsando-se por lá durante um bom par de anos, até que a poeira baixasse.
Ao regressar da América, madame Zoara passara a levar a vida miserável que todos conheciam, tornando-se a folclórica figura que cruzava a praça todos os dias, com sua tenda e seus meninos. Ela constatara que no meio do povo não tinha apenas detratores, mas ainda muitos fãs que torciam por sua recuperação, além do que, alguns jornais ainda a procuravam, o que servia de publicidade gratuita para seu pequeno negócio naqueles tempos pesados.
Madame Zoara voltara às manchetes meses depois, protagonizando uma fantástica notícia desencavada por um repórter mais astuto: ela estaria movendo um processo contra a agência espacial norte-americana, a Nasa, por esta ter alterado seus mapas astrais ao fazer colidir um projétil da sonda Deep com o cometa Temple-1, que passeava na vizinhança terrestre à época em que começaram a eclodir as acusações contra ela. A mudança de rota do corpo celeste, causada pelo impacto – alegava ela – teria feito um estrago no céu particular de seus clientes, repercutindo nos infortúnios que a levaram ao seu inferno astral. O processo consumira uma pequena fortuna, que ela manteve a salvo de seus inimigos na fuga para o grande país anglo-saxão. Quando finalmente acabou o dinheiro, madame Zoara não teve outra alternativa a não ser retornar ao Brasil e aguardar o resultado do júri na corte americana em meios aos cães, que tão bem lhe faziam companhia na sarjeta.
Numa daquelas gélidas madrugadas, Madame Zoara e suas crianças foram trucidadas a tiros em seu bunker na praça.
E absurdo dos absurdos: ela ganhara a causa apenas alguns dias depois.
Nelson Silva
Talvez madame Zoara não houvesse sido capaz de prever o seu próprio destino, mas o fato é que, chovesse ou fizesse sol, lá estava ela a erguer sua exótica tenda todo santo dia, no olho do furacão de um caldeirão comercial localizado em um dos corredores mais apinhados de gente da cidade. A armação de ferros e alumínios opacos sustentava uma horrenda lona azul, sobre a qual repousavam meias-luas, sóis e estrelas pintadas à mão, em um tom amarelado, semelhante a um universo tirado dos delírios de Lewis Carroll. Mas o artista bem que poderia ter sido um dos pequenos que a acompanhavam na extenuante tarefa: uma menina em idade púbere e dois garotinhos, já familiarizados com os curiosos olhares passageiros daqueles que se diluíam no torvelinho diário de pedestres apressados.
A soberba mulher trajava-se magnificamente bem, com um rubro lenço de seda na cabeça e portentosas argolas de prata dependuradas nas orelhas africanas. As mãos eram ornamentadas com pontiagudas unhas escarlates que por sua vez prenunciavam dedos atapetados de anéis vulgares, mas que ela dizia terem sido desembarcados da Mesopotâmia. Um sobrenatural vestido de cigana, trazido da Andaluzia, cobria-lhe o corpo magro, ligeiramente curvado para a frente, numa direção impossível. Colares de nuances psicodélicas, repletos de referências astrais adornavam-lhe o pescoço etíope e os pés, descalços, denunciavam sua estreita ligação com a Mãe Natureza. Memento homo quia es puluis etin pulverem reverteris.
Os meninos, coitados, assemelhavam-se a cãezinhos sacrificados em seu altar, cabelos desgrenhados, maltrapilhos. A mulher, como não se poderia deixar de perceber, dedicava maior atenção à mocinha, mas esta, recém-saída de uma conturbada infância, demonstrava um olhar resignado, como se houvera deixado um brinquedo muito querido esquecido no porão do tempo. Ao final da complexa operação, eles colocavam uma grotesca placa feita de material indetectável severamente castigada pelas intempéries, onde se lia, em letras garranchudas: Madame Zoara – descendente dos Caldeus, a primeira linhagem de astrólogos da Humanidade. E, como que para garantir a receita do empreendimento, uma tigela de flandres era posta na calçada com o propósito de receber moedas atiradas pela caridade alheia. A cada novo tilintar os meninos urravam de alegria, deixando nos passantes uma gratificante sensação do dever cumprido.
O espaço que madame Zoara ocupava fora cedido pelo proprietário de uma loja vizinha, um sujeito eternamente agradecido por ter sido galardoado com um prêmio de loteria após ter posto em prática os ensinamentos propostos pela feiticeira. Mas ele não era tão grato assim, visto que não permitia que ela dormitasse ali com a sua matilha de crianças sujas. Então, quando o sol se precipitava por detrás dos edifícios, a tenda era desarmada e o grupo dirigia-se para um lar improvisado, construído com nacos de madeira e papelão extraídos do lixo, sob uma marquise abandonada numa praça ali perto. Banhavam-se com a água fétida da fonte de um velho chafariz, com a qual também cozinhavam o parco alimento da família. O minúsculo bunker não comportava a todos e a esquisita mulher dormia fora do abrigo, exposta à gélida temperatura da madrugada.
Mas quem fora afinal, madame Zoara? Ora, dir-se-ia, uma respeitável celebridade esotérica que soubera escalar com afinco o topo da pirâmide social. Seus mapas astrais e suas previsões ganharam credibilidade após impressionantes êxitos de seus prognósticos sobre vários assuntos. Sua notoriedade alastrara-se na alta roda. Não há muito tempo seria possível constatar em sua lista de clientes um grande número de personalidades pertencentes a diversos segmentos da sociedade. Chegara mesmo a apresentar um programa de televisão de grande audiência onde desfilava seu rol de atividades adivinhatórias. Todos desejavam saber aonde investir suas fortunas, que direção dar a este ou àquele empreendimento, com quem desposariam suas ninfetas poços de soberba, que cavalo cruzaria a reta final e até se seriam eleitos para os cobiçados cargos públicos, o que lhes dava o direito de apoderar-se do tesouro nacional. Tudo, evidentemente, a peso de ouro. Em suma: ela detinha nas mãos o destino de poderosos. Ninguém saía de casa sem a benção de madame Zoara.
