Em 2008, a literatura que se produziu no imaginário das heranças e memórias culturais privilegiou os que se debruçaram sobre a temática da “literatura menor”. Digo “menor” apenas para fazer lembrar um pouco de Deleuze em seu artigo sobre Kafka. Não muito longe dos holofotes já consagrados, uma lista de nomes amplia o horizonte para se repensar a questão do homem no mundo contemporâneo. O traço fincado no sinal de menos serve para se repensar um mundo que se absurda pelo que há de excessos. Tudo isso somado é diminuto. Pensar o minimalismo cotidiano já é de grande largueza filosófica, mas alguns substratos da Literatura contemporânea é mergulho raso em uma profundidade oca. Nada de novo. Baudelaire por volta de 1857 já anuncia: “O mundo vai acabar”.
O que a literatura de 2008 fez de importante foi dar um toque de leveza ao peso do mundo. O escritor apenas empresta suas cores ao vazio, diria Camus. Em verdade, a literatura é guardiã da esperança, lembramos aqui de um livro fabuloso de 2008 que é O caçador de pipas. Este livro é guardião da esperança no mundo árabe palestino. Um olhar mais atento sobre este livrinho encontrará algo precioso na arte de contar. Nessa obra, só há um luxo: o das relações humanas. “O caçador de Pipas”, de Khaled Hosseini está entre um dos melhores livros de 2008. Um livro que fala de beleza no trato com as misérias humanas e traz o desenho de uma cultura onde soltar pipas era mais do que um simples passatempo, ma um viajar de asas no vento de uma liberdade amarelada. Durante o campeonato de soltar pipas, Hassan é brutalmente violentado por três rapazes. Com a invasão soviética, Amir ao migrar para os Estados Unidos se torna escritor, até que um dia Amir volta a sua terra e se depara com uma realidade revoltante.
Também pelo lado oriental, em 2008, o escritor israelense Amós Oz reaparece com um romance novo cujo título é maravilhoso: “Rimas da vida e da morte”. Esta história é contada de forma mágica por Amós Oz que ao refletir o ato de escrever de um personagem escritor vai costurando imagens repletas de intenções sobre os holofotes do mundo literário. Um livro que traz sérios questionamentos ao mercado editorial, ao que está por trás de um lançamento de um livro. A história “Rimas da vida e da morte” se locomove entre-lugares dos caminhos da imaginação. Se começa dentro de uma lanchonete, o autor aproveita para acentuar o submundo literário, os acordos com as vaidades intelectuais, as noites de autógrafos; termina analisando as relações humanas com a escritura: o que está por trás das críticas literárias, de como se processa a inspiração laboriosa, ou mesmo, o desabafo de escrever e as conseqüências de tudo isso dentro da “persona” de um escritor, de um personagem leitor.
Um outro livro laborioso de 2008 chama-se “A viagem do Elefante, do escritor português José Saramago”, este livro está entre as obras raras deste século. Um livro cuja epigrafe é convidativa ao leitor viajante: “sempre chegamos ao sítio aonde nos esperam”. Se em matéria de ser, não se pode chegar antes, Saramago com seu estilo barroco de contar, usa as palavras como se fossem labirintos ao fazer a travessia do personagem Salomão de Portugal a Áustria. O Salomão de Saramago lembra muito “O Elefante”, poema de Carlos Drummond de Andrade. O Elefante de Drummond é desses famintos de seres e de situações patéticas; o de Saramago anda à procura de sítios históricos, segredos de “mil e uma noites”, episódios não contados em livros, revelados pelo indiano Subhro, um personagem sensível que traduz a linguagem do Elefante como se transcreve uma escritura budista.
Se a literatura é diálogo constante com a diferença, e diálogo cortante com a repetição, a tradução cultural do mundo ainda continua sendo o homem e sua hora. Questões relacionadas às migração e africanidades estiveram em debate por todo o ano de 2008. Do centenário de Machado de Assis à eleição de Barack Obama, nunca se discutiu tanto sobre as cores e cotas afro-descendentes. Não à toa que tivemos, em 2008, no Ceará, a VIII Bienal Internacional do Livro enfocando a temática da mestiçagem. Em Pernambuco, a FLIPORTO [Festa Literária de Porto de Galinhas] rendeu homenagens à África.
Em travessia pela cultura africana, o livro fabuloso de 2008 é sem dúvida “O africano”, do escritor franco- africano J. M. G. Le Clézio. Nesse livro, o autor narra a história em tom informal que muito nos lembra uma saga curta com pequenas palavras em síntese quase embrionária. Um livrinho que amplia o conceito de memória ao confundir o olhar da ficção pela invenção autobiográfica. Uma linguagem escrita à moda de um francês crioulo. Conta o imaginário infante de uma criança assombrada com o horizonte africano em Ogoja. Um livro que fala do olhar pelo que há de sensações. Um olhar corpóreo: olho vivo do espírito. Uma espécie de dobras de falas que se desdobram no “entre-lugar” do corpo da mãe África, das savanas e do mar de capim. Como diz Le Clézio nas entrelinhas do livro: “A África era mais corpo que o rosto. Era a violência das sensações, a violência dos apetites, a violência das estações”. Um livro que recebeu em 2008 o “Prêmio Nobel de Literatura”.
E por falar em África, o livro “Venenos de Deus, remédios do diabo”, do escritor Mia Couto, também consideramos estar entre as melhores safras da literatura de 2008. Venenos de Deus, remédios do diabo é um romance em dezoito capítulos e cada um desses capítulos lembra pequenos contos encadeados à rotina de Moçambique. Uma prosa de “inventança” cheia de variantes dialetais orais com pinceladas de uma escritura com os dois pés atolados na memória africana. A história acontece em Vila Cacimba e tem como personagens centrais o médico Sidônio Rosa, Dona Munda, o mecânico Bartolomeu Sozinho. A trama se passa entre epidemias e a paixão do médico pela desaparecida Deolinda. Entre amores e traições, a história mapeia verdades e mentiras destilando venenos e remédios para curar dores humanas. Em um momento da trama, Bartolomeu, em diálogo com o médico, vem com uma indagação pra lá de existencial: “Cure-me de sonhar, doutor”.
No Brasil, o livro “O filho eterno”, de Cristovão Tezza, é um livro áspero e enxuto, rico de indagações sobre o ambiente familiar e a limitações de uma criança com “síndrome de down”. Um livro em que o narrador confunde o personagem, para revelar o que está por trás das lacunas silenciosas das dores, desenho nomeado de silencio e palavras. Deste livro guardamos esta imagem densa: “Ali está o pai com o filho idiota diante da fonoaudióloga. Quase esquece que também tem uma filha normal – mas crianças normais não precisam de água, que elas vão crescendo como couves. (...). A criança não se concentra muito, diz a fonoaudióloga, e ele se afasta dali quase arrastando o filho, e no corredor sente o olhar agudo dos outros, para o pai que leva aos trancos uma pequena vergonha nas mãos, incapaz de repetir duas ou três palavras numa sentença simples. E, no entanto, a criança abraça-o com uma entrega física quase absoluta, como quem se larga nas mãos da natureza e fecha os olhos”.
Também temos na mesa de cabeceira alguns livros que marcaram o ano de 2008, um deles bastante historiográfico e perspicaz: “Uma escritora na periferia do império: vida e obra de Emília Freitas”, fruto da pesquisa de doutorado de Alcilene Cavalcante [UFMG]. Este livro de Alcilene, publicado pela Editora Mulheres, conta a travessia da escritora Emília Freitas [1855-1908] em Fortaleza, Belém e Pará. Um trabalho biográfico no qual se discorre sobre a vida de uma escritora cearense que se despendeu, entre poemas e ficção, sobre questões envolvendo gênero e violência contra as mulheres e questões abolicionistas. Também, neste final de conversa, ainda dá tempo correr à livraria e dá uma última conferida na estante de Socorro Acioli, trata-se do livro “Vende-se uma família”. O livro de Acioli vem publicado com o selo das edições Demócrito Rocha. Um livro que recebeu no quesito capa o prêmio Jabuti de 2008. Um livro para encher os olhos do imaginário infanto-juvenil, conta a historinha de Álvaro e Benício em diálogo com a questão abolicionista. Uma historinha recheada de emoção que faz a cabeça do leitor virar pelo avesso.
Por fim, resta entrar o ano de 2009, ano do sol, lendo (dentro de alguma rede) o livro “Caderno do Estudante Luz”, de Eduardo Jorge, editado com recursos do Edital de Fotografia da Funcet em 2008. Um livro experimental no trato com a linguagem em estado de luz e sombra. Livro pequeno de silencio e música: partitura de água e sol. “Aula de atenção sobre renegada ruína”, como diz Rui Vasconcelos na contracapa. Um livro que se “anda assim de/ bicicleta, o que mais úmido, eis: as listas da pista de pouso, / algodão até as avessas,/ enquanto segura o que é/ portátil também a casa vazia,/ comigo e duas mudas de trevo,/ na valise, a troca de assunto:/ um livro permanece fechado”.
quarta-feira, 1 de julho de 2009
sexta-feira, 26 de junho de 2009
Em sua última noite de vida, Michael Jackson cantou e dançou
Cantor estava atrasado e 'apático' no ensaio para os shows de Londres; astro morreu após parada cardíaca.
Michael Jackson faria 50 shows a partir de julho.
Em sua última noite de vida, Michael Jackson estava cantando e dançando, informa o site de celebridades TMZ. O cantor, que ensaiava para a série de 50 shows que faria a partir de julho, chegou ao ginásio de Los Angeles com três horas de atraso e parecia "apático", mas isso era normal, segundo pessoas envolvidas nos ensaios citadas pelo TMZ.
O porta-voz do Instituto Médico Legal de Los Angeles, tenente Fred Corral, confirmou nesta quinta-feira, 25, a morte de Jackson. Ele disse à rede de televisão CNN que o astro foi declarado morto por volta das 14h26 (horário local, 18h26 em Brasília) e que não respondeu às tentativas de ressuscitação realizadas pela equipe de resgate. Meios de comunicação informaram que o popstar sofreu uma parada cardíaca.
Corral disse que não poderia confirmar a causa da morte até que a autópsia seja realizada.
Michael Jackson faria 50 shows a partir de julho.
Em sua última noite de vida, Michael Jackson estava cantando e dançando, informa o site de celebridades TMZ. O cantor, que ensaiava para a série de 50 shows que faria a partir de julho, chegou ao ginásio de Los Angeles com três horas de atraso e parecia "apático", mas isso era normal, segundo pessoas envolvidas nos ensaios citadas pelo TMZ.
