sexta-feira, 21 de novembro de 2008

VULTOS DA FORTALEZA ANTIGA


João Cordeiro


Dentre os cearenses notáveis do passado, poucos vieram intensamente quanto João Cordeiro. Após infância e adolescência empobrecidas, venceu na vida e já em 1877 foi eleito presidente da Associação Comercial do Ceará. Em função que foi convocado pelo presidente da província o conselheiro Estelita, para comissariar a luta contra a Cólera que então, virulentamente, se alastrava no Ceará, em plena seca de 1877/88/89. A partir de 1880, liderou o movimento abolicionista. Depois foi industrial em Baturité. Onde envolveu-se ativamente na luta pela instauração da República. Proclamada esta, recebe telegrama do Rio de Janeiro nomeando-o presidente da Província. Não aceitou porém honrosa incumbência, em respeito e fidelidade ao cel. Ferraz, que havia aclamado para as funções e as assumido. Limitou-se aceita ser vice de Ferraz , assumindo o governo por duas vezes. A seguir, vai residir no Rio de Janeiro voltando a atividade industrial. É eleito senador pelo Ceará. Foi ajudante de ordens do marechal Floriano Peixoto. Esteve preso em Fernando de Noronha, sendo solto 45 dias depois, graças a habeas-corpos requerido por Rui Barbosa. Ao regressar ao Rio, volta aos negócios de sua fábrica, mas, falindo, entregou aos credores tudo o que possuía. Após Senador, se elege deputado federal, quando vai nomeado, por Nilo Peçanha seu amigo, Governador do Acre. Aos 87 anos, quase cego, voltou a ser caixeiro da Casa Boris...

sexta-feira, 7 de novembro de 2008

A SAGA DE ORSON WELLS EM FORTALEZA







Fortaleza em 1942 apresentava um pouco mais de 150 mil habitantes. Dormia-se cedo, por volta das 21 horas. A beira-mar era vazia, não havia edifícios, somente casas de pescadores. O Mucuripe era de difícil acesso.No início dos anos 40, quatro pescadores brasileiros se lançaram ao mar para uma viagem que entrou para a história dos jangadeiros cearenses, da navegação, do Estado Novo e do cinema. Tão arriscada foi ela, que até na imprensa americana ganhou espaço nobre. Num artigo intitulado Four Men on a Raft (Quatro Homens numa Jangada), a revista Time (8/12/1941) reproduziu toda a odisséia de Manoel Olímpio Meira (Jacaré), Raimundo Correia Lima (Tatá), Manuel Pereira da Silva (Mané Preto) e Jerônimo André de Souza (Mestre Jerônimo), que a bordo de uma jangada singraram os 2.381 km que separam Fortaleza do Rio de Janeiro, sem bússola ou carta náutica.Foram mais de 61 dias de viagem pelo mar...Os jangadeiros queriam chamar a atenção do País e do governo para o estado de abandono em que viviam os 35 mil pescadores do Ceará.Até que....então...Na primeira semana de dezembro de 1941, folheando a Time, Orson Welles tomou conhecimento da proeza de Jacaré & cia., e teve um estalo: ali estava o segundo episódio brasileiro de It's All True, o filme pan-americano que o governo Roosevelt há pouco lhe encomendara.Welles chegou ao Brasil em 8 de fevereiro de 1942, filmou o carnaval carioca, e em 8 de março fez uma viagem de reconhecimento a Fortaleza. Lá chegou num vôo especial da NAB (Navegação Aérea Brasileira) e foi recebido como "um Napoleão do cinema". Hospedada no Excelsior Hotel, no centro da cidade, a entourage It's All True (Welles levou seis acompanhantes, entre os quais Morel, seu fiel assistente Richard Wilson e a tradutora Matilde Kastrup). Dois meses mais tarde, Jacaré e seus três companheiros foram trazidos de avião até o Rio e hospedados no hotel Copacabana Palace. Por 500 mil réis semanais, participariam de algumas cenas do episódio carnavalesco, ao lado de Grande Otelo, rodariam no aeroporto a despedida do Rio e reconstituiriam, numa praia da Barra da Tijuca, a triunfal chegada da jangada ‘São Pedro’ à Baía de Guanabara. Nessa ordem. Várias tomadas da chegada ao Rio chegaram a ser feitas, no dia 19, mas uma manobra infeliz da lancha que rebocava a jangada a teria virado na praia de São Conrado, jogando ao mar agitado os seus quatro tripulantes. Três se salvaram. O corpo de Jacaré desapareceu e nunca foi encontrado. Ainda assim, Welles foi em frente. As coações, quase sempre veladas, da ditadura getulista o perturbavam bem menos que o assédio crescente da RKO e do governo americano, que o acusavam de gastar dinheiro a rodo.Do Rio, novamente Welles desembarcara na Base Aérea de Fortaleza às 15h30 do dia 13 de junho. Apesar do que ocorrera com Jacaré, foram acolhidos com enorme simpatia. Para assegurar maior tranqüilidade aos trabalhos, estabeleceram-se nas areias do Mucuripe e ali rodaram a história de amor do jovem pescador (José Sobrinho) com uma bela morena (Francisca Moreira da Silva, então com 13 anos), o casamento dos dois, a morte do jangadeiro e seu enterro nas dunas, a conseqüente revolta dos pescadores pelas suas precárias condições de vida e a decisão política do reide até o Rio de Janeiro. No papel de Jacaré, puseram seu irmão Isidro. Em Fortaleza, Welles revelou-se um homem radicalmente diferente do garotão farrista e mulherengo que os cariocas conheceram. Não deixou de ir a festas (chegou a marcar quadrilha num folguedo junino), nem de freqüentar o Jangada Clube, mas parou de beber e deu um duro danado nas seis semanas que lá passou, correndo contra o relógio e fazendo malabarismos com o orçamento. Sempre alegre, passou a viver com os pescadores, que o tratavam de "galegão legal" e admiravam o seu desprendimento de confortos materiais e sofisticações culinárias. Dormia numa cabana rústica, mal protegida dos raios solares, e à noite, depois de encarar um portentoso prato de feijão com arroz e peixe, recolhia-se para escrever madrugada adentro.