Até que sobreveio a maldição.
A sorte começou a mudar paulatinamente: primeiro ela foi desmoralizada em público diante de milhares de espectadores acerca de um caso de sequestro cuja vítima fora esfolada viva, causando comoção em todo o país. Na ocasião, ela previra que a polícia estouraria o cativeiro e o refém sairia com vida do incidente. De outra feita, um conhecido magnata da soja perdera parte da fortuna ao aplicá-la em um lugar escuso onde a prestidigitadora indicara. Um outro morrera em um acidente aéreo após estar convicto de que a travessia do Atlântico a bordo de um lear-jet estalando de novo seria uma viagem segura. E teve aquela moça que sucumbira a um câncer mesmo estando curada. Afora muitos outros casos que foram, digamos assim, abafados para não causar constrangimento aos envolvidos.
Madame Zoara caíra então repentinamente em desgraça perante seus ricos admiradores. E quão difícil seria provar que a causa de tantos infortúnios não emanasse das profundezas do ectoplasma de sua bola de cristal.
Articulara-se nos bastidores uma guerra infame contra madame Zoara a ponto de se organizar uma pesada campanha de difamação e um ardoroso processo de calúnia com o objetivo não só de demolir o mito, mas também fazê-la sentir na carne os dissabores que hipoteticamente causara aos seus endinheirados amigos. Foram além: raptaram seus meninos usando-os como moeda de troca pela assinatura de papéis que a usurpavam de todos os seus bens. E como se não bastasse, um incêndio criminoso consumira sua luxuosa mansão. As labaredas, vistas durante à noite evocavam as fogueiras medievais onde as bruxas ardiam nas chamas para pagarem seus pecados. Nada mais apropriado, pois.
Durante a perseguição porém, madame Zoara manteve-se imperturbável. O incomensurável gigante que se levantara contra ela dispunha de muitas armas e não seria apenas sua armadura de fé incondicional nos poderes eternos que iria derrotá-lo e destituí-lo de seu intento assim tão facilmente. Antes que o pior acontecesse, ela optou por uma retirada estratégica, voando para Houston - Texas, com as crianças, eclipsando-se por lá durante um bom par de anos, até que a poeira baixasse.
Ao regressar da América, madame Zoara passara a levar a vida miserável que todos conheciam, tornando-se a folclórica figura que cruzava a praça todos os dias, com sua tenda e seus meninos. Ela constatara que no meio do povo não tinha apenas detratores, mas ainda muitos fãs que torciam por sua recuperação, além do que, alguns jornais ainda a procuravam, o que servia de publicidade gratuita para seu pequeno negócio naqueles tempos pesados.
Madame Zoara voltara às manchetes meses depois, protagonizando uma fantástica notícia desencavada por um repórter mais astuto: ela estaria movendo um processo contra a agência espacial norte-americana, a Nasa, por esta ter alterado seus mapas astrais ao fazer colidir um projétil da sonda Deep com o cometa Temple-1, que passeava na vizinhança terrestre à época em que começaram a eclodir as acusações contra ela. A mudança de rota do corpo celeste, causada pelo impacto – alegava ela – teria feito um estrago no céu particular de seus clientes, repercutindo nos infortúnios que a levaram ao seu inferno astral. O processo consumira uma pequena fortuna, que ela manteve a salvo de seus inimigos na fuga para o grande país anglo-saxão. Quando finalmente acabou o dinheiro, madame Zoara não teve outra alternativa a não ser retornar ao Brasil e aguardar o resultado do júri na corte americana em meios aos cães, que tão bem lhe faziam companhia na sarjeta.
Numa daquelas gélidas madrugadas, Madame Zoara e suas crianças foram trucidadas a tiros em seu bunker na praça.
E absurdo dos absurdos: ela ganhara a causa apenas alguns dias depois.
quarta-feira, 19 de maio de 2010
A BATALHA DE BERNA - SUIÇA 1954



O confronto de 27 de junho de 1954 contra a Hungria, sensação daquele mundial, ficaria conhecido para sempre como "a batalha de Berna". Nem tanto pelo jogo em si, válido pelas quartas-de-final. O que entrou para a história foi a pancadaria.
A seleção brasileira chegou pessimista à Suíça. O trauma da derrota no Maracanã ainda não tinha sido superado. Criticado por não ter convocado Zizinho, o técnico Zezé Moreira tinha em mãos outros remanescentes de 1950, como Nilton Santos e o capitão Bauer (na foto, pouco antes do início da partida contra a Hungria).
Porém, mais do que o abatimento pela derrota em casa, o grande problema era, mais uma vez, a desoganização. Na segunda partida do mundial, por exemplo, os dirigentes brasileiros não sabiam que um empate com os iugoslavos garantia a vaga para as quartas-de-final. Com 1 a 1 no placar, desgastaram-se inutilmente em busca da vitória.
O sorteio colocou o time contra a Hungria. Os brasileiros temiam enfrentar os campeões olímpicos de 1952, time de lendas como Puskas, Czibor e Hidegkuti. Zezé Moreira tentou amenizar: "Não me interesso pelo time dos outros". Kocsis, que terminaria o mundial como artilheiro, com 11 gols, rebateu com convicção: "Venceremos o Brasil e seremos os novos campeões do mundo".
Mas o Brasil já sairia derrotado do vestiário, depois que o chefe da delegação, João Lyra Filho, comparou os jogadores aos pracinhas brasileiros mortos na Segunda Guerra Mundial e exigiu a vitória. Todos entraram apavorados e nervosos com o peso da responsabilidade. Com 7 minutos de jogo, já perdiam por 2 a 0.