O porta-voz do Instituto Médico Legal de Los Angeles, tenente Fred Corral, confirmou nesta quinta-feira, 25, a morte de Jackson. Ele disse à rede de televisão CNN que o astro foi declarado morto por volta das 14h26 (horário local, 18h26 em Brasília) e que não respondeu às tentativas de ressuscitação realizadas pela equipe de resgate. Meios de comunicação informaram que o popstar sofreu uma parada cardíaca.
Corral disse que não poderia confirmar a causa da morte até que a autópsia seja realizada.
Quando Michael Jackson era negro
Chega ao País a edição comemorativa de 25 anos de ‘Thriller’, o álbum mais vendido na história.
Oito Grammys, o mesmo número de American Music Awards, três prêmios da MTV, 104 milhões de cópias vendidas, além de ter sete de suas faixas incluídas no Top 100 da Billboard. Há 25 anos, este era o cenário que Thriller, de Michal Jackson, começava a desenhar.
O álbum que marcou toda uma geração e que caminhou lado a lado com a MTV - que havia acabado de nascer na época - deixou marcado para sempre suas nove faixas produzidas pelo mago Quincy Jones. Músicas como Beat It, Billie Jean e a faixa-título derrubaram preconceitos e fizeram brancos, negros, amarelos e pardos dançarem ao mesmo ritmo.
Tanto nos Estados Unidos, como no resto do mundo, os holofotes novamente recaíam para a música negra, que havia tido o seu último respiro no início da década de 1970, com os monstros da Motown. O ‘estrago’ feito por Thriller não só podia ser escutado nas rádios americanas como serviu de alicerce para um novo canal que iniciava sua trajetória.
A MTV surgiu tendo Michael Jackson como seu rei. “Eles sempre me disseram que se não fosse por mim, a MTV não existiria”, disse Jackson à revista Ebony, que o estampa na capa em sua edição de dezembro de 2007.
Para a nova edição comemorativa que chega ao Brasil, seis faixas bônus foram adicionadas aos conhecidos clássicos lançados no inverno norte-americano de 1982 - Thriller foi lançado em dezembro daquele ano. The Girl is Mine 2008 tem participação de will. i. am, líder e produtor do Black Eyed Peas, e que trabalha desde o início de 2007 com Jackson na confecção de um inédito trabalho com o músico. A música ganha novo arranjo, aceleração e se transforma em um mutante recheado de batucadas. Em vez da voz de Paul McCartney, é a voz de will que se ouve durante toda sua execução.
O mesmo will.i.am. remixa P.Y.T. (Pretty Young Thing), outra faixa que ficava sempre na reserva entre as mais tocadas. Aliás, adquirir esta nova edição remasterizada é uma ótima oportunidade para se escutar o disco como um todo. Na época, Michael e seus hits poderosos pouco deixavam espaço para o restante do álbum que, como um todo, é fiel à excelência de sua fama.
Wanna Be Startin’ Something 2008, música que abre o disco originalmente, ganha versão melosa e sincopada do cantor Akon. Já o clássico Beat It é repaginado na voz de Fergie (Black Eyed Peas), que divide os compassos e versos com o próprio Jacko. Versão acelerada e diversão garantida.
Outro clássico do álbum, Billie Jean, ganha verniz de Kanye West, outro que participa da nova fase de Jackson, que promete lançar seu novo disco ainda este ano. A canção ganha nova atmosfera do gênio dos recortes e remixes.
Há ainda um DVD com os clipes que fizeram a imagem de Jackson se espalhar por todo o universo - incluindo o de Thriller, dirigido por John Landis (Um Lobisomem Americano em Londres). O vídeo custou U$ 800 mil. Foi em uma apresentação de Jackson no aniversário da Motown que o público viu pela primeira vez o passo chamado Moonwalk, onde arrasta os dois pés para trás como se estivesse deslizando sobre a Terra. A canção era Billie Jean e, nesse momento, o cantor já era o novo fenômeno no show biz mundial.
O The New York Times escrevia à época: “Ele é um fenômeno. No mundo da música pop existe Michael Jackson e, bem atrás, os outros”. Já o que aconteceria após o estouro de Thriller com seu protagonista, todos sabem de cor.
MARCO BEZZI, marco.bezzi@grupoestado.com.br
Oito Grammys, o mesmo número de American Music Awards, três prêmios da MTV, 104 milhões de cópias vendidas, além de ter sete de suas faixas incluídas no Top 100 da Billboard. Há 25 anos, este era o cenário que Thriller, de Michal Jackson, começava a desenhar.
O álbum que marcou toda uma geração e que caminhou lado a lado com a MTV - que havia acabado de nascer na época - deixou marcado para sempre suas nove faixas produzidas pelo mago Quincy Jones. Músicas como Beat It, Billie Jean e a faixa-título derrubaram preconceitos e fizeram brancos, negros, amarelos e pardos dançarem ao mesmo ritmo.
Tanto nos Estados Unidos, como no resto do mundo, os holofotes novamente recaíam para a música negra, que havia tido o seu último respiro no início da década de 1970, com os monstros da Motown. O ‘estrago’ feito por Thriller não só podia ser escutado nas rádios americanas como serviu de alicerce para um novo canal que iniciava sua trajetória.
A MTV surgiu tendo Michael Jackson como seu rei. “Eles sempre me disseram que se não fosse por mim, a MTV não existiria”, disse Jackson à revista Ebony, que o estampa na capa em sua edição de dezembro de 2007.
Para a nova edição comemorativa que chega ao Brasil, seis faixas bônus foram adicionadas aos conhecidos clássicos lançados no inverno norte-americano de 1982 - Thriller foi lançado em dezembro daquele ano. The Girl is Mine 2008 tem participação de will. i. am, líder e produtor do Black Eyed Peas, e que trabalha desde o início de 2007 com Jackson na confecção de um inédito trabalho com o músico. A música ganha novo arranjo, aceleração e se transforma em um mutante recheado de batucadas. Em vez da voz de Paul McCartney, é a voz de will que se ouve durante toda sua execução.
O mesmo will.i.am. remixa P.Y.T. (Pretty Young Thing), outra faixa que ficava sempre na reserva entre as mais tocadas. Aliás, adquirir esta nova edição remasterizada é uma ótima oportunidade para se escutar o disco como um todo. Na época, Michael e seus hits poderosos pouco deixavam espaço para o restante do álbum que, como um todo, é fiel à excelência de sua fama.
Wanna Be Startin’ Something 2008, música que abre o disco originalmente, ganha versão melosa e sincopada do cantor Akon. Já o clássico Beat It é repaginado na voz de Fergie (Black Eyed Peas), que divide os compassos e versos com o próprio Jacko. Versão acelerada e diversão garantida.
Outro clássico do álbum, Billie Jean, ganha verniz de Kanye West, outro que participa da nova fase de Jackson, que promete lançar seu novo disco ainda este ano. A canção ganha nova atmosfera do gênio dos recortes e remixes.
Há ainda um DVD com os clipes que fizeram a imagem de Jackson se espalhar por todo o universo - incluindo o de Thriller, dirigido por John Landis (Um Lobisomem Americano em Londres). O vídeo custou U$ 800 mil. Foi em uma apresentação de Jackson no aniversário da Motown que o público viu pela primeira vez o passo chamado Moonwalk, onde arrasta os dois pés para trás como se estivesse deslizando sobre a Terra. A canção era Billie Jean e, nesse momento, o cantor já era o novo fenômeno no show biz mundial.
O The New York Times escrevia à época: “Ele é um fenômeno. No mundo da música pop existe Michael Jackson e, bem atrás, os outros”. Já o que aconteceria após o estouro de Thriller com seu protagonista, todos sabem de cor.
MARCO BEZZI, marco.bezzi@grupoestado.com.br
quinta-feira, 25 de junho de 2009
Diferenças que não existem
Mousavi, embora com o mesmo teor de maluquice, tem a fala mais mansa. Propõe-se a dialogar com o Ocidente e por isso virou o queridinho de B. Hussein Obama e, por conseguinte, de toda a mídia mundial.
Para você ter ideia de como a grande mídia informa muito, mas muito mal, analisemos a eleição iraniana sob a óptica dos jornalistas brasileiros:
1) De um lado temos Mahmoud Ahmadinejad com toda a sua loucura e negação do Holocausto. Tem uma tara toda especial pelo programa nuclear iraniano. Ele, segundo a mídia brasileira, é consevador, embora conte com o apoio de toda a esquerda mundial. Seria, então, uma espécie maluca de conservador marxista?
2) Do outro, Mir Housein Mousavi, considerado por toda a mídia um reformador, um sujeito moderado. Ele não nega o Holocausto porque acredita que "não lhe diz respeito". Apóia um programa nuclear iraniano desde quando serviu à administração de Akbar Hashemi Rafsanjani, que proclamava precisar de "somente uma bomba atômica para destruir Israel". Mas o destaque no seu currículo é ter comandado, como primeiro-ministro, o massacre em massa de dissidentes e estudantes em 1988.
3) Sobre os dois, paira o aiatolá Ali Khamenei. E, diferente da imprensa mundial, o líder supremo não está preocupado com o vencedor das eleições no seu país, já que todos conjugam dos mesmos ideais..
Mousavi, embora com o mesmo teor de maluquice, tem a fala mais mansa. Propõe-se a dialogar com o Ocidente e por isso virou o queridinho de B. Hussein Obama e, por conseguinte, de toda a mídia mundial.
Em verdade, toda essa confusão no Irã só serve para tirar do foco a questão nuclear. Se Mousavi vencesse, teria meios mais eficazes para enrolar o Ocidente quanto ao programa nuclear. Já Ahmadinejad - sob as bênçãos de Khamenei - terá tempo de sobra para aprimorar sua tecnologia atômica, enquanto o mundo se preocupa com uma democracia que nunca existiu no Irã. Em ambos os casos, quem sai perdendo é a paz.
Notas:
1 - The 1988 Iran massacre: crimes against humanity (http://www.americanthinker.com/2004/09/the_1988_iran_massacre_crimes.html) [volta]
2 - Amnesty Document - Iran: the 20th Annniversary of 1988 "Prison Massacre". - http://www.amnesty.org/en/library/asset/MDE13/118/2008/en/f5123dcd-6de3-11dd-8e5e-43ea85d15a69/mde131182008en.htm [volta]
3 - Iran: Students question Mousavi about his Role in 1988 Massacre - http://eastkurd.blog.co.uk/2009/05/21/iran-students-question-moussavi-about-his-role-in-1988-massacre-6154875/ [volta]
4 - Iran Press Service: Massacre of 1988 in Iran - http://www.iran-press-service.com/ips/articles-2007/september-2007/massacre_88_11007.shtml [volta]
5 - NewsMax - Khamenei: Iran Won't Stop Nuke Enrichment - http://archive.newsmax.com/archives/articles/2005/8/19/132420.shtml
Para você ter ideia de como a grande mídia informa muito, mas muito mal, analisemos a eleição iraniana sob a óptica dos jornalistas brasileiros:
1) De um lado temos Mahmoud Ahmadinejad com toda a sua loucura e negação do Holocausto. Tem uma tara toda especial pelo programa nuclear iraniano. Ele, segundo a mídia brasileira, é consevador, embora conte com o apoio de toda a esquerda mundial. Seria, então, uma espécie maluca de conservador marxista?