Fonte: Estadão

AS LINHAS QUE TRAFEGAVAM NA ANTIGA IGREJA DA SÉ


Antiga Sé (Catedral) de Fortaleza. Segundo Nirez, "no dia 11/09/1938 foi rezada a última missa na velha Catedral e em seguida ela foi demolida juntamente com seu cruzeiro cujos santos que o enfeitavam estão hoje no Museu São José do Ribamar, no Aquiraz."Bondes que trafegavam no local. Adolpho Quixadá lembra que duas linhas passavam pela praça - Prainha e Praia de Iracema. Nirez confirma: "Existiam duas linhas que passavam por ali, uma era a "Prainha", que ia até o pé da subida da ladeirada Igreja de Nossa Senhora da Conceição da Prainha, hojeem frente ao Centro Cultural Dragão do Mar, logo após aCapitania dos Portos; a outra linha era da Praia de Iracema,que seguia pela atual Avenida Pessoa Anta."
Um viajante inglês registrou a existência de bondes em Fortaleza na década de 1870, mas outras fontes afirmam que a primeira linha de bondes puxados por cavalos, entre a estação ferroviária e o centro de Fortaleza, foi inaugurada pela Companhia Ferro-Carril do Ceará (FCC) em 25/4/1880, usando bitola de 1.400 mm a mesma usada pela Trilhos Urbanos na linha de bondes a vapor em Recife. A Ferro Carril do Parangaba abriu uma linha para o lado Sul da cidade em 18/10/1894 e a Ferro Carril do Outeiro (FCO) iniciou sua linha no lado Leste de Fortaleza em 24/4/1896. A Ceará Tramway, Light & Power Co., Ltd., registrada em Londres em 11/12/1911, comprou os sistemas da FCC e da FCO e inaugurou a primeira linha de bondes elétricos da capital cearense em 9/10/1913, agora com bitola de 1.435 mm. A linha Parangaba foi fechada em 1918 e não chegou a ser eletrificada. Todos os veículos elétricos de Fortaleza tinham um padrão, com troles: a United Electric construiu 30 em 1912 e dez em 1924. A linha de bondes de Fortaleza foi fechada por problemas elétricos em 19/5/1947 - três semanas após o fechamento do sistema de bondes em Belém. Vinte anos depois, em 25/1/1967, a Companhia de Transportes Coletivos inaugurou duas linhas de trólebus entre o lado Oeste da cidade e o Largo do Carmo.

OS BONDES NA PAISAGEM DE FORTALEZA


Já a imagem abaixo, da mesma época, mostra o bonde elétrico, na Floriano Peixoto, aberto prefixo 76, na linha do Outeiro, passando ao lado de uma bomba de gasolina. Reparem na arquitetura dos prédios... Banco do Brasil, na época...(por volta dos primeiros cinco anos da década de 1930)

OS BONDES NA ANTIGA FORTALEZA


Na foto abaixo (da coleção do pesquisador Allen Morrison, de New York),um bonde elétrico no centro da capital cearense,em meados do século XX. Na altura do depósito, o bonde dobrava à esquerda e, depois de cerca de 50 metros,na rua 24 de Maio, parava na esquina da rua Castro e Silva.Virava a lança, voltava e parava de novo ao lado da Estação Central, para dar embarque (serviço inverso de quandovinha trazendo passageiros para os trens urbanos)aos passageiros que haviam chegado ou outros usuários que demandavam o centro da cidade.