Reagiram, mas a Hungria venceu por 4 a 2, em jogo tenso e violento. Quando os jogadores dos dois países iam saindo de campo, Czibor estendeu a mão para Maurinho, que aceitou o cumprimento. Só que o húngaro retirou a mão e o brasileiro deu-lhe um soco na barriga. Zezé Moreira afastou seu jogador do bolo, mas os húngaros pronunciaram seu nome - "Moreira!" - e cuspiram no chão.
Zezé estava com uma chuteira de Didi na mão e atirou-a contra os inimigos, acertando o rosto do técnico da Hungria, Gusztav Sebes, que era simplesmente o vice-ministro de Esportes de seu país. A trava de madeira fez um talho no rosto e o sangue esguichou. Em represália, Puskas deu uma garrafada na testa do zagueiro Pinheiro. No meio do rolo, o jornalista brasileiro Paulo Planet Buarque ainda derrubou um policial suiço com uma rasteira.
O juiz inglês Arthur Ellis foi o bode expiatório para os brasileiros explicarem a derrota, por causa das expulsões de Nilton Santos e Humberto. Assim, não bastasse o vexame do quebra-pau, o árbitro brasileiro Mário Vianna, que tinha apitado um dos jogos da Copa, foi ao microfone de uma rádio brasileira e acusou Ellis de fazer parte de um complô comunista para classificar a Hungria.
Resultado: o infeliz cartola João Lyra Filho enviou protesto por escrito à Fifa, acusando a arbitragem de "estar a soldo do Kremlin". Vexame completo.
Brasil 2 x 4 Hungria
27 de junho de 1954
Brasil: Castilho; Djalma Santos, Pinheiro, Nílton Santos; Brandãozinho, Bauer; Julinho, Didi, Índio, Humberto, Maurinho. Técnico: Zezé Moreira
Hungria: Grosics; Buzansky, Lorant, Lantos; Boszik, Zakarias; M. Toth, Kocsis, Hidegkuti, Czibor, J. Toth. Técnico: Gusztav Sebes.
Local: Berna (Suiça)
Árbitro: Arthur Ellis (Inglaterra)
Expulsões: Nílton Santos, Boszik e Humberto
Gols: Hidegkuti (3), Kocsis (7), Djalma Santos (17), Lantos (61), Julinho (75) e Kocsis (88)
sexta-feira, 14 de maio de 2010
NOTÍCIAS DA COPA
A Confederação Brasileira de Futebol (CBF) anunciou nesta sexta-feira o décimo patrocinador da seleção brasileira para a Copa do Mundo da África do Sul, que começa em 11 de junho. Com o novo parceiro a entidade passa a ter uma receita de cerca de R$ 220 milhões por ano (aproximadamente R$ 18 milhões mensais).
O acordo, que já está em vigor, prevê a exposição da marca em placas de campo, ações conjuntas de marketing, a utilização de imagens dos jogadores em promoções e campanhas da empresa, além da liberação da marca da seleção brasileira para a empresa explorar em embalagens de produtos e peças promocionais. O Rei Pelé também faz parte da parceria.
A Nestlé deve pagar à CBF aproximadamente R$ 10 milhões anualmente. O patrocínio tem validade até o Mundial de 2014, que será realizado no Brasil. "Estar com a seleção é motivo de orgulho para a Nestlé e uma maneira de participar da maior festa do esporte", afirmou o presidente da empresa, Ivan Zurita. "Espero que a Nestlé nos ajude a ter grande sucesso não só nesta Copa como também no processo para 2014", disse o presidente da CBF, Ricardo Teixeira.
TAM, Gillete, Volkswagen, Grupo Pão de Açúcar e Seara tem acordos semelhantes ao da Nestlé com a seleção brasileira. Todas podem usar suas marcas com o símbolo da CBF, mas não estão presentes no uniforme da equipe comandada pelo técnico Dunga.
A Nike, patrocinadora mais antiga da seleção (desde 1996), paga R$ 78,7 milhões por ano. Vivo, Ambev e Itaú dão um suporte de R$ 26,2 milhões à CBF. Estas são as empresas que tem as suas marcas estampadas na camisa do Brasil.
OUTROS ESPORTES
Além do futebol, a Nestlé patrocina outros esportes brasileiros. No vôlei, a parceria é com o Sollys/Osasco, atual campeção da Superliga feminina. No atletismo, recentemente foi fechado um acordo com Maurren Maggi, medalhsiat de ouro no salto em distância nos Jogos Olímpicos de Pequim.
O acordo, que já está em vigor, prevê a exposição da marca em placas de campo, ações conjuntas de marketing, a utilização de imagens dos jogadores em promoções e campanhas da empresa, além da liberação da marca da seleção brasileira para a empresa explorar em embalagens de produtos e peças promocionais. O Rei Pelé também faz parte da parceria.
A Nestlé deve pagar à CBF aproximadamente R$ 10 milhões anualmente. O patrocínio tem validade até o Mundial de 2014, que será realizado no Brasil. "Estar com a seleção é motivo de orgulho para a Nestlé e uma maneira de participar da maior festa do esporte", afirmou o presidente da empresa, Ivan Zurita. "Espero que a Nestlé nos ajude a ter grande sucesso não só nesta Copa como também no processo para 2014", disse o presidente da CBF, Ricardo Teixeira.
TAM, Gillete, Volkswagen, Grupo Pão de Açúcar e Seara tem acordos semelhantes ao da Nestlé com a seleção brasileira. Todas podem usar suas marcas com o símbolo da CBF, mas não estão presentes no uniforme da equipe comandada pelo técnico Dunga.