2) Do outro, Mir Housein Mousavi, considerado por toda a mídia um reformador, um sujeito moderado. Ele não nega o Holocausto porque acredita que "não lhe diz respeito". Apóia um programa nuclear iraniano desde quando serviu à administração de Akbar Hashemi Rafsanjani, que proclamava precisar de "somente uma bomba atômica para destruir Israel". Mas o destaque no seu currículo é ter comandado, como primeiro-ministro, o massacre em massa de dissidentes e estudantes em 1988.
3) Sobre os dois, paira o aiatolá Ali Khamenei. E, diferente da imprensa mundial, o líder supremo não está preocupado com o vencedor das eleições no seu país, já que todos conjugam dos mesmos ideais..
Mousavi, embora com o mesmo teor de maluquice, tem a fala mais mansa. Propõe-se a dialogar com o Ocidente e por isso virou o queridinho de B. Hussein Obama e, por conseguinte, de toda a mídia mundial.
Em verdade, toda essa confusão no Irã só serve para tirar do foco a questão nuclear. Se Mousavi vencesse, teria meios mais eficazes para enrolar o Ocidente quanto ao programa nuclear. Já Ahmadinejad - sob as bênçãos de Khamenei - terá tempo de sobra para aprimorar sua tecnologia atômica, enquanto o mundo se preocupa com uma democracia que nunca existiu no Irã. Em ambos os casos, quem sai perdendo é a paz.
Notas:
1 - The 1988 Iran massacre: crimes against humanity (http://www.americanthinker.com/2004/09/the_1988_iran_massacre_crimes.html) [volta]
2 - Amnesty Document - Iran: the 20th Annniversary of 1988 "Prison Massacre". - http://www.amnesty.org/en/library/asset/MDE13/118/2008/en/f5123dcd-6de3-11dd-8e5e-43ea85d15a69/mde131182008en.htm [volta]
3 - Iran: Students question Mousavi about his Role in 1988 Massacre - http://eastkurd.blog.co.uk/2009/05/21/iran-students-question-moussavi-about-his-role-in-1988-massacre-6154875/ [volta]
4 - Iran Press Service: Massacre of 1988 in Iran - http://www.iran-press-service.com/ips/articles-2007/september-2007/massacre_88_11007.shtml [volta]
5 - NewsMax - Khamenei: Iran Won't Stop Nuke Enrichment - http://archive.newsmax.com/archives/articles/2005/8/19/132420.shtml
quarta-feira, 24 de junho de 2009
O Começo do Fim do Mundo
1982 foi o ano em que o movimento punk explodiu em São Paulo. Era o lugar certo na hora certa. Aquele ano todo, desde o começo, com os punks recolocando a Galeria do Rock e o Largo de São Bento no mapa da mídia, São Paulo, uma das cinco maiores cidades do planeta (ao menos em densidade demográfica), e com lançamento do primeiro vinil punk brasileiro, o "Grito Suburbano", entre outros acontecimentos punks, 1982 fez o movimento explodir. Tretas, desavenças e desacordos sobravam, mas também - e sobretudo - muita união e fraternidade. O país ainda sob o regime militar, e na ignorância da polícia e dos desinformados em geral, as forças punks se uniram, se fez notícia o tempo todo e o ano só podia culminar gloriosamente com o mais perfeito festival no gênero faça-você-mesmo até então realizado no planeta. Nos dias 27 e 28 de novembro, no recém inaugurado SESC Pompéia, "O COMEÇO DO FIM DO MUNDO". O festival já impactava pelo título. Que profecia era aquela, que "fim de mundo" era aquele? A mídia queria saber. A mídia e o povo. Conclamadas todas as bandas punks de São Paulo e do ABC, 20 bandas, o festival serviu também para apaziguar as rivalidades territoriais do movimento, rivalidade muitas vezes sanguinolenta. Este primeiro festival punk irá se tornar tão lendário na história da cidade e do punk quanto a dos cavaleiros da távola redonda na legenda arturiana. Tretas, claro, no festival rolaram algumas - e bastante teatrais para que a polícia montada aparecesse para fazer seu número e a mídia sensacionalista manchetar, com destaque no Fantástico e nas primeiras páginas dos jornais. De resto, o festival e o movimento punk paulistanos foram notícia na imprensa do mundo inteiro. Mas o que deixou o pessoal lá fora perplexo e fascinado foi a imagem de que no Brasil os punks se entendiam, era de fato um movimento e com certeza fariam forte presença no fim do mundo pois se mostrara presença una e fortíssima no começo desse fim.
terça-feira, 23 de junho de 2009
Entenda quem é quem na política iraniana
O aiatolá Ali Khamenei seria partidário de Ahmadinejad.
O líder supremo do Irã é a figura mais poderosa do país.
Ele nomeia o chefe do Judiciário, seis dos 12 membros do Conselho dos Guardiões, os comandantes de todas as Forças Armadas, líderes das orações das sextas-feiras e o chefe da rádio e da televisão estatais. Ele também confirma o resultado da eleição presidencial.
Khamenei foi figura-chave na Revolução Islâmica e um confidente próximo do aiatolá Khomeini, fundador da República Islâmica. Ele foi presidente do Irã entre 1981 e 1989 antes de se tornar líder supremo em caráter vitalício.
Presidente Mahmoud Ahmadinejad
Ahmadinejad já foi prefeito de Teerã
Mahmoud Ahmadinejad, na Presidência do Irã desde 2005, esteve ativamente envolvido na Revolução Islâmica e foi um dos fundadores do grupo estudantil que ocupou a embaixada dos Estados Unidos em Terã em 1979. Ele nega ter sido um dos sequestradores de reféns americanos feitos à época por revolucionários na embaixada.
Ahmadinejad foi um dos primeiros não integrantes do clero a ser eleito presidente do Irã desde 1981, ao derrotar o então presidente Ali Akbar Hashemi Rafsanjani, em eleições em junho de 2005.
É linha-dura tanto em casa - onde não aprova o desenvolvimento ou reforma de instituições políticas - como no exterior, onde tem mantido uma postura anti-Ocidente e atitudes combativas no que se refere ao programa nuclear do Irã.
Muito do apoio que recebe vem de setores mais pobres e religiosos da população iraniana. A maior parte dos que o apóiam vive fora da capital, Teerã.
Houssein Mousavi
Mousavi fez campanha junto com sua esposa, algo incomum no Irã
O ex-primeiro-ministro, com 68 anos de idade, está fora da política há alguns anos, mas retornou para concorrer como um candidato moderado.
Ele nasceu no leste do Azerbaijão e se mudou para Teerã para estudar arquitetura.
É casado com Zahra Rahnavard, ex-chanceler da Universidade de Alzahra e assessora política do ex-presidente iraniano Mohammad Khatami.
Um dos seus aliados mais próximos nessa eleição foi Ali Akbar Hashemi Rafsanjani, ex-presidente do Irã, hoje à frente de dois dos órgãos mais importantes do governo: o Conselho de Expediência, que julga disputas sobre legislação, e a Assembléia de Especialistas, que nomeia e, em teoria, substitui, o líder supremo.
Os reformistas
Khatami é amigo e conselheiro de Houssein Mousavi
O movimento de reforma iraniano é um movimento político liderado por um grupo de partidos políticos e organizações que apóiam os planos de Mohammad Khatami de introduzir maior liberdade e democracia.
Em 1997, Khatami foi eleito presidente com promessas de de maior liberdade de expressão, assim como medidas para combater o desemprego e acelerar privatizações. Entretanto, muitas de suas medidas de liberalização foram bloqueadas pelas instituições conservadoras do país. Khatami concorreu inicialmente às eleições de 2009, mas depois se retirou da disputa e apoiou Hossein Mousavi.
Outras figuras importantes do movimento pró-reforma são Hossein Mousavi, Mohsen Mirdamadi, Hadi Khamenei, Mohsen Aminzadeh e Mostafa Tajzadeh.
A Guarda Revolucionária e o Exército
A Guarda Revolucionária tem influência na polícia do Irã
As Forças Armadas são compostas pela Guarda Revolucionária e pelas forças comuns, todas sob um comando geral único.
O Corpo da Guarda da Revolução Islâmica do Irã foi criado logo após a revolução para defender o sistema islâmico do país e para oferecer um contrapeso para as Forças Armadas. Desde então, tornou-se uma importante força militar, política e econômica no Irã, com fortes vínculos com o líder supremo, aiatolá Ali Khamenei, e o presidente Mahmoud Ahmadinejad, um de seus ex-membros.
Calcula-se que a força tenha 125 mil tropas ativas. Ela tem suas próprias tropas terrestres, marinhas e aéreas, e controla as armas estratégicas do Irã.
A guarda também tem uma presença poderosa em instituições civis e, acredita-se, controla cerca de um terço da economia do Irã por meio de uma série de subsidiárias.
As milícias
As milícias Basij servem como força auxiliar no Irã
A Guarda Revolucionária também controla a Força de Resistência Basij, uma milícia voluntária islâmica com cerca de 90 mil homens e mulheres e capacidade adicional de mobilizar quase um milhão de pessoas.
Em tempos de crise, a Basij, ou Mobilização dos Oprimidos, é chamada com frequência às ruas para acabar com a discórdia por meio da força. Ela possui núcleos em todas as cidades do país.
O clero
Clérigos conservadores têm papel político importante no Irã
O clero domina a sociedade iraniana.
Apenas membros do clero podem ser eleitos para a Assembléia dos Especialistas, que nomeia o líder supremo, monitora sua atuação e pode, em teoria, retirá-lo do cargo se ele for considerado incapaz de cumprir suas funções. Atualmente, a assembléia é chefiada pelo aiatolá Ali Rafsanjani, tido como um conservador pragmático.
O ex-presidente Mohammad Khatami acusou o clero de bloquear as reformas e alertou para os perigos do "despotismo religioso"
O clero também domina o Judiciário, que é baseado na lei islâmica, ou sharia.
Nos últimos anos, conservadores de linha-dura vêm usando o sistema Judiciário para minar reformas, aprisionando personalidades reformistas e jornalistas, assim como fechando jornais pró-reformas.