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

Marmotas da Fortaleza Antiga


Tempos bons aqueles em que ...

Boneca era CALUNGA
A revista era FON-FON",
Calcinha era SUNGA
E soutien, CALIFON
Da circunspecta CEROULA
Da rapadura com feijão,
Da paçoca comcebola
E do sunga de cordão.
Tempos bons.
Dos velhos bondes da "light",
Da goiabada cascão,
Em que o ditado era "ALL-RIGHT"
Da anágua e da combinação.
Da velha praia de Iracema,
Das "soirés" do São Luís
Do canto da seriema
E das bolinhas de aniz.

Do gostoso doce gelado
De abacaxi, cajá e nata.
Do amendoim bem torrado
E do fino doce de lata.
Tempos bons em que...
O chic era usar gravata
Sapato de bom verniz,
O relógio era de prata
E o homem era feliz.

O pó de arroz era "DORLY",
Cafona era canelau.
A revista era o "GIBI"
E ladrão era LALAU...

Do velho abrigo central,
Dos pastéis do "MARECHAL",
Da Praça da Escola Normal,
Do Ginásio Municipal.

Da Igreja de São Benedito
Do Pastoril da Imperador,
Onde se cantava "BENDITO"...
Do Narcélio e do Bianor !
Do saudoso "MAJESTIC",
Cine Centro, cine Rex.
Do Moderno, um cine chic,
Do tropical "SUPER-PITEX.
Tempos saudosos aqueles em que...
Empregada era "PIRÃO FRIO",
Resfriado era defluxo,
Só se viajava de navio.
Pro pulmão era mastruço.
Tempos bons .
Das retretas da "Lagoinha",
Onde havia uma distinção:
No centro, as moças de linha,
Por fora, as "chofer de fogão".

Do pegapinto do Mundico,
Com pão doce ou tapioca
Do caldo de Cana caiana
Moída ali na engenhoca.
Tempos bons...
Em que não havia assalto,
Violência ou trombadinha,
E o único sobressalto
Era o ladrão de galinha.

Do penico de porcelana,
Da escarradeira na sala,
Em que cílio era pestana
E o guarda-roupa era a mala

Do jaquetão tipo saco,
Da calça boca de sino
Colarinho indeformável,
Sapato salto argentino.
Tempos bons aqueles...
Da cabeleira bem penteada
Oleada para brilhar,
Com óleo Glostora e perfumada
Com brilhantina "Royal Briar"
Em que...
Papo furado era lero-lero,
A gente brincava de pião,
A dança da moda era bolero
E não existia "sapatão"...

Moça fina usava pastinha,
Sáia godê, blusa rendada
E, quando caía a noitinha,
Se sentava na calçada.

Tempos saudosos em que...
Bromil era expectorante,
Asseptol, uma panacéia.
Capivarol, fortificante,
Chá de goma pra diarréia...
Tempos saudosos aqueles...
Do galo cantando no quintal
Em que se jogava bola de meia.
Das frutas do Mercado Central
E em que surra era peia...

Da velha Farmácia Teodorico
Do "papagaio" sineiro da SÉ.
Em que fofoca era fuxico
E charrete cabriolé.

Do terno de linho acetinado
Da Irlanda ou Inglaterra importado
Sempre impecavelmente engomado,
Botão do colarinho dourado.

Do sapato esporte "fanabor",
Da roupa do melhor rayon,
Do gostoso café de coador
E do sapato branco e marron.
Da esquina do pecado famosa,
Onde a rapaziada, às tardinhas,
Ficava pra ver o vento subir
A saia rodada das menininhas...

Recordação e muitas saudades
Do sortido "Bazar Alemão",
Da antiga "Loja de Variedades",
Da "Espingarda" do Damião.

Da Loja "O Gabriel", sortida,
Que vendia artigos sagrados,
Com a porta garantida
Por vinte e dois cadeados...

Da famosa "Casa Elefante",
Que vendia tudo barato,
Ao pobre ou ao mais pedante,
Penico, xícara ou prato.

"Casa Sloper, "Ceará Chic",
casa das jóias "Meziano",
do elegante carro "Buick",
do fino chocolate Gardano.