A Nike, patrocinadora mais antiga da seleção (desde 1996), paga R$ 78,7 milhões por ano. Vivo, Ambev e Itaú dão um suporte de R$ 26,2 milhões à CBF. Estas são as empresas que tem as suas marcas estampadas na camisa do Brasil.
OUTROS ESPORTES
Além do futebol, a Nestlé patrocina outros esportes brasileiros. No vôlei, a parceria é com o Sollys/Osasco, atual campeção da Superliga feminina. No atletismo, recentemente foi fechado um acordo com Maurren Maggi, medalhsiat de ouro no salto em distância nos Jogos Olímpicos de Pequim.
quinta-feira, 22 de abril de 2010
segunda-feira, 12 de abril de 2010
A Pedra de Construção e de Tropeço
Chegando Jesus à região de Cesaréia de Filipe, perguntou aos seus discípulos: “Quem os outros dizem que o Filho do homem é?”
Eles responderam: “Alguns dizem que é João Batista; outros, Elias; e, ainda outros, Jeremias ou um dos profetas”.
“E vocês?”, perguntou ele. “Quem vocês dizem que eu sou?”
Simão Pedro respondeu: “Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo”.
Respondeu Jesus: “Feliz é você, Simão, filho de Jonas! Porque isto não lhe foi revelado por carne ou sangue, mas por meu Pai que está nos céus. E eu lhe digo que você é Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha igreja, e as portas do Hades não poderão vencê-la. Eu lhe darei as chaves do Reino dos céus; o que você ligar na terra terá sido ligado nos céus, e o que você desligar na terra terá sido desligado nos céus”. Mateus 16:13-19 (NVI)
Pedro foi um discípulo de Jesus de grandes contrastes, de altas e baixas, de grandes acertos e grandes mancadas. Mas, uma coisa que temos que admirar em Pedro – apesar das suas falhas e tropeços, ele sempre continuou crescendo, amadurecendo e progredindo. Tudo isso se deu em sua vida porque ele continuava com Jesus.
Na ocasião em que Jesus perguntou aos discípulos quem “os outros” diziam que ele era, Mateus registra que pelo menos alguns deles falaram. “Eles responderam” diz Mateus. Ou seja, pelo menos dois ou três ou mais comentaram.
O que se percebe pelos comentários dos discípulos é que havia uma certa confusão a respeito da pessoa de Jesus. O povo estava dividido. Uns diziam uma coisa, outros outra. A situação naquela época é parecida com o mundo de hoje. Há quem diga que Jesus era um grande homem, até um profeta. Outros grupos dizem que ele era um espírito elevado, no último estágio de desenvolvimento. Outros afirmam que ele nada mais era que um ser humano comum, só que super-dotado de inteligência e carisma.
Mas, quando Jesus pergunta aos discípulos quem eles diziam que Jesus era, logo Pedro se destaca com a resposta. Note que a pergunta foi dirigida ao grupo “E vocês”? Jesus pergunta. Mas, Pedro responde logo, como se fosse por todos. A resposta de Pedro, talvez precipitada, contudo é certeira – “Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo”.
Vemos em Pedro uma disposição de adiantar-se, e confessar uma verdade que não está nem um pouco de acordo com a opinião popular, e até em choque com a posição oficial dos líderes religiosos da época.
Que ousadia e coragem. Que convicção e fé Pedro tinha. Quem não queria ousadia e fé assim? Quem não queria ficar no lugar de Pedro e ouvir as palavras de elogio e confirmação do Mestre?
Mas, logo em seguida, vemos Pedro mais uma vez falando, só que desta vez para sua própria vergonha.
“Desde aquele momento Jesus começou a explicar aos seus discípulos que era necessário que ele fosse para Jerusalém e sofresse muitas coisas nas mãos dos líderes religiosos, dos chefes dos sacerdotes e dos mestres da lei, e fosse morto e ressuscitasse no terceiro dia. Então Pedro, chamando-o à parte, começou a repreendê-lo, dizendo: ‘Nunca, Senhor! Isso nunca te acontecerá!’ Jesus virou-se e disse a Pedro: ‘Para trás de mim, Satanás! Você é uma pedra de tropeço para mim, e não pensa nas coisas de Deus, mas nas dos homens’.” Mateus 16:21-23 (NVI)
Num momento Pedro podia confessar a Jesus como o enviado de Deus, e logo em seguida mostrar que nada entendia da sua missão como Messias. Ao insistir que Jesus não podia ir à cruz, Pedro negava aquilo que fazia de Jesus o Cristo. Se Jesus tivesse seguido o entendimento de Pedro, não só Pedro, mas, toda a raça humana teria sido perdida.
Que falta de entendimento! Que ignorância dos propósitos de Deus! Aquele, cuja fé foi chamado uma Pedra para edificar a igreja, foi taxado de pedra de tropeço.
O discípulo mais simples hoje entende o que Pedro quis discutir com o próprio Jesus. Como é que isso podia suceder? Como é que um homem de uma fé tão forte e firme podia ao mesmo tempo não compreender a missão do Messias e o plano de Deus para a salvação?
O fato é que qualquer discípulo é capaz de não entender algum aspecto da vontade de Deus. O próprio Pedro mais tarde escreveu que há ensinamentos na Bíblia difíceis de entender (2 Pe 3:16). Quem pode afirmar que entende tudo que a Bíblia ensina? Vemos em Pedro que até um discípulo bem chegado a Jesus era capaz de confundir as coisas. E nós hoje?
O importante a apreender desta história é que precisamos da fé que Pedro tinha. Mas, ninguém é discípulo por compreender tudo, e sim por confiar unicamente e completamente em Jesus. Com a repreensão de Jesus, Pedro, sem dúvida deve ter ficado constrangido, envergonhado e humilhado. Mas, ele não deixou de seguir Jesus. E, este é o ponto mais importante da história, a fé dele em Jesus era muito maior que a fé dele no seu próprio conhecimento, sabedoria ou entendimento das Escrituras.