O líder supremo do Irã é a figura mais poderosa do país.
Ele nomeia o chefe do Judiciário, seis dos 12 membros do Conselho dos Guardiões, os comandantes de todas as Forças Armadas, líderes das orações das sextas-feiras e o chefe da rádio e da televisão estatais. Ele também confirma o resultado da eleição presidencial.
Khamenei foi figura-chave na Revolução Islâmica e um confidente próximo do aiatolá Khomeini, fundador da República Islâmica. Ele foi presidente do Irã entre 1981 e 1989 antes de se tornar líder supremo em caráter vitalício.
Presidente Mahmoud Ahmadinejad
Ahmadinejad já foi prefeito de Teerã
Mahmoud Ahmadinejad, na Presidência do Irã desde 2005, esteve ativamente envolvido na Revolução Islâmica e foi um dos fundadores do grupo estudantil que ocupou a embaixada dos Estados Unidos em Terã em 1979. Ele nega ter sido um dos sequestradores de reféns americanos feitos à época por revolucionários na embaixada.
Ahmadinejad foi um dos primeiros não integrantes do clero a ser eleito presidente do Irã desde 1981, ao derrotar o então presidente Ali Akbar Hashemi Rafsanjani, em eleições em junho de 2005.
É linha-dura tanto em casa - onde não aprova o desenvolvimento ou reforma de instituições políticas - como no exterior, onde tem mantido uma postura anti-Ocidente e atitudes combativas no que se refere ao programa nuclear do Irã.
Muito do apoio que recebe vem de setores mais pobres e religiosos da população iraniana. A maior parte dos que o apóiam vive fora da capital, Teerã.
Houssein Mousavi
Mousavi fez campanha junto com sua esposa, algo incomum no Irã
O ex-primeiro-ministro, com 68 anos de idade, está fora da política há alguns anos, mas retornou para concorrer como um candidato moderado.
Ele nasceu no leste do Azerbaijão e se mudou para Teerã para estudar arquitetura.
É casado com Zahra Rahnavard, ex-chanceler da Universidade de Alzahra e assessora política do ex-presidente iraniano Mohammad Khatami.
Um dos seus aliados mais próximos nessa eleição foi Ali Akbar Hashemi Rafsanjani, ex-presidente do Irã, hoje à frente de dois dos órgãos mais importantes do governo: o Conselho de Expediência, que julga disputas sobre legislação, e a Assembléia de Especialistas, que nomeia e, em teoria, substitui, o líder supremo.
Os reformistas
Khatami é amigo e conselheiro de Houssein Mousavi
O movimento de reforma iraniano é um movimento político liderado por um grupo de partidos políticos e organizações que apóiam os planos de Mohammad Khatami de introduzir maior liberdade e democracia.
Em 1997, Khatami foi eleito presidente com promessas de de maior liberdade de expressão, assim como medidas para combater o desemprego e acelerar privatizações. Entretanto, muitas de suas medidas de liberalização foram bloqueadas pelas instituições conservadoras do país. Khatami concorreu inicialmente às eleições de 2009, mas depois se retirou da disputa e apoiou Hossein Mousavi.
Outras figuras importantes do movimento pró-reforma são Hossein Mousavi, Mohsen Mirdamadi, Hadi Khamenei, Mohsen Aminzadeh e Mostafa Tajzadeh.
A Guarda Revolucionária e o Exército
A Guarda Revolucionária tem influência na polícia do Irã
As Forças Armadas são compostas pela Guarda Revolucionária e pelas forças comuns, todas sob um comando geral único.
O Corpo da Guarda da Revolução Islâmica do Irã foi criado logo após a revolução para defender o sistema islâmico do país e para oferecer um contrapeso para as Forças Armadas. Desde então, tornou-se uma importante força militar, política e econômica no Irã, com fortes vínculos com o líder supremo, aiatolá Ali Khamenei, e o presidente Mahmoud Ahmadinejad, um de seus ex-membros.
Calcula-se que a força tenha 125 mil tropas ativas. Ela tem suas próprias tropas terrestres, marinhas e aéreas, e controla as armas estratégicas do Irã.
A guarda também tem uma presença poderosa em instituições civis e, acredita-se, controla cerca de um terço da economia do Irã por meio de uma série de subsidiárias.
As milícias
As milícias Basij servem como força auxiliar no Irã
A Guarda Revolucionária também controla a Força de Resistência Basij, uma milícia voluntária islâmica com cerca de 90 mil homens e mulheres e capacidade adicional de mobilizar quase um milhão de pessoas.
Em tempos de crise, a Basij, ou Mobilização dos Oprimidos, é chamada com frequência às ruas para acabar com a discórdia por meio da força. Ela possui núcleos em todas as cidades do país.
O clero
Clérigos conservadores têm papel político importante no Irã
O clero domina a sociedade iraniana.
Apenas membros do clero podem ser eleitos para a Assembléia dos Especialistas, que nomeia o líder supremo, monitora sua atuação e pode, em teoria, retirá-lo do cargo se ele for considerado incapaz de cumprir suas funções. Atualmente, a assembléia é chefiada pelo aiatolá Ali Rafsanjani, tido como um conservador pragmático.
O ex-presidente Mohammad Khatami acusou o clero de bloquear as reformas e alertou para os perigos do "despotismo religioso"
O clero também domina o Judiciário, que é baseado na lei islâmica, ou sharia.
Nos últimos anos, conservadores de linha-dura vêm usando o sistema Judiciário para minar reformas, aprisionando personalidades reformistas e jornalistas, assim como fechando jornais pró-reformas.
Análise: Crise no Irã vai além do resultado das eleições
A crise após as eleições presidenciais no Irã se desenvolveu em uma velocidade tão vertiginosa que ainda é difícil entender as suas possíveis implicações. Até cerca de duas semanas atrás, o presidente Mahmoud Ahmadinejad podia alegar que o Irã era um país "quase completamente livre".
Já havia céticos então. Agora, a imprensa estrangeira no país está sendo obrigada a trabalhar sob algumas das mais duras restrições do mundo.
Cabe perguntar onde esta crise pode chegar e o que quer a oposição.
Até o momento, os manifestantes iranianos exigem apenas uma coisa: a convocação de novas eleições, já que eles acreditam que o opositor Mir Houssein Mousavi teria vencido o pleito da semana passada, enquanto os resultados oficiais apontam para uma vitória de Ahmadinejad.
Quando os manifestantes gritam nas ruas "morte ao ditador", não dizem a quem exatamente estão se referindo. Eles podem não apenas estar se dirigindo ao presidente Ahmadinejad, mas também ao líder supremo do país, o aiatolá Ali Khamenei.
Mesmo assim, isto não é um desafio aberto ao sistema islâmico que governa o país desde a Revolução de 1979, pelo menos até agora.
As mulheres que participam dos protestos, por exemplo, ainda não estão tirando os véus que cobrem suas cabeças, embora muitas não gostem de ser obrigadas a usá-los.
Os manifestantes também costumam gritar "Deus é grande", querendo ressaltar que eles são tão religiosos quanto aqueles que apoiam o governo.
Dignidade e prisões
O governo reage aos protestos com uma exibição de dignidade ferida, como se a ideia de que ele pudesse ter fraudado as eleições fosse impensável, embora a oposição veja a fraude como bastante evidente.
Embaixadores estrangeiros são convocados um a um e censurados até mesmo por ousarem criticar a morte de manifestantes.
Enquanto isso, as autoridades enviam seus "brutamontes", os Basijis - membros da milícia pró-governo - para intimidar os oposicionistas.
Dormitórios estudantis são revirados, manifestantes são detidos durante os protestos.
Blocos de apartamentos de onde os iranianos gritam palavras de ordem são invadidos e carros destruídos.
A onda de prisões chegou a um ponto em que até um dos mais próximos assessores do aiatolá Khomeini, Ebrahim Yazdi, foi detido.
Até agora, nenhuma decisão foi tomada pelo governo para realmente controlar a crise, mas isto deve acontecer cedo ou tarde.
Luta de gigantes
Enquanto isso, uma disputa de poder está acontecendo no topo do sistema iraniano.
O aiatolá Ali Khamenei apostou sua carreira política no apoio inequívoco à vitória do presidente Mahmoud Ahmadinejad nas eleições.
Khamenei tem muitas cartas nas mãos. Ele é o comandante supremo das Forças Armadas, além de ser apoiado fielmente pelo Conselho dos Guardiões, que está revisando os resultados do pleito.
Até agora, ninguém ousou questionar sua autoridade, pelo menos não abertamente.
Mas, do outro lado, está o ex-presidente Akbar Hashemi Rafsanjani, que tem apoiado as campanhas oposicionistas.
Desde o início da campanha, ficou claro que ele desejava se vingar de Ahmadinejad, que o venceu nas eleições presidenciais de 2005.
Além disso, há provavelmente uma rivalidade mais profunda com o líder supremo do país. Rafsanjani apoiou Khamenei quando ele sucedeu Khomeini, em 1989.
Esta rivalidade veio à tona quando, durante um debate televisionado, Ahmadinejad acusou a família de Rafsanjani de corrupção.
Muitos iranianos acreditam que as acusações podem ser verdadeiras, mas maneira como foram feitas por Ahmadinejad causaram escândalo.
A acusação fez com que Rafsanjani escrevesse uma carta sem precedentes para o líder supremo, pedindo que ele agisse a respeito e fazendo ameaças.
Rafsanjani escreveu que, se nada fosse feito, "os vulcões que queimam dentro de peitos flamejantes aparecerão na sociedade, como vemos nas reuniões a que assistimos nas ruas, praças e universidades".
Estas "chamas", disse Rafsanjani na carta, podem se "espalhar pelas eleições e além delas".
Akbar Hashemi Rafsanjani também tem armas poderosas.
Ele é o líder da Assembleia dos Especialistas, o grupo de clérigos responsável por eleger, supervisionar e até substituir o líder supremo do país.
Uma ação do grupo contra Khamenei seria inédita. Mas Rafsanjani recentemente foi reeleito para o cargo com uma grande maioria. Além disso, Khamenei também tem muitos inimigos entre os clérigos.
Rafsanjani também lidera o Conselho de Discernimento, que é responsável por mediar as disputas entre os órgãos do governo.
Além disso, a conhecida riqueza de Rafsanjani não pode ser subestimada.
Futuro
Pode ser que existam partidários do governo que estejam ficando encorajados pelas manifestações, mas há também muitos que têm uma adoração genuína por Ahmadinejad.
Entre os oposicionistas, a crise após as eleições fez com que anos de frustração contra o sistema viessem à tona.