Do embarque na ponte metálica,
Aos vagalhões do mar azul,
Nos velhos navios da "Costeira",
Única via de acesso ao sul.
Tempos bons em que...
Murro chamava-se bofete,
O homem de posses ia a Roma
E, em vez do nocivo chiclete,
Mascava-se bombom de goma.

Tomava-se água de quartinha,
Merendava-se um bom chibé,
Na sobremesa, rapadurinha
E, pras visitas, era café.
Saudades...
Do rádio Philco muito afamado
Potente e todo valvulado,
Modelo moderno quadrado,
Com o dial todo iluminado.

Da famosa "Cama Patente",
Da legítima "Faixa Azul",
Que era luxo pra pouca gente,
Importada lá do sul...

Da coluna da hora imponente,
Testemunha de emoção do povo,
Com seu badalar estridente,
Anunciando a entrada do Ano Novo.

Do conhecido "Posto Mazine",
Da esquina do "Rotisserie",
Das finas calças de gabardine
E dos frondosos pés de oiti.
Da famosa bolacha "fogosa",
Do fino biscoito "Facão",
Em que a praia chic era a "Formosa"
E sáia rodada era balão...

Da "A Cearense" do Aprígio,
Loja Chic, em grande progresso,
Ditando a moda, com prestígio,
Ali, no Quarteirão Sucesso".
Do magazine "A Cruzeiro",
Líder de roupa masculina,
Que , durante o ano inteiro,
Ditava a moda mais grã-fina.

Do criado mudo em casa de rico,
Guardando, nas horas diurnas,
O sempre asseado penico,
Pras necessidades noturnas.

Da tabuada na palmatória,
Método reputado imperfeito
Crestomatia na compulsória
Mas, aprendia-se e havia respeito.

Lembranças dos tipos pitorescos...
A Teresa do "puxa-puxa",
Zé Tatá, Siri, Raimundão,
Casaca Preta, Bode Iôiô,
Jararaca, Chica Pilão.

Feijão Sem Banha, Chico Dudu,
Zé Guela, Chico da Mãe Isa,
O "Mamãe Dorme Só, o Napu,
O "Pedão da Bananada".
Na Fortaleza antiga...
Rádio Patrulha era "Madalena",
Avião era aeroplano,
Pobre só tinha rádio a galena,
E moça tocava piano.

Aparecia o "Cão da Itaoca",
Assombrando a população,
Tomava-se café com tapioca,
Como primeira refeição.
Saudades...
Da Rua Franco Rabelo,
Do velho "curral" da praia,
Do Matadouro Modelo,
Das brincadeiras de arraia...

Dos "Prefect" do "Posto Cinco",
Dos automóveis "Citroen",
Dos prédios de teto de zinco
E dos cigarros Araken.

Piqueniques em Messejana
Cada qual levando farnel,
Frito de galinha, banana,
Farofa de carne e pastel.

Do beco do "rasga sunga",
Escuro que nem breu!
Onde se ouvia um funga-funga,
Ali, pertinho do Liceu.

Dos programas de rádio gostosos
"Divertimentos em Seqüência",
Novelas, cantores famosos,
"Bazar de Músicas"... Que audiência"

Do animado carnaval de rua,
Com muito confete e serpentinas,
Maracatus, "Bando da Lua",
O corso com muitas meninas.
Do cloretil, muito perfumado,
Infalível no "flirt" inocente,
Com seu jato muito gelado,
Deixando um odor envolvente...

Das retretas do Passeio Público,
Desfiles na praia ao luar,
"Sereno" no Cine Diogo,
Banhos na ponta do quebramar...
Tempos bons aqueles em que .
Morim era mandapulão,
Cachaça, "cascorobil",
Toda casa tinha oitão,
Pra lombriga, "Ferrovermil".

Presepada era marmota,
Confusão, inguirisia,
Em que mentira era lorota,
E perder missa era heresia.
Sabonete fino era de sândalo,
Pra dar sorte, pé de coelho,
E considerado grande escândalo
Moça mostrar o joelho.

Casamento era coisa séria,
Não havia separação,
Em que Quitéria era Quitéria,
Em que João era João...
Em que não havia fila,
Muito menos inflação,
Bola de gude era bila
E bermuda era calção.

Saudades...
Do carrossel, que era óla,
Da gostosa mariola,
Do sapato de crepe sola,
E da música de vitrola.

Do namoro na janela,
Singelo e sem nenhum sarro,
Sob as vistas da mãe dela,
Que, foi não foi, dava um pigarro...

Das serenatas românticas,
Músicas apaixonadas,
Violões e bandolins,
Nas noites enluaradas.