A fé de Pedro estava depositada totalmente em Jesus. Entendendo ou não o presente ou o futuro, compreendendo ou não as próprias Escrituras, Pedro sabia que o mais importante era confiar em Jesus e continuar com Ele.
Pouco tempo depois, Jesus demonstrou o quão grande é a fé de um discípulo. Apesar da falha de Pedro e da repreensão dura que Jesus lhe deu, seis dias depois Jesus o chamou para um dos momentos mais marcantes da sua vida aqui na terra.
"Seis dias depois, tomou Jesus consigo a Pedro e aos irmãos Tiago e João e os levou, em particular, a um alto monte. E foi transfigurado diante deles; o seu rosto resplandecia como o sol, e as suas vestes tornaram-se brancas como a luz. E eis que lhes apareceram Moisés e Elias, falando com ele." Mateus 17:1-3
Naquela ocasião, se lemos um pouco adiante, Pedro cometeu outro gafe ao sugerir que fossem feitas tendas para Jesus, Moisés e Elias. Mas, o importante da lição é visto logo no início. O discípulo que se viu como pedra de tropeço uma semana antes, agora se viu ao lado de Jesus num dos momentos mais extraordinários da sua vida aqui na terra – e a convite pessoal do Mestre.
Jesus se importa com o nosso entendimento, com a nossa compreensão da vontade de Deus. E, como discípulos verdadeiros, devemos sempre buscar conhecer e obedecer cada vez mais a Palavra de Deus. Mas, o mais importante, o mais crucial em tudo é algo que o próprio Deus nos dá – fé em Jesus. Creia em Jesus, confie em Jesus e continue com Jesus até o fim. Disso aí, você nunca vai se arrepender.
Mozart Correia Lima
Eles responderam: “Alguns dizem que é João Batista; outros, Elias; e, ainda outros, Jeremias ou um dos profetas”.
“E vocês?”, perguntou ele. “Quem vocês dizem que eu sou?”
Simão Pedro respondeu: “Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo”.
Respondeu Jesus: “Feliz é você, Simão, filho de Jonas! Porque isto não lhe foi revelado por carne ou sangue, mas por meu Pai que está nos céus. E eu lhe digo que você é Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha igreja, e as portas do Hades não poderão vencê-la. Eu lhe darei as chaves do Reino dos céus; o que você ligar na terra terá sido ligado nos céus, e o que você desligar na terra terá sido desligado nos céus”. Mateus 16:13-19 (NVI)
Pedro foi um discípulo de Jesus de grandes contrastes, de altas e baixas, de grandes acertos e grandes mancadas. Mas, uma coisa que temos que admirar em Pedro – apesar das suas falhas e tropeços, ele sempre continuou crescendo, amadurecendo e progredindo. Tudo isso se deu em sua vida porque ele continuava com Jesus.
Na ocasião em que Jesus perguntou aos discípulos quem “os outros” diziam que ele era, Mateus registra que pelo menos alguns deles falaram. “Eles responderam” diz Mateus. Ou seja, pelo menos dois ou três ou mais comentaram.
O que se percebe pelos comentários dos discípulos é que havia uma certa confusão a respeito da pessoa de Jesus. O povo estava dividido. Uns diziam uma coisa, outros outra. A situação naquela época é parecida com o mundo de hoje. Há quem diga que Jesus era um grande homem, até um profeta. Outros grupos dizem que ele era um espírito elevado, no último estágio de desenvolvimento. Outros afirmam que ele nada mais era que um ser humano comum, só que super-dotado de inteligência e carisma.
Mas, quando Jesus pergunta aos discípulos quem eles diziam que Jesus era, logo Pedro se destaca com a resposta. Note que a pergunta foi dirigida ao grupo “E vocês”? Jesus pergunta. Mas, Pedro responde logo, como se fosse por todos. A resposta de Pedro, talvez precipitada, contudo é certeira – “Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo”.
Vemos em Pedro uma disposição de adiantar-se, e confessar uma verdade que não está nem um pouco de acordo com a opinião popular, e até em choque com a posição oficial dos líderes religiosos da época.
Que ousadia e coragem. Que convicção e fé Pedro tinha. Quem não queria ousadia e fé assim? Quem não queria ficar no lugar de Pedro e ouvir as palavras de elogio e confirmação do Mestre?
Mas, logo em seguida, vemos Pedro mais uma vez falando, só que desta vez para sua própria vergonha.
“Desde aquele momento Jesus começou a explicar aos seus discípulos que era necessário que ele fosse para Jerusalém e sofresse muitas coisas nas mãos dos líderes religiosos, dos chefes dos sacerdotes e dos mestres da lei, e fosse morto e ressuscitasse no terceiro dia. Então Pedro, chamando-o à parte, começou a repreendê-lo, dizendo: ‘Nunca, Senhor! Isso nunca te acontecerá!’ Jesus virou-se e disse a Pedro: ‘Para trás de mim, Satanás! Você é uma pedra de tropeço para mim, e não pensa nas coisas de Deus, mas nas dos homens’.” Mateus 16:21-23 (NVI)
Num momento Pedro podia confessar a Jesus como o enviado de Deus, e logo em seguida mostrar que nada entendia da sua missão como Messias. Ao insistir que Jesus não podia ir à cruz, Pedro negava aquilo que fazia de Jesus o Cristo. Se Jesus tivesse seguido o entendimento de Pedro, não só Pedro, mas, toda a raça humana teria sido perdida.
Que falta de entendimento! Que ignorância dos propósitos de Deus! Aquele, cuja fé foi chamado uma Pedra para edificar a igreja, foi taxado de pedra de tropeço.