Os dois lados podem estar discutindo agora a questão das eleições. Mas a verdadeira discussão é sobre o futuro do Irã. Esta é uma batalha importante, gigantesca, cujo resultado ninguém pode prever.
Da BBC Brasil Direto para o Mensageiro da Realidade
Já havia céticos então. Agora, a imprensa estrangeira no país está sendo obrigada a trabalhar sob algumas das mais duras restrições do mundo.
Cabe perguntar onde esta crise pode chegar e o que quer a oposição.
Até o momento, os manifestantes iranianos exigem apenas uma coisa: a convocação de novas eleições, já que eles acreditam que o opositor Mir Houssein Mousavi teria vencido o pleito da semana passada, enquanto os resultados oficiais apontam para uma vitória de Ahmadinejad.
Quando os manifestantes gritam nas ruas "morte ao ditador", não dizem a quem exatamente estão se referindo. Eles podem não apenas estar se dirigindo ao presidente Ahmadinejad, mas também ao líder supremo do país, o aiatolá Ali Khamenei.
Mesmo assim, isto não é um desafio aberto ao sistema islâmico que governa o país desde a Revolução de 1979, pelo menos até agora.
As mulheres que participam dos protestos, por exemplo, ainda não estão tirando os véus que cobrem suas cabeças, embora muitas não gostem de ser obrigadas a usá-los.
Os manifestantes também costumam gritar "Deus é grande", querendo ressaltar que eles são tão religiosos quanto aqueles que apoiam o governo.
Dignidade e prisões
O governo reage aos protestos com uma exibição de dignidade ferida, como se a ideia de que ele pudesse ter fraudado as eleições fosse impensável, embora a oposição veja a fraude como bastante evidente.
Embaixadores estrangeiros são convocados um a um e censurados até mesmo por ousarem criticar a morte de manifestantes.
Enquanto isso, as autoridades enviam seus "brutamontes", os Basijis - membros da milícia pró-governo - para intimidar os oposicionistas.
Dormitórios estudantis são revirados, manifestantes são detidos durante os protestos.
Blocos de apartamentos de onde os iranianos gritam palavras de ordem são invadidos e carros destruídos.
A onda de prisões chegou a um ponto em que até um dos mais próximos assessores do aiatolá Khomeini, Ebrahim Yazdi, foi detido.
Até agora, nenhuma decisão foi tomada pelo governo para realmente controlar a crise, mas isto deve acontecer cedo ou tarde.
Luta de gigantes
Enquanto isso, uma disputa de poder está acontecendo no topo do sistema iraniano.
O aiatolá Ali Khamenei apostou sua carreira política no apoio inequívoco à vitória do presidente Mahmoud Ahmadinejad nas eleições.
Khamenei tem muitas cartas nas mãos. Ele é o comandante supremo das Forças Armadas, além de ser apoiado fielmente pelo Conselho dos Guardiões, que está revisando os resultados do pleito.
Até agora, ninguém ousou questionar sua autoridade, pelo menos não abertamente.
Mas, do outro lado, está o ex-presidente Akbar Hashemi Rafsanjani, que tem apoiado as campanhas oposicionistas.
Desde o início da campanha, ficou claro que ele desejava se vingar de Ahmadinejad, que o venceu nas eleições presidenciais de 2005.
Além disso, há provavelmente uma rivalidade mais profunda com o líder supremo do país. Rafsanjani apoiou Khamenei quando ele sucedeu Khomeini, em 1989.
Esta rivalidade veio à tona quando, durante um debate televisionado, Ahmadinejad acusou a família de Rafsanjani de corrupção.
Muitos iranianos acreditam que as acusações podem ser verdadeiras, mas maneira como foram feitas por Ahmadinejad causaram escândalo.
A acusação fez com que Rafsanjani escrevesse uma carta sem precedentes para o líder supremo, pedindo que ele agisse a respeito e fazendo ameaças.
Rafsanjani escreveu que, se nada fosse feito, "os vulcões que queimam dentro de peitos flamejantes aparecerão na sociedade, como vemos nas reuniões a que assistimos nas ruas, praças e universidades".
Estas "chamas", disse Rafsanjani na carta, podem se "espalhar pelas eleições e além delas".
Akbar Hashemi Rafsanjani também tem armas poderosas.
Ele é o líder da Assembleia dos Especialistas, o grupo de clérigos responsável por eleger, supervisionar e até substituir o líder supremo do país.
Uma ação do grupo contra Khamenei seria inédita. Mas Rafsanjani recentemente foi reeleito para o cargo com uma grande maioria. Além disso, Khamenei também tem muitos inimigos entre os clérigos.
Rafsanjani também lidera o Conselho de Discernimento, que é responsável por mediar as disputas entre os órgãos do governo.
Além disso, a conhecida riqueza de Rafsanjani não pode ser subestimada.
Futuro
Pode ser que existam partidários do governo que estejam ficando encorajados pelas manifestações, mas há também muitos que têm uma adoração genuína por Ahmadinejad.
Entre os oposicionistas, a crise após as eleições fez com que anos de frustração contra o sistema viessem à tona.
Os dois lados podem estar discutindo agora a questão das eleições. Mas a verdadeira discussão é sobre o futuro do Irã. Esta é uma batalha importante, gigantesca, cujo resultado ninguém pode prever.
Da BBC Brasil Direto para o Mensageiro da Realidade
O começo dos anos 80 não foi nada propício para o rock.
O que dominava era a MPB de FM, e apesar da relativa abertura política, a sombra da repressão e a censura desanimavam que tentava ser mais ousados. O "som jovem" que rolava era o pop-rock de gente como Guilherme Arantes, Marina, Ney Matogrosso, 14 Bis, Eduardo Dusek, Baby Consuelo, Pepeu Gomes, A Cor do Som e Rádio Táxi. Mas ainda assim a rapaziada queria que temas como amor, diversão, trabalho e família fossem tratados de forma mais clara. Com o rock básico e os cabelos curtos e espetados da new wave, o Rock Brasil começa a se renovar no início da década. Ligado nas novidades, o jornalista e discotecário Júlio Barroso fundou a Gang 90 & As Absurdetes, no Rio de Janeiro. O estouro aconteceu no Festival Shell de MPB de 1981, quando tocaram "Perdidos na Selva", um reggae que fala de um acidente de avião com final feliz. Era só uma mostra do que estaria por vir nos próximos anos. Seguindo os mesmo passos da Gang 90, o integrante do grupo de teatro carioca Asbrúbal Trouxe a Irreverência, Evandro Mesquita, junto com o baterista Lobão, tiveram a idéia de montar uma banda de rock teatral. O nome da banda foi dado por Lobão: Blitz, já que eles sempre eram parados pelas batidas policiais. A banda trouxe junto ao humor praieiro do grupo Asdrúbal um rock básico e uma dupla de belas vocalistas, Márcia Bulcão e Fernanda Abreu. No verão de 1982 abriu na praia do Arpoador um espaço para shows: o Circo Voador, aonde a banda se apresentou inúmeras vezes. Em junho do mesmo ano, a Blitz gravou um compacto com a música "Você Não Soube Me Amar", que vendeu 100 mil cópias em 3 meses. Em setembro foi lançado o disco "As Aventuras da Blitz", o que transformou a banda em fenômeno nacional, mas um pouco depois do lançamento do disco, Lobão deixa a banda para lançar seu primeiro disco solo, "Cena de Cinema", aonde começa uma das mais importantes carreiras do rock brasileiro, de um artista sempre inconformista. Ainda em 1982 apareceriam outros artistas de relevância do Rock Brasil, como Eduardo Dusek com seu disco "Cantando no Banheiro", que contava com a participação de uma banda carioca que fazia um rock estilo anos 50 com muito bom humor: João Penca & Seus Miquinhos Amestrados, que tinha entre seus integrantes um excelente compositor, Léo Jaime, que escreveu o sucesso do disco, "Rock da Cachorra". João Penca seguiria depois sem Dusek e sem Léo Jaime, que fez uma carreira solo de sucesso. No mesmo ano ainda surgiria Lulu Santos, Barão Vermelho (que não foi tão bem acolhido na época) e a Rádio Fluminense, grande divulgadora das fitas e dos discos dos artistas do rock nacional. Paralelamente, em São Paulo, ocorria o festival "O Começo do Fim do Mundo", com bandas punk como Inocentes, Ratos de Porão, Cólera e Olho Seco. Em 1983, o rock já havia ganho seu espaço na Música Popular Brasileira (MPB), fazendo com que as gravadoras perdessem o medo de contratar bandas deste gênero. Foi lançado o disco "Rock Voador" (parceria do Circo Voador com a rádio Fluminense), que revelou o Kid Abelha e Seus Abóboras Selvagens. Uma das bandas que tinha sua fita divulgada na rádio, Os Paralamas do Sucesso, gravaram um compacto que, com seu relativo sucesso, levou a gravar no fim do ano seu primeiro disco, "Cinema Mudo". Mas quem arrebentaria um sucesso naquele ano foi um inglês, chamado Ritchie, com a música "Menina Veneno", cujo compactoo vendeu mais de 800 mil cópias, levando o cantor a gravar um disco, Vôo de Coração, que vendeu mais de 1 milhão de cópias, batendo naquele ano até o grande recordista de vendas da gravadora, Roberto Carlos. O Rock Brasil ganhava respeito comercial. Fenômeno predominando o Rio de Janeiro, o rock começa a ferver também em São Paulo em 83. A cidade já estava sendo sacudida pelos punks e também pela música de vanguarda (Arrigo Barnabé, Premeditando o Breque, Língua de Trapo), revelou uma das grandes bandas do rock brasileiro: os Titãs, um octeto que misturava new-wave e tropicalismo com o rock e ficava cada vez mais popular. Ainda tinha bandas do rock paulistano como Magazine (tendo Kid Vinil como um dos integrantes), o pós-punk Ira! e a irreverência do Ultraje a Rigor. 