Do feijão com carne velha,
Cozido em panela de barro,
Do refresco de groselha,
Servido na mesa em jarro.

Do paletó de casimira,
Calça de fina flanela,
Camisa de seda palha,
Botão de rosa na lapela.

Da cambica de murici,
Do mocororó de caju,
Do aluá de abacaxi,
Das bolinhas de comaru.
Da Ladeira da Prainha,
Do velho Poço da Draga ,
Da Rua do Seminário,
Do Monsenhor Tabosa Braga.

Eu sou do tempo em que...
Rede se chamava fianga,
Havia fartura de manga,
Todo jardim tinha pitanga,
Usava-se ouro e não miçanga...

Da Cera do Doutor Lustosa,
Do Chá de Sena com maná,
Pílula de Matos famosa,
Do Lambedor de Jatobá...

Do Elixir de Inhame,
Do chá de folha de mamão,
Do depurador de velame,
Do gargarejo de agrião.

Do pote no pé da janela,
Da tina dágua no banheiro,
Do arroz doce com canela,
E da caneta de tinteiro.

Da braguilha de botão,
Calça de seis bolsos e bainha,
Suspensório e cinturão.
Da tinta de escrever "Sardinha".

Em que era uma tradição,
Cultivada por inteiro,
Na primeira comunhão,
Usar roupa de marinheiro.

Da rua da Conceição,
Outeiro, Praça de Pelotas,
Prado, Campo de Aviação,
Beco dos Pocinhos, Varjota.

Soares Moreno, Praínha,
Praça da Sé, Hotel Bitu,
Pajeú, Rua da Escadinha,
Alagadiço, Guajiru.
Em que era obra do Satanás,
O homem sério e de linha,
Usar paletó lascado atrás,
Capanga, brinco e pulseirinha.

Eu sinto saudades do tempo em que...
Havia muito mais recato,
Mais sinceridade e pudor,
Muito mais respeito no trato.
Mais fidelidade no amor.
Saudades imensas...
Da nossa Fortaleza Antiga,
Sem asfalto e poluição,
Muito mais humana e amiga
E com muito mais coração"

Tudo isso, "Coisas Que O Tempo Levou",
como diria o saudoso José Lima Verde,
um dos maiores cultores da memória da nossa querida cidade

sábado, 25 de outubro de 2008

CONTO DESTAQUE VENCEDOR DO XI PRÊMIO DE LITERATURA IDEAL CLUBE 2008

Na foto acima, o escritor laureado ao lado do Secretário de Cultura do Estado do Ceará, professor Auto Filho, que estava representando o governador Cid Gomes no evento.