O discípulo mais simples hoje entende o que Pedro quis discutir com o próprio Jesus. Como é que isso podia suceder? Como é que um homem de uma fé tão forte e firme podia ao mesmo tempo não compreender a missão do Messias e o plano de Deus para a salvação?
O fato é que qualquer discípulo é capaz de não entender algum aspecto da vontade de Deus. O próprio Pedro mais tarde escreveu que há ensinamentos na Bíblia difíceis de entender (2 Pe 3:16). Quem pode afirmar que entende tudo que a Bíblia ensina? Vemos em Pedro que até um discípulo bem chegado a Jesus era capaz de confundir as coisas. E nós hoje?
O importante a apreender desta história é que precisamos da fé que Pedro tinha. Mas, ninguém é discípulo por compreender tudo, e sim por confiar unicamente e completamente em Jesus. Com a repreensão de Jesus, Pedro, sem dúvida deve ter ficado constrangido, envergonhado e humilhado. Mas, ele não deixou de seguir Jesus. E, este é o ponto mais importante da história, a fé dele em Jesus era muito maior que a fé dele no seu próprio conhecimento, sabedoria ou entendimento das Escrituras.
A fé de Pedro estava depositada totalmente em Jesus. Entendendo ou não o presente ou o futuro, compreendendo ou não as próprias Escrituras, Pedro sabia que o mais importante era confiar em Jesus e continuar com Ele.
Pouco tempo depois, Jesus demonstrou o quão grande é a fé de um discípulo. Apesar da falha de Pedro e da repreensão dura que Jesus lhe deu, seis dias depois Jesus o chamou para um dos momentos mais marcantes da sua vida aqui na terra.
"Seis dias depois, tomou Jesus consigo a Pedro e aos irmãos Tiago e João e os levou, em particular, a um alto monte. E foi transfigurado diante deles; o seu rosto resplandecia como o sol, e as suas vestes tornaram-se brancas como a luz. E eis que lhes apareceram Moisés e Elias, falando com ele." Mateus 17:1-3
Naquela ocasião, se lemos um pouco adiante, Pedro cometeu outro gafe ao sugerir que fossem feitas tendas para Jesus, Moisés e Elias. Mas, o importante da lição é visto logo no início. O discípulo que se viu como pedra de tropeço uma semana antes, agora se viu ao lado de Jesus num dos momentos mais extraordinários da sua vida aqui na terra – e a convite pessoal do Mestre.
Jesus se importa com o nosso entendimento, com a nossa compreensão da vontade de Deus. E, como discípulos verdadeiros, devemos sempre buscar conhecer e obedecer cada vez mais a Palavra de Deus. Mas, o mais importante, o mais crucial em tudo é algo que o próprio Deus nos dá – fé em Jesus. Creia em Jesus, confie em Jesus e continue com Jesus até o fim. Disso aí, você nunca vai se arrepender.
Mozart Correia Lima
quinta-feira, 8 de abril de 2010
Não Perca a Batalha da Fé
E, quando se aproximou dos discípulos, viu ao redor deles grande multidão, e alguns escribas que disputavam com eles. E logo toda a multidão, vendo-o, ficou espantada e, correndo para ele, o saudaram. E perguntou aos escribas: Que é que discutis com eles? E um da multidão, respondendo, disse: Mestre, trouxe-te o meu filho, que tem um espírito mudo; E este, onde quer que o apanha, despedaça-o, e ele espuma, e range os dentes, e vai definhando; e eu disse aos teus discípulos que o expulsassem, e não puderam. E ele, respondendo-lhes, disse: O geração incrédula! até quando estarei convosco? até quando vos sofrerei ainda? Trazei-mo. E trouxeram-lho; e quando ele o viu, logo o espírito o agitou com violência, e, caindo o endemoninhado por terra, revolvia-se, escumando.
E perguntou ao pai dele: Quanto tempo há que lhe sucede isto? E ele disse-lhe: Desde a infância. E muitas vezes o tem lançado no fogo, e na água, para o destruir; mas, se tu podes fazer alguma coisa, tem compaixão de nós, e ajuda-nos. E Jesus disse-lhe: Se tu podes crer, tudo é possível ao que crê. E logo o pai do menino, clamando, com lágrimas, disse: Eu creio, Senhor! ajuda a minha incredulidade. E Jesus, vendo que a multidão concorria, repreendeu o espírito imundo, dizendo-lhe: Espírito mudo e surdo, eu te ordeno: Sai dele, e não entres mais nele. E ele, clamando, e agitando-o com violência, saiu; e ficou o menino como morto, de tal maneira que muitos diziam que estava morto. Mas Jesus, tomando-o pela mão, o ergueu, e ele se levantou. (Marcos 9.14-27)
Jesus acabara de descer do monte com Pedro Tiago e João, onde havia se transfigurado diante deles. Ao aproximarem-se dos outros discípulos, viram uma grande multidão. Um homem, dentre a multidão, havia trazido o seu filho possesso de um espirito maligno. A descrição daquele pai aflito era lacônica: “o espírito maligno onde quer que o apanha, lança-o por terra e ele espuma, rilha os dentes e vai definhando”.
A primeira declaração do Senhor Jesus depois desse relato é: Ó geração incrédula! Aquela, de fato, era uma geração incrédula. O pai do menino e os discípulos. Assim como naquela época, vivemos hoje no meio de uma geração incrédula e perversa. A incredulidade, expressa na falta de fé, seria, nos
últimos tempos, um problema tão sério, que o Senhor Jesus certa vez exclamou: “quando o Filho do homem vier, porventura achará fé na terra”?