1984 foi o ano de grandes lançamentos em disco. "Titãs" (seu primeiro disco), "Seu Espião" (estréia do Kid Abelha), "O Passo do Lui" (segundo disco dos Paralamas), "Tudo Azul" (Lulu Santos), "Ronaldo Foi Pra Guerra" (Lobão), "Maior Abandonado" (último disco do Barão com o vocalista Cazuza) e "Phodas 'C'" (Léo Jaime). As bandas cada vez mais apareciam em programas de auditório na TV e até no cinema, com o filme "Bete Balanço", com música-tema do Barão Vermelho. Se até então o Rock Brasil tinha uma cara romântica e idealista, iria mudar apartir de janeiro de 1985, graças a um evento: o Rock In Rio 10 dias de muito som num terreno na Barra da Tijuca, no maior concerto de rock de todos os tempos, com um público aproximado de 1 milhão e meio de pessoas. Ao lado de grandes nomes da música mundial da época, como Queen, Iron Maiden, Ozzy Osbourne, Scorpions, Yes, AC/DC, entre outros, estavam artistas consgrados da MPB e a nova rapaziada: Blitz, Barão Vermelho, Os Paralamas do Sucesso, Lulu Santos e Kid Abelha. No maior palco de suas carreiras iniciantes, as bandas não tremeram na base. O resultado foi que o rock entrou de vez na música brasileira, as bandas internacionais incluíram o Brasil em suas turnês e os nossos roqueiros aprenderam muito com verdadeiros profissionais da música. O jovem público viu as bandas nacionais fazerem bonito junto aos ídolos estrangeiros e ainda presenciaram a eleição de Tancredo Neves como o primeiro presidente civil do país desde o golpe militar de 1964. O Rock Brasil emergiu desde então, com um jeito ousado, contestador e geograficamente disperso. De São Paulo apareceu dois dos maiores êxitos comerciais do ano. Um deles, "Nós Vamos Invadir Sua Praia", álbum de estréia do Ultraje a Rigor, que tinha a música "Inútil", que foi tocada pelos Paralamas no Rock In Rio e comentada pelo senhor Diretas Já Ulysses Guimarães, causou um certo comentário sobre sua letra. Quase todas as músicas foram sucesso no rádio. O outro êxito foi o RPM, com a música "Louras Geladas" estourada nas rádios, lançou o disco "Revoluções Por Minuto", que teve várias outras faixas de sucesso. O empresário Manoel Poladian foi responsável por uma super produção para a banda: o show "Rádio Pirata". Nunca se havia visto nada igual no Brasil: efeitos de raio laser, gelo seco e sofisticado equipamento de som. O show percorreu o Brasil, aumentando cada vez mais a popularidade do grupo, que foi forçado pela gravadora a gravar um álbum ao vivo, com a versão de "London, London" (de Caetano Veloso) que já começava a tocar nas rádios. Lançado em 1986, "Rádio Pirata Ao Vivo", tornou-se o recordista de venda de todos os gêneros no Brasil: 2,2 milhões de cópias. Em pouco tempo, com toda a pressão de sua popularidade e o uso abusivo de drogas, o grupo gravou mais 1 álbum e acabou sem muito alarde em 1989. Em 1º de Janeiro de 1985, uma banda de Brasília lançava seu disco de estréia - um disco que marcaria a história do nosso rock. Legião Urbana mostrava ao país a poesia de Renato Russo, em letras que mostrava os anseios, medos e reivindicações de uma geração. Conhecida pela música Química (que os amigos Paralamas gravaram em seu primeiro álbum), a Legião ganhou o público com aquele disco cheio de energia rock´n´roll e sentimentos à flor da pele. Era a primeira das bandas de Brasília influenciada pelo punk-rock, que tomariam conta da mídia. As outras foram Capital Inicial e a Plebe Rude. Também de origem punk e fora do eixo Rio-São Paulo, os baianos do Camisa de Vênus, liderada por Marcelo Nova, apareceriam em 1985. Depois de um álbum sem repercussão, ganharam seu lugar com o som "Eu Não Matei Joana D´arc". Depois disto o país chegou a conhecer outras músicas como "Bete Morreu" e o "Adventistas", de seu álbum anterior. Em São Paulo, os ecos do punk seriam responsáveis por uma outra banda de talento a aparecer, com seu álbum de estréia, Mudança de Comportamento: o Ira!, do guitarrista Edgard Scandurra (um dos melhores do Brasil até hoje) e o vocalista Nasi. Enquanto isso o underground paulistano fervia, com bandas inspiradas no pop-rock inglês. Luiz Calanca lançou neste mesmo ano o selo Baratos Afins, que lançou os discos de todo esse underground paulistano, antecipando em pelo menos 10 anos a realidade dos pequenos selos que ajudaram a fazer o rock alternativo um fenômeno. No Rio de Janeiro, houve uma separação no Barão Vermelho, saindo Cazuza para sua bem sucedida carreira solo, e o guitarrista Roberto Frejat assumindo os vocais. Tivemos ainda no Rio o lançamento de excelentes disco. "Sessão da Tarde", de Léo Jaime, que voltava ao rock dos anos 50 e à Jovem Guarda; "Educação Sentimental", segundo disco do Kid Abelha e no fim do ano o disco-solo de Cazuza. 1986 foi o ano da consolidação artística e da fartura de lançamentos. Graças ao Plano Cruzado e a explosão de consumo que ele causou, as gravadoras contratavam qualquer banda que cheirasse a rock. A coletânea "Rock Grande do Sul", só com bandas de Porto Alegre revelou os Engenheiros do Hawaii, que no mesmo ano lançou seu disco de estréia com o irônico título "Longe Demais das Capitais". E com a música "Surfista Calhorda", Os Replicantes com influência punk-hardcore, lançaram seu disco: "O Futuro é Vortex". Também estrearam naquele ano os cariocas do Biquíni Cavadão ("Cidades em Torrente"), a Plebe Rude ("O Concreto Já Rachou"), Capital Inicial ("Capital Inicial") e os Inocentes ("Pânico em SP", primeiro disco do punk brasileiro a sair por uma grande gravadora). Três álbuns marcaram naquele ano o Rock Brasil até hoje. Com "Selvagem?", os Paralamas fizeram uma ousada conexão Brasil-Jamaica-Inglaterra-África via música negra. "Dois", disco da Legião revelou-se mais lírico e acústico, com faixas que até hoje fazem a história da banda. Finalmente, "Cabeça Dinossauro", dos Titãs (que recentemente foi considerado o melhor disco do Rock Brasil), que deram uma guinada punk em sua música, que mais pareceria um risco, mas que deu bons resultados artisticos e comerciais para a banda. A boa fase do rock nacional continuaria em 1987, com a explosão de Lobão (com o LP "Vida Bandida") e outros álbuns. "A Revolta dos Dândis" (Engenheiros), "Jesus Não Tem Dentes no País dos Banguelas" (Titãs), "Que País é Este" (Legião) e "Sexo!" (Ultraje a Rigor). Houve a surpresa com o aparecimento do carioca Fausto Fawcett e seus Robos Efêmeros, com "Kátia Flavia". Outra surpresa foi o selo Plug, da RCA, que apostou em discos de novíssimos nomes do rock brasileiro que não faziam nada parecido com as outras bandas. Estrearam os cariocas Picassos Falsos e Hojerizah, o paulistano Violeta de Outono, os gaúchos do De Falla, TNT e o Nenhum de Nós, entre outros. Das raras exceções que deram certo, está o Nenhum de Nós, que estourou com a música "Camila, Camila", e depois em 1989, com "O Astronauta de Mármore", versão de "Starman" de David Bowie. De 1988 em diante, o Rock Brasil passa por um período de baixa, com as bandas com dificuldades para recuperar as baixas vendagens e execução. Mas mesmo assim, existe discos clássicos desta época. "Ideologia", de Cazuza, que já luta contra a Aids, e aos 16 anos de idade, Ed Motta chega com pinta de veterano, injetando soul no rock nacional, com seu disco de estréia com a Conexão Japeri. A Legião experimentou um sucesso estrondoso com "Faroeste Caboclo" naquele ano, mas viu o inverso da moeda num show em 18 de junho, no Estádio Mané Garrincha, em Brasília. Confusão total, com Renato Russo sendo atacado por um fã no palco e a polícia descendo o pau na platéia, que saiu revoltado do show (que foi interrompido). O incidente bateu forte na Legião que ainda teve a perda do baixista Negrete, que deixou a banda, mas mesmo assim, em 1989, finalizou seu quarto disco, "As Quatro Estações", com a maior vendagem em disco da banda e a maior nos últimos anos do Rock Brasil. Em 7 julho de 1989, o clima era de luto: Cazuza havia morrido e em 21 de agosto do mesmo ano, morreria Raul Seixas. Era o fim de uma era do Rock Brasil.
Revoluções nas ondas paulistanas
Se existe um disco que causou pânico em São Paulo foi Revoluções por minuto, do RPM, de 1985. Hoje, esse disco é visto por duas óticas antropológicas: trash (no sentido cool da coisa) e lixo (no sentido cu da coisa). Mas por trás desses pré-conceitos, existe um grande disco. Paulo Ricardo, Luiz Schiavon, Paulo Pagni e Fernando Deluqui cometeram um disco sintonizadíssimo com o que de mais moderno estava sendo feito no pop-rock de então. Os toques neo-romantics, o verniz new-wave, o clima pós-punk e as letras bem construídas de Paulo Ricardo - com um toque até adulto, em contraste com a temática adolescente quase dominante.
Eu ganhei o Revoluções por minuto no meu aniversário de 10 anos, de presente do meu pai – que contrabandeava eletro-eletrônicos da Zona Franca de Manaus (“pirataria nas ondas do rádio”) – junto com um gravador portátil com um deck toca-fitas e rádio am/fm. Logo de cara, fui pego com músicas como “Louras geladas” e “Revoluções por minuto”, de um apelo pop muito forte, sem serem totalmente descartáveis e bem produzidas, com um apuro instrumental inédito para o padrão. O clima remetia a um cenário de revoluções, de abertura, de juventude.
Era um disco quase onipresente (Rádio pirata ao vivo era onipresente) e toda hora você ouvia alguma em algum lugar. As garotas alucinavam quando viam Paulo Ricardo. Os homens sentiam inveja e os adolescentes – como eu – queriam ser ele. Não somente por ser um rock star, tendo as suas músicas cantadas por todo mundo, mas também por ser o sortudo que ia para casa com a modelo-ninfeta Luciana Vendramini, uma das maiores musas dos pubescentes da época.
Essas influências modernas Paulo Ricardo trouxe de Londres. Passou seis meses na terra da Rainha, em 1983, vendo shows de bandas então iniciantes, como Depeche Mode, Culture Club, Spandau Ballet, Echo & The Bunnymen... Foi vendo essas bandas que começou a delinear o ainda não batizado RPM. De Londres, começou a se corresponder com o Schiavon (lembra que já existiu um negócio chamado carta?), explicando a ligação da guitarra com o tecnopop e o new romantic.
O RPM logo causou pânico no underground paulistano, em casas como Madame Satã, Raio Lazer e Tiffon. Chegaram a ser banda residente no Satã. O RPM acabou se consolidando no underground, recebendo críticas entusiasmadas de vários jornalistas culturais respeitados na época. Poucas bandas usavam os teclados da maneira que eles, encurtando o abismo entre o progressivo e o pop. O set, mesmo curto, era puxado para o underground e muitas pessoas definiam o som do RPM na época como “um meio caminho entre Echo & The Bunnymen e Gang Of Four”.