CITIES IN THE SKY
Nelson Silva

Por essa época, todos os conflitos militares entre nações haviam cessado completamente nos quatro cantos da Terra. Embora atentados terroristas continuassem a sacudir grandes cidades da Europa e dos Estados Unidos sem retaliação aparente, guerras travadas por estados devidamente constituídos era coisa que não se ouvia falar haviam duas dúzias de anos.
Sob este prisma, como se poderia supor, o mundo definitivamente achava-se desfrutando de um período sem precedentes em sua história. Uma era em que, finalmente, o insólito astro azul não se encontrava empapado em sangue.
Tal convicção não soaria absurda de todo, uma vez que os orçamentos militares das superpotências haviam sido suprimidos drasticamente. Gastos com armamentos simplesmente desapareceram da mesa de negociações de governantes declaradamente belicistas.
Inimigos ancestrais - políticos e religiosos - selavam a paz e assinavam acordos de cooperação mútua onde antes só havia ódio e intolerância milenares.
Restavam combates étnicos isolados e homens-bomba que efetivamente explodiam aqui e ali, mas já nem mesmo eles sabiam bem porque estavam indo pelos ares.
A estranha ausência de hostilidades acabou convencendo até aos analistas mais céticos, defensores da teoria do ovo da serpente, aquele que eclode em ‘inocentes’ períodos de paz, como sucedera na Paz Armada antes do primeiro conflito e no entreguerras de 18-39.
Circunstâncias históricas à parte, a nova era mostrava-se promissora, uma vez que as fabulosas quantias que nutriam a máquina da guerra poderiam enfim ser empregadas em causas bem mais nobres, negligenciadas que foram pelos incontáveis mensageiros da morte que conduziram a civilização humana em sua tenebrosa trajetória através dos tempos.
O axiological dream world de Morus, a sociedade equilibrada e perfeita aparentemente tornara-se palpável para a maioria da população terrestre.
Foi então que passou-se a exigir do G-7 investimentos maciços em produção de alimentos, construção de moradias e escolas, pesquisa e fabricação de remédios empregando os bilhões de dólares que antes financiavam o aparelho bélico e irrigavam as veias dos vampiros das trevas que insistiam em sujar de sangue as páginas da história.
Falava-se mesmo em erradicação da fome, da miséria e de muitas doenças, do controle eficaz de todas as epidemias e da igualdade social entre os povos como algo perfeitamente possível de se realizar e em um intervalo de tempo relativamente curto.
Curioso pois, era observar a misteriosa apatia dos líderes que conduziam os países mais abastados, em nítido contraste com o entusiasmo global. Também requeria um traço de suspeição se fossem levadas em conta suas constantes evasivas quando interpelados sobre a aplicação dos formidáveis recursos em um plano de paz mundial tão ansiosamente aspirado.
O mundo não tardaria a descobrir, contudo, o que estava por trás das enigmáticas fisionomias de reis, presidentes, ditadores, primeiros-ministros, cardeais, senhores do capitalismo e chefes de religiões.
Reunidos em uma assembléia na ONU e sob protestos veementes dos representantes das nações mais pobres, eles surpreenderam a humanidade ao revelar um segredo de estado que estava sendo gestado há anos: um gigantesco projeto que iria consumir bem mais do que apenas o orçamento de suas forças armadas, dizimando completamente toda aquela fábula de sociedade perfeita.
Uma espetacular estação espacial com dimensões estapafúrdias de centenas de quilômetros em fase final de construção há tempos pairava sobre o planeta, naquela que seria a maior aventura tecnológica da espécie.
A novidade causou alvoroço e incredulidade nos outrora entusiasmados articuladores do chamado “Really Peace”, que era como o movimento em prol da nova era ficou conhecido.
Todos os grandes conglomerados industriais concentraram seus esforços para suprir as necessidades do voraz monstro espacial, suspenso na estratosfera, a doze mil quilômetros de altitude.
Visível a olho nu, a estrela metálica, com seu arrogante brilho prateado, remetia a um cometa portador de mau agouro, conforme acreditavam os anciãos das tribos primitivas desde o princípio da civilização. E, como se sabe, corpos celestes travestidos de deuses sempre exigiam rituais de sacrifício humano.
Logo, tudo o que o mundo produziria a partir dali embarcaria nos foguetes que partiam, céleres, para a estranha estrutura cósmica. O projeto inicial há muito fora expandido e os limites da estação pareciam convergir aos confins do universo.
Paralelamente às rotineiras decolagens das aeronaves, fatos intrigantes se desenrolavam na superfície.
Os estados há muito haviam abdicado de seus intrínsecos papeis fundamentais. O poder constituído isolara-se em torno de si e uma feroz instituição policial foi implantada, protegendo os governos e punindo com a morte toda e qualquer insurreição popular.
Uma grande parcela de trabalhadores fora aglutinada em áreas fechadas ou em campos de trabalhos forçados – que em muito lembravam a política do Gulag soviético – com o fim de produzir alimentos e um sem-número dos mais variados artigos, que eram rapidamente levados à NASA e às bases do Casaquistão, de onde embarcavam em ônibus espaciais em direção ao arranha-céu estelar, a essa altura já habitado por centenas de pessoas.
Um enorme elevador espacial – um cabo feito de fibra de nanotubos de carbono com uma força de tensão essencialmente alta – estendia-se por mais de vinte e cinco mil quilômetros espaço adentro, fixado em satélites geoestacionários, permitia que carregamentos, passageiros, contêineres e cargueiros de provisões contendo sementes de plantas, árvores e gêneros alimentícios desenvolvidos sob medida pela engenharia genética fossem içados para fora da gravidade terrestre com energia fornecida do solo. O resto da viagem era realizado por um foguete nuclear de baixa propulsão até o desembarque final no inacreditável aparato sideral.
Com a informação sob controle não era possível saber o que raios estava acontecendo. Comentava-se que os cientistas haviam descoberto uma nova forma de sobrevivência no espaço e, para viabilizar as pesquisas, estavam convidando os poderosos e a elite mundial para vivenciar a extravagante experiência, desde que desembolsassem, obviamente, uma quantia de muitos milhões de dólares.
À medida que reis, rainhas, presidentes e magnatas citados na Forbes começaram a ascender aos céus em vôos espaciais diários, a mentira oficial começou a ruir como um castelo de cartas.
Apesar da tenaz repressão aos órgãos de comunicação, sobretudo na rede mundial de computadores, alguns heróis mártires – como aqueles que se opuseram ao Führer na aurora do III Reich – conseguiram denunciar a farsa e suas imagens clandestinas não deixavam dúvidas de que havia uma fuga em andamento, embora muitos deles tivessem que pagar com a própria vida a descoberta sem precedentes nos anais de nossa epopéia.
De que fugiam afinal, os dirigentes mundiais? Era a retumbante pergunta que o mundo fazia.
Os semblantes aparvalhados dos desertores, metidos em ridículas roupas de cosmonautas lembravam condenados subindo ao patíbulo, revelando sua notória apreensão, como se não tivessem certeza do seu destino, os olhos esbugalhados.
Quando o Papa e seu séqüito tomaram assento em um desses veículos espaciais, ficara evidente que um perigo iminente rondava a Terra.
As miseráveis criaturas repudiadas estabeleceram, cá embaixo, um sistema em que prevaleciam saques, linchamentos, suicídios e um amplo leque de atrocidades. Não foram capazes de se organizar como sociedade tendo em vista o risco de um fim tão próximo.
Há muito haviam sido julgados por seus líderes. Restava agora saber de que forma de morte morreriam. E se existia alguma chance de sobrevivência.
Por enquanto, estavam absorvendo o choque da forma mais humana possível: a da guerra contra o seu semelhante.
No alto, a estrela artificial cintilava, patética e reluzente.