A incredulidade foi a causa de uma geração inteira morrer no deserto e não entrar na terra prometida. Dos quase três milhões de pessoas que saíram da escravidão do Egito com Moisés, dos que tinham vinte anos para cima, nenhum deles entrou na terra, exceto Josué e Calebe. O relato de Hebreus 3.19, afirma que eles não puderam entrar por causa da incredulidade. A incredulidade nos impede de conquistar as promessas. Existem mais de oito mil promessas nas Escrituras, mas que para o incrédulo não passam de uma ficção.
A incredulidade impediu Jesus de fazer muitos milagres em Nazaré, a cidade para onde Jesus se mudou com a sua família e viveu a sua infância e juventude. Segundo a descrição de Mateus 13.58, os nazarenos não acreditaram que o filho do carpinteiro e de Maria, e irmão de Tiago, e José, e Simão, e Judas havia sido ungido com o Espírito Santo e com poder para curar os enfermos, levantar os paralíticos e dar vista aos cegos.
A incredulidade é uma iniquidade que pode afetar gerações. Quando o menino é trazido diante de Jesus, o espirito imundo o agita com violência e o lança por terra escumando. Ele teve uma convulsão, um ataque epiléptico. É terrível só imaginar a cena de alguém babando, espumando pela boca, se debatendo com violência. Entretanto, inexplicavelmente, Jesus não se apressa em socorre-lo. Ele primeiro se dirige ao pai e faz uma pergunta: “quanto tempo há que lhe sucede isso”? ao que o pai responde: “desde a infância”.
É na infância que a maioria dos nossos traumas acontece. É na infância que a ausência de amor, aceitação e aprovação provocam uma ferida de rejeição que se não for ministrada pelo Espírito Santo, poderá nos acompanhar pelo resto das nossas vidas trazendo muita dor e sofrimento. É na infância que os abusos sexuais, físicos e psicológicos mais acontecem e marcam a nossa personalidade, abrindo portas espirituais pelas quais espíritos imundos podem entrar.
Jesus sabia que aquele menino havia sido atingido por um espírito de incredulidade. Mas por que Jesus não o expulsa logo de uma vez? Porque ele precisava tratar primeiro a causa, a origem, a porta de entrada. É notório que o pai tem algum discernimento. Segundo a descrição do verso 17, o pai afirma que o menino esta possesso de um espírito mudo. No entanto, mesmo diante de Jesus ele ainda revela incredulidade quando diz: “se tu podes fazer alguma coisa, tem compaixão de nós, e ajuda-nos”. Jesus olha pra ele e replica: “Se tu podes crer, tudo é possível ao que crê”. E logo o pai do menino, clamando, com lágrimas, disse: “Eu creio, Senhor! ajuda a minha incredulidade”.
Jesus não repreendeu o espirito maligno do menino até que o pai reconheceu o seu pecado. Aqui esta a chave. Somente depois que o pai confessa a sua incredulidade, ele confessa uma iniquidade que afetava toda uma geração. Somente depois que reconhecemos o nosso pecado de incredulidade podemos ser curados. Jesus levou o pai do menino a reconhecer que ele tinha um problema de incredulidade. Provavelmente muitas coisas ainda não aconteceram em nossas vidas por causa de iniquidades que precisam ser confessadas.
A Bíblia diz que a fé vem pelo ouvir e ouvir pela palavra de Deus, Romanos 10.17. Tanto o pai quando o filho carregavam uma iniquidade geracional chamada incredulidade. No verso 25, Jesus diz: “espirito mudo e surdo, eu te ordeno: sai dele e nunca mais entres nele”. O espírito maligno que estava nele não era somente mudo, como pensava o pai, mas também surdo. A surdez espiritual impede que ouçamos a palavra de Deus. Sem poder ouvir a palavra não podemos ter fé, e sem fé é impossível agradar a Deus. Não podemos ser salvos. A Bíblia diz “quem tem ouvidos para ouvir, ouça o que o Espírito diz à igreja”.
Quando nós reconhecemos que precisamos de ajuda, Jesus vem em nosso socorro. O pai do menino precisava reconhecer que ele precisava de ajuda. Quando ele declarou que precisava de ajuda, Jesus operou o milagre. Há muitas pessoas sofrendo há muito tempo, alguns desde a infância, com enfermidades, feridas de rejeição, limitações e aprisionamentos, vivendo em incredulidade e falta de fé. A boa notícia, no entanto, é que todo pecado e toda estrutura de iniquidade pode ser removida no poder que há no nome de Jesus. Basta uma oração sincera e ele virá em nosso socorro. Voce pode orar agora mesmo dizendo: “Senhor Jesus, eu preciso de ajuda, ajuda-me na minha falta de fé”. “Se confessarmos os nossos pecados, ele é fiel e justo para nos perdoar os pecados e nos purificar de toda injustiça (iniquidade)” 1 João 1.9.
Quando Jesus nos liberta, verdadeiramente somos livres!
E perguntou ao pai dele: Quanto tempo há que lhe sucede isto? E ele disse-lhe: Desde a infância. E muitas vezes o tem lançado no fogo, e na água, para o destruir; mas, se tu podes fazer alguma coisa, tem compaixão de nós, e ajuda-nos. E Jesus disse-lhe: Se tu podes crer, tudo é possível ao que crê. E logo o pai do menino, clamando, com lágrimas, disse: Eu creio, Senhor! ajuda a minha incredulidade. E Jesus, vendo que a multidão concorria, repreendeu o espírito imundo, dizendo-lhe: Espírito mudo e surdo, eu te ordeno: Sai dele, e não entres mais nele. E ele, clamando, e agitando-o com violência, saiu; e ficou o menino como morto, de tal maneira que muitos diziam que estava morto. Mas Jesus, tomando-o pela mão, o ergueu, e ele se levantou. (Marcos 9.14-27)
Jesus acabara de descer do monte com Pedro Tiago e João, onde havia se transfigurado diante deles. Ao aproximarem-se dos outros discípulos, viram uma grande multidão. Um homem, dentre a multidão, havia trazido o seu filho possesso de um espirito maligno. A descrição daquele pai aflito era lacônica: “o espírito maligno onde quer que o apanha, lança-o por terra e ele espuma, rilha os dentes e vai definhando”.