E Revoluções Por Minuto é realmente muito bom. Tem a depressão em "Juvenilia", o rock em "A fúria do sexo frágil contra o dragão da maldade", "Estação no inferno", a agonia de "A cruz e a espada". Em seguida, lançaram um disco ao vivo, o famigerado Rádio pirata ao vivo, que vendeu milhões, causou histeria coletiva e o escambau.
Foi o primeiro disco de uma banda brasileira de rock a vender mais de um milhão de cópias. Em 1986, era item obrigatório em quase todos os lares brasileiros. De acordo com a Sony, detentora dos direitos da antiga CBS, de 86 até hoje o disco vendeu mais de 2,7 milhões de cópias. A febre fez com que o grupo iniciasse uma turnê de 15 meses ininterruptos. A estafa da estrada causou um abalo nas relações entre os quatro. Abalo que durou até o ano passado, quando tentaram mais uma volta - e enterraram, de vez, qualquer aura cult que o nome RPM poderia ter.
Eu ganhei o Revoluções por minuto no meu aniversário de 10 anos, de presente do meu pai – que contrabandeava eletro-eletrônicos da Zona Franca de Manaus (“pirataria nas ondas do rádio”) – junto com um gravador portátil com um deck toca-fitas e rádio am/fm. Logo de cara, fui pego com músicas como “Louras geladas” e “Revoluções por minuto”, de um apelo pop muito forte, sem serem totalmente descartáveis e bem produzidas, com um apuro instrumental inédito para o padrão. O clima remetia a um cenário de revoluções, de abertura, de juventude.
Era um disco quase onipresente (Rádio pirata ao vivo era onipresente) e toda hora você ouvia alguma em algum lugar. As garotas alucinavam quando viam Paulo Ricardo. Os homens sentiam inveja e os adolescentes – como eu – queriam ser ele. Não somente por ser um rock star, tendo as suas músicas cantadas por todo mundo, mas também por ser o sortudo que ia para casa com a modelo-ninfeta Luciana Vendramini, uma das maiores musas dos pubescentes da época.
Essas influências modernas Paulo Ricardo trouxe de Londres. Passou seis meses na terra da Rainha, em 1983, vendo shows de bandas então iniciantes, como Depeche Mode, Culture Club, Spandau Ballet, Echo & The Bunnymen... Foi vendo essas bandas que começou a delinear o ainda não batizado RPM. De Londres, começou a se corresponder com o Schiavon (lembra que já existiu um negócio chamado carta?), explicando a ligação da guitarra com o tecnopop e o new romantic.
O RPM logo causou pânico no underground paulistano, em casas como Madame Satã, Raio Lazer e Tiffon. Chegaram a ser banda residente no Satã. O RPM acabou se consolidando no underground, recebendo críticas entusiasmadas de vários jornalistas culturais respeitados na época. Poucas bandas usavam os teclados da maneira que eles, encurtando o abismo entre o progressivo e o pop. O set, mesmo curto, era puxado para o underground e muitas pessoas definiam o som do RPM na época como “um meio caminho entre Echo & The Bunnymen e Gang Of Four”.
E Revoluções Por Minuto é realmente muito bom. Tem a depressão em "Juvenilia", o rock em "A fúria do sexo frágil contra o dragão da maldade", "Estação no inferno", a agonia de "A cruz e a espada". Em seguida, lançaram um disco ao vivo, o famigerado Rádio pirata ao vivo, que vendeu milhões, causou histeria coletiva e o escambau.
Foi o primeiro disco de uma banda brasileira de rock a vender mais de um milhão de cópias. Em 1986, era item obrigatório em quase todos os lares brasileiros. De acordo com a Sony, detentora dos direitos da antiga CBS, de 86 até hoje o disco vendeu mais de 2,7 milhões de cópias. A febre fez com que o grupo iniciasse uma turnê de 15 meses ininterruptos. A estafa da estrada causou um abalo nas relações entre os quatro. Abalo que durou até o ano passado, quando tentaram mais uma volta - e enterraram, de vez, qualquer aura cult que o nome RPM poderia ter.
A invenção do jovem brasileiro moderno
O sucesso estrondoso desse disco afetou a sua aura cult. Mas, sem exagero algum, Nós vamos invadir sua praia é um dos primeiros clássicos instantâneos da música jovem brasileira. Um álbum irretocável. Que apareceu na hora certa, no momento certo, no contexto perfeito.
O Brasil vivia o início da abertura política. A ditadura já não era tão dura quanto antes, mas não era bom dar bobeira. Naquela época, entre 1983 e 85, era preciso ter cultura para mijar na escultura. Ou seja, dava para meter a boca, desde que fizesse isso com inteligência, refinamento, sagacidade, coisas que os censores não entendiam.
Musicalmente, o cenário brasileiro sentia uma efervescência, uma coceira atrás da orelha. Alguma coisa estava acontecendo, tinha gente se mexendo, acenderam o fósforo, colocaram fogo no pavio curto. Lá vinha explosão.
O jovem se preocupava, de maneiras equivalentes, com a namorada que queria sair sozinha e o deixava morrendo de ciúmes, com sua falta de auto-estima, com a decepção de uma brilhante seleção brasileira ante ao futebol pragmático (que vinha para ditar as regras do esporte bretão no mundo, mais adiante), com a vontade de votar, com uma gravidez indesejada, o bon-vivant que não quer casar, com o direito de saber escolher presidente. Diretas já, Democracia Corintiana, Sócrates, Falcão, Zico, Casagrande, Chulapa, Ulisses Guimarães, Marcelo Rubens Paiva, Partido dos Trabalhadores, Lula. O Brasil estava mudando.
E tudo isso povoava a cabeça da rapaziada. E, infelizmente, o país não ouvia nada disso no rádio. A música popular jovem praticamente não existia. O rock dava seus primeiros passos, mas ainda não tinha poder de identificação suficiente. A MPB de então, com o ego inflado, caminhava desesperadamente rumo ao erudito, ao altar das vacas sagradas, comemorando gols do passado e não fazendo por merecer toda idolatria. Esqueceu para quem falava, para quem cantava. Compunha para si mesma, não para o público. Ninguém entendia nada.
Antena privilegiada, senso crítico apurado, QI acima da média, o garoto Roger Rocha Moreira soube captar tudo que estava acontecendo, todos os temas que estavam rondando a cabeça dos brasileiros. Juntou sua banda, chamou os conhecidos, os mais chegados, e gravou o disco que faltava para aquela multidão que pedia voto e liberdade cantar em uníssono lá na Praça da Sé. “Inútil, a gente somos inútil”.
Em 13 de janeiro de 1984, o principal nome das campanhas da Diretas, conhecido como Sr. Diretas em pessoa, deputado federal Ulysses Guimarães, declarou que ia mandar o compacto de "Inútil" para o presidente João Figueiredo. A letra dizia, entre outras coisas, que "a gente não sabemos escolher presidente / A gente não sabemos tomar conta da gente". A citação ratificava o jovem rock nacional como trilha sonora da década.
Sem querer (querendo), Roger compôs alguns hinos de sua geração. Nós vamos invadir sua praia é mais do que um disco de carreira, é um verdadeiro “grandes sucessos”. Da faixa 01 a 11, com exceção de “Jesse Go”, todas tocaram muito no rádio e todos nós cantamos junto. O disco certo na hora certa.
Na verdade, o disco, lançado em 85, já estava na cabeça de Roger há algum tempo. Já amargara uma inesperada “geladeira” em 1983 quando o compacto de “Inútil” (com “Mim Quer Tocar” no lado b) foi lançado e a canção já se havia se tornado um grande sucesso e tema das Diretas. Nesse meio tema, o guitarrista Edgard Scandurra (autor do brilhante riff de abertura da música) saiu da banda para se dedicar inteiramente ao Ira! e a formação do Ultraje se estabilizou com Roger (vocal, guitarra, sax alto), Carlinhos (guitarra), Maurício (baixo e vocal) e Leôspa (bateria e percussão).
No ano seguinte, lançaram outro compacto, com "Eu me amo” / ”Rebelde sem causa". "Eu me amo" foi bem nas rádios, impulsionado um pouco pela polêmica coincidência de refrões com a música “Egotrip”, da Blitz. Mas foi o lado b do compacto que começou a tocar nos primeiros meses de 85 e que detonou a explosão do Ultraje. Aí o produtor Liminha se convenceu de que era hora de lançar um disco “cheio”.
E acertou na mosca. Nós vamos invadir sua praia foi o primeiro LP de rock nacional a conseguir discos de ouro e platina. O primeiro sucesso foi “Ciúme”, faixa 5 do LP e talvez o maior hit single já composto em língua portuguesa. Os valores estavam mudando, o Brasil estava mudando, e as mulheres brasileiras começavam a gozar, muito mais livremente, de direitos conquistados no mundo no começo dos anos de 1970. As mulheres já tomavam a iniciativa, ocupando cargos importantes e influindo diretamente no relacionamento. Diante disso, os defeitos de todos os homens ficavam escancarados: machismo, insegurança, “direito de posse”. Todo mundo se identificou: os homens e as mulheres. E todos cantaram juntos, “mas eu me mordo de ciúme”, e tudo se resolveu.
Com isso, Roger e o Ultraje penetravam (ops!) na classe jovem e estabeleciam um novo tipo de artista na música brasileira. O artista “gente como a gente”. Os quatro do Ultraje pareciam sofrer dos mesmos problemas que atingiam todo mundo, encaravam os obstáculos com bom humor, tiravam sarro de si mesmos e falavam na língua que todos entendiam.
E usavam do humor. Sutil, ácido, tipicamente paulistano – diferente do deboche escrachado carioca, estampado na Blitz. Um humor que vem de uma tradicional escola paulistana, de Joelho de Porco e Premeditando o Breque. Tem muito dessas duas bandas na letra de Roger.
Talvez, seja por isso que deu tão certo. Poucos conhecem rock como Roger. Tudo de bom que o gênero produziu – e derivados - pode ser ouvido em “Nós vamos invadir...”. Rockabilly, new wave, punk, mod, reggae, Chuck Berry, Beach Boys, Beatles, Clash e Pistols. E, graças a Deus, Roger é brasileiro. Tem a malandragem do samba paulistano, a melancolia do compositor de rua, dos bares. Irresistível.
E veio a cachoeira de sucessos. “Rebelde sem causa” criticava duramente a classe média branca que não tinha contra quem se rebelar, já que tinha tudo e não precisava sofrer para conquistar nada. Mesma classe que Roger pertencia.