sexta-feira, 24 de outubro de 2008

CONTO VENCEDOR DO XI PRÊMIO IDEAL CLUBE DE LITERATURA 2008


CITIES IN THE SKY
Nelson Silva

Por essa época, todos os conflitos militares entre nações haviam cessado completamente nos quatro cantos da Terra. Embora atentados terroristas continuassem a sacudir grandes cidades da Europa e dos Estados Unidos sem retaliação aparente, guerras travadas por estados devidamente constituídos era coisa que não se ouvia falar haviam duas dúzias de anos.
Sob este prisma, como se poderia supor, o mundo definitivamente achava-se desfrutando de um período sem precedentes em sua história. Uma era em que, finalmente, o insólito astro azul não se encontrava empapado em sangue.
Tal convicção não soaria absurda de todo, uma vez que os orçamentos militares das superpotências haviam sido suprimidos drasticamente. Gastos com armamentos simplesmente desapareceram da mesa de negociações de governantes declaradamente belicistas.
Inimigos ancestrais - políticos e religiosos - selavam a paz e assinavam acordos de cooperação mútua onde antes só havia ódio e intolerância milenares.
Restavam combates étnicos isolados e homens-bomba que efetivamente explodiam aqui e ali, mas já nem mesmo eles sabiam bem porque estavam indo pelos ares.
A estranha ausência de hostilidades acabou convencendo até aos analistas mais céticos, defensores da teoria do ovo da serpente, aquele que eclode em ‘inocentes’ períodos de paz, como sucedera na Paz Armada antes do primeiro conflito e no entreguerras de 18-39.
Circunstâncias históricas à parte, a nova era mostrava-se promissora, uma vez que as fabulosas quantias que nutriam a máquina da guerra poderiam enfim ser empregadas em causas bem mais nobres, negligenciadas que foram pelos incontáveis mensageiros da morte que conduziram a civilização humana em sua tenebrosa trajetória através dos tempos.
O axiological dream world de Morus, a sociedade equilibrada e perfeita aparentemente tornara-se palpável para a maioria da população terrestre.
Foi então que passou-se a exigir do G-7 investimentos maciços em produção de alimentos, construção de moradias e escolas, pesquisa e fabricação de remédios empregando os bilhões de dólares que antes financiavam o aparelho bélico e irrigavam as veias dos vampiros das trevas que insistiam em sujar de sangue as páginas da história.
Falava-se mesmo em erradicação da fome, da miséria e de muitas doenças, do controle eficaz de todas as epidemias e da igualdade social entre os povos como algo perfeitamente possível de se realizar e em um intervalo de tempo relativamente curto.
Curioso pois, era observar a misteriosa apatia dos líderes que conduziam os países mais abastados, em nítido contraste com o entusiasmo global. Também requeria um traço de suspeição se fossem levadas em conta suas constantes evasivas quando interpelados sobre a aplicação dos formidáveis recursos em um plano de paz mundial tão ansiosamente aspirado.
O mundo não tardaria a descobrir, contudo, o que estava por trás das enigmáticas fisionomias de reis, presidentes, ditadores, primeiros-ministros, cardeais, senhores do capitalismo e chefes de religiões.
Reunidos em uma assembléia na ONU e sob protestos veementes dos representantes das nações mais pobres, eles surpreenderam a humanidade ao revelar um segredo de estado que estava sendo gestado há anos: um gigantesco projeto que iria consumir bem mais do que apenas o orçamento de suas forças armadas, dizimando completamente toda aquela fábula de sociedade perfeita.
Uma espetacular estação espacial com dimensões estapafúrdias de centenas de quilômetros em fase final de construção há tempos pairava sobre o planeta, naquela que seria a maior aventura tecnológica da espécie.
A novidade causou alvoroço e incredulidade nos outrora entusiasmados articuladores do chamado “Really Peace”, que era como o movimento em prol da nova era ficou conhecido.
Todos os grandes conglomerados industriais concentraram seus esforços para suprir as necessidades do voraz monstro espacial, suspenso na estratosfera, a doze mil quilômetros de altitude.