A primeira declaração do Senhor Jesus depois desse relato é: Ó geração incrédula! Aquela, de fato, era uma geração incrédula. O pai do menino e os discípulos. Assim como naquela época, vivemos hoje no meio de uma geração incrédula e perversa. A incredulidade, expressa na falta de fé, seria, nos
últimos tempos, um problema tão sério, que o Senhor Jesus certa vez exclamou: “quando o Filho do homem vier, porventura achará fé na terra”?
A incredulidade foi a causa de uma geração inteira morrer no deserto e não entrar na terra prometida. Dos quase três milhões de pessoas que saíram da escravidão do Egito com Moisés, dos que tinham vinte anos para cima, nenhum deles entrou na terra, exceto Josué e Calebe. O relato de Hebreus 3.19, afirma que eles não puderam entrar por causa da incredulidade. A incredulidade nos impede de conquistar as promessas. Existem mais de oito mil promessas nas Escrituras, mas que para o incrédulo não passam de uma ficção.
A incredulidade impediu Jesus de fazer muitos milagres em Nazaré, a cidade para onde Jesus se mudou com a sua família e viveu a sua infância e juventude. Segundo a descrição de Mateus 13.58, os nazarenos não acreditaram que o filho do carpinteiro e de Maria, e irmão de Tiago, e José, e Simão, e Judas havia sido ungido com o Espírito Santo e com poder para curar os enfermos, levantar os paralíticos e dar vista aos cegos.
A incredulidade é uma iniquidade que pode afetar gerações. Quando o menino é trazido diante de Jesus, o espirito imundo o agita com violência e o lança por terra escumando. Ele teve uma convulsão, um ataque epiléptico. É terrível só imaginar a cena de alguém babando, espumando pela boca, se debatendo com violência. Entretanto, inexplicavelmente, Jesus não se apressa em socorre-lo. Ele primeiro se dirige ao pai e faz uma pergunta: “quanto tempo há que lhe sucede isso”? ao que o pai responde: “desde a infância”.
É na infância que a maioria dos nossos traumas acontece. É na infância que a ausência de amor, aceitação e aprovação provocam uma ferida de rejeição que se não for ministrada pelo Espírito Santo, poderá nos acompanhar pelo resto das nossas vidas trazendo muita dor e sofrimento. É na infância que os abusos sexuais, físicos e psicológicos mais acontecem e marcam a nossa personalidade, abrindo portas espirituais pelas quais espíritos imundos podem entrar.
Jesus sabia que aquele menino havia sido atingido por um espírito de incredulidade. Mas por que Jesus não o expulsa logo de uma vez? Porque ele precisava tratar primeiro a causa, a origem, a porta de entrada. É notório que o pai tem algum discernimento. Segundo a descrição do verso 17, o pai afirma que o menino esta possesso de um espírito mudo. No entanto, mesmo diante de Jesus ele ainda revela incredulidade quando diz: “se tu podes fazer alguma coisa, tem compaixão de nós, e ajuda-nos”. Jesus olha pra ele e replica: “Se tu podes crer, tudo é possível ao que crê”. E logo o pai do menino, clamando, com lágrimas, disse: “Eu creio, Senhor! ajuda a minha incredulidade”.
Jesus não repreendeu o espirito maligno do menino até que o pai reconheceu o seu pecado. Aqui esta a chave. Somente depois que o pai confessa a sua incredulidade, ele confessa uma iniquidade que afetava toda uma geração. Somente depois que reconhecemos o nosso pecado de incredulidade podemos ser curados. Jesus levou o pai do menino a reconhecer que ele tinha um problema de incredulidade. Provavelmente muitas coisas ainda não aconteceram em nossas vidas por causa de iniquidades que precisam ser confessadas.
A Bíblia diz que a fé vem pelo ouvir e ouvir pela palavra de Deus, Romanos 10.17. Tanto o pai quando o filho carregavam uma iniquidade geracional chamada incredulidade. No verso 25, Jesus diz: “espirito mudo e surdo, eu te ordeno: sai dele e nunca mais entres nele”. O espírito maligno que estava nele não era somente mudo, como pensava o pai, mas também surdo. A surdez espiritual impede que ouçamos a palavra de Deus. Sem poder ouvir a palavra não podemos ter fé, e sem fé é impossível agradar a Deus. Não podemos ser salvos. A Bíblia diz “quem tem ouvidos para ouvir, ouça o que o Espírito diz à igreja”.
Quando nós reconhecemos que precisamos de ajuda, Jesus vem em nosso socorro. O pai do menino precisava reconhecer que ele precisava de ajuda. Quando ele declarou que precisava de ajuda, Jesus operou o milagre. Há muitas pessoas sofrendo há muito tempo, alguns desde a infância, com enfermidades, feridas de rejeição, limitações e aprisionamentos, vivendo em incredulidade e falta de fé. A boa notícia, no entanto, é que todo pecado e toda estrutura de iniquidade pode ser removida no poder que há no nome de Jesus. Basta uma oração sincera e ele virá em nosso socorro. Voce pode orar agora mesmo dizendo: “Senhor Jesus, eu preciso de ajuda, ajuda-me na minha falta de fé”. “Se confessarmos os nossos pecados, ele é fiel e justo para nos perdoar os pecados e nos purificar de toda injustiça (iniquidade)” 1 João 1.9.
Quando Jesus nos liberta, verdadeiramente somos livres!
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