A falta de lugares e apoio para novos músicos, a dureza do underground vinha em “Mim quer tocar”, sonhando ainda com uma utópica era em que se poderia ganhar dinheiro com música. Havia a monogamia e a vontade de ficar livre de “Zoraide”, o nonsense de “Marylou”, a ânsia de ficar famoso a qualquer custo em “Jesse Go” (antecipando uma realidade em 20 anos), afirmação da auto-estima com “Eu Me Amo”, “Nós vamos invadir sua praia”, a faixa-título, criticando duramente os cariocas da Zona Sul que não queriam se espremer dentro do ônibus para a praia com os chamados “farofeiros” (com direito a participação dos cariocas Lobão, este cantando “cadê a minha farofinha, Roger?” e Léo Jaime), “Se Você Sabia”... O grito de liberdade “Independente Futebol Clube”, “Eu não sou seu / Eu não sou de ninguém / Você não é minha / Eu não tenho ninguém/ Nós somos livres”...
A censura cismou com “Marylou”, mas não adiantou proibir a execução, fez sucesso assim mesmo. Um ano depois, gravaram um EP chamado "Liberdade para Marylou", com uma versão remixada de "Nós vamos invadir sua praia", o "Hino dos Cafajestes", e a música "Marylou" gravada em ritmo de carnaval e com as frases censuradas substituídas por frases de trombone. "Marylou" arrebentou nos bailes de carnaval daquele ano e até hoje continua sendo tocada quase como um clássico carnavalesco. Fato inédito, vindo de uma banda de rock.
O disco foi um dos melhores lançamentos de 85, no Brasil e no mundo. Um álbum de estréia com um padrão de qualidade altíssimo; uma obra-prima instantânea, elevado a um patamar difícil de ser batido. Até mesmo pelo próprio Ultraje a Rigor.
Alexandre Petillo é jornalista. Acabou de editar o livro Noite passada um disco salvou minha vida (Geração Editorial), em que 65 músicos e jornalistas falam sobre seus discos favoritos. Trabalhou no Notícias Populares, no Agora SP e criou a revista Zero. É colunista do jornal Diário da Manhã (GO) e colaborador da Folha, do Estado de S. Paulo e de diversas publicações brasileiras, como a Bravo! e a Outracoisa.
O Brasil vivia o início da abertura política. A ditadura já não era tão dura quanto antes, mas não era bom dar bobeira. Naquela época, entre 1983 e 85, era preciso ter cultura para mijar na escultura. Ou seja, dava para meter a boca, desde que fizesse isso com inteligência, refinamento, sagacidade, coisas que os censores não entendiam.
Musicalmente, o cenário brasileiro sentia uma efervescência, uma coceira atrás da orelha. Alguma coisa estava acontecendo, tinha gente se mexendo, acenderam o fósforo, colocaram fogo no pavio curto. Lá vinha explosão.
O jovem se preocupava, de maneiras equivalentes, com a namorada que queria sair sozinha e o deixava morrendo de ciúmes, com sua falta de auto-estima, com a decepção de uma brilhante seleção brasileira ante ao futebol pragmático (que vinha para ditar as regras do esporte bretão no mundo, mais adiante), com a vontade de votar, com uma gravidez indesejada, o bon-vivant que não quer casar, com o direito de saber escolher presidente. Diretas já, Democracia Corintiana, Sócrates, Falcão, Zico, Casagrande, Chulapa, Ulisses Guimarães, Marcelo Rubens Paiva, Partido dos Trabalhadores, Lula. O Brasil estava mudando.
E tudo isso povoava a cabeça da rapaziada. E, infelizmente, o país não ouvia nada disso no rádio. A música popular jovem praticamente não existia. O rock dava seus primeiros passos, mas ainda não tinha poder de identificação suficiente. A MPB de então, com o ego inflado, caminhava desesperadamente rumo ao erudito, ao altar das vacas sagradas, comemorando gols do passado e não fazendo por merecer toda idolatria. Esqueceu para quem falava, para quem cantava. Compunha para si mesma, não para o público. Ninguém entendia nada.
Antena privilegiada, senso crítico apurado, QI acima da média, o garoto Roger Rocha Moreira soube captar tudo que estava acontecendo, todos os temas que estavam rondando a cabeça dos brasileiros. Juntou sua banda, chamou os conhecidos, os mais chegados, e gravou o disco que faltava para aquela multidão que pedia voto e liberdade cantar em uníssono lá na Praça da Sé. “Inútil, a gente somos inútil”.
Em 13 de janeiro de 1984, o principal nome das campanhas da Diretas, conhecido como Sr. Diretas em pessoa, deputado federal Ulysses Guimarães, declarou que ia mandar o compacto de "Inútil" para o presidente João Figueiredo. A letra dizia, entre outras coisas, que "a gente não sabemos escolher presidente / A gente não sabemos tomar conta da gente". A citação ratificava o jovem rock nacional como trilha sonora da década.
Sem querer (querendo), Roger compôs alguns hinos de sua geração. Nós vamos invadir sua praia é mais do que um disco de carreira, é um verdadeiro “grandes sucessos”. Da faixa 01 a 11, com exceção de “Jesse Go”, todas tocaram muito no rádio e todos nós cantamos junto. O disco certo na hora certa.
Na verdade, o disco, lançado em 85, já estava na cabeça de Roger há algum tempo. Já amargara uma inesperada “geladeira” em 1983 quando o compacto de “Inútil” (com “Mim Quer Tocar” no lado b) foi lançado e a canção já se havia se tornado um grande sucesso e tema das Diretas. Nesse meio tema, o guitarrista Edgard Scandurra (autor do brilhante riff de abertura da música) saiu da banda para se dedicar inteiramente ao Ira! e a formação do Ultraje se estabilizou com Roger (vocal, guitarra, sax alto), Carlinhos (guitarra), Maurício (baixo e vocal) e Leôspa (bateria e percussão).
No ano seguinte, lançaram outro compacto, com "Eu me amo” / ”Rebelde sem causa". "Eu me amo" foi bem nas rádios, impulsionado um pouco pela polêmica coincidência de refrões com a música “Egotrip”, da Blitz. Mas foi o lado b do compacto que começou a tocar nos primeiros meses de 85 e que detonou a explosão do Ultraje. Aí o produtor Liminha se convenceu de que era hora de lançar um disco “cheio”.
E acertou na mosca. Nós vamos invadir sua praia foi o primeiro LP de rock nacional a conseguir discos de ouro e platina. O primeiro sucesso foi “Ciúme”, faixa 5 do LP e talvez o maior hit single já composto em língua portuguesa. Os valores estavam mudando, o Brasil estava mudando, e as mulheres brasileiras começavam a gozar, muito mais livremente, de direitos conquistados no mundo no começo dos anos de 1970. As mulheres já tomavam a iniciativa, ocupando cargos importantes e influindo diretamente no relacionamento. Diante disso, os defeitos de todos os homens ficavam escancarados: machismo, insegurança, “direito de posse”. Todo mundo se identificou: os homens e as mulheres. E todos cantaram juntos, “mas eu me mordo de ciúme”, e tudo se resolveu.
Com isso, Roger e o Ultraje penetravam (ops!) na classe jovem e estabeleciam um novo tipo de artista na música brasileira. O artista “gente como a gente”. Os quatro do Ultraje pareciam sofrer dos mesmos problemas que atingiam todo mundo, encaravam os obstáculos com bom humor, tiravam sarro de si mesmos e falavam na língua que todos entendiam.
E usavam do humor. Sutil, ácido, tipicamente paulistano – diferente do deboche escrachado carioca, estampado na Blitz. Um humor que vem de uma tradicional escola paulistana, de Joelho de Porco e Premeditando o Breque. Tem muito dessas duas bandas na letra de Roger.
Talvez, seja por isso que deu tão certo. Poucos conhecem rock como Roger. Tudo de bom que o gênero produziu – e derivados - pode ser ouvido em “Nós vamos invadir...”. Rockabilly, new wave, punk, mod, reggae, Chuck Berry, Beach Boys, Beatles, Clash e Pistols. E, graças a Deus, Roger é brasileiro. Tem a malandragem do samba paulistano, a melancolia do compositor de rua, dos bares. Irresistível.
E veio a cachoeira de sucessos. “Rebelde sem causa” criticava duramente a classe média branca que não tinha contra quem se rebelar, já que tinha tudo e não precisava sofrer para conquistar nada. Mesma classe que Roger pertencia.
A falta de lugares e apoio para novos músicos, a dureza do underground vinha em “Mim quer tocar”, sonhando ainda com uma utópica era em que se poderia ganhar dinheiro com música. Havia a monogamia e a vontade de ficar livre de “Zoraide”, o nonsense de “Marylou”, a ânsia de ficar famoso a qualquer custo em “Jesse Go” (antecipando uma realidade em 20 anos), afirmação da auto-estima com “Eu Me Amo”, “Nós vamos invadir sua praia”, a faixa-título, criticando duramente os cariocas da Zona Sul que não queriam se espremer dentro do ônibus para a praia com os chamados “farofeiros” (com direito a participação dos cariocas Lobão, este cantando “cadê a minha farofinha, Roger?” e Léo Jaime), “Se Você Sabia”... O grito de liberdade “Independente Futebol Clube”, “Eu não sou seu / Eu não sou de ninguém / Você não é minha / Eu não tenho ninguém/ Nós somos livres”...
A censura cismou com “Marylou”, mas não adiantou proibir a execução, fez sucesso assim mesmo. Um ano depois, gravaram um EP chamado "Liberdade para Marylou", com uma versão remixada de "Nós vamos invadir sua praia", o "Hino dos Cafajestes", e a música "Marylou" gravada em ritmo de carnaval e com as frases censuradas substituídas por frases de trombone. "Marylou" arrebentou nos bailes de carnaval daquele ano e até hoje continua sendo tocada quase como um clássico carnavalesco. Fato inédito, vindo de uma banda de rock.
O disco foi um dos melhores lançamentos de 85, no Brasil e no mundo. Um álbum de estréia com um padrão de qualidade altíssimo; uma obra-prima instantânea, elevado a um patamar difícil de ser batido. Até mesmo pelo próprio Ultraje a Rigor.
Alexandre Petillo é jornalista. Acabou de editar o livro Noite passada um disco salvou minha vida (Geração Editorial), em que 65 músicos e jornalistas falam sobre seus discos favoritos. Trabalhou no Notícias Populares, no Agora SP e criou a revista Zero. É colunista do jornal Diário da Manhã (GO) e colaborador da Folha, do Estado de S. Paulo e de diversas publicações brasileiras, como a Bravo! e a Outracoisa.
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