Visível a olho nu, a estrela metálica, com seu arrogante brilho prateado, remetia a um cometa portador de mau agouro, conforme acreditavam os anciãos das tribos primitivas desde o princípio da civilização. E, como se sabe, corpos celestes travestidos de deuses sempre exigiam rituais de sacrifício humano.
Logo, tudo o que o mundo produziria a partir dali embarcaria nos foguetes que partiam, céleres, para a estranha estrutura cósmica. O projeto inicial há muito fora expandido e os limites da estação pareciam convergir aos confins do universo.
Paralelamente às rotineiras decolagens das aeronaves, fatos intrigantes se desenrolavam na superfície.
Os estados há muito haviam abdicado de seus intrínsecos papeis fundamentais. O poder constituído isolara-se em torno de si e uma feroz instituição policial foi implantada, protegendo os governos e punindo com a morte toda e qualquer insurreição popular.
Uma grande parcela de trabalhadores fora aglutinada em áreas fechadas ou em campos de trabalhos forçados – que em muito lembravam a política do Gulag soviético – com o fim de produzir alimentos e um sem-número dos mais variados artigos, que eram rapidamente levados à NASA e às bases do Casaquistão, de onde embarcavam em ônibus espaciais em direção ao arranha-céu estelar, a essa altura já habitado por centenas de pessoas.
Um enorme elevador espacial – um cabo feito de fibra de nanotubos de carbono com uma força de tensão essencialmente alta – estendia-se por mais de vinte e cinco mil quilômetros espaço adentro, fixado em satélites geoestacionários, permitia que carregamentos, passageiros, contêineres e cargueiros de provisões contendo sementes de plantas, árvores e gêneros alimentícios desenvolvidos sob medida pela engenharia genética fossem içados para fora da gravidade terrestre com energia fornecida do solo. O resto da viagem era realizado por um foguete nuclear de baixa propulsão até o desembarque final no inacreditável aparato sideral.
Com a informação sob controle não era possível saber o que raios estava acontecendo. Comentava-se que os cientistas haviam descoberto uma nova forma de sobrevivência no espaço e, para viabilizar as pesquisas, estavam convidando os poderosos e a elite mundial para vivenciar a extravagante experiência, desde que desembolsassem, obviamente, uma quantia de muitos milhões de dólares.
À medida que reis, rainhas, presidentes e magnatas citados na Forbes começaram a ascender aos céus em vôos espaciais diários, a mentira oficial começou a ruir como um castelo de cartas.
Apesar da tenaz repressão aos órgãos de comunicação, sobretudo na rede mundial de computadores, alguns heróis mártires – como aqueles que se opuseram ao Führer na aurora do III Reich – conseguiram denunciar a farsa e suas imagens clandestinas não deixavam dúvidas de que havia uma fuga em andamento, embora muitos deles tivessem que pagar com a própria vida a descoberta sem precedentes nos anais de nossa epopéia.
De que fugiam afinal, os dirigentes mundiais? Era a retumbante pergunta que o mundo fazia.
Os semblantes aparvalhados dos desertores, metidos em ridículas roupas de cosmonautas lembravam condenados subindo ao patíbulo, revelando sua notória apreensão, como se não tivessem certeza do seu destino, os olhos esbugalhados.
Quando o Papa e seu séqüito tomaram assento em um desses veículos espaciais, ficara evidente que um perigo iminente rondava a Terra.
As miseráveis criaturas repudiadas estabeleceram, cá embaixo, um sistema em que prevaleciam saques, linchamentos, suicídios e um amplo leque de atrocidades. Não foram capazes de se organizar como sociedade tendo em vista o risco de um fim tão próximo.
Há muito haviam sido julgados por seus líderes. Restava agora saber de que forma de morte morreriam. E se existia alguma chance de sobrevivência.
Por enquanto, estavam absorvendo o choque da forma mais humana possível: a da guerra contra o seu semelhante.
No alto, a estrela artificial cintilava, patética e reluzente.